segunda-feira, 19 de outubro de 2026

João Filho: Jornalismo de joelhos - CEOs da Globo e do Metrópoles trocavam favores com Vorcaro por manchetes

Novas mensagens encontradas no celular do ex-dono do Banco Master colocam a grande imprensa brasileira no olho do furacão do escândalo. CEOs da Globo e do Metrópoles comiam na mão de Daniel Vorcaro e tentavam agradá-lo de todas as maneiras.

Não é novidade que boa parte do jornalismo brasileiro funciona a reboque de interesses financeiros, mas o WhatsApp do Vorcaro revelou ao público as entranhas de como as salsichas são fabricadas na grande imprensa. O departamento comercial é quem dá as cartas no jornalismo e tem poder para influenciar os rumos do país.

Enquanto o escândalo do Master se desenrolava, Vorcaro dava ordens para os CEOs dessas empresas, que prontamente se mobilizavam para atendê-las. O ex-banqueiro encomendava reportagens, editava textos, escolhia manchetes e reclamava quando as coisas não saíam como ele queria. A expressão “quem paga escolhe a música”cabe perfeitamente.

Em 2025, a safadeza de Vorcaro já era de conhecimento geral, principalmente entre jornalistas. Mas para Frederic Kachar, CEO da editora Globo, e Lilian Tahan, CEO do Metrópoles, o banqueiro era um importante patrocinador que precisava ser adulado. A influência de Vorcaro sobre o jornalismo dos dois veículos era enorme.

Vorcaro era tratado como chefe de redação e quase todas as suas demandas eram imediatamente acolhidas. Bastava mandar um zap para ter uma manchete alterada, a exclusão de algum nome ou de alguma informação indesejada.

<><> Subserviência, noitadas e ordens no G1

Nas conversas com o chefão da Globo, fica claro que o dono do Master manteve uma relação muito além da profissional. Tinham intimidade, falavam abertamente sobre suas vidas sexuais, mulheres, noitadas e traições. A dupla curtia a vida adoidado. Enquanto assaltava o país, Vorcaro se esbaldava em festas proibidas com mulheres junto com o Kachar. O banqueiro tinha predileção por mulheres do leste europeu. Era sócio oculto de uma agência de prostituição que recrutava refugiadas da Ucrânia.

A coisa era tão sórdida que os dois usavam expressões de guerra para se referirem às noitadas: “Hoje o plano é ataque soviético” ou “temos guerra na Ucrânia essa semana?”. Tal qual o ex-deputado Mamãe Falei, os chefes da Globo e do Master eram obcecados pelas mulheres da Ucrânia — o mesmo país para o qual o apresentador da Globo, Luciano Huck, viajou a bordo de um avião do Vorcaro sob a justificativa de entrevistar Zelensky. Vejam só que coincidência.

No escurinho do WhatsApp, o CEO da Globo chegou a objetificar as mulheres ligadas ao próprio Grupo Globo. “Deborah Secco tava pra jogo”, escreveu Kachar para Vorcaro a respeito de uma das festas. “Relação aberta. Preciso de uma dessas”, afirmou o executivo. “Todos nós”, respondeu Vorcaro. Esse era o nível da amizade entre o maior criminoso do país e um diretor-geral que estava no grupo Globo há 29 anos. 

Kachar comandava as operações dos jornais O Globo, Extra e Valor, além das revistas da editora Globo, como Vogue e Marie Claire, e da rádio CBN. Todas essas publicações foram colocadas à disposição do Vorcaro. Além de reportagens encomendadas para fazer a carreira de modelo da sua namorada bombar, Vorcaro tinha liberdade para corrigir e derrubar matérias.

Em maio de 2024, por exemplo, o portal G1 publicou notícia sobre uma suposta entrada do banco Master no ramo de supermercados. Kachar correu para mostrar para o amigo e levantar sua bola: “Entrou em supermercados também? Estás incontrolável rs!”. O banqueiro não gostou: “Info totalmente errada”. O capacho da Globo correu para consertar: “Quer que eu peça pra corrigir?”. Vorcaro foi imperativo, como se fosse o chefe: “Deve!”. Vinte e três minutos depois, o G1 atualizou a matéria, excluindo a citação ao banco. “Agora ficou certo”, escreveu Vorcaro.

A submissão era quase absoluta. Com o tempo, a relação foi azedando. Nem todos os pedidos estavam ao alcance do chefe da Globo, o que fez Vorcaro dar um gelo no amigo. Kachar passou a mendigar atenção, sem sucesso. Depois do vazamento, o grupo Globo não teve alternativa a não ser mandá-lo embora. 

<><> No Metrópoles, o jornalismo a serviço da perseguição

Já no Metrópoles, a relação com a CEO do portal, Lilian Tahan, era menos íntima e mais profissional. A dinâmica era simples: ele pedia, ela executava. A jornalista não lhe negava nada. Com ela, Vorcaro conseguiu emplacar reportagens no Metrópoles contra um diretor do Banco Central que apertou a fiscalização sobre o Master. Ele orientava e editava as reportagens. O jornalismo do Metrópoles ficou à disposição para assassinar a reputação de um funcionário público que ousou fiscalizar a roubalheira do banco que patrocinava o portal.

Em uma das conversas com Lilian, Vorcaro demonstrou insatisfação contra o repórter do Estadão, Aguirre Talento, autor de reportagens sobre o banco Master. O banqueiro avisou a CEO do Metrópoles que iria “entrar com processo criminal” contra o repórter.

Lilian Tahan endossou a perseguição judicial contra o colega de profissão e o incentivou a seguir em frente: “Não tem nada mais chato para o repórter que responder criminal”. Tchutchuca com banqueiro, mas tigrona com colega de profissão — esse poderia ser um resumo de como funciona boa parte do jornalismo mainstream brasileiro.

Esse é apenas um dos diálogos que revelam que Lilian Tahan trabalhava a mando de Daniel Vorcaro. Tudo isso me faz lembrar da Vaza Jato, quando essa mesma jornalista duvidou da lisura do jornalismo do Intercept. Ao questionar os métodos e o futuro da profissão, Tahan foi irônica e perguntou a Glenn Greenwald sobre o fato da fonte das reportagens ter sido um hacker: “Não seria melhor, então, as empresas de comunicação demitirem os seus repórteres e contratarem hackers?”.

O deboche da jornalista envelheceu mal. Talvez seja o caso de perguntar para ela se não seria melhor o Metrópoles demitir seus repórteres e contratar assessores de imprensa indicados pelos patrocinadores do portal. Lilian Tahan não foi desligada do portal até agora. É um sinal de que o dono do portal, Luiz Estevão, que já foi preso por corrupção, peculato e estelionato, endossa o trabalho da sua CEO.

<><> Uma eleição contaminada pelo dinheiro do Master

O escândalo do Master dominou o noticiário neste ano eleitoral. Pelo menos dois grandes veículos de jornalismo estavam sendo dirigidos por fantoches de Daniel Vorcaro. Isso não quer dizer que todos os jornalistas dessas empresas estão comprometidos com o banqueiro, mas talvez ajude a explicar algumas decisões editoriais.

Flávio Bolsonaro, que é o candidato de Daniel Vorcaro, claramente contou com a benevolência da Globo na reta final da campanha. Tivemos o famigerado powerpoint, a forçação de barra para colocar Lulinha nas manchetes, o cancelamento do debate em cima da hora, a omissão de que Flávio e o careca do INSS mantinham empresas no mesmo escritório e várias outras omissões. A eleição já foi contaminada por um noticiário influenciado pelo banqueiro bandido.

Essa promiscuidade entre o departamento comercial e as redações revela uma crise profunda no jornalismo brasileiro. E olha que só temos conhecimento do que foi conversado no WhatsApp. Não sabemos como foram as conversas nas reuniões e nas festinhas proibidas. A coisa pode ser muito pior do que imaginamos.

•        Dark Horse: PF identifica “severa” divergência milionária em recursos para filme sobre Bolsonaro

A Polícia Federal identificou uma divergência considerada “severa” entre os valores transferidos ao exterior e os recursos que ingressaram no Brasil para financiar o filme “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre o ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL). Segundo os investigadores, mais de US$ 12 milhões foram enviados a um fundo nos Estados Unidos, enquanto apenas US$ 2,8 milhões tiveram entrada registrada no país. A diferença, superior a US$ 9,2 milhões, levou a corporação a aprofundar as apurações sobre o destino do dinheiro e a possibilidade de utilização do projeto cinematográfico para encobrir movimentações financeiras irregulares.

As informações, segundo o G1, constam em documentos apresentados pela Polícia Federal para justificar a prorrogação da investigação. De acordo com a reportagem, os recursos partiram da Entre Investimentos, empresa ligada ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e foram direcionados ao fundo estadunidense Havengate, administrado por Paulo Calixto, advogado do ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro.

A principal questão examinada pelos investigadores é se os valores transferidos foram efetivamente empregados na produção do longa-metragem ou se a realização do filme foi utilizada para justificar operações financeiras com outras finalidades.

Em um dos documentos, a Polícia Federal sustenta que o projeto pode ter “servido como narrativa de cobertura para a ocultação, simulação e desvio de recursos”.

A corporação considera necessário aprofundar a análise dos registros financeiros para identificar a destinação dos valores e verificar a correspondência entre as transferências internacionais e as despesas efetivamente realizadas.

“Torna-se, portanto, indispensável submeter todo o acervo documental e bancário a um rigoroso exame pericial forense para confrontar os aportes internacionais, a contabilidade da produtora brasileira e o lastro das despesas declaradas”, afirma a Polícia Federal.

<><> Produtora declarou custo de R$ 75,1 milhões

A investigação também examina os valores apresentados pela Go UP Entertainment, empresa responsável pela realização de “Dark Horse”.

Em junho deste ano, a produtora informou que o longa-metragem teve um custo de pelo menos R$ 75,1 milhões. A declaração consta de um documento incorporado ao inquérito da Polícia Civil que investiga a empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da companhia.

Segundo os registros apresentados, aproximadamente R$ 54 milhões foram gastos no exterior, enquanto R$ 20,9 milhões corresponderam a despesas realizadas no Brasil.

Os números passaram a integrar o material analisado pela Polícia Federal, que pretende confrontar os custos declarados com os registros bancários, os contratos e as transferências internacionais relacionadas à produção.

A diferença entre os valores remetidos ao exterior e aqueles que retornaram ao país é um dos pontos centrais da apuração. Os investigadores buscam esclarecer se os recursos permaneceram fora do Brasil para custear despesas efetivas da produção ou se tiveram outras destinações.

Em manifestação sobre o caso, a defesa da Go UP Entertainment afirmou que “a perícia irá revelar a lisura e legalidade de todas as captações do financiamento desta obra extraordinária em apoio a esta iniciativa histórica de minha cliente GO UP”.

<><> PF apura repasses de Vorcaro e possível financiamento de Eduardo Bolsonaro

As investigações abrangem outras movimentações financeiras relacionadas ao projeto cinematográfico e a integrantes da família Bolsonaro.

Uma das linhas de apuração examina repasses realizados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a pedido do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Outra procura esclarecer se parte dos recursos movimentados por meio do fundo Havengate pode ter sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro durante sua permanência nos Estados Unidos.

A Polícia Federal também investiga a destinação de emendas parlamentares encaminhadas a organizações relacionadas à proprietária da produtora responsável pelo longa-metragem.

Eduardo Bolsonaro negou ter recebido dinheiro de um fundo ligado a Vorcaro. Segundo ele, sua condição migratória nos Estados Unidos não permitiria esse tipo de transferência. O ex-deputado também afirmou que comunicou às autoridades estadunidenses a origem dos recursos utilizados por ele.

No mesmo período em que vieram a público informações sobre as movimentações financeiras, foi divulgado um contrato no qual Eduardo Bolsonaro aparecia como produtor-executivo de “Dark Horse”.

A investigação busca estabelecer se existe relação entre as transferências internacionais, o financiamento da produção cinematográfica e eventuais despesas de pessoas vinculadas ao projeto.

<><> Flávio Dino conduz investigação sobre emendas parlamentares

Paralelamente, outra investigação, sob responsabilidade do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), examina o direcionamento de recursos públicos a organizações relacionadas a Karina Ferreira da Gama.

Entre as entidades investigadas estão o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC), ambas presididas pela empresária.

A apuração procura esclarecer a destinação das emendas parlamentares e verificar a regularidade da aplicação dos recursos encaminhados às organizações.

A Go UP Entertainment, responsável pela produção de “Dark Horse”, não foi alvo dos mandados de busca realizados nessa investigação.

O deputado Mario Frias (PL-SP), que participa do projeto como roteirista e produtor-executivo, apresentou esclarecimentos ao STF em maio. Na ocasião, afirmou que as emendas destinadas às entidades não foram utilizadas para financiar o longa-metragem.

Liquidante do Master desmente versão de Flávio Bolsonaro sobre financiamento de filme

A empresa responsável pela liquidação do Banco Master informou à Câmara dos Deputados que não encontrou documentos, contratos ou registros contábeis que comprovem o patrocínio da instituição financeira ao filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A declaração coloca em xeque a versão apresentada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que classificou os recursos negociados com o banqueiro Daniel Vorcaro como um patrocínio cinematográfico.

Segundo O Globo, a informação foi encaminhada ao Legislativo pela EPB Regimes Especiais de Empresas, responsável pela liquidação do banco, em resposta a um requerimento apresentado pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). A manifestação ocorre em meio a uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo a produção.

•        Liquidante não encontrou contratos ou registros de patrocínio

O parecer encaminhado à Câmara, assinado por Eduardo Felix Bianchin, responsável pela massa em liquidação, afirma que a análise dos documentos disponíveis não identificou operações relacionadas ao financiamento do longa-metragem.

“Após consulta aos acervos das instituições representadas, não foram encontrados documentos, registros contábeis ou contratuais que evidenciem a realização de operações destinadas ao financiamento, patrocínio ou aporte de recursos para a produção cinematográfica mencionada, seja diretamente pelas instituições liquidandas, seja por intermédio de terceiros, nos limites das informações examinadas”.

A manifestação contrasta com a explicação apresentada por Flávio Bolsonaro durante entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, no primeiro turno da eleição presidencial. Ao comentar as negociações envolvendo Vorcaro, o senador afirmou:

“Esse foi um patrocínio, não teve nenhuma transferência para Flávio Bolsonaro.”

A ausência de registros identificados pela liquidante, entretanto, não significa necessariamente que não tenham ocorrido transferências por meio de outras empresas ou estruturas financeiras. O documento delimita suas conclusões às informações examinadas nos acervos das instituições sob liquidação.

<><> Flávio foi questionado sobre diferença de R$ 59 milhões

Na sexta-feira (16), durante sabatina do Jornal Nacional no segundo turno da eleição presidencial, Flávio Bolsonaro voltou a ser questionado sobre o financiamento de Dark Horse.

Desta vez, a entrevista abordou a diferença entre os aproximadamente R$ 134 milhões solicitados a Daniel Vorcaro para viabilizar a produção e os R$ 75 milhões apontados como custo do filme.

A diferença entre os dois valores chega a R$ 59 milhões.

Em sua resposta, o candidato afirmou que o contrato inicialmente negociado não foi integralmente cumprido. Segundo sua explicação, os recursos efetivamente recebidos de Vorcaro, somados aos aportes de outros investidores, permitiram concluir a produção cinematográfica.

A justificativa, contudo, não esclarece documentalmente a destinação da totalidade dos valores originalmente negociados.

<><> PF investiga envio de US$ 12,3 milhões ao exterior

A Polícia Federal apura suspeitas de evasão de divisas, lavagem de dinheiro, organização criminosa e corrupção ativa relacionadas à estrutura de financiamento do filme.

De acordo com as informações da investigação citadas pela reportagem, Daniel Vorcaro teria assumido o compromisso de destinar aproximadamente R$ 134 milhões à produção.

Desse montante, cerca de US$ 12,3 milhões teriam sido efetivamente transferidos para o exterior por meio de uma estrutura financeira diferente de um patrocínio direto do Banco Master.

As operações envolveram a Entre Investimentos e Participações, empresa utilizada por Vorcaro, e o fundo norte-americano Havengate Development Fund LP.

Segundo Flávio Bolsonaro e seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o fundo teria sido constituído para financiar o longa-metragem sobre Jair Bolsonaro.

As suspeitas investigadas pela PF ainda dependem de esclarecimento quanto à origem, à movimentação e à destinação dos recursos. A existência da investigação não representa, por si só, comprovação dos crimes apurados.

<><> Liquidante também não identificou operações com fundo americano

Além de não localizar registros de patrocínio à produção cinematográfica, a EPB Regimes Especiais de Empresas informou que não encontrou documentação referente a operações das instituições liquidadas com o Havengate Development Fund LP relacionadas ao filme.

O parecer registra:

“De igual modo, não foram localizados registros ou documentos que demonstrem eventuais operações das instituições representadas com o mencionado Havengate Development Fund LP, que possam estar relacionadas à referida produção cinematográfica”.

A declaração acrescenta um elemento à apuração sobre o percurso dos recursos associados ao projeto cinematográfico.

Embora a investigação policial tenha identificado transferências internacionais relacionadas à estrutura financeira utilizada por Vorcaro, a documentação examinada pela liquidante não permitiu estabelecer uma operação correspondente nos registros do Banco Master.

 

Fonte: The Intercept/Brasi 247

 

Nenhum comentário: