Railson
Barboza: Nada na história é mera coincidência - semiótica das “motociatas” à
luz de Mussolini
Virilidade,
poder, autoritarismo. Modernidade, força física, velocidade. O culto ao
futurismo projetado nas máquinas simbolizava a ideia fascista de
desenvolvimento: o símbolo de uma “nova era” embasado, sobretudo, na figura
central de Benito Mussolini e do Fascismo. A jovialidade, a “energia criativa”
do Duce, em seus gestos, palavras e manifestações públicas não passavam de uma
encenação pensada milimetricamente para ludibriar o povo italiano. Nada na
história é mera coincidência.
A
edição do extinto jornal La Tribuna Illustrata, que naquela época era uma das
mais lidas da Itália, ilustrava em sua capa do dia 4 junho de 1933, a figura de
Mussolini “em meio a um entusiasmo indescritível”, acompanhado por “dez mil
centauros”, advindos de toda a Itália e reunidos na Piazza d’Armi em Roma. Os
desfiles faziam parte do “marketing” fascista da exaltação masculina e viril do
Duce, que destacavam sua vitalidade como símbolo de força e autoridade. Tudo no
Fascismo, no que diz respeito sua promoção visual e semiótica, era friamente
calculado e pensado.
A
simbologia dessas manifestações ultrapassava, portanto, a simples reunião de
indivíduos em torno de um líder. O deslocamento coletivo produzia uma imagem de
unidade, disciplina e movimento, enquanto a repetição dos símbolos, a repetição
de padrões estéticos e a ocupação das ruas procuravam reduzir a percepção das
divergências existentes na sociedade, ou seja, tudo se tornava uniforme. A
multidão era apresentada como expressão homogênea da vontade nacional, passava
a funcionar como cenário de legitimação desse poder centralizador, excluindo
qualquer movimento contrário ou opositor. Nesse processo, a força não precisava
ser exercida continuamente para produzir efeitos: bastava que sua possibilidade
fosse encenada, percebida e incorporada ao imaginário coletivo.
O
espetáculo político convertia-se, assim, em uma linguagem simbólica capaz de
apresentar a autoridade do Duce e a união em torno da ideologia fascista como
sinônimo de pertencimento e amor à própria nação. Dito isto, examinar sua
estética não significa apenas revisitar o passado, mas compreender como a
política, quando convertida em espetáculo, pode transformar a ocupação das ruas
em uma narrativa de força e a exibição da multidão em argumento de
legitimidade.
Todavia,
há, nessa dimensão estética, uma contradição decisiva: aquilo que se apresenta
como espontaneidade popular pode estar submetido a uma cuidadosa organização
simbólica; aquilo que parece manifestar uma liberdade pode servir à
demonstração de força hierárquica, centralização e obediência, inclusive pela
violência. As vias de circulação pública transformam-se em palco no qual uma
força política procura reivindicar para si o direito de representar o conjunto
da sociedade. A motorização acrescenta a essa encenação a imagem da velocidade,
da potência mecânica e da modernidade, elementos que podem sugerir vitalidade,
superioridade, modernização e autoridade. Obviamente, a encenação pública busca
manifestar o que o próprio símbolo do fascismo tenta comunicar: força através
da unidade, traduzido visualmente sob um feixe (fascio) de ramos com um
machado, indicando poder sobre a vida e sobre a morte.
O
fascismo compreendeu que o poder também se exerce pela produção de imagens
capazes de despertar identificação, temor e pertencimento. A crise de
identidade nacional, causada por inúmeros revezes históricos, permitiu o
fascismo construir seu projeto e pô-lo em prática. O Fascismo Italiano,
consolidado a partir da ascensão de Mussolini ao governo, em 1922, desenvolveu
diferentes formas de mobilização pública, sejam elas através de desfiles
públicos, concentrações de massas e demonstrações paramilitares.
A
Marcha sobre Roma, realizada em entre os dias 27 e 29 de outubro daquele ano,
tornou-se o episódio emblemático da estratégia de insurreição e golpe do
Estado. A lógica era simples: fazer da circulação organizada de corpos e
veículos uma representação concreta da capacidade de mobilização do movimento e
de sua pretensão de domínio político, geográfico e, principalmente, ideológico.
A
história do fascismo não foi escrita apenas nos gabinetes do Estado italiano,
nos discursos inflamados do Duce e de seus dirigentes e colaboradores, ou nas
páginas dos manifestos políticos fascistas. Sua história se constrói nas ruas,
assumindo a forma de espetáculo público através de uma exibição teatral de
apoio, convertendo a busca por hegemonia em instrumento de intimidação e
demonstração de força. No caso de Benito Mussolini, a ocupação do espaço
público foi parte fundamental de um projeto que procurava transformar a
política em experiência visual, emocional e simbólica. Nesse contexto, a imagem
de motocicletas remete a uma questão central: os regimes autoritários,
consciente ou inconscientemente, utilizam a estética para fabricar a percepção
de um poder incontestável.
Há uma
curiosidade que não podemos esquecer em mencionar sobre a utilização das motos:
ela tinha o intuito de aproximar o líder (Duce) das massas, ou seja, Mussolini
se fazia mais um no meio do povo, passando uma imagem de simplicidade que
estava longe de ser real. Muito além de uma semiótica do uso das motos
inspirado nos ideais do movimento futurista liderado por Filippo Tommaso
Marinetti, que glorificava a velocidade, a máquina, a violência e a tecnologia
como sinais de progresso e de “elevação da raça”, esse movimento traçava o
destino do país sob a égide da uniformidade das ações e escolhas. Não há espaço
para o contraditório no movimento fascista. Isso se observa não só nesses
momentos, mas no próprio contexto histórico político da época, onde a oposição
não tinha e não podia ter voz. O famoso caso do ex-deputado socialista Giacomo
Matteotti, morto em 1924, por um bando de fascistas a mando de Benito
Mussolini, após acusá-lo publicamente por seus crimes cometidos e pela onda de
violência no país, é um exemplo: vozes que destoam, perdem suas vozes.
Democracia e Fascismo são antônimos.
A
permanência dessa reprodução na política contemporânea revela que a encenação
da popularidade ainda é um recurso poderoso de legitimação e aproximação das
massas. As motociatas, mobilizadas como instrumentos de promoção personalista,
reproduzem uma pseudo adesão popular, incontestável, como se a quantidade de
veículos, o ruído dos motores e a ocupação ostensiva das ruas constituíssem,
por si mesmos, uma legitimação da vontade coletiva popular. É importante
ressaltar que a imagem de uma multidão não equivale à representação de toda a
sociedade, assim como a demonstração pública de entusiasmo não comprova a
existência de um consenso político, entretanto, a reprodução de uma
manifestação pública já utilizada por grupos fascistas, sim, atesta sua
aproximação ideológica.
Tudo é
uma estratégia de comunicação destinada a ampliar a visibilidade do líder,
intimidar adversários e alimentar a percepção de que determinada força política
encarna, sozinha, os interesses da nação. É nesse terreno que a popularidade
deixa de ser apenas uma manifestação espontânea e passa a ser uma imagem
cuidadosamente construída, reproduzida e disseminada. A história pode não se
repetir, necessariamente, sob os mesmos uniformes ou discursos; mas sua
semiótica não consegue deixar em manifestar-se. Por isso, a semelhança ou
reprodução literal de determinadas formas de encenação política não pode ser
descartada como um detalhe superficial. Não existe coincidência na adaptação
desses movimentos: há uma história de símbolos, técnicas e estratégias que atravessa
o tempo, embora assuma novas configurações.
Repito:
nada na história é mera coincidência.
• O CORPO DO POVO: De Delacroix às imagens
da política contemporânea. Por Adalberto da Silva Retto Jr.
Em
1830, Eugène Delacroix pintou A Liberdade guiando o povo, uma das imagens mais
emblemáticas da história política moderna. No centro da composição, uma mulher
avança sobre as barricadas, com a bandeira tricolor francesa erguida em uma das
mãos e um fuzil na outra. Ao seu redor, homens de diferentes origens sociais
acompanham o movimento, atravessando os escombros de uma cidade em revolta. A
liberdade, ali, não é uma ideia abstrata: tem corpo, movimento e direção. É uma
imagem que transforma um acontecimento histórico em símbolo de luta coletiva.
Quase
dois séculos depois, outras imagens continuam a disputar o imaginário político.
Não são pinturas alegóricas, mas registros fotográficos e em vídeo que circulam
nas redes sociais, nos jornais e nas manifestações de rua. Em sua aparente
espontaneidade, condensam valores, afetos e projetos de sociedade. Três desses
registros contemporâneos – um vídeo e duas fotografias –, vistos em sequência,
oferecem uma chave de leitura particularmente expressiva: um menino empunhando
uma arma em um vídeo de comemoração, uma fotografia de uma menina segurando a
Constituição e a foto do chamado “muso” da Paulista, durante uma manifestação
pró-Lula.
O
primeiro registro é o vídeo de um menino comemorando a vitória de Flávio
Bolsonaro no primeiro turno. A cena gravada ganha densidade justamente pelo
movimento: a criança é erguida no ar pelos adultos enquanto empunha uma arma
nas próprias mãos. O gesto chama a atenção pela presença de um objeto que,
longe de ser neutro, carrega uma história de violência e poder. Nas mãos de uma
criança, a arma deixa de ser apenas um instrumento e passa a operar também como
símbolo: uma representação de força, autoridade e pertencimento político. A
questão não é atribuir ao menino, isoladamente, a responsabilidade pelo
significado da cena, mas perguntar que valores tornam possível que uma arma
seja apresentada pelos adultos como emblema de celebração política.
O vídeo
suscita uma reflexão sobre a maneira como a violência pode ser naturalizada e
incorporada à linguagem pública. Quando a arma aparece em movimento como sinal
de vitória, a força física corre o risco de ocupar o lugar do argumento, e a
intimidação pode ser confundida com afirmação de identidade. O registro, nesse
sentido, ultrapassa o episódio particular: ele nos interroga sobre o ambiente
cultural em que crianças aprendem a reconhecer determinados objetos e gestos
como sinais de poder.
A
segunda imagem – uma fotografia – oferece um contraponto. Nela, uma menina
segura a Constituição durante uma manifestação pró-Lula. Em vez da arma, um
documento; em vez da força potencialmente coercitiva, a referência à lei que
organiza a vida comum e estabelece direitos e deveres. A Constituição não é um
objeto desprovido de conflitos: sua existência não garante, por si só, a
realização da democracia. Mas ela representa um pacto público, construído para
submeter o exercício do poder a regras compartilhadas e proteger direitos
fundamentais.
A
diferença entre o vídeo do menino e a fotografia da menina não precisa ser
reduzida a uma oposição simplista entre indivíduos ou campos políticos. Seu
interesse está naquilo que os objetos tornam visível. De um lado, a arma como
signo de força; de outro, a Constituição como referência à ordem jurídica e à
possibilidade de convivência democrática. São registros que nos convidam a
perguntar quais símbolos escolhemos para representar nossas expectativas de
futuro e que ideia de vida coletiva desejamos transmitir às novas gerações.
A
terceira imagem – também uma fotografia – desloca o debate. Na manifestação
pró-Lula, o “muso” da Paulista chama a atenção pela presença física, pela
maneira como ocupa o espaço público e pela repercussão que sua imagem alcança.
Se o menino no vídeo e a menina na foto aparecem associados a objetos
organizadores da cena, o “muso” é, ele próprio, o centro visual. Contudo, essa
centralidade não é puramente estética: o rapaz, de torso desnudo e rosto
encoberto por uma balaclava, empunha simultaneamente a bandeira do Partido dos
Trabalhadores e a bandeira da Palestina.
A
coexistência das duas bandeiras confere espessura política ao personagem. A
bandeira do PT o insere no terreno da disputa eleitoral e partidária
brasileira; a bandeira da Palestina conecta a cena a uma causa
internacionalista associada à resistência, ao deslocamento forçado e à
autodeterminação dos povos. O rosto oculto preserva a individualidade do
manifestante, enquanto as bandeiras explicitam suas causas. O corpo exposto
funciona, assim, como uma superfície de encontro entre a política local e a solidariedade
global, mostrando como a militância contemporânea articula estética individual,
anonimato e pertencimento coletivo.
A
política contemporânea também se faz dessa maneira: por meio de imagens que não
precisam apresentar um programa formal para adquirir força pública. Um corpo
fotografado em meio à multidão pode condensar entusiasmo, desejo, humor,
identificação e pertencimento. A circulação das fotos e vídeos nas redes amplia
o acontecimento para além do espaço físico da manifestação, transformando uma
presença localizada em figura compartilhada por públicos diversos.
Essa
dimensão não deve ser confundida com a substituição automática da política pelo
espetáculo. As imagens sempre participaram da construção da vida pública; o que
mudou foram as condições de sua produção, circulação e apropriação. Hoje, uma
fotografia ou um trecho de vídeo pode adquirir projeção extraordinária em
poucas horas, desprender-se do contexto em que foi produzido e assumir sentidos
que ultrapassam a intenção de quem aparece nele. O corpo político também é
construído por esse circuito de olhares, comentários e interpretações.
É nesse
ponto que o diálogo com Delacroix ganha força. Em sua pintura, a Liberdade
também é um corpo: uma figura feminina que se destaca da multidão, conduz o
movimento e transforma a revolta em alegoria. A bandeira que empunha não é
apenas um objeto, assim como o fuzil não se resume à sua materialidade. Ambos
participam da construção de uma imagem na qual se articulam ação, conflito e
aspiração coletiva. A pintura não registra simplesmente uma cena; ela organiza
visualmente uma ideia de povo em movimento.
Há,
contudo, uma diferença decisiva entre a alegoria romântica de Delacroix e os
registros contemporâneos. Na pintura, a composição constrói deliberadamente uma
narrativa histórica e política. Nas fotografias e nos vídeos, a força simbólica
pode emergir de um gesto, de um objeto ou de uma presença que, inicialmente,
não pretendia representar algo tão amplo. A imagem contemporânea é inseparável
de sua circulação: seu significado se forma também nos usos que dela fazem
aqueles que a compartilham, contestam ou reinterpretam.
A
aproximação entre esses quatro registros – a pintura de Delacroix, as duas
fotografias e o vídeo – não pretende estabelecer equivalências históricas nem
atribuir a cada um sentido definitivo. Trata-se de observar como diferentes
representações tornam visíveis disputas sobre a liberdade, o poder, a lei e a
participação coletiva. A arma, a Constituição, o corpo e as bandeiras não
constituem uma sequência de significados fechados. São pontos de partida para
interrogar os valores que se projetam no espaço público e as formas pelas quais
a política se torna sensível, reconhecível e compartilhável.
A
liberdade de Delacroix avança entre barricadas, carregando símbolos de uma
transformação política. A menina ergue a Constituição na foto; o menino empunha
uma arma no vídeo; o muso da Paulista junta a estética do corpo à sobreposição
de bandeiras na fotografia. Cada imagem nasce em circunstâncias distintas, mas
todas nos lembram que a política não se limita às instituições, aos discursos
ou aos resultados eleitorais. Ela também se inscreve nos gestos, nos objetos,
nos corpos e nas imagens por meio dos quais uma sociedade expressa seus
conflitos e imagina seu futuro.
No fim,
a pergunta não é apenas qual imagem ou vídeo se torna mais popular, mais
compartilhado ou mais facilmente reconhecido. É também o que cada registro nos
leva a considerar legítimo, desejável ou possível. Entre a arma, a
Constituição, o corpo e os símbolos que carregamos, a disputa política se
revela igualmente uma disputa pela representação da vida coletiva. E, como já
intuía Delacroix, as imagens não apenas mostram a história: participam da
maneira como aprendemos a vê-la.
Fonte:
Le Monde

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