O
que Flávio e Lula propõem sobre reajuste do salário mínimo e aposentadorias
O valor
do salário
mínimo e as regras de reajuste das aposentadorias afetam
diretamente a renda de milhões de brasileiros. Além de estabelecer o piso
salarial, o mínimo serve de referência para aposentadorias, pensões e outros
benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) vinculados a esse
valor.
Na
campanha de 2022, o reajuste do salário mínimo acima da inflação
foi uma das promessas de Luiz Inácio
Lula da Silva (PT). Em 2023, seu governo
retomou a política de valorização real do piso, que combina a
reposição da inflação com o crescimento da economia.
A
política de aumentos reais havia sido interrompida durante os governos de Michel Temer
(MDB) e Jair Bolsonaro (PL), quando o salário mínimo voltou a ser
reajustado sem ganhos acima da inflação.
Nesse
período, o piso registrou perda real de 0,2% durante pouco mais de dois anos de
gestão de Temer e de 1,2% ao longo dos quatro anos de Bolsonaro.
Agora,
na disputa pela Presidência com Flávio
Bolsonaro (PL), Lula defende a continuidade dessa política e acusa
seu adversário de pretender cortar políticas sociais em nome do ajuste fiscal,
caso seja eleito.
Os dois
candidatos se enfrentam no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Ao
longo da campanha, integrantes da equipe que ajudou a elaborar o plano de
governo de Flávio Bolsonaro deram sinais diferentes sobre a manutenção dos
aumentos reais do salário mínimo e eventuais mudanças nas regras
previdenciárias.
Em
entrevista à TV Globo na sexta-feira (16/10), o candidato afirmou que manterá
os reajustes do salário mínimo acima da inflação e não desvinculará as
aposentadorias do piso nacional.
No
início de outubro, uma reportagem
publicada pela Folha de S.Paulo mostrou que interlocutores da
campanha de Flávio estudam um pacote de medidas fiscais focado na contenção das
despesas obrigatórias da União para viabilizar um ajuste inicial da ordem de 2%
do PIB, o equivalente a cerca de R$ 250 bilhões.
Uma das
mudanças que estaria sendo discutida é a desvinculação dos reajustes da
Previdência Social e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) em relação aos
ganhos reais do salário mínimo.
Com
isso, aposentadorias, pensões e o BPC passariam a ser corrigidos apenas para
repor a alta dos preços, mas não teriam aumentos acima da inflação.
A
mudança teria como objetivo conter o crescimento dos gastos públicos com a
Previdência, já que os benefícios vinculados ao salário mínimo também recebem
os aumentos reais concedidos ao piso.
Após a
repercussão da reportagem, Flávio afirmou que pretende reajustar a
aposentadoria acima da inflação, uma promessa que não aparece em seu plano de
governo enviado ao Tribunal
Superior Eleitoral (TSE).
A
declaração é questionada por economistas ouvidos pela BBC News Brasil, que
apontam não ser possível implementar o corte de despesas que o senador descreve
como um "tesouraço" sem realizar mudanças em áreas como a
Previdência, uma das principais despesas do governo federal.
"Do
ponto de vista orçamentário, a viabilidade de se conciliar essas duas propostas
é zero", aponta Guilherme Klein, professor de Economia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Made/USP.
Para
dimensionar o tamanho do ajuste prometido pela campanha de Flávio Bolsonaro,
Klein compara o corte de cerca de R$ 250 bilhões mencionado pela campanha com
as despesas discricionárias do Executivo previstas para 2027, que, segundo ele,
somam aproximadamente R$ 222 bilhões.
Essas
despesas são aquelas cujo valor ou execução o governo pode decidir,
diferentemente dos gastos obrigatórios, determinados por lei ou pela
Constituição.
De
acordo com Klein, mesmo que todas as despesas discricionárias fossem
eliminadas, o corte não alcançaria o valor anunciado pela campanha — e parte
delas financia programas sociais e serviços públicos.
"Se
ele [Flávio Bolsonaro] quiser fazer um ajuste desse tamanho, como ele está
falando, ele teria que ir para as despesas obrigatórias. E aí, nas
obrigatórias, o principal é Previdência", explicou à BBC News Brasil.
O
economista ainda explica que o salário mínimo funciona como um
"norte" para o mercado de trabalho. Quando salário mínimo aumenta,
ele tende a aumentar todos os salários, mesmo aqueles que não são formais ou
que não se baseiam no sistema de salário mínimo.
"E
isso tem todo um efeito na economia e nas contas públicas", afirma,
destacando por que a discussão sobre o reajuste do salário mínimo ganhou espaço
na disputa eleitoral, em meio às pressões sobre a dívida pública e às
discussões sobre a necessidade de ajuste fiscal.
Confira
abaixo o que cada candidato propõe sobre o assunto.
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As propostas de Flávio Bolsonaro
O plano
de governo de Flávio Bolsonaro prevê um ajuste fiscal, com "corte para
todos os lados", mas não apresenta uma fórmula específica para o reajuste
do salário mínimo nem garante a continuidade dos aumentos reais dos benefícios
vinculados ao piso nacional.
Mas em
sua manifestação mais recente sobre o tema — na entrevista concedida à TV Globo
na sexta-feira — ele disse que manteria os reajustes do salário mínimo acima da
inflação e não desvinculará as aposentadorias do piso nacional.
Na área
previdenciária, seu plano de governo defende o combate a fraudes, a
digitalização dos serviços e a redução das filas no INSS. Também não detalha
mudanças na idade mínima para aposentadoria, no tempo de contribuição ou nas
regras de cálculo dos benefícios.
A
possibilidade de rever as regras previdenciárias, porém, já foi mencionada por
integrantes da campanha.
Em
março, Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da pré-campanha de Flávio, afirmou
que um eventual governo do senador pretendia
revisitar as reformas da Previdência e trabalhista.
Segundo
ele, uma nova reforma poderia envolver mudanças nos parâmetros atuais ou até a
adoção de um modelo diferente. Marinho, no entanto, não esclareceu se
alterações na política de reajuste do salário mínimo seriam incluídas no plano
de governo.
No fim
de agosto, em entrevista à TV Globo antes do primeiro turno, Flávio também
não esclareceu se manteria a vinculação entre o salário mínimo e os
benefícios previdenciários.
Questionado
se aposentadorias e outros pagamentos continuariam sendo reajustados junto com
o piso, afirmou que não pretendia fazer economia "em cima dos
aposentados", mas não respondeu diretamente se manteria a regra atual.
A
discussão ganhou contornos mais concretos após a Folha de S.Paulo revelar que
interlocutores da campanha discutiram a possibilidade de corrigir
aposentadorias e o BPC apenas pela inflação, sem repassar a esses pagamentos os
aumentos reais do salário mínimo.
A
medida, de acordo com o jornal, foi apresentada a empresários e representantes
do mercado financeiro ao longo de 2026.
Em
resposta à reportagem, a campanha de Flávio afirmou que propostas discutidas em
conversas informais não representam a posição oficial do candidato.
"A
orientação econômica da candidatura não é definida por relatos ou ilações de
terceiros. Ela está expressa, de forma objetiva e verificável, no plano de
governo, onde não constam tais propostas, e nas manifestações públicas feitas
ao longo da campanha por Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho, Daniella Marques e
Adolfo Sachsida. Qualquer tentativa de substituir esse conteúdo distorce os
fatos e posições reais apresentadas."
Em
agosto, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e integrante
da equipe econômica de Flávio, afirmou ao
UOL que Flávio pretendia reajustar o piso acima da inflação.
Na
mesma entrevista, defendeu um ajuste fiscal baseado no corte de privilégios,
supersalários e gastos considerados não prioritários.
Em
entrevista posterior à Folha de S.Paulo, porém, Daniella
negou ter afirmado que Flávio manteria os aumentos reais do salário mínimo.
Ela disse que não seria possível discutir mudanças nas regras da Previdência ou
do piso nacional antes de rever outras despesas públicas.
Adolfo
Sachsida, coordenador da área econômica do plano de governo de Flávio e
ex-ministro de Minas e Energia de Jair Bolsonaro, também se pronunciou sobre o
tema.
Em
setembro, ele afirmou em uma publicação no X que a equipe havia preparado
medidas para garantir a continuidade da vinculação entre o salário mínimo e os
benefícios previdenciários. A declaração, porém, não detalhava a fórmula de
reajuste nem esclarecia como seriam garantidos os aumentos reais.
Na
semana retrasada, após a repercussão da reportagem, o próprio Flávio afirmou
que pretende conceder reajustes acima da inflação.
Contudo,
em um site lançado após o primeiro turno para rebater o que considera
"fake news", a campanha não garante a continuidade dos aumentos reais
do salário mínimo e menciona apenas a correção pela inflação.
Sobre
as aposentadorias, a página afirma que o pagamento dos benefícios é uma
obrigação do governo e promete combater fraudes. Também diz que Flávio não fará
economia às custas dos mais pobres e dos aposentados e que os programas sociais
existentes serão mantidos, com aperfeiçoamento da gestão e combate a
irregularidades.
Segundo
Klein, se o salário mínimo passasse a ser reajustado apenas pela inflação, a
economia direta com despesas públicas seria de cerca de R$ 15 bilhões a R$ 16
bilhões no primeiro ano, considerando os aumentos reais previstos para 2027.
O valor
equivale a cerca de 6% do ajuste de R$ 250 bilhões mencionado pela campanha de
Flávio.
Apesar
disso, ele argumenta que a economia efetiva para as contas públicas poderia ser
menor do que a redução inicial das despesas. Isso porque parte do dinheiro
recebido por aposentados e beneficiários de programas sociais é gasto no
consumo de bens e serviços, movimentando a economia e gerando arrecadação de
impostos.
"É
verdade que as despesas vão cair, mas a arrecadação também vai cair, porque
grande parte do que é transferido vira consumo que faz a economia girar. Então
tem um multiplicador, como a gente chama em economia, que precisa ser
considerado nessa conta", afirma Klein.
Na
avaliação de Daniel Duque, pesquisador de Economia Aplicada da FGV/IBRE, a
proposta discutida pela campanha de Flávio traria uma economia significativa,
mas seria insuficiente para equilibrar as contas públicas.
"Para
cada 1 real, geram-se centenas de milhões de reais em gastos com benefícios
previdenciários e assistenciais vinculados. Mas, mesmo assim, isso não
resolveria a situação fiscal do país", afirma.
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As propostas de Lula
A
valorização do salário mínimo foi uma das marcas dos dois primeiros mandatos de
Lula. Conforme mostrou um levantamento
da BBC, o piso teve ganho real de 38,3% no primeiro mandato e de
17,4% no segundo, totalizando 62,4% de valorização acima da inflação nos oito
anos.
Em
2023, no terceiro mandato, Lula retomou a política de valorização do salário
mínimo, que combina a reposição da inflação medida pelo Índice Nacional de
Preços ao Consumidor (INPC) com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de
dois anos antes. Pelas regras fiscais em vigor, o ganho real fica limitado a
2,5%.
O
reajuste é feito em janeiro de cada ano, após o IBGE divulgar as estatísticas,
o que ocorre no início do mês.
O plano
de governo apresentado pelo presidente ao TSE prevê a continuidade dessa
política caso ele seja reeleito.
"O
novo mandato de Lula dará continuidade à política de valorização do salário
mínimo como meio estratégico de distribuição de renda, combate à pobreza e
promoção do desenvolvimento econômico e social", diz um dos trechos.
O texto
também associa a política ao aumento do poder de compra de aposentados e
pensionistas e de beneficiários do BPC.
Na área
previdenciária, Lula promete concluir a modernização dos serviços e aprimorar o
atendimento do INSS com medidas para reduzir o tempo de espera por benefícios.
O plano
também prevê discutir formas de diversificar as fontes de financiamento da
Previdência e criar mecanismos contributivos mais flexíveis para trabalhadores
com trajetórias profissionais descontínuas.
"Buscaremos
inserir na regulação do trabalho mediado por plataforma o financiamento da
previdência social e a cobertura adequada para aposentadoria, incapacidade
temporária, acidentes, maternidade ou demais contingências sociais", diz
Lula em seu plano de governo.
A
continuidade dos aumentos reais do salário mínimo, porém, é alvo de críticas de
economistas pelo impacto nas contas públicas. Como aposentadorias, pensões e o
BPC vinculados ao piso também acompanham seus reajustes, aumentos acima da
inflação elevam as despesas previdenciárias e assistenciais.
Segundo
dados publicados pela Folha de S.Paulo, cerca de 70% dos beneficiários do INSS
recebem o equivalente ao piso nacional.
"Definitivamente
não é sustentável a longo prazo. Hoje o salário mínimo tem um valor relativo à
mediana de salários razoavelmente elevada, de modo que seus efeitos sobre
pobreza e desigualdade são limitados, enquanto o efeito sobre as contas públicas
é significativo", afirma Daniel Duque.
Klein
defende, contudo, que a política de reajustes acima da inflação trouxe inúmeros
benefícios sociais e econômicos. E que o teto de 2,5% para o ganho real do
salário mínimo, adotado durante o terceiro mandato de Lula, reduz as
preocupações com sua sustentabilidade fiscal.
"Nos
anos 2000, grande parte da queda da desigualdade que a gente teve foi por um
efeito do aumento do salário mínimo. Então, do ponto de vista social e
econômico mesmo, é muito importante", afirma.
Mas ele
reconhece que o cenário econômico atual é diferente daquele da metade dos anos
2000 e que é possível discutir mudanças na forma como o piso é vinculado a
benefícios previdenciários e assistenciais.
"É
possível que a gente, em algum momento, discuta, por exemplo, uma vinculação
que não seja 100% entre o salário mínimo e a Previdência, ou o salário mínimo e
o BPC. Eu acho que tem outras coisas que são muito mais importantes, talvez, de
serem mantidas", afirma Klein, em referência aos pisos constitucionais de
saúde e educação, cuja redução também foi sugerida por Flávio Bolsonaro.
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Reforma da Previdência no governo Bolsonaro
A reforma da Previdência de 2019 foi
uma das principais mudanças nas regras de aposentadoria no Brasil. Aprovada
durante o governo Jair Bolsonaro, quando Rogério Marinho era secretário
especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, ela tornou mais
rígidas as condições para se aposentar e mudou o cálculo dos benefícios.
Antes
da reforma, era possível se aposentar pelo INSS com 30 anos de contribuição, no
caso das mulheres, e 35 anos, no dos homens, sem idade mínima nessa modalidade.
A
reforma extinguiu essa possibilidade para novos segurados e estabeleceu idades
mínimas de 62 anos para mulheres e 65 para homens, além de tempo mínimo de
contribuição. Para quem já contribuía, foram criadas regras de transição
A
reforma também alterou as alíquotas de contribuição previdenciária, que
passaram a variar de acordo com a faixa salarial.
A
reforma foi defendida como uma forma de conter o crescimento dos gastos
previdenciários, equilibrar as contas públicas e reduzir o avanço da dívida
pública.
Na
época, economistas favoráveis às mudanças argumentavam que a reforma era
necessária para equilibrar as contas públicas e reduzir desigualdades entre
regimes previdenciários. Já especialistas críticos alertavam que as novas
regras poderiam dificultar o acesso à aposentadoria, reduzir benefícios e
ampliar a vulnerabilidade de trabalhadores de baixa renda.
Fonte:
BBC News Brasil

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