segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Silvio Cavuscens: Em que Brasil e em que mundo queremos viver

“Em que Brasil e em que mundo queremos viver?” Essa pergunta traduz o desafio colocado pelo segundo turno da eleição presidencial, no próximo dia 25 de outubro de 2026. Hoje, não se trata somente da disputa entre esquerda e direita, entre a velha e a nova guarda ou, finalmente, entre Lula e Flávio Bolsonaro ou entre o PT e o PL. O que está em jogo vai muito além do que vem sendo apresentado de modo absurdamente limitado.

Tenho 71 anos. Há mais de cinco décadas vivo na Amazônia, acompanhando a luta dos povos indígenas e dos movimentos sociais. Uma região onde foram implantados grandes projetos de desenvolvimento, onde vive uma população historicamente esquecida pelo país e onde se tentou, e ainda se tenta, fazer tábua rasa de culturas milenares, ameaçando também a maior floresta tropical do mundo.

O que está em jogo é o próprio destino da nossa humanidade, diante das grandes contradições e dos graves problemas provocados por um modelo econômico e político que concentra seus benefícios entre os mais ricos, grandes grupos empresariais e setores que lucram até mesmo com a ilegalidade.

As mudanças climáticas e as catástrofes que atingem populações inteiras; as permanentes guerras promovidas contra nações pobres ou indefesas; o domínio exercido por potências como os Estados Unidos sobre outras nações; e as pressões sobre as riquezas brasileiras, entre elas as terras raras, fazem parte desse cenário. A ele se somam a usurpação e a redução sistemática dos direitos e do bem-estar da população trabalhadora mais pobre, das minorias e daqueles que possuem outras culturas e modos de viver.

“Minhas referências permanecem sendo a defesa da dignidade humana, o cumprimento da nossa legislação, a construção de perspectivas mais sustentáveis e a busca de caminhos mais democráticos e participativos”

Na minha compreensão, o projeto político representado por Flávio Bolsonaro reforça esse modelo e ameaça aprofundar suas consequências no Brasil. Nesse jogo de poder, Lula representa a possibilidade de o Brasil garantir sua soberania, promover maior igualdade de direitos e fortalecer seu papel mediador nas relações internacionais. Representa também a possibilidade de contribuir para o fortalecimento das Nações Unidas e para a busca da paz, assim como de ampliar seu protagonismo na construção de um país e de um mundo mais sustentáveis, justos e humanos.

É preciso, contudo, reconhecer que o governo Lula também carrega contradições profundas. Os avanços na proteção ambiental convivem com a aposta na abertura de novas fronteiras petrolíferas, como na Margem Equatorial. Na Amazônia, cabe também questionar até que ponto suas políticas enfrentam ou reproduzem um modelo que subordina os territórios e os rios às demandas da mineração, do agronegócio e do escoamento de mercadorias, em detrimento da vida e dos modos próprios de existência dos povos da região.

Vejo nessa escolha a persistência de uma concepção de desenvolvimento que promete superar a dependência econômica ampliando a exploração dos recursos naturais. Como conciliar essa aposta com a responsabilidade de enfrentar a crise climática e assegurar um futuro às próximas gerações? Para quem acompanha há mais de cinco décadas as consequências dos grandes projetos na Amazônia, essa contradição exige uma posição crítica.

Por essa razão, deixo claro que a minha posição diante destas eleições não representa um cheque em branco a Lula. Reconhecer diferenças entre os projetos políticos exige também cobrar coerência de quem afirma defender a democracia, a justiça social e o equilíbrio ambiental. Esses compromissos precisam orientar as decisões de governo, inclusive quando contrariam interesses econômicos e alianças políticas. Minhas referências, nesse contexto complexo e emaranhado, permanecem sendo a defesa da dignidade humana, o cumprimento da nossa legislação, a construção de perspectivas mais sustentáveis e a busca de caminhos mais democráticos e participativos.

“A dignidade dos povos e os limites da natureza não podem ser tratados como moeda de troca”

Entendo que governar é uma arte e um ofício que Lula aprendeu a dominar e que exige capacidade de diálogo, negociação e responsabilidade. Todavia, a dignidade dos povos e os limites da natureza não podem ser tratados como moeda de troca. É também por esses critérios que teremos que cobrar coerência de seu governo. O exercício de governar não pode ser reduzido à politicagem, às notícias falsas ou ao uso político de questões tão sérias quanto a religião e a espiritualidade, como tenho observado, de modo extremamente imaturo e irresponsável, no campo bolsonarista.

Neste momento tão importante de nossas vidas, não podemos ficar em cima do muro, nem agir com egoísmo. Cada um de nós tem uma responsabilidade como cidadão do Brasil e do mundo: contribuir para que nosso país possa ser grande, mas humilde; para que sua população, diversa e heterogênea, seja respeitada; e para que o meio ambiente seja preservado por meio de um desenvolvimento coerente, que respeite os limites da própria natureza.

A decisão de cada um definirá não apenas o resultado desta eleição, mas os rumos do país e as condições de vida das próximas gerações, de nossos filhos e netos. Nossa responsabilidade não termina nas urnas: ela continua na organização da sociedade, na defesa dos direitos e na cobrança permanente de quem governa. Pensem com responsabilidade.

•        O pesado clima das urnas. Por Emanuel Alencar

Mesmo que o presidente Lula consiga uma surpreendente e inédita virada na segunda rodada presidencial, temos um fato inconteste que já marcou a corrida eleitoral deste mordaz 2026: a acachapante derrota das candidaturas ambientalistas. A ministra Marina Silva, que vinha bem nas pesquisas, acabou fora do Senado por São Paulo. Carlos Minc, expoente da luta verde no Rio, ficou sem mandato. Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama no atual governo federal, viu sua votação para a Câmara dos Deputados derreter a reboque do conservadorismo paulista. São apenas alguns exemplos. Uma dissonância cognitiva — termo da moda — nos assola, enquanto o planeta aquece e os alertas superam todos os limites aceitáveis. Numa alegoria, é como se emulássemos o comportamento da pessoa que sabe que o cigarro faz mal à saúde, mas continua fumando dois maços por dia.

A extrema direita que nega a crise climática avança — o domínio no Congresso é avassalador — ao mesmo tempo em que o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente lança um relatório dizendo que, “até o fim da década”, o mundo poderá atingir um aquecimento global de 1,5 °C, ultrapassando-o nas décadas seguintes. Para ficarmos em apenas alguns exemplos, esse “novo normal” indica o colapso da floresta amazônica, a morte de recifes de coral, o esfacelamento dos mantos de gelo da Groenlândia e do Oeste Antártico e o derretimento do permafrost, o solo congelado e riquíssimo em carbono do hemisfério Norte.

Sedutor, o discurso “antissistêmico” bolsonarista tem ressonância global. É nutrido e alimenta uma poderosa rede. A negação climática não é mero efeito colateral: está no centro do modus operandi da extrema direita. Trump já chamou a crise dos extremos climáticos de “a maior farsa já imposta ao mundo”. Para o tresloucado Javier Milei, chefe do governo argentino, “todas essas políticas que culpam o ser humano pela mudança climática são falsas e buscam arrecadar fundos para financiar socialistas que não gostam de trabalhar”. Em uma de suas primeiras grandes ações de governo, a administração do superdireitista chileno José Antonio Kast revogou 43 decretos ambientais herdados da gestão anterior de Gabriel Boric.

Flávio Bolsonaro, porta-voz brasileiro dos extremistas, não tem vergonha em negar o aquecimento global na TV Globo. O faz porque tem amparo: os movimentos negacionistas são bem estruturados mundo afora. Uma reportagem do jornalista Joe Fassler, publicada no final de outubro de 2024 no portal “DeSmog” com o título de “The Friendly New Face of Dark Money” (“A Nova Face Amigável do Dinheiro Oculto”), revelou que, desde 2020, as divisões de fundos de doadores de empresas como Fidelity, Schwab e Vanguard canalizaram mais de US$ 171 milhões em doações anônimas para organizações sem fins lucrativos focadas no negacionismo climático.

O colapso do planeta — que afetará primeiro a população mais pobre e vulnerável — implica posturas firmes, que vão na contramão do fortalecimento da indústria dos hidrocarbonetos. A discussão está embotada. Mesmo partidos de esquerda e progressistas no Brasil parecem ter abandonado a pauta. Quem teima em alertar tem colhido dissabores nas urnas. É como se a questão climática, tão central e urgente, estivesse dissociada do debate sobre transportes não poluentes e baratos, do saneamento básico, da habitação, da inclusão social.

Vivemos no trágico vórtex da “Tragédia dos Comuns”, conceito consolidado pelo ecologista americano Garrett Hardin, em um ensaio publicado na prestigiada revista “Science”, há exatos 60 anos. A base do raciocínio é simples: indivíduos agindo racionalmente em interesse próprio acabam destruindo o recurso coletivo de que todos dependem. “A Terra não precisa de nós. Nós é que precisamos dela para continuar existindo”, já alertou nosso Ailton Krenak. Que a pauta climática e ambiental volte a ganhar o debate público. O punhado de grãos de areia na parte superior da ampulheta está a cada dia menor.

•        A diferença entre projetos faz do voto uma decisão de que contexto os indígenas querem para lutar por direitos. Por Roberto Liebgott

Porque não basta falar em Deus: é preciso defender a vida. Não basta vestir-se de moral: é preciso agir com ética. Não basta falar em justiça: é preciso enfrentar as desigualdades e assumir o compromisso com os pobres e com todos aqueles que têm seus direitos negados.

O bolsonarismo expressa uma profunda contradição entre o discurso religioso e a prática política. Invoca a fé, mas alimenta o ódio; fala em justiça, mas flerta com a violência e com práticas milicianas; proclama a defesa da família, mas transforma a intolerância em instrumento político. Diz defender os pobres, mas se opõe a direitos sociais e trabalhistas. Exalta a pátria, mas coloca em risco a soberania nacional e nossas riquezas, subordinando interesses coletivos aos interesses econômicos dos Estados Unidos da América.

Essa lógica também ameaça os povos indígenas, seus territórios e seus modos de vida. A terra não é mercadoria: é lugar de ser, de viver, de existência, memória, espiritualidade, cultura e ancestralidade. Defender os povos indígenas é defender as águas, as florestas, a biodiversidade e a própria continuidade da vida. Não há justiça enquanto comunidades forem ameaçadas, territórios invadidos e lideranças perseguidas por lutarem por seus direitos.

A democracia não se resume às eleições: exige respeito às diferenças, participação popular e garantia de direitos

Lula representa outra perspectiva de país, embora seu projeto não rompa com os privilégios das elites econômicas e mantenha alianças e compromissos que precisam ser questionados. Seu governo tem limites e contradições, mas reconhece as responsabilidades do Estado para com os que mais precisam. Os investimentos na educação pública, o fortalecimento do SUS, as políticas de transferência de renda e a ampliação do acesso a medicamentos por meio da Farmácia Popular fazem diferença na vida de milhões de pessoas.

Também existem diferenças fundamentais na defesa da democracia, dos direitos sociais, dos povos indígenas e quilombolas, na proteção ambiental e no enfrentamento ao racismo, ao machismo, à homofobia e a todas as formas de intolerância.

Lula não está acima das críticas. Seu governo precisa ser cobrado pela demarcação das terras indígenas, pela proteção dos territórios tradicionais e pelo enfrentamento à violência. Apoiar um projeto político não significa abrir mão da autonomia, da vigilância e da luta popular. Mas reconhecer seus limites não nos permite ignorar as diferenças entre os caminhos em disputa.

É disso que trata esta eleição. De um lado, a possibilidade de defender direitos, fortalecer políticas públicas e preservar a democracia. De outro, a ameaça de aprofundar o autoritarismo, a intolerância e a violência contra os movimentos sociais.

Não se trata de escolher um governo perfeito, mas de assumir a responsabilidade histórica pelas consequências de nossas escolhas

Pelo o que Flávio Bolsonaro tem como projeto político e econômico, há uma certa depreciação de direitos sociais e constitucionais no horizonte. Ao passo que Lula tem como eixo central a defesa dos trabalhadores, dos povos indígenas e dos quilombolas, dos territórios tradicionais, das águas e das florestas. Trata-se de um projeto em que a vida vale mais do que o lucro e que os direitos dos povos devem prevalecer sobre a ganância econômica.

Neste 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, voltemos nosso olhar à Mãe que, na fé do povo brasileiro, acolhe os pequenos, consola os que sofrem e fortalece a esperança dos que resistem. Que sua presença nos recorde que a fé não combina com o ódio, que a oração exige compromisso e que o amor ao próximo se traduz em solidariedade, justiça e defesa da vida.

Que Nossa Senhora Aparecida abençoe nosso povo, fortaleça os que lutam por terra, território e dignidade e ilumine nossos caminhos na construção de um Brasil mais justo, fraterno e solidário.

 

Fonte: Cimi/Blog da Boitempo

 

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