Alberto
Erazo Castro: A ignorada corrida pela prata latino-americana
O
México forneceu 47% das importações estadunidenses de prata entre 2021 e 2024.
O número, publicado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, revela o peso de um
país latino-americano no abastecimento de uma potência que busca ampliar sua
capacidade tecnológica. A corrida digital também passa pelo subsolo da região.
Os
centros de dados, servidores e equipamentos eletrônicos têm uma existência
material que costuma desaparecer das imagens com as quais se apresenta a
inteligência artificial. Por trás dos programas há instalações, eletricidade e
componentes fabricados com minerais. A prata faz parte dessa trama e conecta a
expansão tecnológica aos territórios onde é extraída.
Sua
elevada condutividade elétrica e térmica favorece sua utilização industrial. O Silver Institute destaca sua presença em dispositivos
eletrônicos, incluindo equipamentos empregados na inteligência artificial. A
riqueza que durante séculos circulou como moeda e ornamentação participa hoje
de indústrias que concentram o conhecimento, a renda e a capacidade de
influência.
Para a
América Latina, essa transformação renova uma disputa antiga. A região possui
recursos que outros incorporam a seus processos produtivos. O metal atravessa
fronteiras e adquire novos usos, enquanto as decisões sobre os produtos finais
são tomadas em empresas situadas longe das jazidas. Entre a extração e a venda
de tecnologia, distribuem-se lucros que o país produtor não recebe
necessariamente em proporção à sua contribuição.
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As minas por trás das telas
Um estudo da Oxford Economics encomendado pelo
Silver Institute situa os centros de dados e a inteligência artificial entre as
atividades que impulsionam o interesse industrial pela prata. Sua expansão
exige mais equipamentos e amplia o mercado de materiais empregados em
componentes e conexões.
A
imagem de uma economia digital desligada da matéria é conveniente para quem
vende seus serviços. Permite falar de inovação sem mostrar a mina, o transporte
nem o trabalho que precede o referido dispositivo. A América Latina aparece,
então, como fornecedora de uma riqueza que fica fora do relato sobre os grandes
avanços tecnológicos.
Essa
omissão tem consequências políticas. Quem compra um serviço digital reconhece a
empresa que o oferece; poucas vezes conhece os territórios que forneceram parte
de seus materiais. Os países extratores participam da produção mundial, mas
recebem menos visibilidade do que as companhias capazes de transformar esses
recursos em equipamentos, programas e serviços.
A prata
ganha importância nessa distribuição. Seu fornecimento interessa a fabricantes
que buscam continuidade e custos previsíveis. Para eles, uma relação estável
com produtores permite sustentar sua atividade. Para os países mineradores,
essa mesma relação define esses preços, destinos de venda e oportunidades de
desenvolver outras indústrias em torno do mencionado recurso.
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O território e a propriedade
A
participação estrangeira tem nomes e ativos concretos. A Pan American Silver informa que opera minas no
Canadá, México, Peru, Brasil, Bolívia, Chile e Argentina. Uma única companhia
reúne, assim, explorações distribuídas entre vários países e as incorpora a uma
carteira a partir da qual decide quais investimentos e projetos realizar.
A
jazida permanece num território determinado, sujeita às suas leis e à vida de
suas populações. A empresa pode comparar esse ativo com outros, transferir o
capital ou modificar suas prioridades. Essa diferença de alcance influencia a
negociação: uma localidade vive de uma mina concreta; uma companhia com
presença internacional dispõe de várias fontes de renda.
A
relação inclui formas de participação pública. A Pan American Silver registra
em sua história empresarial um acordo com a companhia estatal boliviana COMIBOL
ligado a San Vicente. Esses acordos mostram que a distribuição de direitos e
receitas se estabelece por meio de decisões políticas e contratos, além das
condições geológicas da jazida.
A
propriedade do recurso, a exploração e a comercialização podem ficar em mãos
distintas. Cada etapa abre uma negociação sobre quem recebe benefícios e quem
assume obrigações. O debate sobre a soberania entra aí em questões concretas:
impostos, participação estatal, compras locais e compromissos das empresas com
o território onde trabalham.
Uma
produção maior pode melhorar as vendas sem ampliar da mesma forma a capacidade
industrial nacional. O mineral sai, a receita é distribuída e a fabricação
continua em outro lugar. A distância entre essas etapas ajuda a explicar por
que uma riqueza abundante pode coexistir com economias que compram equipamentos
elaborados com materiais provenientes de seu próprio solo.
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O abastecimento como poder
A
competição tecnológica entre Estados Unidos e China aumenta o valor político
das cadeias de suprimento. As indústrias que buscam ampliar sua produção
precisam de materiais disponíveis e relações comerciais estáveis. A América
Latina participa dessa busca por meio de seus recursos, suas empresas e dos
acordos que seus governos estabelecem.
O
vínculo entre o México e os compradores estadunidenses oferece uma relação
visível. A proximidade territorial vem acompanhada de um fluxo de prata para
uma economia com grandes indústrias consumidoras. Esse intercâmbio confere
importância ao produtor e, ao mesmo tempo, o expõe a decisões de compra tomadas
fora de suas fronteiras.
A
capacidade de influência se distribui entre aqueles que extraem, refinam e
transportam a prata e aqueles que fabricam produtos com ela. Assegurar esse
metal permite sustentar uma parte do processo; controlar as tecnologias e os
mercados permite aproveitá-lo em produtos de preço mais elevado. A disputa
abrange tanto o acesso ao recurso quanto as atividades que o transformam em
riqueza industrial.
Os
contratos de fornecimento fixam condições por vários anos. As aquisições
empresariais alteram a titularidade de vários ativos. Os investimentos em
fabricação determinam onde surgem novos empregos e conhecimentos. Por essas
vias, as decisões tomadas em torno da prata afetam a posição dos países
latino-americanos na economia tecnológica.
A
participação chinesa acrescenta interlocutores ao comércio regional, enquanto
os Estados Unidos buscam conservar vínculos que abastecem suas indústrias. Para
os produtores, essa competição abre oportunidades e pressões. O resultado
depende dos termos de cada acordo e do lugar que o país ocupa no processo
produtivo.
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O metal que sai e o conhecimento que fica
O salto
entre extrair prata e fabricar componentes exige capacidades que se acumulam ao
longo dos anos. Equipamentos, trabalhadores especializados, pesquisa e acesso a
compradores fazem parte dessa construção. Quando essas atividades se concentram
no exterior, o país minerador conserva uma participação limitada nos negócios
que surgem depois da extração.
Também
existe riqueza em torno da própria mina. Os fornecedores, os laboratórios e os
serviços técnicos podem ampliar seu vínculo com a economia nacional. Seu
desenvolvimento determina quanto trabalho adicional o recurso gera e quanto
conhecimento fica disponível para outras atividades.
A
discussão sobre os benefícios da prata alcança, portanto, a composição da
economia. Um território que extrai e vende concentra suas receitas numa etapa.
Outro que transforma materiais, fabrica equipamentos e comercializa serviços
participa de várias. Essa diferença permite obter lucros mesmo sem possuir a
jazida original.
A
expansão digital torna essa distribuição mais visível. Os compradores de
materiais buscam assegurar seu abastecimento; os fabricantes desenvolvem
produtos; as empresas tecnológicas vendem seus serviços. A América Latina entra
nesse circuito a partir de suas minas, com uma participação posterior que varia
conforme as capacidades de cada país.
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Uma riqueza antiga em negócios novos
A prata
mantém um mercado diverso, atravessado por usos industriais e financeiros. A
inteligência artificial acrescenta um forte interesse pelo recurso, ao lado de
outras atividades que empregam eletrônica e eletricidade. O futuro do metal se
constrói nessa combinação de compradores, tecnologias e decisões empresariais.
Para a
América Latina, o problema central é o lugar a partir do qual participa. A
região fornece uma riqueza necessária para numerosas indústrias, mas a
propriedade do subsolo não assegura uma parcela equivalente das receitas
posteriores. O poder econômico cresce onde se reúnem produção, conhecimento e
acesso a mercados.
A
promessa de uma nova era tecnológica volta a passar por territórios que
conhecem há séculos a saída de seus minerais. Mudam os equipamentos e os
destinos da carga. A distribuição dos benefícios continua sendo uma questão
política, inscrita em contratos, empresas e decisões sobre onde produzir.
A prata
latino-americana participa da infraestrutura dessa transformação. Seu valor
para a região está em quanto trabalho, conhecimento e renda acompanham o metal
antes de cruzar a fronteira. Entre a mina e a tela há um negócio mundial; o
lugar que a América Latina ocupa nele define quem aproveita sua riqueza.
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Desenvolvimento Verde China América Latina. Por Isis
Paris Maia
A crise
ecológica contemporânea e as possibilidades de construção da sustentabilidade
constituem o tema central da obra Desenvolvimento Verde China América Latina,
organizada por Guo Cunhai e Márcio Pochmann. Publicado em 2026 pela Chaohua
Publishing House, o livro reúne pesquisadores chineses e latino-americanos em
torno de uma agenda que articula desenvolvimento, sustentabilidade, inovação
tecnológica, transição energética e cooperação entre países do Sul Global. No
caso em tela, a América Latina possui recursos naturais estratégicos,
biodiversidade e expressiva capacidade de geração de energia limpa, enquanto a
China acumulou capacidades industriais, tecnológicas e financeiras decisivas
para a transição verde.
Após a
acelerada industrialização e suas profundas contradições ambientais, a China
vem promovendo uma transformação de seu modelo de desenvolvimento, cada vez
mais ancorado na restauração ambiental e na sustentabilidade. A experiência
chinesa é particularmente interessante por procurar superar a falsa dicotomia
entre crescimento econômico e preservação ambiental, sem recorrer
necessariamente ao decréscimo econômico ou à contenção das forças produtivas
como resposta à crise ecológica. Em seu lugar, a categoria de Civilização
Ecológica procura incorporar a sustentabilidade ao próprio processo de
modernização, mobilizando planejamento estatal, inovação tecnológica, economia
circular e reorganização das cadeias produtivas. Nesse paradigma, em lugar de
serem concebidos como categorias antagônicas, desenvolvimento e
sustentabilidade passam a ser compreendidos como dimensões articuladas, de modo
que a expansão das capacidades produtivas, tecnológicas e estatais contribua
para criar as condições materiais e institucionais necessárias à
sustentabilidade.
É nesse
ponto que a obra organizada por Guo e Pochmann adquire especial relevância e
originalidade. Mais do que apresentar a China como fornecedora de tecnologias
verdes ou como investidora em projetos ambientais na América Latina, o livro
permite compreender a cooperação verde como desdobramento de uma transformação
mais ampla no próprio paradigma de desenvolvimento. A experiência chinesa
aparece como uma possibilidade histórica de combinação entre prosperidade
material, sustentabilidade e justiça social, sem pressupor que os países
periféricos devam interromper sua industrialização para responder à crise
ambiental. Ao
mesmo
tempo, a obra não se limita a uma narrativa celebratória. Seus diferentes
capítulos permitem identificar desafios relacionados à governança, à
transferência tecnológica, ao financiamento, à soberania sobre recursos
estratégicos e à construção de uma transição ambientalmente sustentável e
socialmente justa.
A
diversidade temática dos capítulos constitui outra de suas qualidades. Zhu
Xufeng e Li Yuanbo discutem o desenvolvimento sustentável na América Latina e
Caribe no marco da Agenda 2030. Douglas de Castro analisa a dimensão ambiental
da Iniciativa do Cinturão e Rota e suas novas possibilidades na região. Xing
Wei examina a cooperação para o desenvolvimento verde a partir da Iniciativa de
Desenvolvimento Global, enquanto Zhang Rui e Li Xiaoyu tratam da governança
climática sino latino-americana. Gao Ge e Lin Yue concentram se na energia
limpa, tema estratégico diante da transição energética mundial.
O livro
amplia ainda mais seu escopo com o capítulo de Marco A. Cabero Z sobre cultura
científica, inovação e desenvolvimento sustentável, aproximando ciência,
democratização do conhecimento e necessidades concretas da América Latina. José
Gabriel Pérez Canencio, Mary Luz Ojeda Solarte e Jorge Enrique Guevara Bejarano
analisam a experiência colombiana. Leila da Costa Ferreira, Fabiana Barbi
Seleguim e Niklas Weins discutem a governança multinível das mudanças
climáticas no Brasil. João Cumarú aborda o papel da China na transição
energética brasileira. Wang Ning, Zhang Hongfu e Guo Peiyuan tratam das
possibilidades de cooperação em finanças verdes, enquanto Wei Mingxin examina a
dimensão comunicacional da transição verde e da cooperação sino-brasileira.
Essa
contribuição coloca em relevo, de maneira particularmente clara, a
complementaridade da agenda ambiental e o potencial de cooperação entre América
Latina e China. No nosso caso específico, deve-se sublinhar que o Brasil reúne
biodiversidade, recursos minerais estratégicos, vastos territórios florestais e
uma matriz energética com importante participação de fontes renováveis. E a
China, por sua vez, dispõe de capacidades industriais, financeiras e
tecnológicas em setores como energia solar, eólica, veículos elétricos,
baterias e equipamentos associados à transição energética. O livro registra a
presença crescente de empresas chinesas no setor energético brasileiro, com
investimentos concentrados principalmente em fontes renováveis. Essa
complementaridade converge ainda com os objetivos
brasileiros
de reindustrialização presentes na Nova Indústria Brasil, particularmente em
sua Missão 5, voltada à bioeconomia, à descarbonização e à transição e
segurança energética para promover um desenvolvimento sustentável.
Por
fim, Desenvolvimento Verde China América Latina permite pensar a
cooperação ambiental em diferentes arenas bilaterais e multilaterais. O Fórum
China CELAC, a Iniciativa do Cinturão e Rota e sua vertente verde, assim como a
Iniciativa de Desenvolvimento Global, oferecem plataformas institucionais para ampliar
as relações Sul Sul em ciência, tecnologia, energia, financiamento e governança
ambiental. A própria obra demonstra que essa cooperação passou progressivamente
de formulações gerais para mecanismos e iniciativas concretas.
Seu
significado geopolítico é decisivo em um contexto internacional marcado por
desigualdades históricas, crises ambientais, financeiras e energéticas e
crescente contestação da ordem construída sob predominância dos Estados Unidos
e de seus aliados. A aproximação entre China e América Latina pode contribuir
para ampliar a autonomia do Sul Global por meio da construção de capacidades
próprias de desenvolvimento, tecnologia e financiamento. Não se trata,
portanto, de substituir uma dependência por outra, mas de ampliar as
possibilidades de cooperação e de escolha. Nesse sentido, a obra organizada por
Guo e Pochmann é particularmente oportuna ao mostrar que a transição ecológica
pode constituir não apenas uma resposta à crise ambiental, mas também uma
oportunidade histórica para fortalecer a cooperação Sul-Sul e construir
alternativas às disfuncionalidades do sistema internacional
contemporâneo.
Fonte:
Outras Palavras/Opera Mundi

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