segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Alberto Erazo Castro: A ignorada corrida pela prata latino-americana

O México forneceu 47% das importações estadunidenses de prata entre 2021 e 2024. O número, publicado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, revela o peso de um país latino-americano no abastecimento de uma potência que busca ampliar sua capacidade tecnológica. A corrida digital também passa pelo subsolo da região.

Os centros de dados, servidores e equipamentos eletrônicos têm uma existência material que costuma desaparecer das imagens com as quais se apresenta a inteligência artificial. Por trás dos programas há instalações, eletricidade e componentes fabricados com minerais. A prata faz parte dessa trama e conecta a expansão tecnológica aos territórios onde é extraída.

Sua elevada condutividade elétrica e térmica favorece sua utilização industrial. O Silver Institute destaca sua presença em dispositivos eletrônicos, incluindo equipamentos empregados na inteligência artificial. A riqueza que durante séculos circulou como moeda e ornamentação participa hoje de indústrias que concentram o conhecimento, a renda e a capacidade de influência.

Para a América Latina, essa transformação renova uma disputa antiga. A região possui recursos que outros incorporam a seus processos produtivos. O metal atravessa fronteiras e adquire novos usos, enquanto as decisões sobre os produtos finais são tomadas em empresas situadas longe das jazidas. Entre a extração e a venda de tecnologia, distribuem-se lucros que o país produtor não recebe necessariamente em proporção à sua contribuição.

<><> As minas por trás das telas

Um estudo da Oxford Economics encomendado pelo Silver Institute situa os centros de dados e a inteligência artificial entre as atividades que impulsionam o interesse industrial pela prata. Sua expansão exige mais equipamentos e amplia o mercado de materiais empregados em componentes e conexões.

A imagem de uma economia digital desligada da matéria é conveniente para quem vende seus serviços. Permite falar de inovação sem mostrar a mina, o transporte nem o trabalho que precede o referido dispositivo. A América Latina aparece, então, como fornecedora de uma riqueza que fica fora do relato sobre os grandes avanços tecnológicos.

Essa omissão tem consequências políticas. Quem compra um serviço digital reconhece a empresa que o oferece; poucas vezes conhece os territórios que forneceram parte de seus materiais. Os países extratores participam da produção mundial, mas recebem menos visibilidade do que as companhias capazes de transformar esses recursos em equipamentos, programas e serviços.

A prata ganha importância nessa distribuição. Seu fornecimento interessa a fabricantes que buscam continuidade e custos previsíveis. Para eles, uma relação estável com produtores permite sustentar sua atividade. Para os países mineradores, essa mesma relação define esses preços, destinos de venda e oportunidades de desenvolver outras indústrias em torno do mencionado recurso.

<><> O território e a propriedade

A participação estrangeira tem nomes e ativos concretos. A Pan American Silver informa que opera minas no Canadá, México, Peru, Brasil, Bolívia, Chile e Argentina. Uma única companhia reúne, assim, explorações distribuídas entre vários países e as incorpora a uma carteira a partir da qual decide quais investimentos e projetos realizar.

A jazida permanece num território determinado, sujeita às suas leis e à vida de suas populações. A empresa pode comparar esse ativo com outros, transferir o capital ou modificar suas prioridades. Essa diferença de alcance influencia a negociação: uma localidade vive de uma mina concreta; uma companhia com presença internacional dispõe de várias fontes de renda.

A relação inclui formas de participação pública. A Pan American Silver registra em sua história empresarial um acordo com a companhia estatal boliviana COMIBOL ligado a San Vicente. Esses acordos mostram que a distribuição de direitos e receitas se estabelece por meio de decisões políticas e contratos, além das condições geológicas da jazida.

A propriedade do recurso, a exploração e a comercialização podem ficar em mãos distintas. Cada etapa abre uma negociação sobre quem recebe benefícios e quem assume obrigações. O debate sobre a soberania entra aí em questões concretas: impostos, participação estatal, compras locais e compromissos das empresas com o território onde trabalham.

Uma produção maior pode melhorar as vendas sem ampliar da mesma forma a capacidade industrial nacional. O mineral sai, a receita é distribuída e a fabricação continua em outro lugar. A distância entre essas etapas ajuda a explicar por que uma riqueza abundante pode coexistir com economias que compram equipamentos elaborados com materiais provenientes de seu próprio solo.

<><> O abastecimento como poder

A competição tecnológica entre Estados Unidos e China aumenta o valor político das cadeias de suprimento. As indústrias que buscam ampliar sua produção precisam de materiais disponíveis e relações comerciais estáveis. A América Latina participa dessa busca por meio de seus recursos, suas empresas e dos acordos que seus governos estabelecem.

O vínculo entre o México e os compradores estadunidenses oferece uma relação visível. A proximidade territorial vem acompanhada de um fluxo de prata para uma economia com grandes indústrias consumidoras. Esse intercâmbio confere importância ao produtor e, ao mesmo tempo, o expõe a decisões de compra tomadas fora de suas fronteiras.

A capacidade de influência se distribui entre aqueles que extraem, refinam e transportam a prata e aqueles que fabricam produtos com ela. Assegurar esse metal permite sustentar uma parte do processo; controlar as tecnologias e os mercados permite aproveitá-lo em produtos de preço mais elevado. A disputa abrange tanto o acesso ao recurso quanto as atividades que o transformam em riqueza industrial.

Os contratos de fornecimento fixam condições por vários anos. As aquisições empresariais alteram a titularidade de vários ativos. Os investimentos em fabricação determinam onde surgem novos empregos e conhecimentos. Por essas vias, as decisões tomadas em torno da prata afetam a posição dos países latino-americanos na economia tecnológica.

A participação chinesa acrescenta interlocutores ao comércio regional, enquanto os Estados Unidos buscam conservar vínculos que abastecem suas indústrias. Para os produtores, essa competição abre oportunidades e pressões. O resultado depende dos termos de cada acordo e do lugar que o país ocupa no processo produtivo.

<><> O metal que sai e o conhecimento que fica

O salto entre extrair prata e fabricar componentes exige capacidades que se acumulam ao longo dos anos. Equipamentos, trabalhadores especializados, pesquisa e acesso a compradores fazem parte dessa construção. Quando essas atividades se concentram no exterior, o país minerador conserva uma participação limitada nos negócios que surgem depois da extração.

Também existe riqueza em torno da própria mina. Os fornecedores, os laboratórios e os serviços técnicos podem ampliar seu vínculo com a economia nacional. Seu desenvolvimento determina quanto trabalho adicional o recurso gera e quanto conhecimento fica disponível para outras atividades.

A discussão sobre os benefícios da prata alcança, portanto, a composição da economia. Um território que extrai e vende concentra suas receitas numa etapa. Outro que transforma materiais, fabrica equipamentos e comercializa serviços participa de várias. Essa diferença permite obter lucros mesmo sem possuir a jazida original.

A expansão digital torna essa distribuição mais visível. Os compradores de materiais buscam assegurar seu abastecimento; os fabricantes desenvolvem produtos; as empresas tecnológicas vendem seus serviços. A América Latina entra nesse circuito a partir de suas minas, com uma participação posterior que varia conforme as capacidades de cada país.

<><> Uma riqueza antiga em negócios novos

A prata mantém um mercado diverso, atravessado por usos industriais e financeiros. A inteligência artificial acrescenta um forte interesse pelo recurso, ao lado de outras atividades que empregam eletrônica e eletricidade. O futuro do metal se constrói nessa combinação de compradores, tecnologias e decisões empresariais.

Para a América Latina, o problema central é o lugar a partir do qual participa. A região fornece uma riqueza necessária para numerosas indústrias, mas a propriedade do subsolo não assegura uma parcela equivalente das receitas posteriores. O poder econômico cresce onde se reúnem produção, conhecimento e acesso a mercados.

A promessa de uma nova era tecnológica volta a passar por territórios que conhecem há séculos a saída de seus minerais. Mudam os equipamentos e os destinos da carga. A distribuição dos benefícios continua sendo uma questão política, inscrita em contratos, empresas e decisões sobre onde produzir.

A prata latino-americana participa da infraestrutura dessa transformação. Seu valor para a região está em quanto trabalho, conhecimento e renda acompanham o metal antes de cruzar a fronteira. Entre a mina e a tela há um negócio mundial; o lugar que a América Latina ocupa nele define quem aproveita sua riqueza.

¨      Desenvolvimento Verde China América Latina. Por Isis Paris Maia

A crise ecológica contemporânea e as possibilidades de construção da sustentabilidade constituem o tema central da obra Desenvolvimento Verde China América Latina, organizada por Guo Cunhai e Márcio Pochmann. Publicado em 2026 pela Chaohua Publishing House, o livro reúne pesquisadores chineses e latino-americanos em torno de uma agenda que articula desenvolvimento, sustentabilidade, inovação tecnológica, transição energética e cooperação entre países do Sul Global. No caso em tela, a América Latina possui recursos naturais estratégicos, biodiversidade e expressiva capacidade de geração de energia limpa, enquanto a China acumulou capacidades industriais, tecnológicas e financeiras decisivas para a transição verde. 

Após a acelerada industrialização e suas profundas contradições ambientais, a China vem promovendo uma transformação de seu modelo de desenvolvimento, cada vez mais ancorado na restauração ambiental e na sustentabilidade. A experiência chinesa é particularmente interessante por procurar superar a falsa dicotomia entre crescimento econômico e preservação ambiental, sem recorrer necessariamente ao decréscimo econômico ou à contenção das forças produtivas como resposta à crise ecológica. Em seu lugar, a categoria de Civilização Ecológica procura incorporar a sustentabilidade ao próprio processo de modernização, mobilizando planejamento estatal, inovação tecnológica, economia circular e reorganização das cadeias produtivas. Nesse paradigma, em lugar de serem concebidos como categorias antagônicas, desenvolvimento e sustentabilidade passam a ser compreendidos como dimensões articuladas, de modo que a expansão das capacidades produtivas, tecnológicas e estatais contribua para criar as condições materiais e institucionais necessárias à sustentabilidade. 

É nesse ponto que a obra organizada por Guo e Pochmann adquire especial relevância e originalidade. Mais do que apresentar a China como fornecedora de tecnologias verdes ou como investidora em projetos ambientais na América Latina, o livro permite compreender a cooperação verde como desdobramento de uma transformação mais ampla no próprio paradigma de desenvolvimento. A experiência chinesa aparece como uma possibilidade histórica de combinação entre prosperidade material, sustentabilidade e justiça social, sem pressupor que os países periféricos devam interromper sua industrialização para responder à crise ambiental. Ao

mesmo tempo, a obra não se limita a uma narrativa celebratória. Seus diferentes capítulos permitem identificar desafios relacionados à governança, à transferência tecnológica, ao financiamento, à soberania sobre recursos estratégicos e à construção de uma transição ambientalmente sustentável e socialmente justa. 

A diversidade temática dos capítulos constitui outra de suas qualidades. Zhu Xufeng e Li Yuanbo discutem o desenvolvimento sustentável na América Latina e Caribe no marco da Agenda 2030. Douglas de Castro analisa a dimensão ambiental da Iniciativa do Cinturão e Rota e suas novas possibilidades na região. Xing Wei examina a cooperação para o desenvolvimento verde a partir da Iniciativa de Desenvolvimento Global, enquanto Zhang Rui e Li Xiaoyu tratam da governança climática sino latino-americana. Gao Ge e Lin Yue concentram se na energia limpa, tema estratégico diante da transição energética mundial. 

O livro amplia ainda mais seu escopo com o capítulo de Marco A. Cabero Z sobre cultura científica, inovação e desenvolvimento sustentável, aproximando ciência, democratização do conhecimento e necessidades concretas da América Latina. José Gabriel Pérez Canencio, Mary Luz Ojeda Solarte e Jorge Enrique Guevara Bejarano analisam a experiência colombiana. Leila da Costa Ferreira, Fabiana Barbi Seleguim e Niklas Weins discutem a governança multinível das mudanças climáticas no Brasil. João Cumarú aborda o papel da China na transição energética brasileira. Wang Ning, Zhang Hongfu e Guo Peiyuan tratam das possibilidades de cooperação em finanças verdes, enquanto Wei Mingxin examina a dimensão comunicacional da transição verde e da cooperação sino-brasileira. 

Essa contribuição coloca em relevo, de maneira particularmente clara, a complementaridade da agenda ambiental e o potencial de cooperação entre América Latina e China. No nosso caso específico, deve-se sublinhar que o Brasil reúne biodiversidade, recursos minerais estratégicos, vastos territórios florestais e uma matriz energética com importante participação de fontes renováveis. E a China, por sua vez, dispõe de capacidades industriais, financeiras e tecnológicas em setores como energia solar, eólica, veículos elétricos, baterias e equipamentos associados à transição energética. O livro registra a presença crescente de empresas chinesas no setor energético brasileiro, com investimentos concentrados principalmente em fontes renováveis. Essa complementaridade converge ainda com os objetivos

brasileiros de reindustrialização presentes na Nova Indústria Brasil, particularmente em sua Missão 5, voltada à bioeconomia, à descarbonização e à transição e segurança energética para promover um desenvolvimento sustentável. 

Por fim, Desenvolvimento Verde China América Latina permite pensar a cooperação ambiental em diferentes arenas bilaterais e multilaterais. O Fórum China CELAC, a Iniciativa do Cinturão e Rota e sua vertente verde, assim como a Iniciativa de Desenvolvimento Global, oferecem plataformas institucionais para ampliar as relações Sul Sul em ciência, tecnologia, energia, financiamento e governança ambiental. A própria obra demonstra que essa cooperação passou progressivamente de formulações gerais para mecanismos e iniciativas concretas. 

Seu significado geopolítico é decisivo em um contexto internacional marcado por desigualdades históricas, crises ambientais, financeiras e energéticas e crescente contestação da ordem construída sob predominância dos Estados Unidos e de seus aliados. A aproximação entre China e América Latina pode contribuir para ampliar a autonomia do Sul Global por meio da construção de capacidades próprias de desenvolvimento, tecnologia e financiamento. Não se trata, portanto, de substituir uma dependência por outra, mas de ampliar as possibilidades de cooperação e de escolha. Nesse sentido, a obra organizada por Guo e Pochmann é particularmente oportuna ao mostrar que a transição ecológica pode constituir não apenas uma resposta à crise ambiental, mas também uma oportunidade histórica para fortalecer a cooperação Sul-Sul e construir alternativas às disfuncionalidades do sistema internacional contemporâneo. 

 

Fonte: Outras Palavras/Opera Mundi

 

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