José
Raimundo Sousa Ribeiro Junior: Segurança Alimentar - Fome e fascismo
A
trajetória da fome no Brasil nas últimas duas décadas evidencia que esse não é
um fenômeno natural nem inevitável, mas uma realidade socialmente produzida que
responde a projetos políticos concretos. Em 2004, durante o primeiro governo
Lula, 35,8 milhões de brasileiros estavam em situação de fome. Nove anos
depois, em meio ao primeiro governo Dilma, esse número havia caído praticamente
pela metade, isto é, para 17,5 milhões. Com Temer a trajetória se inverteu e a
fome voltou a crescer, alcançando 28,9 milhões em 2018, ou seja, mesmo antes da
crise sanitária da Covid. Com Bolsonaro e já em meio à pandemia, um surto de
fome se somou à fome crônica que pesa de forma constante e oculta sobre uma
parcela significativa da sociedade brasileira. Em 2022, 67,5 milhões de pessoas
foram submetidas à privação alimentar, de longe o maior patamar da série
histórica. A volta de Lula ao governo reverteu a tendência e, em 2024, a fome
caiu para 16,3 milhões, o menor nível já registrado no país. Em que pesem os
impactos da pandemia, aspecto que discuto adiante, essa trajetória expressa a
diferença entre um projeto político progressista, que reconhece a fome como um
problema a ser enfrentado, e projetos de caráter neoconservador, que tenderam a
negar sua existência enquanto intensificavam a sua produção.
A
privação de alimentos é socialmente produzida e estruturalmente articulada às
desigualdades de classe, raça e gênero. Trata-se de uma privação que corrói a
vida de uma parcela expressiva da população mesmo quando há alimentos
disponíveis. O gráfico acima distingue fome e risco de fome, mas as duas
categorias formam um contínuo. Sob o risco de fome, as pessoas passam a
conviver com a ansiedade, o estresse e o medo de que os alimentos acabem antes
que possam comprar mais. A preocupação com as próximas refeições se instala no
cotidiano e a qualidade da alimentação se deteriora. A fome propriamente dita
começa quando as pessoas passam a sentir as primeiras sensações físicas e
psíquicas provocadas pela privação de alimentos, e se aprofunda dependendo da
intensidade e duração dessa privação. Isso significa que, ao contrário do que
definições restritivas insistem em afirmar, ela começa muito antes da inanição
ou de diagnósticos clínicos ou nutricionais. Entendida como processo, a fome
compromete de maneira progressiva e interligada o corpo, a psique e os laços
sociais. Sua dimensão biológica não a reduz a um fenômeno natural. É essa
compreensão da fome como processo socialmente produzido que sustenta a análise.
Os
governos progressistas reduziram a fome, mas não foram capazes de erradicá-la.
Avanços reais, mensuráveis e sem precedentes na história recente de um país
marcado pela fome ocorreram em um contexto macroeconômico de altas taxas de
crescimento. Foram conquistados sobretudo pela melhor inserção dos
trabalhadores no mercado de trabalho, com destaque para a valorização do
salário mínimo, a maior estabilidade e a formalização, e complementados por
políticas públicas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos
(PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Ainda que os menores
níveis de fome tenham sido registrados em 2013 (8,7% da população) e 2024
(7,7%), ambos em gestões petistas, é preciso reconhecer que a fome e o risco de
fome juntos nunca caíram abaixo de um quarto da população. Esse é um limite da
perspectiva progressista, que não prioriza nem realiza reformas estruturais. É
uma abordagem que, na prática, não se efetiva sequer como reformista. Nesse
sentido, o horizonte dos governos progressistas é a gestão da fome. Trata-se de
um limite que, na maior parte das vezes, sequer é reconhecido como tal, porque
as transformações necessárias para superar a fome não cabem nesse horizonte
Essa
crítica, no entanto, não nivela os campos. A diferença entre progressistas e
neoconservadores é de natureza, não de grau. Apesar de seus limites
intrínsecos, o campo progressista busca enfrentar a fome e aposta em políticas
públicas e alguma regulação da economia para mitigá-la. Já o campo conservador,
que combina fundamentalismo de mercado e autoritarismo, tende a minimizar ou
até mesmo negar a existência da fome. Tratando-a como fenômeno excepcional,
comumente recorre ao viés moral e individualizante e desloca o debate sobre a
fome do terreno das relações sociais para o da responsabilidade individual. É
desse campo que emerge o fascismo, sobretudo quando a crise da reprodução do
capital ameaça a estabilidade da ordem social. O fascismo não supera as
contradições do capitalismo. Ele reorganiza as relações de dominação para
preservar os interesses de determinadas frações do capital. Nesse processo, a
fome deixa de ser apenas um produto da crise e pode converter-se também em
instrumento de dominação, mobilizando-a de forma mais intensa e aberta para
disciplinar, hierarquizar e descartar parcelas da população.
O
governo Bolsonaro representou a radicalização do campo neoconservador e fez do
fascismo política de Estado. Durante a pandemia, deixou que milhões de
brasileiros fossem submetidos à privação de alimentos. Nesse contexto, em 2022,
mais da metade da população brasileira estava submetida à fome (30,7%) ou ao
risco de fome (28%). Tamanha privação de alimentos constituiu uma das dimensões
do massacre social durante a pandemia. Cabe destacar que tanto a fome como o
risco de fome serviram como meio para impedir que milhões de pessoas pudessem
fazer o distanciamento social necessário, expondo-as ainda mais ao vírus e à
morte. O auxílio emergencial chegou tarde e, para muitas famílias, não foi
suficiente para garantir que as pessoas pudessem ficar em casa sem passar fome.
Programas como o Pnae e o PAA sofreram cortes profundos ou não foram
reajustados. Portanto, não se tratou de acidente ou omissão, mas de uma forma
de dominação que faz da fome um de seus mecanismos de governo. Essa forma de
governo, que se retira da proteção social, deixa a população à própria sorte e
trata a vida como descartável, é a face concreta do fascismo.
Se os
números revelam a extensão do massacre, as filas dos ossos e a crise
humanitária Yanomami explicitaram de que modo o fascismo mobiliza a fome e
determina quais vidas podem ser descartadas. As cenas de pessoas esperando por
ossos, aparas e restos que normalmente seriam descartados sintetizaram o que o
país havia se tornado durante a pandemia. Em um país que figura entre os
maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, as filas não eram
apenas a expressão do desespero de quem não encontrava alternativas para se
alimentar, mas a imagem de uma política que naturalizou o sofrimento
socialmente produzido pela privação de alimentos. Nas filas dos ossos não
estavam quaisquer pessoas. Compostas por trabalhadores precarizados ou
desempregados, em sua maioria negros, e com forte presença de mulheres, sobre
as quais recai a gestão da escassez dentro de casa, as filas revelavam que a
fome não se abate indistintamente sobre a população. Sua produção e seus
efeitos são atravessados pelas relações de classe, raça e gênero, que
determinam quem está mais exposto à privação e sobre quem recai o trabalho
cotidiano de enfrentá-la.
No caso
dos Yanomami, a fome tornou-se um dos meios pelos quais se ameaçou a própria
existência de um povo. O garimpo ilegal, atividade defendida e incentivada pelo
governo Bolsonaro como projeto de desenvolvimento, invadiu o território
Yanomami e comprometeu suas condições de reprodução da vida. Os garimpeiros
contaminaram os rios com mercúrio, afugentaram os animais de caça e abriram
crateras que favoreceram a proliferação dos mosquitos transmissores da malária,
privando os Yanomami das condições de caçar, pescar, coletar e plantar. A fome
que se seguiu, portanto, não pode ser entendida como efeito involuntário dessa
economia extrativista, mas como parte de um projeto mais amplo de
enfraquecimento da proteção dos territórios indígenas, vistos como obstáculos à
exploração dos recursos naturais neles existentes. A fome expressa, assim, a
subordinação das condições de reprodução da vida Yanomami aos interesses de
exploração econômica de seu território. O fascismo não apenas tolera a fome.
Ele a converte em instrumento de uma política de morte.
A
ascensão do fascismo não é um fenômeno nacional. Netanyahu utiliza o alimento
como arma de guerra para conduzir o genocídio em Gaza. Em 2024, toda a
população do território, cerca de 2,2 milhões de pessoas, enfrentava uma grave
crise de fome (famine). Para metade dela, a situação era ainda mais extrema:
1,1 milhão de pessoas estavam em condições de catástrofe alimentar, marcadas
pela privação extrema e pelo risco de desnutrição aguda e morte. Trump, por sua
vez, intensificou o bloqueio contra Cuba, agravando as restrições ao
abastecimento de combustível e dificultando a entrada de outras mercadorias
essenciais à vida da população. A situação alimentar dos cubanos se deteriora
gradativamente, e eles pagam com a fome o preço de resistir ao imperialismo. Não
se trata de personalizar o fascismo em Bolsonaro, Netanyahu ou Trump, mas de
reconhecer que esses projetos, embora situados em contextos distintos,
convergem em seus métodos de instrumentalização da fome. Se o fascismo é uma
forma de dominação capitalista que emerge quando a crise se aprofunda, a fome
revela-se como um de seus meios de impor a dominação.
O
segundo turno das eleições presidenciais coloca em disputa projetos distintos
para o país e, com eles, diferentes perspectivas para o enfrentamento da fome.
A reeleição de Lula abre a possibilidade de dar continuidade (e talvez ampliar)
as políticas de combate à fome e de proteção social, embora permaneça o desafio
de enfrentar as relações sociais que produzem e reproduzem a privação de
alimentos. A eleição de Flávio Bolsonaro, por sua vez, abre caminho para o
aprofundamento de um projeto que subordina ainda mais as condições de
reprodução da vida aos interesses da acumulação capitalista e pode converter a
fome em instrumento de dominação. A fome não decorre da incapacidade de a
sociedade produzir o necessário à vida, mas das relações sociais que determinam
como a riqueza é produzida, distribuída e apropriada. Em uma sociedade capaz de
produzir abundância, a persistência da privação alimentar expõe a contradição
de uma ordem que subordina a satisfação das necessidades humanas à reprodução
do capital. O fascismo leva essa contradição ao extremo quando transforma a
privação em instrumento de dominação.
• ELEIÇÕES 2026: Quem paga a conta quando
a política habitacional é interrompida? Por Raquel Ludermir
Cento e
oitenta e quatro anos. Sete gerações. É esse o tempo que uma mulher negra, mãe
solo e moradora de uma favela precisaria trabalhar para comprar uma casa,
enquanto sustenta sua família, paga aluguel e tenta poupar todos os meses. O
cálculo faz parte do estudo Sem moradia digna, não há justiça de gênero,
realizado pela Habitat para a Humanidade Brasil.
É um
número tão absurdo que poderia parecer ficção. Não é. Ele traduz, em anos de
vida, uma das maiores contradições brasileiras: moradia é um direito
constitucional, mas o acesso a ela continua determinado, em grande medida, pela
renda e pelo lugar onde se nasce.
E há
uma pergunta que esse número deveria provocar: o que acontece quando uma
política pública necessária para enfrentar esse problema é interrompida?
A
resposta não está apenas nos indicadores de habitação. Está no aluguel que
continua sendo pago, na obra que não termina, na família que permanece em uma
área de risco, na comunidade que espera infraestrutura e na renda que deixa de
circular nos territórios e na economia do país.
A
política habitacional costuma ser tratada como se pudesse ser reiniciada a cada
quatro anos. O problema habitacional não funciona assim.
A
experiência recente do Brasil deveria ser suficiente para mostrar isso. Entre
2019 e 2022, a política federal passou por mudanças institucionais e o Minha
Casa Minha Vida foi substituído pelo Programa Casa Verde e Amarela. Em 2021, os
recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), uma das principais fontes
de produção habitacional para famílias de menor renda, caíram de R$ 1,54 bilhão
para R$ 27 milhões. Isso significou concretamente uma interrupção da construção
de novas moradias para quem mais precisa.
A
partir de 2023, com a recriação do Ministério das Cidades, o Minha Casa Minha
Vida foi retomado, assim como obras paralisadas e novas contratações que haviam
sido suspensas. A estrutura federal dedicada às cidades também foi recomposta.
A agenda habitacional e urbana voltou a incorporar, com maior ênfase,
regularização fundiária, urbanização de periferias e melhoria de moradias
existentes, inclusive com a criação de uma Secretaria Nacional de Periferias.
Não é
preciso transformar essa comparação em uma disputa entre governos para
reconhecer o que ela revela: quando uma política pública é desmontada, sua
reconstrução também custa tempo. E, para quem espera por uma casa, tempo é um
recurso que não sobra.
Uma
moradia adequada não é apenas quatro paredes. É endereço, infraestrutura,
saneamento, acesso a transporte e serviços, segurança da posse e proteção
contra riscos. Em um país que já convive com eventos climáticos extremos,
também é proteção contra enchentes e deslizamentos.
Para
uma família que vive em uma área sujeita a inundações, por exemplo, investir em
drenagem ou urbanização não é uma agenda distante de “adaptação climática”. É
uma política de moradia. Para quem vive em uma encosta instável, contenção e
prevenção podem significar a diferença entre permanecer em casa e perder tudo.
É por
isso que o debate habitacional precisa escapar da lógica de inauguração de
unidades. Construir casas é fundamental, mas não basta. É preciso enfrentar
também a inadequação das moradias, a precariedade urbana, a insegurança da
posse e os riscos que tornam determinados territórios mais vulneráveis.
E tudo
isso exige continuidade.
É
perfeitamente legítimo que governos mudem prioridades, aperfeiçoem programas e
façam escolhas diferentes. O que não parece razoável é tratar cada mudança de
governo como uma oportunidade para começar do zero.
Políticas
de habitação têm um tempo próprio. Uma obra pode atravessar administrações. Uma
urbanização pode levar anos. Uma família pode esperar décadas. Um déficit
acumulado ao longo de décadas de omissão não desaparece porque mudou o governo.
Especialmente num país tão desigual como o Brasil, ele tende a crescer.
Por
isso, talvez a pergunta mais importante para o debate eleitoral não seja qual
governo construiu mais casas ou qual programa tem o melhor nome. É se somos
capazes de construir uma política habitacional que sobreviva aos governos.
Moradia
é um direito social. E direitos não deveriam depender da sorte de uma política
pública sobreviver ao próximo ciclo eleitoral.
Os 184
anos daquele cálculo são, nesse sentido, mais do que uma estatística. São um
alerta sobre o preço da ausência de políticas públicas capazes de reduzir
desigualdades em escala e no longo prazo para romper esse ciclo de gerações de
sem teto.
Para
uma mulher que precisaria de sete gerações para comprar a própria casa, esperar
mais quatro anos não é pouco. É uma parte da vida.
A
política pode mudar a cada eleição. A urgência de quem espera por uma moradia,
não.
Fonte:
Le Monde

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