Estudo
investiga relação entre saúde mental materna e desenvolvimento neurológico
infantil
Bebês
cujas mães receberam psicoterapia para tratar a depressão durante a gravidez
apresentaram diferenças no volume do hipocampo direito, estrutura cerebral
envolvida na memória e na regulação emocional. É o que revela um estudo
realizado por pesquisadores da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. A
pesquisa também identificou uma associação entre o menor volume dessa região e
indicadores de menor emotividade negativa aos seis meses de idade. Os
resultados ampliam as evidências sobre a relação entre saúde mental materna e
desenvolvimento neurológico infantil, mas não permitem estabelecer benefícios
duradouros.
A
investigação, publicada na revista científica Nature Communications, integra o
Care Project e acompanhou gestantes com sintomas depressivos elevados. Os
pesquisadores compararam dois grupos: um recebeu psicoterapia interpessoal
breve, enquanto o outro teve acesso ao acompanhamento obstétrico habitual
aprimorado, que incluía informações sobre depressão pré-natal e orientações
para buscar atendimento em saúde mental.
Segundo
o ginecologista e obstetra Domingos Mantelli, a depressão pré-natal
(gestacional) pode provocar tristeza persistente, ansiedade, desânimo,
alterações no sono, perda de interesse pelas atividades e dificuldade de criar
expectativas positivas em relação à maternidade. “O transtorno não afeta apenas
o bem-estar da gestante. Quando não tratada, pode comprometer o autocuidado e
aumentar o risco de complicações gestacionais.”
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Metodologia
Para
avaliar os possíveis efeitos das intervenções, os cientistas examinaram a
estrutura cerebral dos bebês por meio de ressonância magnética realizada após o
nascimento. Além do hipocampo, analisaram a amígdala, região associada ao
processamento das emoções. As diferenças entre os grupos foram identificadas
apenas no hipocampo direito. De acordo com a pesquisa, não houve variações
significativas no volume do hipocampo esquerdo nem das amígdalas.
Aos
seis meses, os bebês com menor volume do hipocampo direito também apresentaram
índices mais baixos de emotividade negativa, característica relacionada à
intensidade das reações emocionais diante de estímulos e situações cotidianas.
A associação, contudo, não significa que a alteração cerebral provoque
diretamente essas respostas nem que represente, necessariamente, uma vantagem
para o desenvolvimento.
A
intervenção psicoterapêutica compreendeu oito sessões semanais, com duração de
50 minutos cada. A terapia interpessoal busca auxiliar as pacientes a enfrentar
conflitos nos relacionamentos, situações de estresse e dificuldades emocionais.
A abordagem também procura fortalecer as redes de apoio social, que podem
oferecer suporte à gestante durante esse período, diz o estudo.
"A
psicoterapia é um espaço de acolhimento e cuidado em saúde mental, que
possibilita à mulher compreender suas emoções, identificar situações que podem
estar relacionadas ao seu sofrimento e desenvolver estratégias para lidar com
elas”, explica a psicóloga Materno-infantil e psicopedagoga Lorranny Cristina.
Segundo
ela, existem diferentes abordagens que apresentam evidências científicas para o
tratamento da depressão, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a
Psicoterapia Interpessoal (TIP), que foi a abordagem utilizada no estudo. Lorranny afirma que a TIP trabalha questões
relacionadas aos relacionamentos, aos conflitos interpessoais, às mudanças de
papéis sociais e à rede de apoio. “Esses aspectos podem ganhar novos
significados durante a transição para a maternidade e ser importantes no
cuidado à saúde mental da mulher.”
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Inovação
De
acordo com os autores, o trabalho é o primeiro ensaio clínico randomizado e
controlado a investigar os efeitos de uma intervenção psicoterapêutica para
depressão pré-natal sobre a estrutura cerebral dos bebês. Nesse modelo de
pesquisa, as participantes são distribuídas aleatoriamente entre grupos,
permitindo comparar os resultados e avaliar com maior rigor os possíveis
efeitos da intervenção.
Estudos
anteriores já haviam relacionado a depressão durante a gravidez a alterações no
desenvolvimento emocional e comportamental infantil. Grande parte dessas
pesquisas, porém, tinha caráter observacional, ou seja, identificava
associações sem avaliar diretamente os efeitos de um tratamento. A investigação
atual acrescenta evidências experimentais ao examinar se o cuidado psicológico
oferecido durante a gestação está relacionado a diferenças mensuráveis na
anatomia cerebral dos recém-nascidos.
Para a
psicóloga e gerente de Saúde Mental da Teladoc Health, Daniela Quirino, esses
resultados reforçam a necessidade de incluir a avaliação da saúde mental no
acompanhamento pré-natal, permitindo a identificação precoce de sintomas e o
encaminhamento para assistência especializada. “É fundamental compreender que o
cuidado integral à gestante deve contemplar não apenas sua saúde física e o
desenvolvimento do bebê, mas também seu bem-estar psicológico.”
Apesar
disso, os pesquisadores destacam que ainda não é possível determinar se as
diferenças identificadas persistem ao longo da infância ou se estão associadas
a vantagens cognitivas, emocionais ou comportamentais em fases posteriores da
vida. Estudos longitudinais, que acompanham as mesmas crianças durante períodos
prolongados, serão necessários para esclarecer essas questões.
Palavra
de especialista - Lorranny Cristina Ribeiro Alves, psicóloga materno-infantil
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Processos psicológicos
Durante
a gestação, a mulher passa por diversos processos psicológicos que envolvem as
mudanças que estão acontecendo e a preparação para se tornar mãe. É um período
que pode mobilizar questões relacionadas à autoestima, à mãe que ela deseja
ser, às expectativas em relação à maternidade, aos medos, às inseguranças e às
mudanças nos relacionamentos. Quando essa transição é vivenciada em meio à
depressão, esses processos podem se tornar ainda mais difíceis e gerar um
sofrimento significativo. Nesse contexto, a psicoterapia oferece um espaço
seguro para que essa mulher consiga elaborar suas experiências, compreender o
que está sentindo e construir recursos para lidar com as dificuldades. No
tratamento da depressão gestacional, ela pode ajudar a mulher a reconhecer seus
sentimentos, identificar situações que contribuem para seu sofrimento e
desenvolver estratégias para lidar com os sintomas depressivos e com as
dificuldades do dia a dia. É importante que o tratamento seja baseado em
evidências científicas e considere as necessidades de cada mulher, para que as
intervenções sejam adequadas às suas demandas. Estudos como esse contribuem
para ampliar a compreensão sobre a relação entre a saúde mental materna e o
desenvolvimento infantil. Embora os resultados ainda precisem ser investigados
em estudos de longo prazo, eles reforçam a relevância de ampliar o olhar para o
tratamento da depressão durante a gestação.
Fonte:
Correio Braziliense

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