segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Paulo Nogueira Batista Jr.: Nosso papel na eleição

Este é provavelmente o último artigo que escreverei antes do segundo turno da eleição presidencial. É, repito, a eleição mais arriscada das nossas vidas. Já tentei explicar por que em artigos e entrevistas anteriores.

Hoje, queria fazer algo diferente – falar do papel de cada um de nós na eleição. Quem somos “nós”? Acredito que a maioria esmagadora dos que estão lendo este artigo seja de esquerda ou centro-esquerda. E que a maioria vote em Lula. É com vocês que quero conversar hoje.

Um parêntese: se houver, por um acaso, um bolsonarista arraigado perdido por esta página, peço gentilmente que se retire. Trata-se de uma conversa estritamente particular.

Continuo. As pessoas que costumam me ler estão conscientes do desastre que representaria uma vitória de Flávio Bolsonaro e a volta da extrema-direita ao comando do Executivo, especialmente depois do Congresso que resultou do primeiro turno. O risco é multidimensional – o bolsonarismo ameaça a soberania nacional, a democracia e o povo brasileiro.

<><> Sob um eventual governo Flávio Bolsonaro, quem paga a conta do ajuste fiscal?

Antes de falar do nosso papel na última semana da campanha, gostaria de abordar os efeitos sociais nocivos de certas políticas que serão provavelmente adotas em caso da volta do bolsonarismo à Presidência.

Pode-se presumir que o ajuste fiscal programado pelas forças que apoiam Flávio Bolsonaro recairá principalmente, talvez exclusivamente, sobre os pobres e a classe média baixa. O corte de gastos atingirá, tudo indica, os programas sociais, a educação e a saúde. Acabará a política de aumento real do salário mínimo. As pensões e aposentadorias serão desvinculadas do salário mínimo e podem sofrer redução em termos reais.

O candidato não explicita esses pontos no seu programa de governo e até nega que recorrerá a esse tipo de medida. Mas quem acredita nas palavras de um mentiroso contumaz? Os seus assessores econômicos falam, por exemplo, em economizar com medidas como a diminuição do número de ministérios, reforma administrativa e cortes nos supersalários.

Ainda que defensáveis, essas providências não serão nem remotamente suficientes para alcançar o resultado global que tem sido anunciado pela equipe bolsonarista, algo como 1,5% do PIB ou R$ 200 bilhões nos primeiros 12 ou 18 meses do governo. Para alcançar esse resultado, um eventual governo Flávio Bolsonaro teria que recorrer às medidas mencionadas no parágrafo anterior, uma vez que certamente não tocará nas rendas e privilégios dos ricos e super-ricos, nem nas emendas parlamentares.

O impacto perverso do ajuste fiscal planejado decorre do fato de que a redução do déficit público virá pelos cortes na área social, isto é, dos gastos que beneficiam sobretudo os pobres e a classe média baixa. Já os ricos e super-ricos continuarão no bem-bom, beneficiando-se de juros extravagantes – o paraíso dos rentistas – e contribuindo relativamente pouco para o pagamento dos tributos – o paraíso fiscal dos ricos e super ricos. Ou seja: com Flávio Bolsonaro virá um ajuste regressivo que trará mais concentração da renda e da riqueza no Brasil.

<><> O impacto recessivo de um ajuste fiscal drástico

Mas há um agravante. Tudo indica que o “tesouraço” prometido por Flávio Bolsonaro provocará também uma recessão na economia brasileira, aumentando o desemprego e atingindo, também por essa via, os trabalhadores do país. E reparem que os economistas ligados ao mercado financeiro já estão dizendo que um ajuste de 1,5% do PIB não será suficiente. Querem um ajustamento fiscal ainda mais drástico.

Os defensores desse tipo de ajustamento alegam que o impacto recessivo seria pequeno ou inexistente. O argumento teórico, muitas vezes desmentido na prática, é que um choque fiscal restabeleceria a confiança nas contas públicas e no país, levando a uma diminuição imediata das taxas de juro.

A queda nos juros estimularia o consumo e o investimento do setor privado, compensando ou anulando o efeito do choque fiscal em termos de contração da demanda. É a chamada “fada da confiança”. Alguns economistas mais extremados chegam a sustentar que essa fada é tão poderosa que um choque fiscal seria expansionista em termos de atividade econômica, e não recessivo.

A experiência não confirma essas teorizações. Os juros podem até cair com o choque fiscal, mas a queda será provavelmente insuficiente para compensar o efeito recessivo do corte de gastos – inclusive porque esses cortes reduzirão a renda dos mais pobres que têm elevada propensão marginal a consumir.

O que ensina a evidência empírica de muitos países? Dois pontos: (i) a  relação de causalidade do déficit público para os juros é tênue e incerta; mas (ii) o  que é líquida e certa é a relação de causalidade oposta – dos juros para o déficit público. Quando a dívida governamental é elevada e de prazo relativamente curto, como no caso do Brasil, a correlação entre juros e déficit é muito alta.

Nessas condições, a correlação corresponde a uma relação de causalidade dos juros para o déficit. Qualquer variação mais expressiva da taxa de juro e, portanto, do custo da dívida pública provoca efeito de grande magnitude sobre o déficit e a dívida. Se a turma da bufunfa quisesse realmente reduzir o “risco fiscal”, apoiaria uma diminuição da taxa de juro por meio de um abrandamento da política monetária do Banco Central.

Portanto, um ajustamento drástico das contas do governo, à la Javier Milei, levaria provavelmente a uma recessão. Tanto mais que a economia já está em desaceleração em 2026 por força dos juros muito altos praticados pelo Banco Central no governo Lula 3. A combinação de política monetária restritiva com um choque fiscal derrubaria a atividade econômica, geraria desemprego e redução dos salários.

Em resumo, o “tesouraço” proclamado por Flávio Bolsonaro atingirá os programas sociais de que se beneficiam os brasileiros de menor renda e será recessivo, provocando desemprego e queda de salários e prejudicando, também assim, o povo brasileiro.

 <><> O que fazer?

Com as grandes manifestações pró-Lula que vêm ocorrendo nas ruas do Brasil, parece claro que a eleição não está perdida. Cabe agora a cada um de nós dar a sua pequena contribuição, dentro dos nossos limites pessoais, para assegurar a vitória. Não é pelo Lula, vejam bem, mas pelo Brasil e pelo povo brasileiro. Lula é um instrumento, o único que temos agora, para evitar que nosso país caia no abismo bolsonarista.

O que podemos fazer? Algumas coisas. Primeiro, participar das manifestações que acontecerão até o segundo turno. Tomar conta das ruas fortalece a candidatura de Lula e constitui, além disso, um aviso à turma da bufunfa e aos donos do poder. É como se disséssemos:  “Membros da elite predatória, vejam bem a crise social e política que vocês estão contratando ao apoiar Flávio Bolsonaro”.

Lula é um fator de moderação e equilíbrio. Um governo bolsonarista suscitará uma grande confrontação no país, ameaçando até mesmo a casta de privilegiados que dão as cartas no Brasil.

Segunda tarefa nossa: intensificar a ação nas redes sociais. As big techs são basicamente contra nós, mas podemos mesmo assim causar impacto e reduzir a hegemonia da extrema direita nesse campo. Muitos jovens de esquerda, com forte presença digital, foram eleitos para o parlamento e constituem exemplos de como se pode prevalecer, mesmo com o viés de plataformas digitais como Meta, Youtube, TikTok e X.

Terceira tarefa, não menos (talvez mais) importante, é o corpo-a-corpo nas interações pessoais com eleitores incautos de Flávio Bolsonaro, com os indecisos ou com aqueles que não votaram no primeiro turno. Nas redes sociais, excetuados os que têm muitos seguidores, falamos basicamente com a nossa bolha e pregamos para convertidos.

A gente se incentiva mutuamente, mas não ganha muito voto. O que importa é sensibilizar os que estão em cima do muro e mesmo alguns eleitores desavisados de Flávio Bolsonaro. Muitos brasileiros mais pobres votaram nele e estarão entre as vítimas do ajuste fiscal que ele planeja.

Por estes e muitos outros motivos, devemos explicar aos eleitores não-radicais de Flávio Bolsonaro, aos vacilantes ou àqueles que querem se abster que porque não se deve de ficar neutro e, muito menos, de votar pela volta do bolsonarismo. Precisamos deixar claro aos que pretendem votar nulo ou deixar de votar que eles também serão responsáveis pelo desastre de uma eventual vitória bolsonarista.

Portanto, mãos à obra. É guerra! Os próximos dias serão decisivos para o futuro do nosso país, das nossas famílias e dos nossos filhos e netos. Vamos deixar de lado tudo que puder ser adiado e concentrar esforços em trazer votos para Lula.

¨      Votos dos homens não brancos. Por Amarildo Ferreira Júnior

No início dos anos 2000, Evelina Dagnino (2004) foi assertiva ao chamar atenção para a existência de uma confluência perversa na política nacional brasileira. Por um lado, a existência de um projeto neoliberal e, por outro, um projeto democratizante-participativo. Apesar de apontarem para direções opostas e, em alguns casos, antagônicas, ambos os projetos requerem uma sociedade civil ativa e propositiva (Dagnino, 2004).

Para esta autora, a perversidade desta confluência caracteriza-se pelas consequências dessa configuração política contrariarem sua aparência e por seus efeitos nem serem imediatamente evidentes, nem se revelarem semelhantes ao que se poderia esperar em um contexto histórico de redemocratização da vida política do país.

Mais de duas décadas após a crítica de Evelina Dagnino, a crise instaurada por essa confluência perversa se agudizou. E isso ocorreu ainda que o campo democratizante-participativo tenha sido capaz de produzir diversos caminhos civilizacionais para a interrupção das catástrofes e barbáries na história do Brasil.

As cotas e políticas afirmativas nas universidades públicas são um caso exemplar desses caminhos construídos com a imaginação popular para garantir a participação social efetiva e o reconhecimento das lacunas históricas a serem superadas no tratamento estruturante às demandas do povo brasileiro.

A experiência contemporânea da vida política brasileira encontra-se marcada por uma renhida disputa político-cultural. As ideias de cidadania, democracia, liberdade, participação e sociedade civil são diuturnamente violadas. Essa contínua violação é cinicamente legitimada pela escalada de deslocamentos de sentidos, em que defender a liberdade passa a significar a garantia de inexistência de responsabilização por atos de violência simbólica e física.

Os partidários e simpatizantes visam consolidar um regime liberal autoritário cuja experiência social caracteriza-se pela corrupção facionária, a degradação institucional, a securitização e a violência extrema.

Em meados de setembro deste ano, o Governo Federal iniciou a consulta pública para o 2º. Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Planapir). Esta consulta apresenta 16 eixos temáticos. Entre eles, identificamos, em conjunto com diferentes pesquisadores(as) e militantes, identificamos que não há a contemplação de um eixo que trate de “homens negros e masculinidades”.

Por um lado, esta omissão dá continuidade ao apagamento desse grupo social nas políticas públicas brasileiras; por outro, também se relaciona com a trajetória dos votos eleitorais no país. Agregadas, as pesquisas de intenção de votos demonstram que, demograficamente, Flávio Bolsonaro possui uma maioria absoluta de votos entre homens, enquanto Lula obtém maioria absoluta, mas com margem reduzida, de preferência entre as mulheres.

O sociólogo Henrique Restier (2026) propôs analisar a perda de adesão do eleitorado masculino à esquerda. Sua análise se detém nos homens negros, grupo para o qual Henrique Restier identifica uma incapacidade da esquerda oferecer “reconhecimento, oportunidades e propósito para os esforços empreendidos por estes homens na busca pelo seu sustento, de suas famílias e comunidades”.

Ao longo da história do povo brasileiro, os meninos e os homens pretos, pardos e indígenas constituem segmento sistematicamente invisibilizado em diversas políticas públicas. Por conta disso, desde o anúncio da consulta pública ao 2º. Planapir, temos solicitado à sua coordenação a incorporação de meninos, jovens e homens negros cis e transgêneros e de qualquer orientação sexual com um eixo do Plano. Afinal, permitir o reconhecimento da pluralidade das masculinidades negras e indígenas é necessário para produção específicas que enfrentam as desigualdades que os atingem de forma particular.

Os dados sobre a realidade dos homens negros no Brasil são alarmantes e evidenciam a urgência desse tratamento específico. Os homens negros possuem a menor expectativa de vida (68,65 anos) em comparação com mulheres brancas, mulheres negras e homens brancos, nesta ordem, e abaixo da média nacional, registrada, em 2024, em 76,6 anos pelo IBGE.

Apesar de, segundo o Censo Demográfico 2022, a proporção da população negra com ensino superior completo no Brasil ter quintuplicado entre 2000 e 2022, números analisados pelo Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra) mostram que os homens negros estão atrás de mulheres brancas, homens brancos e mulheres negras, também nesta ordem, no percentual de conclusão da universidade (11,2%). Em relação aos homens brancos, foram registrados 14,7 pontos percentuais de diferença, o que agravou a disparidade entre esses dois grupos desde 2012.

O baixo nível de escolaridade acumulado por homens negros gera um impacto devastador no seu nível de renda, consolidando um abismo financeiro em relação aos homens brancos e barreiras de promoção na carreira que os afetam mesmo quando superam as estatísticas e se formam no ensino superior. Segundo dados do Boletim sobre a Desigualdade Racial no Mercado de Trabalho (2024), publicado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, enquanto os homens brancos recebem em média R$ 22,86 por hora trabalhada, homens não brancos, o que inclui pretos, pardos e indígenas, recebem aproximadamente 40% a menos desse valor (R$ 13,45 por hora).

Homens negros e indígenas também possuem menos acesso a direitos trabalhistas devido à informalidade; enfrentam discriminação direta em processos de promoção para cargos de chefia; e são a maioria entre os resgatados de trabalho escravo, concentrado principalmente em homens jovens entre 18 e 24 anos. Considerando o mundo do trabalho na era digital, o IBGE informa que 53,8% dos trabalhadores plataformizados são homens negros, e 71,1% atuam na informalidade.

No dia 25/9, o presidente Lula assinou uma Medida Provisória que extinguiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no país, atividades realizadas pelas chamadas bets. Os dados disponíveis demonstram que é a população negra e de baixa renda que sofre os maiores impactos do endividamento resultante das apostas online no Brasil. São os homens pretos e pardos que constituem essa maioria.

Esses dados demonstram que a redução dos homens negros e indígenas a papeis produtivos subalternos persiste no Brasil. Essa configuração tende a reproduzir continuamente o ciclo de informalidade da população negra de forma geral e o desamparo de um contingente considerável de homens na vida adulta e na velhice. A soma desses fatores produz efeitos deletérios em toda a população brasileira e se reflete na destinação de votos.

O relatório “Envelhecimento e desigualdades raciais”, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), indica que, em São Paulo, o maior pólo industrial, financeiro e tecnológico do país, a dificuldade dos homens brancos para pagar suas contas mensais diminui com o avanço da idade. Enquanto 21% dos homens brancos com 80 anos ou mais afirmam ter adversidades no fechamento do mês, esse índice alcança assustadores 73% entre os homens negros.

São amplamente conhecidos os dados que indicam que os homens pretos e pardos jovens são as principais vítimas fatais da violência urbana. Quando esses mesmos homens conseguem cruzar a linha dos 30 anos, eles possuem os piores indicadores de saúde na maioria dos recortes epidemiológicos do Brasil, em especial para as doenças crônicas não transmissíveis e para agravos de saúde mental. Sendo os que mais morrem e os que menos e pior vivem na sociedade brasileira, os homens pretos e pardos também compõem a maioria da população carcerária do país.

Não sendo público das políticas de amparo social como sujeito coletivo, resta a estes meninos e homens brasileiros a condição de alvo do controle punitivo do Estado, conforme comprovam os fatos históricos que sobre eles recaíram, como as leis de repressão à vadiagem e à capoeira, além dos diferentes dados contemporâneos que os apresentam com os piores índices na maioria das dimensões da vida social, econômica e política do país.

A sociedade brasileira historicamente não fala e não formula políticas públicas de amparo social para meninos e homens pretos, pardos e indígenas. A constatação desse desenho é reforçada na inexistência do eixo “Homens Negros e Masculinidades” na consulta pública do 2º Planapir. Enquanto instrumento estruturante de gestão de políticas públicas, é fundamental a inclusão desse eixo no Plano para permitir o acolhimento de proposições que tenham efeitos legais, sociais e econômicos sobre um contingente significativo de meninos e homens jovens, adultos e idosos que precisam de políticas específicas.

Recorro, novamente, à maioria absoluta de preferência do eleitorado brasileiro masculino por Flávio Bolsonaro. Se considerarmos que, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) analisados pelo Cedra, enquanto os homens brancos são 20,34% da população brasileira, os homens não brancos são 28,12% do povo brasileiro.

É possível supor, portanto, que a margem para aumento de votos de Lula entre o eleitorado masculino é maior entre os homens pretos, pardos e indígenas do que entre os homens brancos, seja pelo tamanho de cada contingente, seja pelas diferenças sociais e simbólicas entre cada grupo.

Considerar esse grupo social como sujeito coletivo de forma assertiva e tempestiva abre outras frentes para uma virada eleitoral e oferece a oportunidade democrática para que toda a sociedade civil possa contribuir com a estruturação e elaboração de políticas públicas importantes ao conjunto da população brasileira. Neste segundo turno, Lula é a única e melhor alternativa para que essa frente de criação política e social ainda seja possível.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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