Naza,
um relato sobre a banalidade do mal e a urgência da dessionização do
território palestino
Em Tel
Aviv, alguém prepara uma refeição. Uma televisão permanece ligada, os carros
atravessam a cidade, uma criança é colocada para dormir. Cenas do cotidiano, da
vida acontecendo nos edifícios da capital econômica de Israel. Nos
terraços destes mesmos edifícios, homens e mulheres contam como participaram da
destruição de outras casas, em Gaza, onde também havia crianças, televisões e
pessoas esperando o jantar. É desse encontro terrível entre o que se vê e o que
se ouve que Naza, de Yuval Abraham e Rachel Szor, retira boa parte de
sua força. A vida segue em Tel Aviv. E a facilidade com que pode seguir,
enquanto a algumas dezenas de quilômetros famílias inteiras são assassinadas,
torna-se uma das questões mais perturbadoras deste documentário que revela uma
sociedade vivendo na zona de interesse.
Filmados
à noite, com rostos e vozes protegidos, 24 integrantes das forças militares e
da inteligência israelense descrevem procedimentos de vigilância, seleção de
alvos e autorização de ataques contra Gaza. O título vem de nezek agavi,
expressão hebraica para “dano colateral”, que na linguagem dos operadores são
pessoas cuja morte é prevista antes de um bombardeio. Elas não são mais
pessoas; tornam-se uma quantidade de “naza”. Essa contabilidade antecede os
cadáveres. O filme registra o trabalho necessário para produzi-los, as
permissões que o tornam executável e as justificativas com que seus agentes
voltam para casa. Seu valor como documento histórico está, desde aí, na
possibilidade de acompanhar a violência sendo organizada por aqueles que
conhecem bem seus procedimentos, já que os executam.
Assisto
Naza e vem à mente Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt
(1963), sobretudo pela relação entre linguagem, julgamento e responsabilidade.
Ao acompanhar o julgamento, em 1961, do funcionário nazista encarregado pelo
planejamento e operacionalização da chamada “solução final”, Arendt encontrou uma
desproporção assombrosa entre a enormidade dos crimes e a pobreza das fórmulas
com que ele explicava sua atuação. A banalidade dizia respeito a essa maneira
de agir e pensar, incapaz de considerar a posição do outro, sem diminuir a
gravidade do que se havia feito. No filme, impressiona a desenvoltura com que
conhecimentos sofisticados convivem com uma compreensão moral tão estreita da
própria atividade. Aqueles agentes israelenses sabem fazer cálculos, operar
sistemas, interpretar informações. O que deixam de sustentar é a pergunta sobre
o direito de fazer aquilo. Arendt examina as regras de linguagem que permitiam
aos funcionários nazistas conhecer o extermínio sem associá-lo às palavras
pelas quais reconheciam um assassinato. O vocabulário de Naza cumpre uma
função que podemos ler nessa chave. A criança continua ali, mas aparece no
cálculo sob uma designação que dispensa imaginar sua vida. Há uma distância
fabricada dentro da própria frase.
Quando
um entrevistado diz que, se questionassem o que faziam, o sistema desmoronaria,
ele revela o trabalho político exigido para conservar essa distância. Outro
oferece uma justificativa familiar: “Se não fosse eu fazendo isso, seria outra
pessoa”. A possibilidade de substituição é apresentada como dispensa de
responsabilidade, embora confirme que houve alguém disponível para realizar a
tarefa.
Também
merece atenção a passagem em que Arendt descreve o alívio de Eichmann diante da
adesão das autoridades reunidas em Wannsee: a aprovação da sociedade
respeitável autorizava sua consciência. Em Naza, a confiança na
hierarquia, nos especialistas e nos procedimentos oferece uma proteção
semelhante ao julgamento de quem executa. Tudo recebeu uma autorização;
portanto, cada um pode se ocupar de sua parte. Essa divisão faz o crime
atravessar muitas mãos, e cada uma delas procura entregá-lo à seguinte. A responsabilidade,
porém, precisa percorrer o caminho inverso, reconstruindo quem decidiu, quem
autorizou e quem realizou.
Há
ainda algo que excede a imagem do funcionário indiferente. O intelectual
palestino Abdaljawad Omar, em sua crítica ao filme, chama atenção para a
satisfação de alguns entrevistados com o poder que exerciam. Ele encontra uma
inflexão no conhecido modelo israelense de “atirar e chorar”: aparecem o prazer
da operação bem-sucedida e a perda daquele poder quando o serviço termina. Essa
observação deve acompanhar a leitura arendtiana. A rotina pode conviver com
entusiasmo, racismo e orgulho profissional. A morte administrada não deixa de
ter desejos por trás dela. É justamente por conservar essas diferenças, sem
oferecer a todos um mesmo roteiro de arrependimento, que Naza consegue
ser tão incômodo.
Os
aspectos formais do filme sustentam as ambivalências. As entrevistas acontecem
no alto dos edifícios, contra uma cidade iluminada, e a câmera observa pelas
janelas a continuidade da vida doméstica. A noite protege as fontes, mas também
permite ver a sociedade que abriga seus relatos. A ausência de trilha musical
entrega a cena às vozes, às pausas e aos sons da cidade. O cotidiano entra
pelos ouvidos com uma indiferença que nenhuma música precisaria acentuar.
Enquanto escutamos a descrição de uma família atingida, vemos a intimidade
preservada de outra. Os diretores nos fazem permanecer nessa simultaneidade,
sem o alívio de uma emoção previamente conduzida. Os prédios em construção de
Tel Aviv, intercalados com os relatos da destruição de Gaza, dão espessura
material a essa relação. De um lado, novas moradias projetam vidas futuras; do
outro, a destruição das casas impede o retorno. Os terraços de onde se fala se
opõem, nessa geografia do filme, à vida palestina empurrada para baixo das
lajes, aos corpos soterrados, aos sobreviventes procurados entre ruínas. A
verticalidade tem uma distribuição política. A cidade que cresce pode continuar
a reconhecer-se como lugar de progresso enquanto participa da eliminação das
condições de existência de outra população. O florescimento de uma vida aparece
protegido da obrigação de responder pela devastação da outra.
A
inteligência artificial amplia a escala dessa administração. Lavender, o
sistema de inteligência artificial investigado pelo próprio diretor do
documentário, Abraham Yuval, na +972 e no Local Call em 2024,
classificava palestinos como suspeitos de vínculo com organizações armadas.
Segundo as fontes da reportagem, o sistema chegou a assinalar cerca de 37 mil
pessoas, com verificações humanas de apenas vinte segundos. Eram suspeitos
produzidos por um procedimento de classificação, sem que isso comprovasse a
condição de combatente de cada pessoa. O intervalo entre uma recomendação e um
ataque torna-se tão curto que a revisão corre o risco de funcionar apenas como
um carimbo. A responsabilidade humana permanece na definição dos critérios, na
aceitação dos resultados e na decisão de transformar uma indicação em sentença
de morte.
Já o
sistema chamado Where’s Daddy? (onde está o papai?), também apresentado
na voz dos depoentes genocidas do documentário, acrescenta uma perversidade a
esse processo: a volta de alguém à casa da família pode produzir o alerta para
um ataque. Os relatos incluem a escuta de telefones e o acesso à intimidade
doméstica. Um agente pode saber que há crianças, reconhecer conversas, ouvir a
vida acontecendo e autorizar sua destruição. A distância tecnológica convive,
portanto, com uma proximidade invasiva. Aquelas pessoas são suficientemente
conhecidas para serem localizadas, mas seus vínculos não lhes conferem
proteção. Na entrevista à NPR, Rachel Szor destaca precisamente o quanto os
operadores sabiam sobre as famílias que seriam bombardeadas. Yuval recorda ainda
o depoimento sobre incendiar casas e destruir seus álbuns e cadernos:
apagavam-se as marcas de quem vivera ali. A técnica organiza uma forma de
conhecimento da qual se procura retirar toda obrigação diante do conhecido.
É nesse
ponto que a expressão “efeito colateral” precisa enfrentar o que pretende
encobrir. Prever mortes civis, nos níveis macabros em que são descritas e
normalizadas, demonstra a intenção específica exigida para caracterizar
genocídio. A questão envolve os alvos, os meios empregados, as precauções, os
padrões de destruição e os objetivos políticos. Um dos oficiais ouvidos resume
sua compreensão da missão: “Você entende que o objetivo é destruir”. Em Naza,
a repetição dos procedimentos torna insuficiente a explicação de um acidente ou
de um excesso localizado. A casa palestina se torna unidade recorrente de
ataque e a população perde os meios de permanecer no território. É necessário
examinar a finalidade do conjunto, em vez de aceitar que cada família morta
seja isolada da seguinte por um novo cálculo.
A noção
de genocídio por atrição permite compreender essa destruição continuada das
condições que permitem a um povo sobreviver: água, alimento, abrigo, cuidados
médicos. Ela se combina com a morte imediata provocada pelos bombardeios. A
Convenção de 1948 inclui a imposição deliberada de condições de vida destinadas
à destruição física, total ou parcial, de um grupo, quando presente a intenção
de destruí-lo enquanto tal. Foi examinando atos e intenção que a Comissão
Internacional Independente de Inquérito da ONU concluiu, em setembro de 2025,
que Israel cometeu genocídio em Gaza. O filme acrescenta relatos internos a
esse conhecimento. A supressão de uma casa alcança também a possibilidade de
recomeçar nela. Destruir o lugar a que alguém poderia voltar prolonga a
violência para além do instante da explosão.
Os
depoimentos também dificultam a tentativa de atribuir tudo a Netanyahu e aos
setores mais ostensivamente fascistas de seu governo. Como observa Sebastian
Ben Daniel, estão sob exame integrantes das unidades prestigiosas, ligados ao
universo educado e tecnológico que a sociedade israelense costuma apresentar
como sua face liberal. Há uma base social para essa violência. Em pesquisa do
Pew realizada em 2024, apenas 4% dos judeus israelenses entrevistados
consideravam que a resposta militar havia ido longe demais, diante de 74% entre
os cidadãos classificados pelo instituto como árabes israelenses (palestinos
que vivem em Israel). Esses números mostram uma enorme desigualdade na
disposição de reconhecer o excesso, que depende, curiosamente, do pertencimento
identitário de cada entrevistado. A normalidade filmada em Tel Aviv tem
instituições e convicções que ajudam a sustentá-la. A ocupação e a despossessão
palestina atravessam governos; sua continuidade não se explica pelo
temperamento de um primeiro-ministro, por pior e grotesco que seja.
Essa
cadeia de decisões se estende para além de Israel. Segundo levantamento do
projeto Costs of War, da Universidade Brown, e do Quincy Institute, os
Estados Unidos destinaram ao menos US$ 21,7 bilhões à ajuda militar a Israel
entre outubro de 2023 e setembro de 2025. Essa continuidade material precisa
entrar na discussão sobre a posição internacional diante do genocídio. A
iniciativa da África do Sul na Corte Internacional de Justiça e as mobilizações
pela Palestina enfrentam uma ordem em que governos podem reconhecer o
sofrimento e, ao mesmo tempo, continuar fornecendo os meios de produzi-lo. A
fabricação de uma bomba, seu financiamento e sua entrega têm responsáveis. O
procedimento burocrático atravessa fronteiras antes de encontrar o operador que
aparece na tela. Também as disputas no interior das comunidades judaicas fazem
parte dessa história. Em janeiro de 2024, a CONIB condenou o apoio brasileiro à
ação sul-africana e sustentou que Israel apenas se defendia. Coletivos como Vozes
Judaicas por Libertação e Jewish Voice for Peace, por sua vez, organizam-se
como movimentos judaicos antissionistas, denunciam o genocídio e exigem o fim
do fornecimento de armas. São escolhas políticas que impedem tratar judaísmo,
sionismo e Estado de Israel como uma única coisa. As organizações que legitimam
a violência devem responder por suas posições concretas, sem receber das
identidades que invocam uma imunidade à crítica, como deseja Isarel. A
dissidência judaica importa porque rompe a pretensão de que a segurança dos judeus
dependa necessariamente da sujeição dos palestinos. Essa ruptura precisa
produzir consequências para os que seguem submetidos à violência.
A
perseguição aos realizadores ajuda a compreender o que está em disputa. Abraham
e Szor foram ameaçados de perder a cidadania; extremistas se manifestaram
diante da casa da família de Szor, com palavras de ordem pedindo a morte de
traidores. No início de outubro de 2026, Netanyahu pediu uma investigação
contra os participantes do filme e que fossem processados. A proteção das
fontes tem, portanto, razões concretas. A denúncia pode expor quem fala a uma
punição que os crimes relatados não produziram, isto é, uma espécie de punição
pelo “crime errado”. Esse esforço de intimidação torna ainda mais necessário
defender o filme e seus autores, mantendo diante de nós a pergunta sobre os
atos de cada entrevistado. Ter rompido o silêncio não apaga o que alguém fez
antes de falar.
As
críticas palestinas são indispensáveis para que essa defesa não se acomode.
Ayat Abou Shmeiss, poeta palestina de Jaffa que perdeu familiares num
bombardeio, escreveu sobre a proposta e a recepção de Naza declarando
que não o havia visto e não pretendia vê-lo. Ela reconhece a importância de
acessar decisões internas às quais os palestinos dificilmente teriam acesso.
Seu incômodo está na possibilidade de que sua família, suas casas e seus mortos
se tornem a matéria de uma recuperação moral israelense. O que acontece depois
que os responsáveis se olham? Quem deve receber a reparação?
Segundo
essa crítica, a exposição tem valor, mas não contém, por si, uma resposta a
essas perguntas. O sofrimento de um povo não pode terminar convertido em
recurso para que seus algozes voltem a se sentir humanos. Essa tensão alcança a
recepção internacional.
O
médico Omar Abdel-Mannan questiona por que as denúncias ganham uma
credibilidade diferente quando chegam pelas vozes israelenses e adverte que
assistir a Naza deve ampliar a escuta dos palestinos. Há nisso uma
expressão do apartheid cognitivo, noção que venho defendendo neste debate: as
vítimas produzem conhecimento sobre a própria destruição, mas seu relato
permanece sob suspeita até receber a confirmação de quem ocupa uma posição
reconhecida de autoridade. Os jornalistas palestinos já haviam mostrado famílias
exterminadas e hospitais destruídos. Muitos pagaram com a vida por esse
trabalho. O filme deve ser incorporado a esse arquivo, preservando a
precedência e a autonomia de quem documentou a violência enquanto a sofria.
Acredito
que Naza deve ser visto também por isso. Um documento histórico não
precisa inaugurar o conhecimento de um crime para ter importância. Pode revelar
sua organização, registrar vocabulários, fornecer elementos para reconstruir
responsabilidades e dificultar a negação. A proteção jornalística de uma fonte,
por meio do anonimato preservado no documentário, não equivale a uma
absolvição. O filme pode ganhar força política nos usos que faremos dele: sua
circulação pode alimentar investigações, ampliar a pressão pelo fim da
cooperação militar e fortalecer exigências palestinas de justiça. A emoção da
sessão não deve encerrar o assunto.
Durante
quase todo o documentário, ouvimos mais porque vemos menos de Gaza. A ausência
prolongada de suas imagens concentra nossa atenção nos mecanismos descritos,
até que o desfecho nos leva a um pai procurando os filhos sob os escombros. A
passagem é devastadora. Também permanece aberta à pergunta palestina sobre o
lugar atribuído às vítimas: depois de tanto tempo escutando os operadores, que
existência lhes é devolvida? Para mim, a cena deve ser recebida como a
interrupção brutal da linguagem que as havia reduzido a uma quantidade. Ali, o
que se procura é alguém. Um filho, com uma história que o filme não pode nos
restituir inteira.
A
consequência política dessa leitura ultrapassa a mera troca de governo ou a
promessa de procedimentos militares mais “humanizados”, como querem sionistas
moderados (assassinos moderados?). Assim como muitos movimentos palestinos e de
judeus antissionistas, não vejo solução justa e duradoura fora da construção de
um único Estado democrático em todo o território da Palestina histórica, com
igualdade de direitos para palestinos e judeus. Isso exige um processo de
dessionização daquela sociedade: o desmonte das instituições que organizam o
privilégio nacional e a despossessão palestina, acompanhado de um processo de
justiça, retorno dos refugiados e reparação. A igualdade deve assegurar a
permanência, a segurança e a liberdade religiosa e cultural de todos, sem
expulsões ou punições coletivas. Os palestinos precisam participar como
sujeitos da definição desse futuro, com o direito de recuperar sua terra, sua
memória e suas condições de vida. Os sionistas precisam ir ao banco dos réus, e
serem julgados pelos seus crimes, como ocorreu em Nuremberg. A paz não pode
continuar sendo o nome dado à administração da derrota palestina.
Em
“Alarme de incêndio”, Walter Benjamin escreve sobre a urgência de interromper
um processo histórico destrutivo antes que a centelha alcance a dinamite. A
imagem conserva sua força porque exige uma intervenção no tempo presente. Em
Gaza, o incêndio já começou; há muito começou. Naza pode fazer seu
alarme atravessar algumas das paredes que ainda protegem a indiferença, embora
eu acredite que mesmo isso, depois de tudo o que já vimos, seja quase
impossível. Diante da banalidade do mal, a tarefa é reconhecer as decisões que
mantêm o fogo aceso e agir sobre elas.
Enquanto
ouvimos, ainda há gente sob os escombros.
Fonte: Por
Rafael Domingos Oliveira, no Blog da Boitempo

Nenhum comentário:
Postar um comentário