Lula
e a necessária aposta nas periferias
Com
cerca de 17 milhões de habitantes — uma população maior que a do estado da
Bahia —, as periferias brasileiras constituem uma extraordinária janela de
oportunidades para o segundo turno.
É
verdade que Lula perdeu votos nesses territórios, em parte porque a dureza da
vida cotidiana e a desesperança de muitos corroeram a confiança nas promessas
públicas.
Mas ele
ainda dispõe, entre essa população, de uma credibilidade real: está associado a
políticas públicas que efetivamente melhoraram a vida do povo.
Anunciar
as periferias como prioridade nacional e propor um novo ciclo de investimentos
públicos territorialmente orientados significaria falar a uma população para a
qual a candidatura adversária não tem como oferecer proposta equivalente, pois
pretende desidratar os investimentos públicos e anular as políticas sociais.
Trata-se
da última oportunidade para Lula apresentar ao Brasil uma proposta capaz de
transformar uma urgência social há muito adiada em um projeto nacional
estruturante: levar às periferias, favelas e comunidades não apenas obras
isoladas ou programas setoriais, mas uma virada universal no acesso à inclusão
social, à contemporaneidade e a uma vida urbana digna.
O que
propomos é converter a lógica setorial das políticas sociais em política
territorial, fazendo chegar aos lugares onde vivem os brasileiros mais pobres
cultura, esporte, lazer, assistência, cuidado, mobilidade, moradia, saneamento,
oportunidades e participação — como tenta fazer o SUS na Saúde.
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Populações que não podem continuar à margem
As
periferias brasileiras não são margem demográfica, social ou política. O Censo
2022 do IBGE identificou 16.390.815 pessoas vivendo em 12.348 favelas e
comunidades urbanas, distribuídas em 656 municípios. Pesquisa do Data Favela
divulgada em 2023 estimou 17,9 milhões de moradores. As metodologias diferem,
mas convergem para aproximadamente 17 a 18 milhões de brasileiros, cerca de 8%
da população nacional.
É uma
população maior que a de muitos países, distribuída em territórios
identificáveis e municípios passíveis de planejamento, financiamento e
acompanhamento. O enfrentamento está ao alcance do Brasil: um programa robusto
pode ser executado por etapas, com prioridades pactuadas, financiamento
plurianual, cooperação federativa e investimentos físicos articulados a
equipes, programação e manutenção. Não se trata de urbanizar todas as
periferias de uma só vez, mas de começar, com método e continuidade, a cicatrizar
a maior chaga deixada pelo Estado escravocrata que ainda somos.
O
primeiro turno deixou um alerta. O comportamento eleitoral popular é diverso e
atravessado por renda, segurança, religião, identidade e relação com o Estado.
A candidatura bolsonarista avançou em áreas pobres do Rio de Janeiro; em São
Paulo, Lula manteve presença majoritária em grande parte das periferias, mas
enfrentou avanço da direita; nos municípios mais pobres, embora tenha vencido
na maioria, perdeu participação proporcional em quase todos os locais.
Esses
resultados indicam que a relação entre os mais pobres e o Estado precisa ser
reconstruída. Transferências de renda e políticas de emprego, saúde e educação
são indispensáveis, mas a população também precisa experimentar, em seu
território, uma presença pública que amplie sua vida e ofereça desenvolvimento,
emancipação e sentido. A política precisa estar na biblioteca, na praça, na
quadra, no centro cultural, na lavanderia pública comunitária, na assistência,
na moradia, no transporte e na iluminação: um projeto cívico.
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O direito à cidade pede uma política nacional integrada
O
Brasil possui iniciativas de habitação, saneamento, saúde, assistência,
educação, cultura e esporte, mas elas chegam frequentemente de forma
fragmentada, descontínua e desigual. Uma obra pode ser realizada sem
programação; um equipamento, construído sem profissionais; uma moradia,
entregue distante do trabalho e dos serviços; uma praça, urbanizada sem
manutenção ou atividades programadas.
É
necessário um programa nacional universal que trate o direito à cidade como
política integrada. Esse direito não é apenas possuir moradia ou estar
formalmente incluído em uma rede de serviços: é viver, circular, trabalhar,
estudar, cuidar, conviver, criar, praticar esportes, acessar cultura,
participar da vida pública e transformar o território.
A
moradia é fundamental, mas uma casa distante, sem transporte, equipamentos,
trabalho, cultura, lazer, proteção e participação pode cumprir uma meta física
e continuar produzindo uma cidade excludente para os pobres. O cidadão,
entretanto, não vive por secretarias. Vive uma insuficiência territorial única.
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Investir na vida cotidiana e nas capacidades e no cuidado das pessoas
É
preciso abrir um novo ciclo de investimentos na vida cotidiana, nas capacidades
humanas e na presença pública contínua.
Combinadas,
conforme as necessidades locais, com saneamento, drenagem, melhoria
habitacional, acessibilidade, transporte, iluminação ou prevenção de riscos
ambientais, em uma comunidade, a prioridade pode ser uma Biblioteca
Territorial; em outra, um centro-dia para idosos, um campo de futebol, uma
pista de skate, uma quadra, ou mesmo um centro de velórios; em outra, um centro
cultural, uma lavanderia pública ou uma sala de música, dança, teatro e artes
visuais.
Cultura,
associativismo, esporte, lazer e assistência social não são adereços da
política urbana: são componentes da própria urbanização. A proposta é uma
política de suficiência urbanística, isto é, o conjunto de condições materiais
e institucionais necessário para viver plenamente a cidade.
Essa
suficiência inclui moradia, saneamento, mobilidade, acessibilidade, espaços
públicos, equipamentos, assistência, saúde, educação, trabalho, conectividade,
proteção ambiental e capacidade de decisão. É territorial porque depende de
acesso efetivo e apropriação; e é municipal porque requer coordenação,
manutenção e redes, sem significar autossuficiência.
A alma
da campanha
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Comunidades no centro do desenvolvimento territorial
As
comunidades não são apenas destinatárias de programas. São sujeitos de um
projeto de desenvolvimento local articulado ao desenvolvimento nacional. Cada
território deve construir, com apoio técnico plural, uma leitura de suas
necessidades e possibilidades, incorporando o conhecimento de quem vive ali e
definindo prioridades.
A
participação deve alcançar a definição dos problemas, e não apenas a escolha
entre projetos prontos. Mulheres, jovens, idosos, pessoas com deficiência,
população negra, trabalhadores informais e moradores menos organizados precisam
participar. A comunidade é diversa e conflitiva. A técnica dimensiona custos,
riscos e alternativas, mas não substitui a decisão cidadã; universidades e
equipes devem transformar o conhecimento vivido em projetos viáveis, sob
controle social.
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Um pacto federativo para garantir acesso e direitos
O
município é a escala privilegiada do direito à cidade: é ali que se encontram,
ou não, biblioteca, quadra, praça, assistência, transporte e cuidado. Mas não
se pode municipalizar apenas a responsabilidade. Municípios pobres não dispõem
dos mesmos recursos, equipes e capacidades administrativas dos municípios
ricos.
A
experiência do SUS inspira um pacto baseado em universalidade,
territorialização, descentralização, regionalização, financiamento
compartilhado e participação social. A União deve garantir diretrizes,
financiamento redistributivo, apoio técnico e equidade; os estados devem apoiar
municípios e organizar redes regionais; os municípios devem executar, manter e
prestar contas; as comunidades devem participar, decidir e controlar. Nem todo
equipamento precisa estar em cada comunidade: o objetivo é garantir acesso sem
que fronteiras administrativas produzam exclusão.
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O PROEDIC e a arquitetura dos equipamentos públicos
O
Programa Estadual para o Direito à Cidade — PROEDIC — produzido pelo Instituto
Cidades Vivas para o governo do Rio Grande do Norte (clique aqui para ler)
oferece uma referência concreta. Sua ênfase na melhoria habitacional e na
distribuição territorial de equipamentos comunitários, com participação social,
articula moradia e condições coletivas do território.
Concentrado
em equipamentos de cultura, associativismo, esporte, lazer e assistência
social, o PROEDIC mostra que não basta proclamar o direito à cidade: é preciso
definir localização, população atendida, equipes, financiamento e participação
comunitária. Uma biblioteca só está entregue com acervo, profissionais,
conectividade e programação; uma quadra, com segurança e continuidade; um
centro cultural, com atividades e apropriação. O edifício, as políticas e os
recursos humanos constituem uma totalidade.
O
PROEDIC mostra que territorializando o investimento, como faz o SUS, é possível
e sustentável garantir a universalidade do acesso ao programa.
No caso
das periferias, 17 milhões de habitantes correspondem a algo como 570
territórios de 30.000 habitantes. Um investimento de vinte milhões de reais por
território por ano, suficiente para colocar para funcionar de forma
programática as ofertas previstas resultariam em cerca de 11,4 bilhões de reais
por ano, ou 0,2% do orçamento cinco vezes trilionário do Brasil.
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Compromissos visíveis para reconstruir a confiança
Um
projeto capaz de entusiasmar precisa oferecer visão de futuro e ser acompanhado
no território. Sob a gestão municipal, cada comunidade deveria pactuar
compromissos concretos, com etapas visíveis ao longo do mandato e financiamento
tripartite, como ocorre de forma pactuada no SUS. A entrega pode ser a ativação
de uma biblioteca, a recuperação de uma quadra, a iluminação de uma praça, uma
melhoria habitacional ou uma equipe de assistência e cuidado.
O
importante é que seja completa. Uma obra sem funcionamento é promessa
interrompida; uma praça sem manutenção envelhece; uma biblioteca sem
profissionais é uma sala de livros. A comunidade precisa saber o que será
feito, quem será responsável, quais recursos estarão disponíveis e como poderá
acompanhar e corrigir prioridades.
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A escolha política por um Estado presente
Esta é
uma proposta de novo ciclo de investimentos públicos para Lula porque depende
de um Estado comprometido com direitos sociais, investimento público,
redistribuição e cooperação federativa. Um programa para as periferias exige
financiamento, equipes, manutenção, planejamento e coordenação entre níveis de
governo.
A
candidatura bolsonarista, obviamente, ao defender cortes públicos em grande
escala e redução da presença estatal, não oferece as condições para enfrentar
essa urgência.
Essa
diferença torna para Lula essa proposta inigualável, será pregar em campo
aberto para convertidos a priori na necessidade dessas intervenções: os 17
milhões de brasileiros (mais do que uma Bahia) vivendo nas periferias!
Só Lula
pode propor, com coerência política, uma nova etapa para os direitos sociais
que transforme investimentos continuados em projeto territorial integrado,
indicando onde, com quem e para qual finalidade os recursos chegarão.
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A dívida histórica com os territórios populares
A
desigualdade brasileira é econômica, territorial, racial, histórica e política.
A escravidão terminou como regime jurídico, mas suas estruturas de
desvalorização da vida pobre e negra, segregação e acesso desigual ao Estado
continuam presentes.
A
imagem de Casa-Grande & Senzala ajuda a ilustrar essa permanência. A
Casa-Grande contemporânea concentra oportunidades, serviços, segurança,
cultura, mobilidade e capacidade de decisão; periferias e municípios pobres
recebem, muitas vezes, cidadania reduzida, cidade incompleta e presença pública
descontínua.
Um novo
ciclo de investimentos pode começar a cicatrizar essa ferida, não com caridade
ou tutela, mas com direitos, redistribuição, participação e presença pública
permanente. A construção da suficiência urbanística é uma política de reparação
histórica: não apaga o passado, mas pode encerrar o ciclo em que aos pobres se
oferece apenas sobrevivência enquanto a cidade plena permanece reservada a
outros.
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Um horizonte mobilizador de inclusão e cidadania
O
Brasil precisa de uma proposta concreta e solar: concreta, porque define
recursos, responsabilidades, prioridades e entregas; solar, porque devolve às
comunidades a capacidade de imaginar um futuro além da carência.
Uma
Biblioteca Territorial pode dizer a uma criança que o conhecimento também lhe
pertence; uma pista de skate, que sua energia e criatividade têm lugar na
cidade; um centro cultural pode transformar talento em convivência; uma praça
iluminada pode devolver o espaço público às famílias, um centro-dia de idosos
que a sua comunidade não abandonou os velhos. É a alma da educação
paulofreireana, que ultrapassa as quatro paredes da escola e reconhece a
relação entre território, identidades e papéis sociais.
Ao
levar cultura, esporte, lazer, assistência, moradia, cuidado, mobilidade e
participação às periferias, o país fortalece a democracia, a educação, a saúde
pública, a economia local e a confiança nas instituições.
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Uma proposta objetiva para o segundo turno
Lula
pode propor um novo ciclo de investimentos públicos para trazer os mais pobres
à vida nacional, não como beneficiários passivos, mas como cidadãos e sujeitos
do desenvolvimento de seus territórios. O compromisso deve: reconhecer
periferias, favelas e comunidades como prioridade nacional; criar uma política
integrada de direito à cidade; fortalecer e financiar, no pacto federativo,
municípios, consórcios e redes regionais; e pactuar com cada comunidade
entregas visíveis, completas e acompanháveis.
A
questão central não é quantas obras serão feitas, mas o que mudará na
capacidade das pessoas de viver, conviver, criar, cuidar, estudar, circular,
participar e transformar o território. O segundo turno oferece a Lula a
oportunidade de dizer que os direitos sociais terão um novo rosto: direito à
cidade e suficiência urbanística chegando às comunidades.
O
compromisso pode ser simples de dizer e grande de realizar:
Nenhuma
periferia para trás!
Fonte:
Por Ion de Andrade, em Outras Palavras

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