Luis
Felipe Miguel: As entrevistas na rede Globo
Na
entrevista à Rede Globo, Lula, em geral, foi bem. Ajudou a condução de Renata
Lo Prete, que não foi agressiva, nem condescendente, mas imbuída do propósito
de fazer o candidato falar. A pior derrapada foi quando ele disse que não sabia
que o Bolsa Família não tinha sido reajustado, uma óbvia lorota. Mas, para dar
outra resposta, teria ou que dizer que o reajuste é uma medida eleitoreira ou
discutir a dificuldade que o governo tem de enfrentar o rentismo, uma conversa
que talvez Lula não queira iniciar.
Vi
jornalistas da imprensa burguesa dizendo que Lula não foi bem ao falar da
atuação de Flávio Dino no caso de Alexandre de Moraes ou da suposta falta de
participação do “centro” no seu governo. Discordo.
Ele
expôs bem, ainda que de maneira sutil, o fato de que a manobra contra Alexandre
de Moraes no Supremo, naquele momento, tinha o objetivo de desequilibrar toda a
atuação da corte em favor do filhote Bolsonaro.
E a
conversa de que o seu governo foi demasiado à esquerda é obviamente a
reclamação de toda a classe dominante, que acha que o PT pode ganhar eleição,
quando estão de mal com extrema direita, mas depois não pode governar: tem que
entregar tudo para seus aliados de ocasião conservadores. O problema deles não
é que não tinha gente de “centro” no governo, porque eles sabem que tinha. É
que Lula não abriu mão de algumas bandeiras do PT.
E
chegou ao final do mandato avançando pautas históricas, como a redução da
jornada de trabalho, o primeiro ganho expressivo da classe trabalhadora depois
de uma longa noite de reveses continuados. E vem aí também a tarifa zero no
transporte coletivo, começando pelos finais de semana.
É
interessante olhar para isso. Quando Luiza Erundina, na prefeitura de São
Paulo, no final dos anos 1980, planejou zerar a tarifa do ônibus, foi chamada
de insana. Um quarto de século depois, o Movimento Passe Livre ainda era
desprezado como um bando de guris radicaloides, sem senso de realidade, que não
precisava ser levado a sério. Mas, hoje, até políticos de direita estão
abraçando a medida.
Parece
que a gente consegue avançar, desde que se esforce para pautar o debate. Com
questões que falem à classe trabalhadora, ao povo pobre, às maiorias. O fim da
escala 6×1 e a tarifa zero mostram isso.
Mas o
ponto principal da entrevista foi a afirmação de Lula de que é a favor da
redução da maioridade penal, ainda que apenas em caso de crimes hediondos,
aparentemente para 16 anos. Isso causou constrangimento em setores da esquerda,
que viram na declaração uma traição a princípios importantes.
Creio
que Lula fez certo. Fez certo porque desarmou um discurso fácil da direita, o
de que ele é leniente com o crime, ao mesmo tempo em que buscou bloquear uma
decisão açodada sobre o tema, negando que ela seja incluída de roldão na PEC da
Segurança Pública. Deixou claro que o assunto tem que ser discutido a parte.
Uma jogada inteligente.
Fez
certo também porque este debate tem que ser travado. Eu tenho simpatia pelo
abolicionismo penal; penso que a pena privativa de liberdade é uma forma de
castigo cruel e desumano e que devemos caminhar para sua abolição, não para sua
expansão.
Sou
sensível também aos argumentos principais no caso em questão: o desenvolvimento
insuficiente do cérebro adolescente, que torna injusto e ineficaz julgá-lo como
um adulto, e o viés de classe associado a este punitivismo.
Ao
mesmo tempo, porém, entendo que a sociedade exija algum tipo de resposta a
crime chocantes cometidos por adolescentes e ao uso deles como soldados pelas
facções criminosas. E a falência do modelo atual, com medidas socioeducativas
que têm se mostrado em grande medida inócuas, seja para ressocializar os
infratores, seja para inibir novas transgressões, é evidente.
O
discurso tradicional da esquerda, que tende a minimizar as preocupações de
segurança pública, apresentada como mero reflexo da iniquidade da sociedade,
falha ao não dialogar efetivamente com o sentimento da maioria da população, um
sentimento que é ancorado em sua experiência vivida, de temor da violência, e
que por isso não deveria ser desprezado.
Idealmente,
deveríamos ser capazes de conduzir um debate que incluísse eventuais mudanças
na lei, talvez com um arranjo que dê aos jovens de 16 e 17 anos um estatuto
penal especial, com penalidades específicas, procedimentos reeducativos
fortalecidos e a garantia da segregação em relação aos criminosos adultos, mas
incluindo também políticas sociais, escolas, geração de oportunidades e
controle das plataformas digitais. Um debate que, se travado adequadamente,
tiraria espaço do discurso simplista da direita.
Não
acredito que tenhamos força para pautar este debate. Mas o presidente Lula
sinalizou na direção correta.
Flávio
Bolsonaro, devemos reconhecer, também foi bem na “sabatina” da rede Globo. Seu
objetivo era mentir e isso ele fez à vontade, com descaramento, e se beneficiou
da baixa pressão que Renata Lo Prete impôs sobre ele.
Ela
concentrou as perguntas em suas promessas de campanha, raras vezes confrontando
seu discurso de hoje com seu comportamento e seus compromissos de sempre. E,
quando o fazia, deixava barato, aceitava uma evasiva ou uma inverdade qualquer.
Sei
não. Depois do almoço do candidato miliciano com a direção da rede Globo, uma
postura tão fraca alimenta a suspeita de jogo combinado e depõe contra uma
jornalista que, até então, eu tinha em boa conta.
Mas
ficou evidente qual será a estratégia para o debate da TV Globo. Ele vai falar
o que ensaiou com os assessores, sem se preocupar com o tema em questão. Vai
soltar mentiras em ritmo industrial. Vai fazer perguntas agressivas ao
presidente Lula, para garantir os cortes de que precisa.
E
antes, é claro, vai tomar um Tiorfan, para tentar prevenir o que é seu grande
receio: dar um vexame indisfarçável em rede nacional.
Lula
está afiado. Tem o que mostrar, em relação ao que está fazendo, e também muito
a mostrar em relação aos podres de seu adversário. A questão é que o debate não
é o debate: o debate é a matéria prima para a guerra de cortes nas redes. Nesse
luta, somos nós, com Lula e André Janones, contra o combo formado pelo
bolsonarismo, pela Meta e pelo TSE.
• Por que Flávio Bolsonaro foi tão mal na
sabatina da Globo e o significado político disso. Por Renato Rovai
lávio
Bolsonaro deu uma entrevista para o Jornal Nacional nesta sexta-feira (16), e
foi muito mal.
Há
muita gente comentando desesperada nas redes sociais dizendo que ele não sofreu
tanta pressão, que falou muito de Lula (45 vezes) e que o presidente não bateu
tanto nele, a grande verdade é que o episódio deixou claro que Flávio não tem o
menor equilíbrio emocional para governar o país.
O
motivo desse diagnóstico salta aos olhos de quem analisa os fatos além da
superfície: ele não teve condições de responder a questionamentos objetivos,
fugiu das respostas, mostrou-se absolutamente nervoso, pegou o copo d’água
cerca de 30 vezes, olhou para baixo e gaguejou.
Essa
postura revela exatamente quem ele é — um candidato despreparado.
Essa
percepção é vital justamente para o pequeno grupo de eleitores ainda indecisos,
que gira em torno de 5% a 7%. Esse eleitorado analisa os mínimos detalhes,
captando o que muitas vezes passa despercebido pelos eleitores já definidos.
No fim
das contas, a impressão deixada foi a de alguém intoxicado pelo que consome e o
alimenta: o ódio, a raiva e a mentira.
A
condução da sabatina teve seus percalços — a jornalista Renata Lo Prete começou
levantando a bola sobre dívida pública, aposentadoria e salário mínimo, terreno
em que ele mentiu, assim como mentiu a respeito do dinheiro do ex-banqueiro
Daniel Vorcaro, do Master.
Depois
ela se comportou bem e em vários momentos deixou claro que ele não estava
utilizando dados reais e verdadeiros.
No
entanto, faltou uma pergunta essencial que poderia tê-lo quebrado de vez: a sua
relação com Willer Tomaz.
Os
bastidores dessa conexão envolvem desde uma festa de aniversário da filha de
Flávio em Angra dos Reis bancada pelo advogado, passando por viagens em
jatinho, até a existência de uma conta conjunta com essa figura acusada pela
Polícia Federal de roubar aposentados do INSS e de participar de esquemas no
Banco Master.
Acho
difícil que ele tenha conquistado votos a partir dessa entrevista.
E
arrisco dizer que se ele mantiver esse mesmo nível de descontrole para o debate
da Band, vai faltar fralda.
Lula
não vai ser tão polido quanto Renata.
• Mãe de Paulo Gustavo expõe dor da Covid
e chama Flávio de retrocesso
ão deu
tempo.” É assim que Dona Déa Lúcia Amaral, mãe de Paulo Gustavo, relembra a
morte do filho pela Covid-19 em um vídeo divulgado neste domingo (18) pela
campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Aos 79 anos, a artista
dirige duras críticas a Jair Bolsonaro pela condução da pandemia e faz um apelo
contra a eleição de seu filho, Flávio Bolsonaro (PL).
“E o
governo ria, o nosso presidente ria, né? Isso daí eu falo com ódio! Ele ria!”,
afirma Dona Déa. A declaração é acompanhada por imagens do ex-presidente
debochando da doença. Em outro momento, ela resume a tragédia que atingiu sua
família: “Eu perdi um filho”.
Assista
ao vídeo divulgado pela campanha de Lula:
Paulo
Gustavo morreu em 4 de maio de 2021, aos 42 anos, depois de 53 dias internado
em decorrência da Covid-19. O criador de Dona Hermínia, personagem de enorme
sucesso no cinema brasileiro, não chegou a receber a vacina contra a doença.
No
depoimento, Dona Déa recorda o medo que o filho tinha do coronavírus e reproduz
uma conversa que mantinha com ele.
“Ele
sempre dizia assim pra gente: ‘Se eu pegar o Covid, eu vou morrer’”, relata. Em
seguida, lembra a insistência do ator pela imunização: “Essa vacina tem que
chegar, essa vacina tem que vir”.
“Essa
vacina deveria ter vindo antes. Muito tempo antes”, lamenta.
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Mãe de Paulo Gustavo denuncia Bolsonaro e cobra memória da pandemia
A fala
de Dona Déa recoloca no centro da campanha eleitoral a atuação do governo
Bolsonaro durante a maior crise sanitária da história recente do Brasil.
A
demora na compra de imunizantes foi um dos principais temas investigados pela
CPI da Pandemia, instalada no Senado em 2021. A comissão ouviu representantes
da Pfizer e integrantes do governo federal sobre propostas de fornecimento de
vacinas apresentadas ainda em 2020.
O
ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajngarten confirmou que o
Palácio do Planalto levou dois meses para responder a uma carta enviada pela
farmacêutica. O presidente da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, também
confirmou atrasos nas negociações.
O
episódio foi documentado pela Agência Senado, durante os depoimentos à CPI. As
dificuldades nas tratativas com a fabricante já haviam sido abordadas pela
Revista Fórum em reportagem publicada durante o governo Bolsonaro.
O vídeo
da campanha de Lula intercala o relato da mãe de Paulo Gustavo com fotografias
antigas da família, imagens de cemitérios e uma gravação na qual Jair Bolsonaro
aparece ironizando a Covid-19.
Em um
dos trechos mais contundentes, Dona Déa transforma a lembrança do filho em um
alerta sobre o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de
outubro.
“Deus
me livre a gente ter alguém da família dele como presidente do nosso país. Eu
sou mãe, eu falo porque eu sou mãe. Imagino a dor de toda mãe que perdeu seu
filho”, declara.
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“Flávio é retrocesso”, dispara Dona Déa
Na
parte final da gravação, Dona Déa critica diretamente Flávio Bolsonaro,
candidato do PL à Presidência da República e adversário de Lula no segundo
turno.
“Isso
não pode voltar. Não pode!”, diz, antes de afirmar: “Flávio é retrocesso. Se
você olhar o sobrenome, me dá arrepio”.
A
artista também faz um chamado à participação eleitoral. “Gente, mudar para
aquele passado terrível vai destruir o nosso futuro. A gente precisa sair de
casa e votar. Vamos de Lula, pelo amor de Deus”, pede.
O
depoimento será utilizado também na propaganda eleitoral na televisão. Dona Déa, que inspirou Paulo Gustavo na
criação de Dona Hermínia, integra o elenco do programa Domingão com Huck, da TV
Globo.
Fonte:
A Terra é Redonda/Fórum

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