Rock
e “satanismo”: uma gênese da desagregação social
Era um
garoto que amava o rock nos anos 1980. O assim chamado mainstream, mas também
um rock alternativo, pesado, underground – embora ele não se lembre de ouvir
essa palavra naquele tempo. É neste campo, vivido com a intensidade e entrega
de um adolescente, que ele vê nascer e prosperar uma tendência, canalizadora de
imensa energia e tremendamente sedutora, em torno de um ethos violento,
tétrico, tanato-erótico. Num pacto… ficcional, brinca-se com a morte, com a
tortura, o sofrimento extremo, tudo aquilo que Jung vê associado ao diabólico:
a dissociação, a divisão, a ruptura com os próprios limites do humano.
Esse
universo é revivido – e digerido, e refletido – no livro Rock e Satanismo:
memória em tempos de dissociação (Intermeios, 2026). Pois as décadas se
passaram e o garoto se tornou um pesquisador da cultura, um crítico atento e
sensível a diferentes manifestações culturais da contemporaneidade. Paulo
Iumatti é hoje professor no Instituto de Estudos Brasileiros, além de poeta,
compositor e cantor, com diversos trabalhos artísticos e acadêmicos lançados.
As décadas se passaram… e o que era vetusto e condenado nos 80, a sombra do
autoritarismo que parecia definitivamente eclipsada pela luz e a alegria da
redemocratização, volta com toda força, globalmente.
A
emergência global da extrema direita torna-se, pois, o cenário da rememoração.
Como diz a quarta-capa do livro, trata-se de um “ensaio nada convencional,
repleto de lembranças afetivas, humor e experimentos narrativos, [no qual]
Paulo Iumatti nos traz muito mais do que uma escrita do eu inventiva, que
mobiliza sua memória dos circuitos do rock pesado no Brasil dos anos 1980 e da
vivência, na infância e na adolescência, da atmosfera dos anos finais da
ditadura militar”.
Nesta
autoetnografia, que se desdobra em um ensaio interpretativo da sociedade, o
autor “evoca diversas presenças do ‘satanismo’ – por vezes transmutadas em
ethos dissociativo – no […] rock e pop e na própria vida social”, e que chega a
um questionamento do “mal estar social predominante quanto à incorporação do
‘satânico’ pela cultura de massas”.
É assim
que “o panorama traçado é utilizado para uma comparação instigante entre, de um
lado, essas tendências do metal extremo e, de outro, posicionamentos radicais
de defesa da tortura, de chacinas e de desrespeito à diversidade social,
racial, política e religiosa no espectro político do Brasil atual”.
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Leia a seguir um trecho de Rock e Satanismo (páginas 73 a 78), selecionado com
exclusividade para Outras Palavras.
Assim,
eu diria que o rock e o metal brasileiros que escutamos nos anos 1980 tinham
muito pouco de “satanismo”. Nós estávamos longe, certamente, de qualquer coisa
que se assemelhasse aos circuitos do underground do metal extremo que hoje têm
sido estudados de forma sistemática. As bandas mais radicais, que haviam
abraçado os temas satânicos de forma decisiva, como o próprio Sepultura em seu
início de carreira (Morbid visions) ou Sarcófago, não chegaram a fazer parte do
nosso universo cotidiano de referências. Este era inicialmente dominado, na
maior parte, pelas bandas do mainstream internacional. Contudo, é preciso
utilizar esse termo com muito cuidado, ou mesmo sequer empregá-lo, já que o
período que abordo aqui esteve precisamente no limiar do processo de
fragmentação do heavy metal, a partir do qual se poderia começar a falar em um
metal mainstream e um outro que se lhe opunha.
E com
efeito, nós vivemos, justamente, a transição entre uma fase de indistinção e
outra em que já diferenciávamos entre um rock autêntico – pois em parte
rejeitávamos o conceito de “metal” – e aquele dos “posers”, que execrávamos.
Nesse sentido, chegamos a ouvir sim, também, algumas bandas que na época eram
opostas ao “mainstream” – ou mesmo que pareciam a nós, recém adolescentes,
pertencer aos territórios de um possível “underground” (todavia não me lembro
de usar esse termo na época). Pelo menos, ao nosso underground, ou melhor, ao
que entendíamos na época como fora do circuito do grande mercado e da grande
mídia, regulados por sucesso, moda e dinheiro, posto que tínhamos acesso a tais
bandas por vias precárias, como fitas low fi e discos piratas de shows. Ou
ainda pelo simples boca a boca, que estimulava ao máximo a imaginação e a
sensação de fazer parte de uma espécie de confraria esotérica.
Mas
recentemente, ouvi um álbum do Krysiun. Que cacetada. Não li atentamente as
letras, mas elas me pareceram navegar por temas satânicos. Agora lembrei: ouvi
porque quis saber como a banda havia evoluído – na verdade, eu a havia
confundido com o Vulcano, e achei que já a tivesse visto ao vivo, abrindo o
show do Venom. Ademais, quis compará-lo ao Gangrena Gasosa, banda também algo
“satanista” (em vertente paródica), que eu não conhecia e que chegou a mim
sabe-se lá como. Fiquei sabendo então que o Krysiun é gaúcho e foi fundado no
início dos anos 1990, muito depois da minha fase heavy metal.
Evidentemente,
hoje qualquer um pode aprender o beabá do satanismo rockeiro (incluindo o
nacional, em suas vertentes mais radicais e extremas) em poucos dias ou
semanas. Bastam alguns trabalhos acadêmicos, revistas, blogs e, talvez, buscas
com IA – além de muitos cliques e tempo para audição.
O
difícil é ter paciência, estômago, coragem.
Mas
quiçá valha a pena. Pois bandas do rock pesado ou “satânico”, tipo Halloween
(Pleasure to kill) e Destruction (Infernal overkill), ou outras muito mais
recentes, do chamado black metal, mescladas ao eu odeio tudo e vou te cobrir de
porrada dos carecas redivivos do ABC, parecem adequar-se como trilha
subconsciente ou performance real do que tem sido tolerado (ou ativamente
defendido) por uma parte certamente minoritária, porém robusta, e aparentemente
crescente da sociedade brasileira dos últimos anos (perfazendo milhões de
pessoas). Uma glorificação do ódio, da tortura e da destruição – mal disfarçada
pela defesa de Deus, da família e da “pátria”. Como se tocássemos ao contrário
as canções mais ouvidas nas paradas das rádios e plataformas de streaming,
dominadas pelo sertanejo, e ouvíssemos os barulhos sombrios das mais sórdidas
bandas de black metal (as do black metal nacional socialista, por exemplo).
Penso,
pois, que, produzido na maior parte em língua inglesa, e inseparável de uma
performance de algum modo assustadora, cujo significado violento é bastante
claro mesmo para quem nada capta de suas mensagens textuais, esse tipo de som
pode servir como ponto de contraste para a compreensão de aspectos importantes
de nossa vivência como coletividade – o que é resultado de uma trajetória que
remete aos anos 1980, mas que nessa década ainda não seria perceptível de
nenhuma forma, já que a vida política e o espaço público possuíam, então,
outras lógicas. Tais aspectos dizendo respeito a uma dinâmica de dissociação, a
qual pressupõe e resulta em desintegração. Dinâmica essa ligada, sem dúvida,
por um lado, a nosso fracasso histórico em construir instituições de fato
regidas pelo princípio da universalidade – e, portanto, em erigir uma esfera
eficaz e inegociável de direitos individuais. Esse fracasso reduz drasticamente
tanto a capacidade de absorção dos conflitos pelas instituições, quanto a
possibilidade de elaboração e processamento conscientes desses mesmos conflitos
no espaço público. O que acaba por constituir terreno fértil para o avanço da
violência em suas mais diferentes manifestações, incluindo as milícias e o
crime organizado.
Por
outro lado, a referida dinâmica explicita um impasse agudo entre grupos opostos
de um coletivo simplesmente ausente ou muito heterogêneo e desigual, no qual
grande parte das classes dominantes e próximas ou aspirantes ao topo parece não
ter lidado bem com a tímida e relativa amenização das desigualdades sociais e
raciais dos anos 2000.
Essa
coletividade fraturada não elaborou, domou e nem muito menos superou os seus
circuitos mais perversos de ação e resolução de conflitos, ativos e renovados
desde a escravidão, e cujo núcleo básico principal, formado pelo não
reconhecimento da humanidade do outro, pelo autoritarismo e pela indiferença à
dor e ao sofrimento alheios, é de natureza essencialmente dissociativa – o que
revela, a meu ver, a sua faceta satânica.
Penso,
então, haver uma convergência, no caso do Brasil, entre, de um lado, esses
circuitos históricos demoníacos, que levam o nosso sistema prisional, por
exemplo, a ser um bolsão de práticas que poderiam ser remontadas mais ou menos
diretamente ao passado escravista, já que alimentadas pela persistência do
racismo estrutural; e, de outro, algumas forças que o pensamento crítico tem
procurado compreender no mundo contemporâneo – forças de múltiplas formas
representadas, rebatidas ou ecoadas simbolicamente na cena musical de ódio,
dissociação e violência que temos abordado –, e que, para além do 11 de
setembro, talvez tenham colaborado para a volta da utilização sistemática da
tortura e da morte como armas de repressão e luta política.
Neste
ponto, devemos notar que não apenas Pig Destroyer foi utilizado para supliciar
MacGyver em uma série de TV. Canções de bandas como Slayer, Metallica, Napalm
Death e Deicide foram (são?) realmente empregadas em lugares como Guantánamo
para torturar prisioneiros de guerra. A tortura despontando, não por acaso, e
de forma disseminada, no âmago da música de artistas intuitivos de outras
correntes, como Aranea Peel e Richard D. James.
Como
disseram os Racionais Mc’s, Adolf Hitler sorri no inferno. Pois é visível que,
ao figurarem seus inimigos como o mal absoluto (comunistas, possuídos por
Satanás, destruidores da família, perversores de nossas crianças etc.), muitos
se sentem felizes e/ou representados com a perspectiva de aniquilá-los de forma
total, utilizando ou – o que é tão grave quanto – tolerando para tal fim
quaisquer meios (exorcismo, tortura, chacinas), e não percebendo ou mesmo, pelo
contrário, ativamente desejando o caminho de destruição institucional que
desemboca no encaminhamento de todo e qualquer conflito pela via do ódio e da
violência – real e/ou simbólica.
Fonte:
Por Paulo Iumatti, em Outras Palavras

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