segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Rock e “satanismo”: uma gênese da desagregação social

Era um garoto que amava o rock nos anos 1980. O assim chamado mainstream, mas também um rock alternativo, pesado, underground – embora ele não se lembre de ouvir essa palavra naquele tempo. É neste campo, vivido com a intensidade e entrega de um adolescente, que ele vê nascer e prosperar uma tendência, canalizadora de imensa energia e tremendamente sedutora, em torno de um ethos violento, tétrico, tanato-erótico. Num pacto… ficcional, brinca-se com a morte, com a tortura, o sofrimento extremo, tudo aquilo que Jung vê associado ao diabólico: a dissociação, a divisão, a ruptura com os próprios limites do humano.

Esse universo é revivido – e digerido, e refletido – no livro Rock e Satanismo: memória em tempos de dissociação (Intermeios, 2026). Pois as décadas se passaram e o garoto se tornou um pesquisador da cultura, um crítico atento e sensível a diferentes manifestações culturais da contemporaneidade. Paulo Iumatti é hoje professor no Instituto de Estudos Brasileiros, além de poeta, compositor e cantor, com diversos trabalhos artísticos e acadêmicos lançados. As décadas se passaram… e o que era vetusto e condenado nos 80, a sombra do autoritarismo que parecia definitivamente eclipsada pela luz e a alegria da redemocratização, volta com toda força, globalmente. 

A emergência global da extrema direita torna-se, pois, o cenário da rememoração. Como diz a quarta-capa do livro, trata-se de um “ensaio nada convencional, repleto de lembranças afetivas, humor e experimentos narrativos, [no qual] Paulo Iumatti nos traz muito mais do que uma escrita do eu inventiva, que mobiliza sua memória dos circuitos do rock pesado no Brasil dos anos 1980 e da vivência, na infância e na adolescência, da atmosfera dos anos finais da ditadura militar”.

Nesta autoetnografia, que se desdobra em um ensaio interpretativo da sociedade, o autor “evoca diversas presenças do ‘satanismo’ – por vezes transmutadas em ethos dissociativo – no […] rock e pop e na própria vida social”, e que chega a um questionamento do “mal estar social predominante quanto à incorporação do ‘satânico’ pela cultura de massas”.

É assim que “o panorama traçado é utilizado para uma comparação instigante entre, de um lado, essas tendências do metal extremo e, de outro, posicionamentos radicais de defesa da tortura, de chacinas e de desrespeito à diversidade social, racial, política e religiosa no espectro político do Brasil atual”. 

>>>> Leia a seguir um trecho de Rock e Satanismo (páginas 73 a 78), selecionado com exclusividade para Outras Palavras.

Assim, eu diria que o rock e o metal brasileiros que escutamos nos anos 1980 tinham muito pouco de “satanismo”. Nós estávamos longe, certamente, de qualquer coisa que se assemelhasse aos circuitos do underground do metal extremo que hoje têm sido estudados de forma sistemática. As bandas mais radicais, que haviam abraçado os temas satânicos de forma decisiva, como o próprio Sepultura em seu início de carreira (Morbid visions) ou Sarcófago, não chegaram a fazer parte do nosso universo cotidiano de referências. Este era inicialmente dominado, na maior parte, pelas bandas do mainstream internacional. Contudo, é preciso utilizar esse termo com muito cuidado, ou mesmo sequer empregá-lo, já que o período que abordo aqui esteve precisamente no limiar do processo de fragmentação do heavy metal, a partir do qual se poderia começar a falar em um metal mainstream e um outro que se lhe opunha. 

E com efeito, nós vivemos, justamente, a transição entre uma fase de indistinção e outra em que já diferenciávamos entre um rock autêntico – pois em parte rejeitávamos o conceito de “metal” – e aquele dos “posers”, que execrávamos. Nesse sentido, chegamos a ouvir sim, também, algumas bandas que na época eram opostas ao “mainstream” – ou mesmo que pareciam a nós, recém adolescentes, pertencer aos territórios de um possível “underground” (todavia não me lembro de usar esse termo na época). Pelo menos, ao nosso underground, ou melhor, ao que entendíamos na época como fora do circuito do grande mercado e da grande mídia, regulados por sucesso, moda e dinheiro, posto que tínhamos acesso a tais bandas por vias precárias, como fitas low fi e discos piratas de shows. Ou ainda pelo simples boca a boca, que estimulava ao máximo a imaginação e a sensação de fazer parte de uma espécie de confraria esotérica.

Mas recentemente, ouvi um álbum do Krysiun. Que cacetada. Não li atentamente as letras, mas elas me pareceram navegar por temas satânicos. Agora lembrei: ouvi porque quis saber como a banda havia evoluído – na verdade, eu a havia confundido com o Vulcano, e achei que já a tivesse visto ao vivo, abrindo o show do Venom. Ademais, quis compará-lo ao Gangrena Gasosa, banda também algo “satanista” (em vertente paródica), que eu não conhecia e que chegou a mim sabe-se lá como. Fiquei sabendo então que o Krysiun é gaúcho e foi fundado no início dos anos 1990, muito depois da minha fase heavy metal.

Evidentemente, hoje qualquer um pode aprender o beabá do satanismo rockeiro (incluindo o nacional, em suas vertentes mais radicais e extremas) em poucos dias ou semanas. Bastam alguns trabalhos acadêmicos, revistas, blogs e, talvez, buscas com IA – além de muitos cliques e tempo para audição.

O difícil é ter paciência, estômago, coragem.

Mas quiçá valha a pena. Pois bandas do rock pesado ou “satânico”, tipo Halloween (Pleasure to kill) e Destruction (Infernal overkill), ou outras muito mais recentes, do chamado black metal, mescladas ao eu odeio tudo e vou te cobrir de porrada dos carecas redivivos do ABC, parecem adequar-se como trilha subconsciente ou performance real do que tem sido tolerado (ou ativamente defendido) por uma parte certamente minoritária, porém robusta, e aparentemente crescente da sociedade brasileira dos últimos anos (perfazendo milhões de pessoas). Uma glorificação do ódio, da tortura e da destruição – mal disfarçada pela defesa de Deus, da família e da “pátria”. Como se tocássemos ao contrário as canções mais ouvidas nas paradas das rádios e plataformas de streaming, dominadas pelo sertanejo, e ouvíssemos os barulhos sombrios das mais sórdidas bandas de black metal (as do black metal nacional socialista, por exemplo).

Penso, pois, que, produzido na maior parte em língua inglesa, e inseparável de uma performance de algum modo assustadora, cujo significado violento é bastante claro mesmo para quem nada capta de suas mensagens textuais, esse tipo de som pode servir como ponto de contraste para a compreensão de aspectos importantes de nossa vivência como coletividade – o que é resultado de uma trajetória que remete aos anos 1980, mas que nessa década ainda não seria perceptível de nenhuma forma, já que a vida política e o espaço público possuíam, então, outras lógicas. Tais aspectos dizendo respeito a uma dinâmica de dissociação, a qual pressupõe e resulta em desintegração. Dinâmica essa ligada, sem dúvida, por um lado, a nosso fracasso histórico em construir instituições de fato regidas pelo princípio da universalidade – e, portanto, em erigir uma esfera eficaz e inegociável de direitos individuais. Esse fracasso reduz drasticamente tanto a capacidade de absorção dos conflitos pelas instituições, quanto a possibilidade de elaboração e processamento conscientes desses mesmos conflitos no espaço público. O que acaba por constituir terreno fértil para o avanço da violência em suas mais diferentes manifestações, incluindo as milícias e o crime organizado.

Por outro lado, a referida dinâmica explicita um impasse agudo entre grupos opostos de um coletivo simplesmente ausente ou muito heterogêneo e desigual, no qual grande parte das classes dominantes e próximas ou aspirantes ao topo parece não ter lidado bem com a tímida e relativa amenização das desigualdades sociais e raciais dos anos 2000. 

Essa coletividade fraturada não elaborou, domou e nem muito menos superou os seus circuitos mais perversos de ação e resolução de conflitos, ativos e renovados desde a escravidão, e cujo núcleo básico principal, formado pelo não reconhecimento da humanidade do outro, pelo autoritarismo e pela indiferença à dor e ao sofrimento alheios, é de natureza essencialmente dissociativa – o que revela, a meu ver, a sua faceta satânica.

Penso, então, haver uma convergência, no caso do Brasil, entre, de um lado, esses circuitos históricos demoníacos, que levam o nosso sistema prisional, por exemplo, a ser um bolsão de práticas que poderiam ser remontadas mais ou menos diretamente ao passado escravista, já que alimentadas pela persistência do racismo estrutural; e, de outro, algumas forças que o pensamento crítico tem procurado compreender no mundo contemporâneo – forças de múltiplas formas representadas, rebatidas ou ecoadas simbolicamente na cena musical de ódio, dissociação e violência que temos abordado –, e que, para além do 11 de setembro, talvez tenham colaborado para a volta da utilização sistemática da tortura e da morte como armas de repressão e luta política.

Neste ponto, devemos notar que não apenas Pig Destroyer foi utilizado para supliciar MacGyver em uma série de TV. Canções de bandas como Slayer, Metallica, Napalm Death e Deicide foram (são?) realmente empregadas em lugares como Guantánamo para torturar prisioneiros de guerra. A tortura despontando, não por acaso, e de forma disseminada, no âmago da música de artistas intuitivos de outras correntes, como Aranea Peel e Richard D. James.

Como disseram os Racionais Mc’s, Adolf Hitler sorri no inferno. Pois é visível que, ao figurarem seus inimigos como o mal absoluto (comunistas, possuídos por Satanás, destruidores da família, perversores de nossas crianças etc.), muitos se sentem felizes e/ou representados com a perspectiva de aniquilá-los de forma total, utilizando ou – o que é tão grave quanto – tolerando para tal fim quaisquer meios (exorcismo, tortura, chacinas), e não percebendo ou mesmo, pelo contrário, ativamente desejando o caminho de destruição institucional que desemboca no encaminhamento de todo e qualquer conflito pela via do ódio e da violência – real e/ou simbólica.

 

Fonte: Por Paulo Iumatti, em Outras Palavras

 

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