'Qual
o projeto nacional de cada um?', pergunta Goldberg a Lula e Flávio
Às 20h
deste domingo (18), Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ficaram frente a frente
pela primeira vez nesta campanha, no debate da Band, em São Paulo. Os dois não
foram a nenhum debate no primeiro turno, que Flávio terminou com 47% dos votos,
ante 45% de Lula. No estúdio, terão 30 minutos de confronto livre.
Jacob
Pinheiro Goldberg não fala com eles. Fala com quem vai esteve diante da TV.
O
recado do psicólogo, advogado e assistente social de 92 anos cabe numa
pergunta, que ele quer ver feita aos dois candidatos antes do segundo turno, no
domingo (25): "Qual é o verdadeiro projeto nacional de cada um?". O
resto, diz ele, é discussão de "questões policiais". Quem é mais
ladrão.
Goldberg
nasceu em Juiz de Fora (MG), em 1933, filho de judeus poloneses imigrantes. É
doutor em psicologia e autor de dezenas de livros de psicologia, poesia e
ensaio.
Nos
anos 1960, primeiro-tenente formado pelo NPOR, o Núcleo de Preparação de
Oficiais da Reserva, ele dirigiu o serviço social de um quartel em São Paulo,
com um projeto de proteção a soldados, cabos e sargentos pobres que o golpe de
1964 interrompeu. Em março deste ano, o escritor Felipe Lott, bisneto do
marechal Henrique Teixeira Lott, lançou um livro sobre o pensamento de Goldberg
nos debates nacionalistas daquela década: "Um Projeto Nacionalista - Jacob
Pinheiro Goldberg". É desse "projeto nacionalista" que ele parte
para cobrar os candidatos de agora.
Eleição
não é assunto novo para ele. Em 2022, chamou os dois principais candidatos
daquele ano de "mistagogos", políticos populistas que se apresentam
com caráter de sacralidade. No último dia 4, numa live do iG durante a apuração
do primeiro turno, disse que a pesquisa eleitoral "virou produto e não
conhecimento”.
Quem
disputava a Presidência também já foi ao consultório dele. Em 2022, Simone
Tebet, hoje no PSB, era a candidata do MDB quando Mara Gabrilli, então
companheira de chapa dela e hoje no PSD, a levou a Goldberg, em São Paulo.
Segundo o relato dele, Tebet quis saber de quantas semanas o professor
precisaria para resumir o que mais interessa ao Brasil. Ele pediu três minutos.
Pegou uma folha de papel em branco e escreveu uma palavra.
Fome.
Goldberg
conta que ela respondeu que ele tinha acabado de ler a alma dela, e que repetiu
a frase na televisão. A folha, com a fotografia de Tebet, está no livro de
Felipe Lott, diz o professor.
Quatro
anos depois, com Lula e Flávio na disputa, a palavra volta. A fome é o segundo
item da pauta que Goldberg cobra dos dois candidatos, logo depois da Amazônia,
na conversa de sábado (17).
LEIA A
ENTREVISTA
• O que o senhor vê nesta eleição?
Numa
eleição crucial, em vez de nós estarmos discutindo como enfrentar essas
mudanças de civilização, nós estamos discutindo questões policiais. Quem é mais
ladrão. "Você roubou 30 milhões", "você roubou 45".
"Você saiu com uma mulher numa orgia", "mas você saiu com três
travestis". Ou seja, nós estamos discutindo questões menores, mais uma
vez, no processo de alienação, na falta de um projeto nacional.
A minha
sugestão é que a gente, ainda que em cima da hora, a um minuto do fim do jogo,
pergunte para o Flávio e para o Lula. A pergunta é crucial: qual é o verdadeiro
projeto nacional de cada um? Não se o Lula é filhinho de mamãe ou se o Flávio é
filhinho de papai. É verdade que o Flávio é de extrema direita? É verdade que o
Lula é ladrão? Isso não é a questão. A questão é: eles têm competência para
dirigir um país que é o país mais poderoso pelos recursos naturais, pela
dimensão continental e pela miséria social da América? Nós somos o segundo país
de importância da América.
Nós
vamos ficar discutindo a Guerra da Coreia? Nós vamos ficar discutindo a questão
evangélica, ou católica, ou judaica? Nós vamos persistir numa linguagem de
mistagogo, em que um é mito e o outro é pai dos pobres, herdeiro do Getúlio?
• O que nós temos de discutir, professor?
Amazônia.
A Terra. Nos próximos anos, o problema da Amazônia vai ser um dos problemas
fundamentais do mundo. E eu quero saber a posição de cada um desses dois
candidatos a presidente. Se é que eles têm ideia da profundidade e da
complexidade da questão.
Segundo,
a realidade da miséria. [O desafio] colocado por Josué de Castro na Geografia
da Fome. Nós temos milhares de crianças passando fome hoje. Eu sou assistente
social. Eu trabalhei com a periferia de São Paulo, convidado pelo Mário Covas.
Nós somos pequenos, André. Qual a sua altura?
• Tenho 1,74 m.
Você,
na Suécia, é anão. Isso não é questão de geografia, meu Deus do céu. Isso é
questão de alimentação. Eu tenho 1,68 m. A implicação disso é que, da mesma
maneira que a nossa estatura física está abaixo da média dos países avançados
socialmente, isso se reflete na questão educacional, na saúde, na economia.
Mas,
antes da Amazônia, a consciência do Brasil como nação. Hoje nós somos um
território, eu estou usando de propósito essa palavra, um território
fragmentado, inclusive em função eleitoral. Você veja que nós temos um tipo de
votação Norte-Nordeste e outro Sul-Sudeste. Uma vez o Brizola me disse:
"Professor, hoje a gente resolve essa questão ou vai acontecer com o
Brasil o que aconteceu com a União Soviética". Era a segunda potência do
mundo e terminou em algumas semanas. Se a União Soviética pôde ser desmontada
em algumas semanas, imagina o Brasil.
Basta
instaurar e continuar essa bipolarização absolutamente alienada que está
acontecendo. Se ela continuar pelos próximos anos, e tudo indica que existe
esse risco, nós deixamos de discutir as verdadeiras questões e tomamos a
atitude alienatória de esquecer que nós fazemos parte de uma nação.
• Como a gente fala isso de maneira
simples para o povo?
A
pergunta é crucial. Eu acho que nós temos que resgatar o projeto nacionalista,
que foi o projeto do marechal Lott. Eu fiz a campanha do Lott, atravessando o
Brasil com ele e com a Edna, contra o Jânio. Eu acabei acompanhando o Jânio e a
dona Eloá até o fim da vida. No fundo, os dois eram patriotas. E essa é a minha
suspeita em relação ao senhor Lula e ao senhor Flávio: eles têm muito mais em
comum, talvez, em profundidade, do que a gente possa perceber.
O que
nós estamos vivendo é um processo que frequentemente as massas e os países
vivem: o risco de se autodevorarem, que é a perda da identidade nacional. Ter a
consciência de que isto aqui é um país só, evangélico, espírita, judeu, árabe,
negro, homossexual. Não é possível acreditar que a escolha sexual de cada ser
humano, que é matéria que já devia estar absolutamente superada e faz parte da
Declaração dos Direitos do Homem, se transforme ainda numa questão fundamental
no Brasil. A orientação sexual de cada pessoa diz respeito a ela. Somente a
ela.
• E a saída?
A
saída, eu creio, é guerrilheira. Mas não a guerrilheira idealizada. A realista.
Essa que eu e você estamos fazendo agora. [...] O caminho não é o caminho que,
infelizmente, a radicalização leva. Metade da população quer matar a outra
metade. Metade diz que um candidato é ladrão, a outra diz que o outro é o filho
do genocida.
• O que falta para a gente equilibrar tudo
isso? Qual é a mensagem para quem vai dedicar uma parte do domingo a ler esta
conversa?
Consciência.
Consciência de que uma pátria não é uma palavra vazia, de que ela é a extensão
da nossa família e da nossa vida individual. O que acontecer com o Brasil vai
repercutir na vida de cada cidadão. Então é preciso usar não a pulsão de morte,
mas a pulsão de vida, a razão. E exigir. Não esperar a resposta do Lula ou do
Flávio. Exigir que eles correspondam a esse anseio de comprometimento com o
nacionalismo brasileiro, que não tem que ser chauvinista, não é contra outros
povos. Pelo contrário. Nós somos uma lição extraordinária de convivência de
raça, negro, branco, de sexo, de religião. Aqui o sujeito vai à missa de manhã
e à noite vai ao terreiro. Quem não vê isso é porque não conhece a sociedade
brasileira.
• O que vai ser definido no dia 25 vai
determinar pelo menos a próxima década?
Eu
tenho insistido nisso: nós não estamos decidindo um mandato. Eu até dei uma
entrevista para um jornal americano anteontem dizendo que nós estamos definindo
os próximos 20 anos. Você até foi otimista falando em década. E essa definição
significa o destino do Brasil enquanto nação. Ou a gente vai para o lado dos
detritos da história e se transforma num país de quinto mundo, ou a gente
disputa o lugar que a natureza nos ofereceu.
• Que lugar é esse?
Uma
demografia extraordinária. Nós temos pouca gente para muito espaço. Nós temos
muita água. Nós temos petróleo. Nós temos riqueza natural. E nós temos um povo
que, não obstante todas as dificuldades, e a minha posição é essa, é um povo
cordial. Por incrível que pareça, é um povo cordial.
• Mas como somos cordiais, se a gente quer
matar quem se opõe às nossas ideias, principalmente na política?
Essa
morte que a gente quer fazer é neurótica, é simbólica. A gente diz que quer
matar, mas casa com o outro. Boa pergunta a tua. Essa tua pergunta, aliás,
podia abrir a matéria. O sujeito aqui vota no Flávio, briga com a noiva a noite
inteira porque ela desfilou pelo Lula, mas é com ela que ele vai casar. E isso
mostra que nós somos um povo cordial. Não somos povos irascíveis como o
ucraniano e o russo, que esses sim matam de verdade. Você vê que nós
atravessamos algumas décadas e não tivemos nenhuma revolução fratricida de
dimensões enormes.
• No dia 25, o que o brasileiro que for à
urna tem de levar em consideração?
Isso é
o mais importante: qual dos dois candidatos é o mais competente para aprender a
dirigir o Brasil?
• Para aprender? Então nenhum dos dois
sabe?
Nenhum
dos dois sabe. A minha posição é essa: não sabem. E, não sabendo, acabam se
transformando em instrumentos de interesses, os piores que a gente possa
imaginar.
• Movidos pelas oligarquias?
Exatamente.
Joguetes dessas oligarquias.
• Quais delas são hoje as mais
prejudiciais para o Brasil?
As
internas. Grupos financeiros, econômicos internos. Mas, piormente ainda, países
estrangeiros interessados na riqueza, principalmente a natural, mas do país
inteiro. Você anda aí pelo país e está vendo que nós estamos sendo vendidos no
varejo e no atacado.
• Qual dos dois candidatos tem mais
condição de corresponder a essa cobrança?
A minha
resposta íntima eu tenho, mas eu prefiro não declinar na entrevista. Eu prefiro
deixar como uma interrogação, exatamente para os candidatos e para o eleitor.
Dirigir a interrogação para aquele que tem que decidir, que não vai ser nem o
Lula nem o Flávio. Vai ser a sociedade brasileira. É o André, é o Jacob.
Fonte:
O Dia

Nenhum comentário:
Postar um comentário