Luís
Nassif: Com os jovens nas ruas, nada será como antes
A
campanha das diretas não foi um acidente de percurso na política brasileira,
mas o sinal mais evidente de que o país amadurecera antes que a classe política
se desse conta.
De
fato, a emenda Dante de Oliveira – que trouxe de volta as eleições diretas -,
inicialmente foi recebida com ceticismo pela classe política. Só quando as ruas
começaram a se coalhar de gente, que os artistas entraram na luta, que os
estudantes saíram às ruas, é que caiu a ficha de que o País estava pronto.
Algo
semelhante começa a acontecer no país. Os últimos anos foram de encolhimento
total da política, acuada pelo Centrão e pelo fantasma do bolsonarismo, pelas
emendas parlamentares, e por um mercado financeiro embalado pelo dinheiro do
crime organizado, e sonhando com a volta à promiscuidade inaugurada por Roberto
Campos Neto.
A
estratégia Flávio Bolsonaro começou a ser preparada muito antes, com a
participação fundamental da imprensa – especialmente os jornalões e o Jornal
Nacional. A estratégia seguia os princípios de Steve Bannon, de saturar o
noticiário com toda sorte de escândalos fabricados, de maneira a diluir os
escândalos reais e comprovados de Flávio Bolsonaro.
Era
nítida a estratégia, pelo menos para quem tinha olhos para ver e cérebro para
pensar.
Como se
sabe agora, o escândalo do INSS tinha relação direta com Flávio Bolsonaro,
através do eixo Careca do INSS —> Willer Tomaz —> Flávio Bolsonaro. Do
mesmo modo, o escândalo Master, com seus mil desdobramentos, tinha um dos eixos
principais fincados no coração do bolsonarismo.
No
entanto, o que a mídia fez foi, inicialmente, transformar o escândalo Master em
um escândalo exclusivo do Supremo Tribunal Federal. Era nítida a intenção. Não
se tratava de punir Dias Toffoli, mas de arrancar dele a relatoria do caso
Master. Depois, com a colaboração preciosa do algoritmo do STF, direcionar o
caso Master, o INSS a André Mendonça. O primeiro ato de Mendonça foi quebrar o
sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva. Nada encontrou. Mesmo assim, abriu
um terceiro inquérito, agora contra Fábio Luís. E toda essa manipulação era
endossada, de forma vergonhosa, pelos jornalões. E jornalistas-sela,
instrumentalizados por Mendonça no vazamento de informações sigilosas, eram
saudados como grandes repórteres.
Ao
mesmo tempo, havia todo um terrorismo em torno da “gastança” – entendida,
exclusivamente, como o ato civilizatório de destinar recursos para políticas
sociais. Tudo para ampliar o espaço para a dívida pública, em um momento em
que, a expulsão do crime organizado do mercado, ameaça derrubar as pirâmides
financeiras criadas nesses tempos de devassidão financeira.
Não
apenas isso. A quebra da institucionalidade, acelerada pelo golpe do
“impeachment”, produziu alguns dos períodos de maior devassidão da história da
República. Brasília transformou em uma corte de Versailles. Daniel Vorcaro
tornou-se Luis Felippe II, duque de Orleans, por sua vida libertina, suas
amantes e pelas festas no Palais-Royal, centro de jogos, prostituição e
encontros políticos. O encontro de Londres foi um dos episódios mais
vergonhosos da corte de Versailles de Brasilia. Só faltaram as meninas
ucranianas de Vorcaro.
Confira,
abaixo, as cenas mais humilhantes da história contemporânea brasileira. Nela,
as mais altas autoridades da República, e esposas deslumbradas, em salões
imperiais, ao som de violino e cenas de balé. Nunca imaginei que um país da
dimensão e da história do Brasil, seria exposto a tal humilhação.
A
rapaziada assistia a tudo isso calada. Mesmo após as declarações de Flávio
Bolsonaro, prometendo participação dos Estados Unidos no governo de transição,
a Nação parecia tomada por uma inércia cívica, como se a responsabilidade total
pela defesa da democracia repousasse exclusivamente nos ombros de um político
octogenário, o mesmo que garantiu quatro décadas da manutenção da democracia e
a última herança da Constituinte, as políticas sociais permanentemente
ameaçadas. Mas que foi incapaz de enfrentar os desafios da financeirização e de
falta de projetos para o futuro.
As
manifestações dos últimos dias não apenas reeditam a campanha das diretas, mas
também trazem a sensação de um corte no tempo, de um preparativo para a
construção do futuro, como foram as diretas para a Constituinte e para a
redemocratização.
Elegerão
Lula e, mais que isso, impulsionarão o 4º governo. A partir de agora, nada será
como antes. Não serão mais toleradas as vacilações, a demora em preparar o
futuro nem as cautelas excessivas em nome de uma governabilidade que não leva a
lugar algum. Lula não poderá ignorar a voz das ruas. Desde a transição, terá de
reunir as forças intelectuais e produtivas do país, os movimentos sociais e o
cooperativismo em um esforço coletivo para superar, de uma vez por todas, a
síndrome do gigante adormecido.
• Fim da liberdade de expressão? TSE
rejeita pedido de Flávio Bolsonaro para restringir atuação política da UNE
O
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou o pedido da campanha do senador e
candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) para limitar a atuação política
da União Nacional dos Estudantes (UNE) nas universidades. A decisão foi tomada
pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva,
que destacou a proteção constitucional à liberdade de expressão e à
manifestação política no ambiente universitário.
A
campanha de Flávio havia solicitado que o TSE obrigasse a entidade a orientar
organizações estudantis vinculadas a não utilizar espaços de universidades
públicas para distribuir materiais de propaganda eleitoral.
Ao
analisar o pedido, Cueva afirmou que o tema exige cautela, uma vez que o
Supremo Tribunal Federal (STF) já reconheceu a inconstitucionalidade de medidas
que restrinjam a livre manifestação de ideias e a divulgação do pensamento nas
universidades.
Em
julgamento relatado pela ministra Cármen Lúcia, o STF também proibiu medidas
como o recolhimento de documentos e a interrupção de aulas, debates e
manifestações de professores e estudantes.
Segundo
Cueva, a jurisprudência do Supremo estabelece que a liberdade de expressão, a
pluralidade de ideias e a autonomia universitária são garantias fundamentais,
que devem ser preservadas mesmo durante o período eleitoral e independentemente
do posicionamento político defendido.
O
ministro também considerou insuficientes os elementos apresentados pela
campanha para justificar uma intervenção urgente. Além disso, avaliou que o
pedido era genérico, pois pretendia impor à UNE a obrigação de orientar outras
entidades estudantis sem delimitar adequadamente os destinatários, o conteúdo
da medida e as situações que justificariam sua aplicação.
Cueva
ressaltou, porém, que eventuais irregularidades no uso de espaços públicos para
propaganda eleitoral devem ser examinadas individualmente, conforme as
circunstâncias de cada caso e os limites estabelecidos pela legislação
eleitoral.
<><>
Ação contra Lula e Alckmin
Na
mesma decisão, o ministro analisou outros pedidos apresentados pela campanha de
Flávio Bolsonaro e concedeu prazo de 72 horas para que o candidato detalhe as
condutas atribuídas a dirigentes sindicais em uma ação que investiga suposto
uso de recursos e estruturas de entidades em benefício das campanhas do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do vice-presidente Geraldo Alckmin
(PSB).
A
campanha de Flávio acusa sindicatos, entidades estudantis e movimentos sociais
de utilizar recursos financeiros, sedes, funcionários e canais de comunicação
para favorecer a candidatura à reeleição e prejudicar a campanha do senador.
Com
base nas alegações, o candidato pede a cassação dos registros de candidatura de
Lula e Alckmin, além da declaração de inelegibilidade por oito anos dos dois
políticos e dos dirigentes que teriam participado dos supostos abusos.
Ao
examinar a petição, Cueva observou que 37 dos 54 dirigentes mencionados não
foram identificados nominalmente na descrição dos fatos nem na fundamentação
jurídica da ação.
Por
isso, o ministro determinou que a campanha apresente informações específicas
sobre a participação de cada dirigente cuja inclusão no processo ainda será
analisada, com a indicação das datas e das provas que sustentariam as
acusações.
• “Não se trata de votar no Lula ou no PT,
mas na democracia. A outra opção é golpe”, diz José de Abreu
Em
participação no TVGGN 20H na quarta-feira (14), o ator e diretor José de Abreu,
que vem mobilizando as redes sociais ao cobrar o posicionamento de colegas de
profissão, fez um novo chamado à classe artística e à sociedade contra o avanço
do fascismo no Brasil. Para ele, o pleito que opõe Luiz Inácio Lula da Silva a
Flávio Bolsonaro não é uma disputa partidária comum, mas uma escolha decisiva
entre a manutenção da democracia e o risco de uma ruptura institucional.
Com
décadas de militância política, tendo sido preso durante a ditadura militar e
participado ativamente da campanha das Diretas Já, Abreu tornou-se, nos últimos
meses, uma das vozes mais firmes das redes sociais na defesa do regime
democrático.
“Não se
trata de votar no Lula ou no PT, mas na democracia. A outra opção é golpe. Não
precisa falar de eleição, Lula e PT, falem sobre o que vocês acham do fascismo
que está querendo tomar conta do país. O mundo está se posicionando contra o
fascismo que está chegando ao Brasil. Vocês vão ficar parados olhando para a
parede? Não me conformo com colegas omissos! A vida quer é coragem”, manifetsou
o ator.
<><>
Trata-se de derrotar o fascismo
Para
exemplificar a forma como vem atuando, Abreu dirigiu-se nominalmente a colegas
de profissão que, segundo ele, ainda relutam em se manifestar. “Estou perplexo
com alguns colegas que estão relutando em nos ajudar a vencer o fascismo.
Giovanna Antonelli, cadê? Carolina Dieckmann, cadê esse pessoal? Danton? Eu
fico meio indignado com esses meus colegas e amigos que não se posicionam numa
hora dessas, é inacreditável, disse.
Coube
ainda uma menção a Selton Mello, um dos protagonistas de Ainda Estou Aqui —
filme sobre a ditadura militar que concorreu ao Oscar em 2025 e venceu na
categoria de Melhor Filme Internacional —, que não teria se posicionado sobre o
momento político atual. “Não é possível que uma pessoa como Selton Mello, que
faz um filme a respeito da ditadura, não tenha se posicionado”, questionou.
<><>
O espaço nas redes
O papel
das plataformas digitais nestas eleições também foi pauta da conversa. Apesar
do controle exercido pelas big techs e da desinformação promovida pela
extrema-direita, que tem impulsionado a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL),
sobretudo após a censura ao canal do deputado André Janones (Rede-MG), o campo
progressista conseguiu, de forma inédita, ocupar esse espaço de maneira
orgânica e viral.
“Pela
primeira vez na história, nós estamos ganhando nas redes sociais. Nós estamos
dando um banho neles. É a primeira vez que a esquerda está na frente nas
redes”, comparou.
A frase
que se tornou sua marca nesta semana — “E não vai lutar contra o fascismo?” —
nasceu justamente desse movimento. Abreu passou a comentar publicações de
artistas com a pergunta, transformando a cobrança em um meme que ultrapassou o
meio digital e ganhou as ruas.
“Foi
uma coisa bem genérica que eu tinha visto da Ana Paula Renault, e ela foi muito
inteligente, porque falou: ‘Não é votar no Lula ou votar no PT, claro, é votar
na democracia porque a outra opção é golpe’”, relatou Abreu, ao revelar a
origem do bordão.
O ator
também comemorou o alcance expressivo de suas publicações nas redes digitais,
destacando ter somado 31 milhões de visualizações no X (antigo Twitter) e 12
milhões no Instagram. O desempenho foi marcante sobretudo pela adesão do
público jovem, já que 35% do alcance concentrou-se na faixa entre 18 e 24 anos
e outros 30% entre 19 e 34 anos. O engajamento rendeu a ele o apelido de “vovô
da internet”. “Eu não vejo a hora de passar o bastão. Eu fiz 80 anos esse ano.
Todo mundo tá me chamando na internet de vovô”, brincou.
<><>
A importância das manifestações e do movimento estudantil
A
entrevista também abordou a importância das manifestações de rua e do movimento
estudantil neste momento. José de Abreu mencionou especificamente a mobilização
na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, e destacou o papel da
juventude na resistência ao autoritarismo, cenário que ganha ainda mais
gravidade diante dos recentes ataques contra universidades públicas, a exemplo
dos incêndios registrados na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) desde 30
de setembro.
“Eu
acompanhava o pessoal da UFF e vi quando disponibilizaram o link para a
assembleia. Na segunda-feira, a faculdade inteira desceu em passeata; na terça,
realizaram outro ato. Isso mostra a força de um movimento espontâneo que se
espalhou na defesa da democracia. Essa participação da rapaziada dá aquela
sensação de alívio. A gente já tem para quem passar o bastão. Ou seja, a nossa
geração já sabe que a rapaziada tá aí para defender o Brasil, para defender a
democracia.”
O ator,
que afirmou estar em “plena psicose eleitoral” por acompanhar o noticiário 20
horas por dia, destacou a organização espontânea dos atos recentes, como o
registrado na Avenida Paulista, no domingo, que reuniu mais de 1 milhão de
manifestantes. “É horizontal, não é vertical, não vem da direção da campanha. A
rapaziada descobriu e alastrou essa questão da defesa da democracia, da defesa
da ciência. Foi fantástico”, afirmou.
• FUP denuncia intimidação de
sindicalistas em ação de Flávio
A
Federação Única dos Petroleiros (FUP) denunciou uma tentativa de intimidação de
dirigentes sindicais em uma ação apresentada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL)
ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na quarta-feira (14), que pede a cassação
da chapa formada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo
vice-presidente Geraldo Alckmin.
Segundo
a FUP, a iniciativa questiona a atuação de movimentos sindicais e sociais na
campanha pela reeleição de Lula, sob alegações de abuso de poder e abuso
econômico. A federação critica o fato de a ação acionar dirigentes sindicais em
seus CPFs, e não as entidades que representam, identificadas por seus CNPJs.
Para
Cibele Vieira, coordenadora-geral da FUP, a medida constitui uma tentativa de
intimidar as lideranças dos trabalhadores. A dirigente afirma que sindicatos e
movimentos sociais têm legitimidade para defender direitos, apresentar
reivindicações e debater com a sociedade os projetos políticos em disputa.
Ad
loading
<><>
FUP relaciona ação à mobilização trabalhista
Cibele
também relacionou a iniciativa à mobilização em torno de pautas trabalhistas,
citando a votação pelo fim da escala 6×1 realizada no dia anterior. Na
avaliação da dirigente, a ação apresentada ao TSE representa uma reação à força
dos movimentos sindicais e sociais e à defesa dos direitos da classe
trabalhadora.
A
coordenadora-geral afirmou ainda que a federação continuará participando do
debate público e comparando as políticas dos governos Jair Bolsonaro e Lula,
mas mostrou preocupação com a possibilidade de a iniciativa integrar uma
estratégia de contestação do resultado eleitoral caso ele não corresponda aos
interesses dos adversários do atual presidente.
Fonte:
Jornal GGN

Nenhum comentário:
Postar um comentário