terça-feira, 20 de outubro de 2026

Erick Kayser Vargas da Silva: A virada vem de baixo

Faltam poucos dias para o segundo turno, e as últimas pesquisas apontam empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ainda assim, desde a apuração do primeiro turno, em que Lula ficou atrás, uma estatística vem sendo repetida como sentença: desde 1989, nenhum candidato que saiu do primeiro turno em segundo lugar chegou à Presidência. É contra esse fatalismo que estas linhas se voltam. A virada é possível e, se vier, virá de baixo.

E não é pouco o que está em jogo. Sempre que a extrema direita dispõe de força eleitoral real, a eleição deixa de ser uma escolha entre a continuidade ou a alternância de um grupo no poder — é a própria democracia que entra em xeque. Não se trata de exagero retórico: o candidato e dirigentes do PL já anunciaram, sem rodeios, que a anistia aos condenados pela trama golpista que desaguou na intentona de 8 de janeiro de 2023 será prioridade. É difícil não ler nisso o marco zero de uma escalada autoritária desavergonhada, agora revestida da legitimidade das urnas. Convém, porém, não confundir as tarefas. Reeleger Lula é impedir que planos ditatoriais avancem sob o manto do sufrágio. Derrotar o bolsonarismo exigirá um combate mais longo, pela hegemonia e contra suas organizações. A primeira tarefa é condição da segunda; é na primeira que cabe concentrar agora nossas atenções.

Comecemos, então, por desfazer o mito estatístico. O dado é historicamente verdadeiro, desde 1989, quem liderou o primeiro turno acabou eleito, mas vem sendo mobilizado quase como fatalismo, como se a regularidade do passado fosse lei do futuro. Ora, meia dúzia de eleições não constitui lei histórica alguma, e há contraexemplos de sobra para desmontar esse determinismo. Nas eleições para governador, desde 1990, houve 35 viradas em 120 disputas de segundo turno, quase 30%. Na América Latina, entre 1978 e 2024, foram 20 viradas em 93 eleições presidenciais com segundo turno. No campo da esquerda, a vitória de Gabriel Boric no Chile, em 2021, depois de terminar o primeiro turno atrás de José Antonio Kast, é exemplo eloquente dessa possibilidade. A estatística descreve as circunstâncias, mas não faz a história por nós.

Lula é o presidente da República, e o país exibe indicadores econômicos positivos. Em tempos “normais”, isso bastaria para fazer dele um favorito confortável. Mas vivemos uma crise, e nela os parâmetros se alteram bruscamente: as mediações que outrora traduziam desempenho econômico em capital eleitoral já não operam com a mesma eficácia. De certo modo, Lula padece do ônus de ser governo sem usufruir do bônus. Ele está refém de um Congresso hostil, tem uma governabilidade estreita e optou pela conciliação, mesmo quando esse caminho já se mostrava bloqueado. Por isso, pouco conseguiu fazer para reverter a força social da extrema direita e chegar a esta eleição em terreno mais favorável. O resultado é que o embate entre Lula e Flávio Bolsonaro se trava em condições profundamente assimétricas.

A primeira, e mais óbvia, assimetria é o poder financeiro. Além de dispor da maior fatia do fundo eleitoral, o PL viu frações expressivas do capital aderirem abertamente à candidatura de Flávio. O volume de doações legais é revelador. Desde 4 de outubro, empresários das finanças, dos combustíveis e da mineração doaram R$ 2,3 milhões ao PL; setores que dependem de contratos públicos ou estão sob a vigilância de agências reguladoras. No mesmo período, o PT declarou apenas R$ 85 mil. O partido de Flávio recebeu, portanto, 27 vezes mais. Não se trata de filantropia: quem depende do Estado sabe muito bem quem quer à frente dele.

A segunda assimetria é jurídica. O Tribunal Superior Eleitoral é presidido pelo ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro. Sob o verniz da neutralidade técnica, o tribunal tem acumulado decisões que recaem com notável regularidade sobre a campanha de Lula. Não é preciso postular conspiração alguma: basta reconhecer que o direito, longe de pairar acima dos antagonismos sociais, é também um de seus terrenos.

A terceira assimetria, talvez a mais grave, se dá nas plataformas digitais. O caso da Meta é o mais emblemático. A campanha de Lula enumerou uma sequência de episódios: a retirada do perfil do presidente das buscas do Instagram, ainda em dezembro de 2025; a desativação da conta de anúncios durante o primeiro turno, sem justificativa formal; a interrupção, em 8 de outubro, do registro de visualizações de vídeos do presidente; o caso da Meta AI, assistente do WhatsApp, que gerava imagens para “Vote Flávio” enquanto bloqueava “Vote Lula”, e seguiu fazendo isso mesmo depois de a empresa alegar ter corrigido o “erro de configuração”. A lista segue, mas fiquemos com esses exemplos. Para cada episódio, a mesma explicação: um “problema técnico”. Quando os “erros” apontam sempre na mesma direção, deixam de ser erros e passam a ser política.

A quarta assimetria, por fim, vem de fora. A interferência dos Estados Unidos de Trump no processo eleitoral brasileiro nada tem de velada. Do tarifaço vinculado expressamente ao julgamento de Jair Bolsonaro à recepção de Flávio no Salão Oval em plena pré-campanha, a Casa Branca tem agido como cabo eleitoral do bolsonarismo. Chegou-se a tal ponto que parlamentares democratas e independentes, como o senador Bernie Sanders, cobraram formalmente do Departamento de Estado o compromisso de respeitar o resultado das urnas. Trump saudou o desempenho de Flávio no primeiro turno como uma “grande vitória”, e a Polícia Federal abriu inquérito para apurar a interferência norte-americana. O imperialismo, que outrora se valia de embaixadas e quartéis, hoje combina tarifas, sanções e plataformas digitais.

O que tem conseguido restituir alguma condição de equilíbrio a essa disputa é a grande mobilização da sociedade civil. Já apontávamos que esta poderia ser a energia capaz de alterar o resultado e, felizmente, isso tem se confirmado. A grande força da campanha de Lula, hoje, vem de baixo: da auto-organização popular ou espontânea. Se no primeiro turno testemunhamos uma campanha petista repleta de problemas, que o próprio Lula classificou publicamente como a menos organizada de que participou desde 1989, não surpreende que, no segundo, a força para a virada brote à margem da cúpula da campanha. Isso tem se demonstrado nas multidões mobilizadas em atos pró-Lula nas capitais e em centenas de cidades pelo país, nos comitês de bairro ou de categorias, nas redes, nas ações de artistas, na mobilização da juventude, nas iniciativas criativas de vira-voto que se multiplicam sem esperar orientação de cima. É dessa força orgânica, que nenhum marqueteiro fabrica e nenhum algoritmo consegue inteiramente estrangular, que depende agora o desfecho.

Restam poucos dias, e eles serão decisivos. A distância que separou Flávio de Lula no primeiro turno, cerca de 2,2 milhões de votos, equivale a menos de um décimo dos mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas. A virada não virá dos gabinetes nem das pesquisas; virá das ruas, das portas de fábrica, das conversas pacientes com o vizinho indeciso, com a tia que hesita, com o colega que pensa em não votar. É esse trabalho miúdo, artesanal, quase invisível de conquista voto a voto que pode converter a assimetria das condições em vantagem nas urnas. Contra o dinheiro do capital, a toga parcial, o algoritmo opaco e a ingerência imperial, temos aquilo que a extrema direita jamais terá: a força de um povo que se organiza para defender a si mesmo. Venceremos!

•        “A juventude vai virar o jogo nesta eleição”, diz Pedro Rousseff

A expressiva ocupação das ruas na reta final da disputa presidencial marcou um ponto de inflexão decisivo na campanha e colocou a juventude no centro da reação democrática do país. A avaliação foi feita pelo deputado federal eleito por Minas Gerais, Pedro Rousseff (PT), em entrevista concedida à jornalista Andrea Trus durante a edição de plantão do programa Boa Noite 247, na TV 247.

Rousseff, que esteve presente na gigantesca mobilização realizada na Avenida Paulista — calculada em mais de 1 milhão de pessoas —, relatou a surpresa com a maciça participação dos mais jovens, um segmento do eleitorado historicamente disputado e permeado pelo discurso conservador nas redes sociais. Para o parlamentar, o ato evidenciou que a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a quebrar a bolha política.

“Eu sou a prova viva em cores de que esse foi o maior ato que já fizemos. O que mais me impressionou foi que só tinha jovem. Todo mundo comentava: ‘é o primeiro ato em que a juventude realmente comparece em peso’. Nossa geração vinha com forte tendência conservadora, mas ver um movimento dessa magnitude mostra que rompemos a bolha e que essa energia vai decidir o resultado.” — Pedro Rousseff

<><> Empate em Minas Gerais sinaliza virada nacional

Durante a conversa com Andrea Trus, o parlamentar trouxe números atualizados das pesquisas de monitoramento interno da campanha em Minas Gerais — estado tido historicamente como o grande espelho eleitoral do Brasil, onde quem vence costuma levar a Presidência da República.

Segundo Rousseff, os levantamentos de tracking diário já apontam empate técnico absoluto no estado:

“As nossas pesquisas internas em Minas Gerais colocam, neste exato momento, o presidente Lula empatado em 50% a 50% com Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, a oposição venceu em Minas e venceu no país. Agora, o quadro é de crescimento contínuo e virada aberta. Se dependermos da mobilização do povo mineiro nas ruas, nós vamos consolidar essa vitória.” — Pedro Rousseff

<><> Foco nos 39 milhões de abstenções e garantia de transporte

Ao analisar a matemática do segundo turno, Pedro Rousseff defendeu uma mudança de rota na estratégia da militância. Em vez de despender energia tentando convencer eleitores convictos de terceiras vias, o foco prioritário deve se voltar para o resgate de quem não compareceu às urnas no primeiro turno.

“Trinta e nove milhões de brasileiros não foram votar no primeiro turno ou anularam o voto. Se conseguirmos levar 10% dessas pessoas às urnas, nós viramos a eleição sem depender de nenhum voto de outras candidaturas. A vitória está na redução da abstenção.” — Pedro Rousseff

Para viabilizar essa presença, o deputado detalhou uma grande operação jurídica e de pressão política contra prefeitos e governadores que tentam sufocar a ida do eleitorado periférico e rural às urnas. Ele citou dados alarmantes de regiões do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha, redutos históricos de Lula, onde a abstenção chegou próxima de 50% por falta deliberada de condução.

Rousseff destacou que foram enviados milhares de ofícios ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para obrigar os municípios a cumprirem a legislação e disponibilizarem frotas de ônibus e vans escolares de forma integral e gratuita no dia da eleição:

“O eleitor rico vai de Uber, de carro próprio, não tem problema com transporte. Mas o trabalhador do campo que mora a duas horas da seção eleitoral não tem condições financeiras de pagar passagem para ele e para a família. A lei do TSE obriga o poder público a ceder o transporte escolar gratuito quando solicitado. Não é favor, é dever legal, e nós estamos acionando a Justiça em todo o Brasil para que ninguém seja impedido de exercer o seu direito de voto.” — Pedro Rousseff

<><> Segurança pública e as três tarefas da militância

Avaliando a necessária renovação da linguagem progressista, o deputado defendeu ainda que a esquerda precisa assumir a pauta da segurança pública sem constrangimento, dialogando com o sofrimento cotidiano do trabalhador das periferias que é vítima de assaltos e da violência urbana, sob pena de deixar o tema nas mãos de soluções demagógicas da extrema-direita.

Ao final da entrevista com Andrea Trus, Pedro Rousseff resumiu as tarefas inadiáveis de cada cidadão e apoiador até o domingo decisivo:

1.       Denunciar os riscos do adversário: Compartilhar massivamente os perigos de retrocesso institucional, econômico e social que cercam a candidatura da extrema-direita;

2.       Levar os idosos às urnas: Fazer listas familiares e garantir condução para pais, mães, tios e avós que, mesmo desobrigados do voto compulsório pela idade, podem fazer a diferença na cabine de votação;

3.       Fiscalizar o transporte local: Acionar diretórios municipais, movimentos sociais e órgãos da Justiça para assegurar o funcionamento pleno do transporte público gratuito para os trabalhadores das áreas periféricas e rurais.

•        “A mobilização popular pode decidir a eleição”, diz Breno Altman

A ocupação massiva das ruas na reta final do segundo turno pode ser a chave mestra para consolidar a virada eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação é do jornalista e fundador do Opera Mundi, Breno Altman, em participação no programa matinal da TV 247. Analisando as expressivas concentrações populares registradas na Avenida Paulista e em dezenas de capitais pelo país, Altman destacou que as manifestações cumprem um papel fundamental de revigoramento anímico e político da militância popular.

Segundo o jornalista, embora comícios e passeatas reúnam majoritariamente cidadãos já decididos pelo voto, sua repercussão atua como um multiplicador de forças. Quem participa dos atos volta para a rotina com outra disposição para disputar mentes e corações em seus círculos cotidianos de convivência.

“Ninguém vai se esclarecer na manifestação; ela reúne quem já tem candidato. Mas ela aumenta enormemente a disposição das pessoas para, ao saírem dali, seguirem adiante conversando com colegas de trabalho, de escola e familiares. Estamos falando de três, quatro ou cinco milhões de pessoas que foram às ruas e agora saem com energia redobrada para convencer eleitores.” — Breno Altman

<><> O frescor da juventude e os ‘fandoms’

Um dos fatores mais marcantes apontados por Altman nas mobilizações recentes foi a forte presença de jovens, muitos deles organizados de maneira horizontal e fora das estruturas partidárias tradicionais, como os fã-clubes digitais (fandoms). Para ele, esse fenômeno resgata uma dinâmica espontânea semelhante a grandes momentos da história política brasileira, como as Diretas Já e as marchas de 1989.

“Há muitos anos eu não assistia a essa predominância da juventude numa atividade eleitoral. É um vento novo, um aluvião de pessoas que oxigena a política. Numa reta final acirrada, a máxima tem que ser maoísta: ‘deixar que mil flores floresçam’. A campanha não pode tentar enquadrar essa energia num comando burocrático rígido.” — Breno Altman

Altman lembrou ainda a matemática estrita do segundo turno: Lula precisa angariar mais de 6 milhões de votos válidos para além da votação do primeiro turno. Essa missão, ressaltou, dependerá do esforço combinado de disputar eleitores de terceiras vias, diminuir o índice de abstenção e virar votos de quem escolheu a extrema-direita na primeira rodada.

•        Boaventura de Sousa Santos: ‘Medo de Flávio Bolsonaro faz esquerda perder temor de ir às ruas’

O sentimento de paralisia que ameaçava tomar conta do campo progressista após os primeiros desdobramentos eleitorais foi superado por uma onda de mobilização nas ruas. É o que aponta o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos em entrevista concedida à TV 247. Para o intelectual, a percepção concreta do risco institucional e de uma hiperconcentração de poder provocou um ponto de virada, transformando o abatimento em militância ativa nas capitais e grandes centros urbanos do país.

“A política do medo e do ódio, implantada pela extrema-direita, virou-se contra eles. As pessoas ficaram com medo da arrogância de quererem controlar tudo — e quando se perde o medo de ir às ruas, ganha-se esperança.” — Boaventura de Sousa Santos

<><> O protagonismo da juventude e a luta pautada na vida real

Durante o programa, imagens transmitidas do Rio de Janeiro mostraram a praia de Copacabana e as estações de metrô tomadas por manifestantes. Boaventura destacou o papel da juventude nesse movimento espontâneo, traçando um paralelo com grandes mobilizações globais recentes em cidades como Paris, Madri e Nova Deli.

Segundo o sociólogo, as pautas concretas que afetam diretamente o cotidiano dos trabalhadores e dos jovens — como a defesa de condições dignas de trabalho e o fim da escala 6×1 — tornaram-se catalisadores fundamentais de engajamento social.

<><> Sociologia das ausências: o Brasil das grandes cidades versus o interior

Ao analisar o mapa eleitoral, Boaventura aplicou o conceito de “sociologia das ausências” para interpretar os contrastes geográficos do país:

•        Grandes Centros Urbanos: Apresentam forte efervescência democrática, motivada pela diversidade econômica e maior visibilidade das pautas sociais.

•        Interiores e Regiões de Monocultura: Áreas sob forte influência do agronegócio tendem a ser mais sensíveis às instabilidades e crises econômicas internacionais, gerando cenários de maior vulnerabilidade e apelo conservador.

Para o acadêmico, o desafio das forças progressistas é expandir o diálogo além das capitais, ouvindo as ansiedades e demandas específicas das populações do interior do país.

Ao encerrar sua análise, Boaventura de Sousa Santos destacou que os olhos do mundo estão voltados para o processo brasileiro. O resultado das urnas no Brasil não definirá apenas os rumos da política nacional, mas emitirá um sinal decisivo para o futuro das democracias em todo o planeta

 

Fonte: A Terra é Redonda: Brasil 247

 

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