Erick
Kayser Vargas da Silva: A virada vem de baixo
Faltam
poucos dias para o segundo turno, e as últimas pesquisas apontam empate técnico
entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ainda assim, desde a apuração do primeiro turno,
em que Lula ficou atrás, uma estatística vem sendo repetida como sentença:
desde 1989, nenhum candidato que saiu do primeiro turno em segundo lugar chegou
à Presidência. É contra esse fatalismo que estas linhas se voltam. A virada é
possível e, se vier, virá de baixo.
E não é
pouco o que está em jogo. Sempre que a extrema direita dispõe de força
eleitoral real, a eleição deixa de ser uma escolha entre a continuidade ou a
alternância de um grupo no poder — é a própria democracia que entra em xeque.
Não se trata de exagero retórico: o candidato e dirigentes do PL já anunciaram,
sem rodeios, que a anistia aos condenados pela trama golpista que desaguou na
intentona de 8 de janeiro de 2023 será prioridade. É difícil não ler nisso o
marco zero de uma escalada autoritária desavergonhada, agora revestida da
legitimidade das urnas. Convém, porém, não confundir as tarefas. Reeleger Lula
é impedir que planos ditatoriais avancem sob o manto do sufrágio. Derrotar o
bolsonarismo exigirá um combate mais longo, pela hegemonia e contra suas
organizações. A primeira tarefa é condição da segunda; é na primeira que cabe
concentrar agora nossas atenções.
Comecemos,
então, por desfazer o mito estatístico. O dado é historicamente verdadeiro,
desde 1989, quem liderou o primeiro turno acabou eleito, mas vem sendo
mobilizado quase como fatalismo, como se a regularidade do passado fosse lei do
futuro. Ora, meia dúzia de eleições não constitui lei histórica alguma, e há
contraexemplos de sobra para desmontar esse determinismo. Nas eleições para
governador, desde 1990, houve 35 viradas em 120 disputas de segundo turno,
quase 30%. Na América Latina, entre 1978 e 2024, foram 20 viradas em 93
eleições presidenciais com segundo turno. No campo da esquerda, a vitória de
Gabriel Boric no Chile, em 2021, depois de terminar o primeiro turno atrás de
José Antonio Kast, é exemplo eloquente dessa possibilidade. A estatística
descreve as circunstâncias, mas não faz a história por nós.
Lula é
o presidente da República, e o país exibe indicadores econômicos positivos. Em
tempos “normais”, isso bastaria para fazer dele um favorito confortável. Mas
vivemos uma crise, e nela os parâmetros se alteram bruscamente: as mediações
que outrora traduziam desempenho econômico em capital eleitoral já não operam
com a mesma eficácia. De certo modo, Lula padece do ônus de ser governo sem
usufruir do bônus. Ele está refém de um Congresso hostil, tem uma
governabilidade estreita e optou pela conciliação, mesmo quando esse caminho já
se mostrava bloqueado. Por isso, pouco conseguiu fazer para reverter a força
social da extrema direita e chegar a esta eleição em terreno mais favorável. O
resultado é que o embate entre Lula e Flávio Bolsonaro se trava em condições
profundamente assimétricas.
A
primeira, e mais óbvia, assimetria é o poder financeiro. Além de dispor da
maior fatia do fundo eleitoral, o PL viu frações expressivas do capital
aderirem abertamente à candidatura de Flávio. O volume de doações legais é
revelador. Desde 4 de outubro, empresários das finanças, dos combustíveis e da
mineração doaram R$ 2,3 milhões ao PL; setores que dependem de contratos
públicos ou estão sob a vigilância de agências reguladoras. No mesmo período, o
PT declarou apenas R$ 85 mil. O partido de Flávio recebeu, portanto, 27 vezes
mais. Não se trata de filantropia: quem depende do Estado sabe muito bem quem
quer à frente dele.
A
segunda assimetria é jurídica. O Tribunal Superior Eleitoral é presidido pelo
ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro. Sob o verniz
da neutralidade técnica, o tribunal tem acumulado decisões que recaem com
notável regularidade sobre a campanha de Lula. Não é preciso postular
conspiração alguma: basta reconhecer que o direito, longe de pairar acima dos
antagonismos sociais, é também um de seus terrenos.
A
terceira assimetria, talvez a mais grave, se dá nas plataformas digitais. O
caso da Meta é o mais emblemático. A campanha de Lula enumerou uma sequência de
episódios: a retirada do perfil do presidente das buscas do Instagram, ainda em
dezembro de 2025; a desativação da conta de anúncios durante o primeiro turno,
sem justificativa formal; a interrupção, em 8 de outubro, do registro de
visualizações de vídeos do presidente; o caso da Meta AI, assistente do
WhatsApp, que gerava imagens para “Vote Flávio” enquanto bloqueava “Vote Lula”,
e seguiu fazendo isso mesmo depois de a empresa alegar ter corrigido o “erro de
configuração”. A lista segue, mas fiquemos com esses exemplos. Para cada
episódio, a mesma explicação: um “problema técnico”. Quando os “erros” apontam
sempre na mesma direção, deixam de ser erros e passam a ser política.
A
quarta assimetria, por fim, vem de fora. A interferência dos Estados Unidos de
Trump no processo eleitoral brasileiro nada tem de velada. Do tarifaço
vinculado expressamente ao julgamento de Jair Bolsonaro à recepção de Flávio no
Salão Oval em plena pré-campanha, a Casa Branca tem agido como cabo eleitoral
do bolsonarismo. Chegou-se a tal ponto que parlamentares democratas e
independentes, como o senador Bernie Sanders, cobraram formalmente do
Departamento de Estado o compromisso de respeitar o resultado das urnas. Trump
saudou o desempenho de Flávio no primeiro turno como uma “grande vitória”, e a
Polícia Federal abriu inquérito para apurar a interferência norte-americana. O
imperialismo, que outrora se valia de embaixadas e quartéis, hoje combina tarifas,
sanções e plataformas digitais.
O que
tem conseguido restituir alguma condição de equilíbrio a essa disputa é a
grande mobilização da sociedade civil. Já apontávamos que esta poderia ser a
energia capaz de alterar o resultado e, felizmente, isso tem se confirmado. A
grande força da campanha de Lula, hoje, vem de baixo: da auto-organização
popular ou espontânea. Se no primeiro turno testemunhamos uma campanha petista
repleta de problemas, que o próprio Lula classificou publicamente como a menos
organizada de que participou desde 1989, não surpreende que, no segundo, a
força para a virada brote à margem da cúpula da campanha. Isso tem se
demonstrado nas multidões mobilizadas em atos pró-Lula nas capitais e em
centenas de cidades pelo país, nos comitês de bairro ou de categorias, nas
redes, nas ações de artistas, na mobilização da juventude, nas iniciativas
criativas de vira-voto que se multiplicam sem esperar orientação de cima. É
dessa força orgânica, que nenhum marqueteiro fabrica e nenhum algoritmo
consegue inteiramente estrangular, que depende agora o desfecho.
Restam
poucos dias, e eles serão decisivos. A distância que separou Flávio de Lula no
primeiro turno, cerca de 2,2 milhões de votos, equivale a menos de um décimo
dos mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas. A virada não
virá dos gabinetes nem das pesquisas; virá das ruas, das portas de fábrica, das
conversas pacientes com o vizinho indeciso, com a tia que hesita, com o colega
que pensa em não votar. É esse trabalho miúdo, artesanal, quase invisível de
conquista voto a voto que pode converter a assimetria das condições em vantagem
nas urnas. Contra o dinheiro do capital, a toga parcial, o algoritmo opaco e a
ingerência imperial, temos aquilo que a extrema direita jamais terá: a força de
um povo que se organiza para defender a si mesmo. Venceremos!
• “A juventude vai virar o jogo nesta
eleição”, diz Pedro Rousseff
A
expressiva ocupação das ruas na reta final da disputa presidencial marcou um
ponto de inflexão decisivo na campanha e colocou a juventude no centro da
reação democrática do país. A avaliação foi feita pelo deputado federal eleito
por Minas Gerais, Pedro Rousseff (PT), em entrevista concedida à jornalista
Andrea Trus durante a edição de plantão do programa Boa Noite 247, na TV 247.
Rousseff,
que esteve presente na gigantesca mobilização realizada na Avenida Paulista —
calculada em mais de 1 milhão de pessoas —, relatou a surpresa com a maciça
participação dos mais jovens, um segmento do eleitorado historicamente
disputado e permeado pelo discurso conservador nas redes sociais. Para o
parlamentar, o ato evidenciou que a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva começou a quebrar a bolha política.
“Eu sou
a prova viva em cores de que esse foi o maior ato que já fizemos. O que mais me
impressionou foi que só tinha jovem. Todo mundo comentava: ‘é o primeiro ato em
que a juventude realmente comparece em peso’. Nossa geração vinha com forte
tendência conservadora, mas ver um movimento dessa magnitude mostra que
rompemos a bolha e que essa energia vai decidir o resultado.” — Pedro Rousseff
<><>
Empate em Minas Gerais sinaliza virada nacional
Durante
a conversa com Andrea Trus, o parlamentar trouxe números atualizados das
pesquisas de monitoramento interno da campanha em Minas Gerais — estado tido
historicamente como o grande espelho eleitoral do Brasil, onde quem vence
costuma levar a Presidência da República.
Segundo
Rousseff, os levantamentos de tracking diário já apontam empate técnico
absoluto no estado:
“As
nossas pesquisas internas em Minas Gerais colocam, neste exato momento, o
presidente Lula empatado em 50% a 50% com Flávio Bolsonaro. No primeiro turno,
a oposição venceu em Minas e venceu no país. Agora, o quadro é de crescimento
contínuo e virada aberta. Se dependermos da mobilização do povo mineiro nas
ruas, nós vamos consolidar essa vitória.” — Pedro Rousseff
<><>
Foco nos 39 milhões de abstenções e garantia de transporte
Ao
analisar a matemática do segundo turno, Pedro Rousseff defendeu uma mudança de
rota na estratégia da militância. Em vez de despender energia tentando
convencer eleitores convictos de terceiras vias, o foco prioritário deve se
voltar para o resgate de quem não compareceu às urnas no primeiro turno.
“Trinta
e nove milhões de brasileiros não foram votar no primeiro turno ou anularam o
voto. Se conseguirmos levar 10% dessas pessoas às urnas, nós viramos a eleição
sem depender de nenhum voto de outras candidaturas. A vitória está na redução
da abstenção.” — Pedro Rousseff
Para
viabilizar essa presença, o deputado detalhou uma grande operação jurídica e de
pressão política contra prefeitos e governadores que tentam sufocar a ida do
eleitorado periférico e rural às urnas. Ele citou dados alarmantes de regiões
do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha, redutos históricos de Lula, onde
a abstenção chegou próxima de 50% por falta deliberada de condução.
Rousseff
destacou que foram enviados milhares de ofícios ao Tribunal Superior Eleitoral
(TSE) para obrigar os municípios a cumprirem a legislação e disponibilizarem
frotas de ônibus e vans escolares de forma integral e gratuita no dia da
eleição:
“O
eleitor rico vai de Uber, de carro próprio, não tem problema com transporte.
Mas o trabalhador do campo que mora a duas horas da seção eleitoral não tem
condições financeiras de pagar passagem para ele e para a família. A lei do TSE
obriga o poder público a ceder o transporte escolar gratuito quando solicitado.
Não é favor, é dever legal, e nós estamos acionando a Justiça em todo o Brasil
para que ninguém seja impedido de exercer o seu direito de voto.” — Pedro
Rousseff
<><>
Segurança pública e as três tarefas da militância
Avaliando
a necessária renovação da linguagem progressista, o deputado defendeu ainda que
a esquerda precisa assumir a pauta da segurança pública sem constrangimento,
dialogando com o sofrimento cotidiano do trabalhador das periferias que é
vítima de assaltos e da violência urbana, sob pena de deixar o tema nas mãos de
soluções demagógicas da extrema-direita.
Ao
final da entrevista com Andrea Trus, Pedro Rousseff resumiu as tarefas
inadiáveis de cada cidadão e apoiador até o domingo decisivo:
1. Denunciar os riscos do adversário:
Compartilhar massivamente os perigos de retrocesso institucional, econômico e
social que cercam a candidatura da extrema-direita;
2. Levar os idosos às urnas: Fazer listas
familiares e garantir condução para pais, mães, tios e avós que, mesmo
desobrigados do voto compulsório pela idade, podem fazer a diferença na cabine
de votação;
3. Fiscalizar o transporte local: Acionar
diretórios municipais, movimentos sociais e órgãos da Justiça para assegurar o
funcionamento pleno do transporte público gratuito para os trabalhadores das
áreas periféricas e rurais.
• “A mobilização popular pode decidir a
eleição”, diz Breno Altman
A
ocupação massiva das ruas na reta final do segundo turno pode ser a chave
mestra para consolidar a virada eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. A avaliação é do jornalista e fundador do Opera Mundi, Breno Altman, em
participação no programa matinal da TV 247. Analisando as expressivas
concentrações populares registradas na Avenida Paulista e em dezenas de
capitais pelo país, Altman destacou que as manifestações cumprem um papel
fundamental de revigoramento anímico e político da militância popular.
Segundo
o jornalista, embora comícios e passeatas reúnam majoritariamente cidadãos já
decididos pelo voto, sua repercussão atua como um multiplicador de forças. Quem
participa dos atos volta para a rotina com outra disposição para disputar
mentes e corações em seus círculos cotidianos de convivência.
“Ninguém
vai se esclarecer na manifestação; ela reúne quem já tem candidato. Mas ela
aumenta enormemente a disposição das pessoas para, ao saírem dali, seguirem
adiante conversando com colegas de trabalho, de escola e familiares. Estamos
falando de três, quatro ou cinco milhões de pessoas que foram às ruas e agora
saem com energia redobrada para convencer eleitores.” — Breno Altman
<><>
O frescor da juventude e os ‘fandoms’
Um dos
fatores mais marcantes apontados por Altman nas mobilizações recentes foi a
forte presença de jovens, muitos deles organizados de maneira horizontal e fora
das estruturas partidárias tradicionais, como os fã-clubes digitais (fandoms).
Para ele, esse fenômeno resgata uma dinâmica espontânea semelhante a grandes
momentos da história política brasileira, como as Diretas Já e as marchas de
1989.
“Há
muitos anos eu não assistia a essa predominância da juventude numa atividade
eleitoral. É um vento novo, um aluvião de pessoas que oxigena a política. Numa
reta final acirrada, a máxima tem que ser maoísta: ‘deixar que mil flores
floresçam’. A campanha não pode tentar enquadrar essa energia num comando
burocrático rígido.” — Breno Altman
Altman
lembrou ainda a matemática estrita do segundo turno: Lula precisa angariar mais
de 6 milhões de votos válidos para além da votação do primeiro turno. Essa
missão, ressaltou, dependerá do esforço combinado de disputar eleitores de
terceiras vias, diminuir o índice de abstenção e virar votos de quem escolheu a
extrema-direita na primeira rodada.
• Boaventura de Sousa Santos: ‘Medo de
Flávio Bolsonaro faz esquerda perder temor de ir às ruas’
O
sentimento de paralisia que ameaçava tomar conta do campo progressista após os
primeiros desdobramentos eleitorais foi superado por uma onda de mobilização
nas ruas. É o que aponta o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos em
entrevista concedida à TV 247. Para o intelectual, a percepção concreta do
risco institucional e de uma hiperconcentração de poder provocou um ponto de
virada, transformando o abatimento em militância ativa nas capitais e grandes
centros urbanos do país.
“A
política do medo e do ódio, implantada pela extrema-direita, virou-se contra
eles. As pessoas ficaram com medo da arrogância de quererem controlar tudo — e
quando se perde o medo de ir às ruas, ganha-se esperança.” — Boaventura de
Sousa Santos
<><>
O protagonismo da juventude e a luta pautada na vida real
Durante
o programa, imagens transmitidas do Rio de Janeiro mostraram a praia de
Copacabana e as estações de metrô tomadas por manifestantes. Boaventura
destacou o papel da juventude nesse movimento espontâneo, traçando um paralelo
com grandes mobilizações globais recentes em cidades como Paris, Madri e Nova
Deli.
Segundo
o sociólogo, as pautas concretas que afetam diretamente o cotidiano dos
trabalhadores e dos jovens — como a defesa de condições dignas de trabalho e o
fim da escala 6×1 — tornaram-se catalisadores fundamentais de engajamento
social.
<><>
Sociologia das ausências: o Brasil das grandes cidades versus o interior
Ao
analisar o mapa eleitoral, Boaventura aplicou o conceito de “sociologia das
ausências” para interpretar os contrastes geográficos do país:
• Grandes Centros Urbanos: Apresentam
forte efervescência democrática, motivada pela diversidade econômica e maior
visibilidade das pautas sociais.
• Interiores e Regiões de Monocultura:
Áreas sob forte influência do agronegócio tendem a ser mais sensíveis às
instabilidades e crises econômicas internacionais, gerando cenários de maior
vulnerabilidade e apelo conservador.
Para o
acadêmico, o desafio das forças progressistas é expandir o diálogo além das
capitais, ouvindo as ansiedades e demandas específicas das populações do
interior do país.
Ao
encerrar sua análise, Boaventura de Sousa Santos destacou que os olhos do mundo
estão voltados para o processo brasileiro. O resultado das urnas no Brasil não
definirá apenas os rumos da política nacional, mas emitirá um sinal decisivo
para o futuro das democracias em todo o planeta
Fonte:
A Terra é Redonda: Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário