As
direitas na Argentina e no Brasil
Como
compreender a força social e política conquistada pelas direitas em dois países
que seguiram trajetórias pós-ditatoriais tão distintas? Milei e Bolsonaro são
figuras conhecidas, mas tratá-los como ponto de partida é confundir o fruto com
a árvore. Suas raízes estão em processos de médio e longo prazo: redes,
partidos, retóricas e projetos que se foram consolidando bem antes de chegarem
ao poder. Na saída da ditadura, a Argentina tornou-se mundialmente conhecida
por seus movimentos de memória, verdade e justiça. Já o Brasil enfrentou seu
passado autoritário de forma mais discreta, via rearranjos e tensões no pacto
com o regime autoritário. A transição brasileira foi lenta e negociada; a
argentina viveu um conflito bélico e o afastamento abrupto dos militares.
Ainda
assim, nas últimas décadas, ambos os países chegaram a fenômenos e retóricas
que guardam inquietantes semelhanças. Neste texto, partimos dessa aparente
desconexão entre pontos de saída e de chegada, para oferecer um mapa
comparativo das direitas na Argentina e no Brasil, por meio dos principais
atores, ideias e políticas que moldaram a ascensão da nova direita nos dois
maiores países da América do Sul.
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A reação à expansão democrática
No
Brasil, a direita chegou ao governo antes da pandemia, em um período de
relativo dinamismo econômico, em meio a uma onda de protestos e a um golpe
parlamentar contra Dilma Rousseff. Isso foi possível graças a um processo
gradual de construção das condições de acesso ao poder por atores políticos,
religiosos, militares e sociais. Na Argentina, a direita ascende após o
fracasso da centro-direita de Macri, no pós-pandemia e em contexto de
hiperinflação que destruiu boa parte dos avanços em bem-estar social. A direita
argentina chega ao poder pelo voto, impulsionada pelo desespero. Daí sua
inorganicidade. Ao contrário da brasileira, ela não se construiu antes pela
sociedade. Constrói-se agora a partir dos recursos do próprio Estado que tanto
detesta.
Embora
haja uma diferença de origem, há um elemento central que vincula as direitas
dos dois países: elas constituem uma reação à expansão da arena sociopolítica
democrática. Trata-se de uma resposta conservadora à ampliação de direitos, de
políticas sociais e de sujeitos reconhecidos como participantes legítimos do
jogo político, processo que se produziu em aliança com os governos
progressistas do kirchnerismo e do PT. A disputa pela ordem desencadeada por
esses governos, ainda que de forma moderada, produziu uma coordenação entre
direitas bastante díspares, unidas pelo esforço de construir um “inimigo” em
comum.
O
resultado é um projeto político que, embora careça de qualquer utopia
compartilhada, não deixa de ter um programa bem definido: a reversão
sistemática das condições culturais e político-institucionais que tornaram
possível aquela expansão. É por isso que falamos em direitas, no plural, pois
não há unicidade. Há diferenças nacionais e enormes heterogeneidades internas
ao universo político e ideológico analisado. O eixo orientador comum, porém, é
claro: estreitar a arena democrática de modo a conter a disputa por espaços
públicos impulsionada pela emergência de mulheres jovens, indígenas,
quilombolas, sem-terra, piqueteros e outros atores subalternos que foram
ocupando posições cada vez mais centrais.
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O inimigo e o passado
Embora
qualquer configuração política precise definir fronteiras entre “nós” e “eles”,
há uma diferença entre ter adversários e fabricar sistematicamente inimigos. As
direitas da Argentina e do Brasil escolheram o segundo caminho com entusiasmo.
“Tem que matar petista” ou “El kirchnerismo es un cáncer que hay que extirpar”
são frases facilmente ouvidas nos palanques e nas redes sociais de direita
daqui como de lá. O adversário legítimo, com o qual se convive apesar das
diferenças, dá lugar a um outro que deve ser expulso e eliminado da comunidade
nacional.
Em
ambos os países, a fabricação do inimigo opera como mecanismo de unificação.
Ela fornece uma gramática que conecta economia, moral e política, convertendo
frustrações difusas em alvos reconhecíveis por meio de apelos à austeridade, à
“guerra cultural” e à deslegitimação institucional. As direitas convergem na
lógica: transformar adversários políticos em ameaças político-morais que seriam
inimigos do “povo” ou obstáculos à “liberdade”.
As
gramáticas, porém, diferem. No Brasil, predomina o neoconservadorismo que
sustenta a “questão nacional” contra uma suposta “ameaça vermelha”. Na
Argentina, o peronismo sempre monopolizou a retórica do “povo”, razão pela qual
os neoliberais argentinos buscam há décadas superar esse passado com o
leitmotiv da “liberdade” e da “gente de bem”. Milei recuperou essa retórica em
chave libertária. Em comum, ambas as direitas partem de uma concepção estática
do que compõe a “ordem nacional” e enxergam na expansão da arena democrática
uma perturbação a ser extirpada.
Se
convergem no alvo, divergem na construção do inimigo. Na Argentina, o
adversário é a “casta”: o Estado, os sindicatos, as universidades e, sobretudo,
o kirchnerismo. No Brasil, o inimigo é uma constelação de mediadores: o
“sistema”, a imprensa, as universidades, o STF, o PT. O que começa como
anticomunismo aggiornado e retórica “anticorrupção” rapidamente descamba para
um léxico abertamente autoritário, que celebra a violência e lança suspeição
sobre eleições, tribunais e Congresso.
Um
terreno especialmente fértil dessa fabricação são as ciências e as
universidades. Na Argentina, o anti-cientificismo do mileísmo apresenta a
pesquisa pública como luxo financiado por um Estado “parasitado” e procede ao
seu desmonte material como parte de um reset neoliberal. No Brasil, o ataque
bolsonarista tem outra inflexão: não é só corte orçamentário, é a moralização
do conhecimento como degeneração, a “doutrinação”, precisamente quando a
universidade pública se torna mais inclusiva.
Outro
terreno de produção de inimigos é o gênero e a política sexual. Argentina e
Brasil não apenas compartilham o enquadramento da “ideologia de gênero” como
constroem redes transnacionais entre si e com outros países. Na gramática de
atores conservadores e cristãos, políticas de direitos como o acesso legal ao
aborto e o reconhecimento da identidade de gênero são convertidas em “imposição
totalitária” ou “corrupção” de crianças e famílias. Na Argentina, onde a onda
feminista produziu conquistas concretas, incluindo a legalização do aborto em
2021, a pauta antigênero permite ao mileísmo combinar austeridade neoliberal
com restauração moral. No Brasil, essa pauta tem trajetória mais longa e se
fortalece sistematicamente a partir do golpe de 2016.
Por
fim, há o domínio da segurança pública. Em ambos os países, a retórica
securitária reconfigura protestos e movimentos sociais como sinônimo de
“terrorismo”. Na Argentina, o dissenso vira “risco” a uma ordem idealizada, e
essa ordem torna-se pré-condição moral do mercado. No Brasil, a gramática vai
mais longe: o bolsonarismo reabilita a violência como virtude política. Nos
dois casos, forças de segurança são catapultadas para dentro dos conflitos
institucionais e partidários, com efeitos que podem escapar ao controle das
próprias forças que os alimentam.
Essa
fabricação do inimigo tem outro alvo implícito: o passado. Dos dois lados do
rio Uruguai, o legado autoritário tornou-se campo intensamente disputado. Não
se trata de projetos de “memória” em sentido estrito, mas de tecnologias
político-subjetivas para redesenhar fontes de pertencimento, legitimar
hierarquias e redefinir o que conta, e o que não deve contar, como
“democrático”. Direitos humanos e multilateralismo vêm sofrendo ataques
sistemáticos, perdendo o status de consensos herdados da redemocratização para
serem lidos como fraudes ou capturas “esquerdistas”. Em seu lugar, elementos do
repertório autoritário retornam como alternativa “legítima”: ordem, disciplina,
punição, “guerra interna”.
Há,
porém, uma diferença importante. Na Argentina, onde o “Nunca Más” foi pilar
organizador da democracia pós-1983, a disputa tenta deslocar esse consenso
apelando a uma “memória completa”, eufemismo para justificar as violações aos
direitos humanos da ditadura cívico-militar. Essa agenda revisionista, contudo,
não conta com apoio social: 71% dos argentinos têm visão negativa da ditadura e
70% apoiam a continuidade dos julgamentos por crimes de lesa-humanidade. No
Brasil, o bolsonarismo foi mais longe: celebrou explicitamente a violência do
regime autoritário, reposicionando-o como referência positiva, inclusive por
meio da inversão de comissões oficiais dedicadas à anistia e aos desaparecidos.
A
disputa pelo passado estende-se também à política externa. Milei faz da
diplomacia uma performance de ruptura que reorganiza a identidade internacional
argentina em torno de um “Ocidente” supostamente ameaçado. A política externa
bolsonarista seguia o mesmo caminho: sob a retórica de uma “guerra cultural”,
exerceu na prática uma subserviência ideológica largamente desconhecida pela
tradição internacionalista brasileira. Em comum, vê-se o repúdio ao
multilateralismo, aos direitos humanos e às agendas climáticas, tratados como
fraqueza ou rendição “civilizacional”.
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Ideologia versus pragmatismo
Além
dos inimigos e das disputas pelo passado, outro eixo relevante é a tensão entre
ideologia e pragmatismo nos governos de direita. O padrão geral é que a
ideologia tende a vencer, precisamente nas áreas onde custos estratégicos e
humanos recomendariam maior cautela.
A
política científica é exemplo eloquente. Tanto na Argentina quanto no Brasil,
os ataques ao sistema científico não são mero efeito de ajuste fiscal, mas
decisões com determinação ideológica. Na Argentina, o desfinanciamento integra
um projeto que enxerga as capacidades científico-tecnológicas como obstáculo a
um modelo baseado em financeirização e extrativismo. No Brasil, o bolsonarismo
transformou a pesquisa e a universidade pública em “inimigos”, associando-as ao
“marxismo cultural”. Em ambos os casos, a necessidade pragmática de formar
quadros, produzir inovação e ampliar capacidades estatais foi subordinada a um
neoliberalismo negacionista que desconsidera ciência como estratégia de
desenvolvimento.
A
política externa é ainda mais nítida. Bolsonaro e Milei privilegiaram o
alinhamento irrestrito com os Estados Unidos de Trump, obtendo em troca ganhos
concretos bastante limitados. No caso argentino, o mileísmo prometeu a
eliminação do Banco Central e privatizações massivas, mas teve que modular suas
pretensões radicais diante de uma posição minoritária no Congresso, da
resistência sindical e da mobilização social contra o ajuste nas aposentadorias
e políticas sociais. Pôde cortar direitos trabalhistas e eliminar ministérios,
mas as principais medidas foram judicializadas ou pairam num limbo
institucional que gera desgoverno. Nem os próprios empresários acompanham o
radicalismo do governo com entusiasmo: reformas excessivamente abruptas ameaçam
a estabilidade social de que o mercado também depende.
No
Brasil, o desmonte foi menos caótico e mais deliberado. Operou por dentro das
instituições, esvaziando capacidades estatais de forma orientada, especialmente
na saúde, na educação e no meio ambiente, e enfraquecendo bancos públicos e
empresas estratégicas. Em ambos os países, a ideologia se traduziu em processos
de desmonte institucional. A diferença está no ritmo e na coerência: caos
administrativo na Argentina, demolição planejada no Brasil.
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Como as direitas construíram seu poder?
Se as
direitas Hermanas convergem em suas estratégias de fabricação de inimigos, nas
disputas pelo passado e na primazia da ideologia sobre o pragmatismo, os
padrões divergem quando se trata de como cada uma se constituiu como força
política relevante.
No
Brasil, as direitas radicais não emergem primeiro como projeto estatal ou
partidário, mas como articulação progressiva entre redes religiosas,
sociabilidades e moralidades públicas. Muito antes de se cristalizar sob a
forma de um partido, as direitas brasileiras já se apoiavam na ampla
capilaridade organizacional construída por inúmeros atores desde os anos 1980.
Uma dessas raízes está nos think tanks ultraliberais, editoras, blogs e
circuitos de sociabilidade que, ao longo dos anos 1990, produziram linguagens
políticas próprias e narrativas de declínio nacional. Nesse ambiente, figuras
como Olavo de Carvalho tiveram papel central ao oferecer diagnósticos sobre a
sociedade e forjar repertórios de crítica às instituições democráticas e à
suposta hegemonia cultural “esquerdista”. Outra raiz está nas igrejas
evangélicas, cuja capilaridade organizacional, por meio de templos, redes
denominacionais e circuitos de sociabilidade, forneceu uma densa base a partir
da qual pautas morais puderam circular e se consolidar, antes mesmo de sua
tradução eleitoral.
O ciclo
massivo de junho de 2013 foi o momento em que toda essa energia conservadora
veio às ruas. Os protestos de 2013 foram o prelúdio do ciclo golpista de 2016,
que acabou virtualmente expulsando o PSDB das legendas competitivas, estiolando
a centro-direita e consagrando uma direita radicalizada ao redor de Bolsonaro.
Na
Argentina, o quadro é quase oposto. A intelectualidade de direita sempre ocupou
posição marginal; a força histórica do peronismo e radicalismo (UCR) obstruiu o
desenvolvimento de uma direita independente com base popular; e nenhum partido
não peronista de direita chegou ao poder antes de Macri. O fracasso do Macri
levou parte de seus quadros a radicalizar-se e impulsionar a alternativa
libertária. Mas a Liberdade Avança não tinha base territorial nem militância
massiva. O partido de Milei foi, antes da eleição, basicamente uma aliança
eleitoral sem lastro social. Uma vez no governo, é a partir dos recursos do
Estado, esse mesmo Estado que Milei devota ao desprezo, que tenta construir um
partido de alcance nacional.
O papel
da mídia é igualmente revelador. Na Argentina, a televisão foi mais
determinante do que as redes sociais na construção do poder de Milei: sem a
compra de espaços midiáticos e sem a complacência do jornalismo televisivo, seu
discurso não teria encontrado o eco que encontrou. No Brasil, o processo foi
análogo, mas com uma ruptura mais híbrida: plataformas digitais aliadas aos
canais tradicionais de mídia, com a notável exceção da Rede Globo, à qual o
bolsonarismo se opôs ativamente.
Vista
em conjunto, a atual direita brasileira se fortaleceu por via societal: antes
de se estabilizar no Estado, ela se enraizou em circuitos de formação moral, no
mercado e na sociedade civil, o que lhe deu capilaridade, permanência e
capacidade de conversão posterior em força nas ruas e nas urnas. A argentina,
em contraste, está sendo paradoxalmente forjada a partir da estatalidade,
construída de cima para baixo por quem chegou ao poder prometendo destruir o
Estado por dentro.
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A “casta” e o “sistema”: quem governa para quem?
As
economias políticas de Argentina e Brasil são quase inversas, e isso também
entra na equação. O Brasil produziu, entre 1988 e 2014, uma das mais notáveis
experiências de construção de bem-estar do mundo em desenvolvimento, numa
trajetória de continuidade institucional em que cada governo aprofundou o
legado do anterior, a despeito das diferenças programáticas entre PSDB e PT. A
pobreza relativa caiu de 26% para quase 20% da população, o salário mínimo real
acumulou valorização superior a 110% em duas décadas. Essa transformação
abrangeu saúde, educação, assistência social e habitação popular. Foi em
relação a esse welfare que as direitas brasileiras passaram a se opor, e não só
elas: partes das classes médias sentiram-se ameaçadas pela redução das desigualdades,
sem que estivessem dispostas a abrir mão das conquistas de que também eram
beneficiárias. Essa ambivalência politicamente explosiva esteve no cerne da
crise que levou ao golpe de 2016.
A
Argentina, por sua vez, iniciou a transição democrática com uma crise econômica
prolongada e jamais recuperou os baixos índices de pobreza e desigualdade de
1973. O kirchnerismo representou o maior período de construção de bem-estar em
meio século, mas não logrou constituir um modelo sustentável, que acabou por
colapsar e abrir caminho para a direita. A população argentina,
progressivamente pauperizada, foi perdendo as esperanças de um futuro melhor,
tornando-se receptiva a novas identidades políticas e religiosas de direita.
Essa
diferença explica muito: na Argentina, a resposta eleitoral foi um recurso
desesperado a um outsider político diante de uma nova crise hiperinflacionária;
no Brasil, foi a construção paulatina de uma coalizão social preparada para um
golpe parlamentar.
Foi
nesse quadro que emergiu a retórica contra o “sistema” e a “casta”, de
Bolsonaro e Milei respectivamente. De forma simplista, pareceria emular as
formas fascistas dos anos 1920, quando se questionou a ordem liberal
excludente. A analogia, porém, é enganosa: nenhum dos dois representa uma
reprodução do processo europeu. Seria mais precisamente o contrário, pois não
se trata de substituir uma ordem liberal ou neoliberal, mas de defendê-la em
sua versão mais extrema, diante do questionamento parcial que ela sofreu com a
expansão dos direitos a grupos subalternos.
Dito de
outro modo: nem a direita argentina nem a brasileira governam contra a “casta”
ou o “sistema”. Quando se examinam em detalhe suas políticas econômicas,
sociais, culturais e de segurança, os governos de Milei e de Bolsonaro foram e
são orientados pela “casta” e para o “sistema”. Encarnam a defesa dos
vencedores do modelo de desenvolvimento neoliberal tardio. É no exercício dessa
defesa radicalizada que tentam e, às vezes, conseguem diluir as capacidades
estatais para que os poderes factuais (econômicos, religiosos, militares)
fiquem sujeitos a menos controles, minando os frágeis alicerces das democracias
e de nossas políticas de bem-estar.
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Democracia, direitas e horizontes
As
transições para a democracia configuraram direitas fortes no Brasil e fracas na
Argentina. Em ambos os casos, porém, elas acabaram contornando sua fragmentação
e suas diferenças internas ao não tentarem construir uma proposta de sociedade.
O que buscaram foi coordenar uma reação à expansão da arena sociopolítica, que
conferiu direitos e politizou sujeitos subalternos, alterando alguns
privilégios. Esse é o nó comum.
No
Brasil, a direita chegou ao poder por meio de um golpe e tentou, em 2023,
realizar outro. Na Argentina, chegou por eleições livres, mas governa de forma
autocrática. A questão que fica: tentarão novos golpes caso percam eleições? É
possível a disputa política pacífica com atores que utilizam a democracia
enquanto não conseguem substituí-la por um cenário autoritário?
Embora
não haja um projeto propositivo claro para o futuro, há algo igualmente eficaz:
um programa ativo e regressivo de desmonte. Se sua coerência não vive em um
horizonte utópico compartilhado, as direitas hermanas convergem naquilo que
buscam desfazer: conquistas, políticas e capacidade de ação do Estado, abrindo
assim caminho para modos de governar oligárquicos.
O que
está em jogo hoje não é só um modo de governar, mas a própria lógica
democrática do exercício do poder e do controle dos respectivos aparatos
estatais. Num país, um golpe já foi tentado; no outro, o Estado é desmontado
por dentro por quem chegou ao poder prometendo salvá-lo. Em ambos, as direitas
apostam que a democracia pode ser usada até o momento em que ela deixe de ser
conveniente. E, como a história do continente já demonstrou, essa aposta não
termina bem.
Fonte:
Por Federico M. Rossi e José Szwako, em A Terra é Redonda

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