A
batalha das redes e ruas
A
equipe de campanha do presidente Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral
(TSE) no dia 14 de outubro após constatar que a Meta, dona do Instagram,
Facebook e WhatsApp, impõe restrições que prejudicam a distribuição de suas
publicações, ao mesmo tempo em que amplia a distribuição de postagens
favoráveis ao adversário.
A conta
de Lula foi prejudicada por restrições no Instagram, enquanto conteúdos
relacionados a Flávio Bolsonaro apareceram em buscas e recomendações
consideradas indevidas. Em 9 de outubro, Lula ficou quase 24 horas
impossibilitado de impulsionar publicações na plataforma. Segundo estimativas
de sua campanha, cerca de 1,3 milhão de pessoas deixaram de ser alcançadas
pelos anúncios durante esse período.
Outro
episódio notório foi a recusa da ferramenta de IA da mesma empresa em criar
cartazes com o nome de Lula e o número 13, enquanto gerou imagens para Flávio
Bolsonaro e 22. Em vista da denúncia, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do
TSE, proibiu a Meta de aplicar medidas de restrição de alcance e, caso a
decisão não seja cumprida, haverá cobrança de multa de 500 mil reais por dia. A
Meta se justificou apontando uma “falha global” no sistema.
Em um
passado não tão distante, escândalos como o da Cambrige Analytica e o resultado
do Brexit nos mostraram que as redes sociais têm mão e lado na política. Alguns
anos depois, em janeiro de 2025, no início do segundo mandato do presidente
Donald Trump, os fundadores das Big Techs mostraram com clareza a direção de
seus negócios. A posse de Donald Trump, em 20 de janeiro do ano passado, foi
simbólica pelo destaque dado aos controladores das empresas de tecnologia mais
ricas da atualidade.
Assim,
enquanto Trump anunciava que “o declínio da América acabou”, os CEOs destas
empresas, como Elon Musk, do X (antigo Twitter), Mark Zuckerberg, da Meta, e
Jeff Bezos, da Amazon, brindavam à promessa da “garantia de liberdade de
expressão”. Na prática, o expediente se traduziu em obstáculos ao combate ao
discurso de ódio e às notícias falsas, pauta que, inclusive, garantiu o apoio
desses empresários à extrema direita dos Estados Unidos.
Neste
mesmo mês, Mark Zuckerberg anunciou em vídeo que a Meta estava abandonando a
checagem independente de fatos do Facebook e do Instagram, substituindo-a por
um modelo de “Notas da Comunidade”. No Brasil, a Advocacia-Geral da União (AGU)
enviou uma notificação extrajudicial na época, exigindo esclarecimentos sobre o
encerramento do programa de checagem de fatos. Em resposta ao governo
brasileiro, a Meta informou, em 14 de janeiro, que as mudanças na política de
checagem “começariam apenas nos Estados Unidos” e que a empresa estava
comprometida a respeitar os direitos humanos e a liberdade de expressão.
Estas
mesmas empresas do grupo GAFAM – as cinco maiores e mais influentes empresas
estadunidenses de tecnologia: Google, Apple, Facebook (Meta), Amazon e
Microsoft– já haviam se manifestado em ocasiões anteriores no Brasil, quando a
questão da regulação das redes veio à tona.
É
importante notar o quanto o tema da regulação é sensível a estas empresas, cuja
maior fonte de renda é a coleta massiva de informações para a publicidade e
que, portanto, se beneficiam da manutenção de mercados pouco regulados e com
menos exigências de transparência. Além disso, os lucros de tais empresas
frequentemente advêm da celebração de contratos governamentais multibilionários
para fornecimento de tecnologia.
Os
últimos dois anos foram especialmente marcados por diversos embates entre entes
públicos e empresas de tecnologia. Basta lembrar alguns episódios recentes nos
quais a atuação das multibilionárias empresas foi além do escopo jurídico da
defesa de seus negócios, ao atuarem ativamente no impedimento do avanço de
marcos regulatórios.
Estas
empresas exerceram seu poder de lobby contra qualquer tipo de exigência de
controle de seus negócios, sendo talvez o mais forte deles a pressão pelo
fracasso do PL das Fake News, de autoria do senador Alessandro Vieira, em 2020.
O PL foi retirado da pauta na Câmara em 2023 após as Big Techs usaram como
armas certas entidades setoriais, parlamentares aliados e até suas próprias
plataformas, a fim de derrubar um projeto que as faria exercer algum tipo de
controle sobre conteúdos criminosos veiculados em suas redes.
Em
outro episódio, a rede social X embarcou numa campanha ativa contra o Supremo
Tribunal Federal pela inclusão de Elon Musk em um inquérito que investigava
milícias digitais. A rede chegou a ser suspensa no Brasil de agosto a outubro
de 2024, sendo que, no final, houve concordância da empresa com certos termos
estabelecidos pelo Tribunal, como manter um representante legal no país.
Já em
agosto de 2025, um vídeo sobre a adultização de crianças, do influenciador
Felca, causou forte comoção na opinião pública e acabou propiciando um ambiente
favorável no Congresso Nacional para a aprovação do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) Digital, lei que altera disposições do ECA para robustecer a
proteção de menores em ambiente online. A medida, contudo, teve resistência das
Big Techs, que reclamaram de mais prazo para adaptação às novas regras.
A
iniciativa não foi a única voltada à definição de parâmetros para a atuação das
redes sociais em 2025. Pouco antes, em junho, o STF proferiu decisão
paradigmática, determinando a responsabilização direta das plataformas pelas
postagens ilegais de seus usuários. Além disso, encontra-se em discussão no
Congresso Nacional a aprovação de um marco regulatório da inteligência
artificial no Brasil, com projeto ainda pendente de deliberação pela Câmara dos
Deputados.
Na
época do debate sobre o PL das Fake News, empresas como Google e Telegram se
utilizaram de suas próprias plataformas na época para expressar oposição ao
projeto. No dia 27 de abril de 2023, o Google publicou em seu blog um texto
chamado “Como o PL 2630 pode piorar a sua internet”, no qual argumentou que a
internet poderia se tornar pior caso o projeto fosse aprovado. A plataforma
argumentou que o PL traria “prejuízos à inovação, à liberdade de expressão e à
geração de oportunidades econômicas para todos os brasileiros”.
Já o
Telegram enviou uma mensagem contrária ao projeto de lei a todos os usuários da
plataforma no dia 9 de maio de 2023, sendo obrigado a se retratar no dia
seguinte, por ordem do STF. Na mensagem disparada, o Telegram afirmou que o
projeto era “um ataque à democracia” e “concede poderes de censura” ao Governo
Federal, além de ameaçar deixar o Brasil.
De
todas as manifestações, a do Telegram foi a mais enfática a esse respeito, ao
afirmar que o projeto de lei “transfere poderes judiciais aos aplicativos” e
permitiria que o governo restringisse “o que pode ser dito online ao forçar os
aplicativos a removerem proativamente fatos ou opiniões que ele considera
‘inaceitáveis’ e suspenda qualquer serviço de internet sem uma ordem judicial”.
Além
disso, a associação de lobby das empresas do mercado digital chamada Câmara
Brasileira de Economia Digital – camara-e.net – publicou uma carta, dizendo que
a então nova versão do PL 2630 agravava os riscos de controle estatal e
prejudicava o ambiente de negócios. A entidade apontou que não era contra a
regulação, apesar de constar em seu estatuto que o interesse das empresas
afiliadas é a autorregulação, defendendo “padrões de conduta e ética de
negócios que contribuam para um melhor bem-estar social e desenvolvimento
econômico”.
A
recusa em colaborar com o PL das Fake News e até a distorção do conteúdo das
discussões, como observado, apontam para a posição das Big Techs: não desejam
regulação alguma, apesar dos faturamentos estrondosos e da sua capacidade
indubitável de remover conteúdos falsos muito mais rapidamente, caso isso fosse
um interesse que pudesse trazer benefícios econômicos.
A
maneira como a publicidade passou a ser feita na internet, a partir de
mecanismos preditivos baseados na lógica algorítmica, foi avançando ao longo do
tempo e constitui uma das principais marcas da era do capitalismo de
vigilância. O histórico de desenvolvimento tecnológico e econômico dessas
plataformas deixa transparecer o motivo das preocupações dessas entidades com
qualquer medida governamental que pretenda estabelecer limites ou interferir na
forma como suas ferramentas operam.
Antes
de se preocuparem com os pequenos empresários que buscam nas redes uma maneira
de dar visibilidade ao seu negócio, é evidente que as corporações buscam evitar
regulamentações governamentais que coloquem em risco a obtenção de lucro.
Em nome
da defesa da liberdade de expressão e da privacidade dos usuários, as
companhias pretendem manter longe de seus negócios qualquer tipo de ingerência
governamental, podendo elas próprias utilizar os dados pessoais de seus
usuários sem seu pleno conhecimento, bem como dar maior amplitude ou restringir
conteúdos publicados de acordo com seus próprios desígnios.
Mesmo
nesse cenário, para a grande maioria dos usuários, ainda prevalece a ilusão de
estar conectado de forma socialmente inclusiva e com acesso democratizado ao
conhecimento, especialmente quando os grandes empresários da tecnologia se
apresentam como defensores de direitos e da emancipação, enquanto, na prática,
as redes digitais atuam de forma parasitária e comercializam os dados dos
indivíduos, conforme apontou Evgeny Morozov em Big Tech: A ascensão dos dados e
a morte da política (Editora Ubu).
Para
além da maior lucratividade com a falta de regulação e dos ganhos políticos com
a disseminação do ódio, que deixa o indivíduo ainda mais ligado às redes
sociais, é importante pontuar o interesse das Big Techs em recursos naturais –
outra pauta em jogo nesta eleição.
Diante
das dificuldades para estabelecer uma regulação mais rigorosa, apesar das
tentativas governamentais, restou aos brasileiros uma forma criativa de combate
à ditadura dos algoritmos, de forte atuação não só nas redes, mas também nas
ruas. Foi criado o Exército de Lula, pelo deputado federal André Janones, da
Rede, além de outras mobilizações importantes pelo WhatsApp, com figuras como a
deputada Erika Hilton, como também as fortes mobilizações nas ruas. O combate
nas redes passou assim a integrar a coordenação desta luta política.
Fonte:
Por Carolina Guerra e Vera Chaia, em A Terra é Redonda

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