A
parcialidade truculenta ronda as eleições: do TSE à Meta
A
democracia não combina com decisões judiciais sob parcialidade, quando as
regras parecem pesar mais para um candidato do que para outro, é a própria
lisura da eleição que fica em xeque. E o eleitor tem o direito de saber o que
está por trás dessas decisões.
A
sequência de decisões conflitantes, tomadas pelo presidente do TSE, ministro
Kassio Nunes Marques, em benefício de ações eleitorais movidas pela campanha de
Flávio Bolsonaro (PL), suscita questionamentos legítimos sobre a
proporcionalidade das restrições impostas e a uniformidade dos critérios
adotados. A liberdade de mobilização política e a igualdade de tratamento entre
candidaturas são princípios fundamentais de uma disputa eleitoral democrática.
As decisões favoráveis a um dos candidatos à Presidência, pertencente ao mesmo
espectro político do ministro que preside a Corte, levantam hipóteses sobre as
possíveis motivações de sua conduta, sobretudo diante do conjunto de suspeitas
que recaem sobre ele e que, se comprovadas, poderão trazer sérias consequências
para seu futuro. Vale lembrar que por volta dos dias 21 e 22 de setembro de
2026, no âmbito das investigações do chamado Caso Master vieram à público as
suspeitas de ligação comprometedora entre Kassio Nunes e do ex banqueiro preso,
Daniel Vorcaro. Entre os registros identificados, aparece a expressão “Turma do
KN”, referência ao ministro do STF, utilizada por interlocutores e assessores
de Vorcaro ao tratar de demandas envolvendo favores e relações de proximidade.
As mensagens também mencionam solicitações de hospedagem em hotéis de luxo,
como o Fasano, ingressos para a Fórmula 1, em Interlagos, camarote na Marquês
de Sapucaí e o custeio de uma residência de alto padrão no Rio de Janeiro,
alugada por Vorcaro, que seria destinada ao ministro e a sua família. As
investigações apontaram ainda menções a pagamentos relacionados a Kevin
Marques, filho do ministro, e a um suposto repasse associado a um encontro
Outras
revelações ganharam aspectos ainda mais degradantes com a divulgação de
mensagens que fazem referência a uma festa realizada no tríplex de Vorcaro, em
São Paulo, em fevereiro de 2025. Segundo reportagem do UOL publicada em
13/10/2026, um funcionário relatou ter cedido um quarto a um ministro
acompanhado de cinco mulheres. Dias depois, uma intermediária cobrou R$ 10 mil
de Vorcaro, alegando que uma das convidadas havia ficado com alguém
identificado como “Kassio”. Vorcaro pediu os dados para efetuar o pagamento.
A
controvérsia mais recente envolvendo Kassio Nunes diz respeito à suspensão do
canal de WhatsApp “Exército do Lula”, utilizado para mobilizar apoiadores do
presidente e divulgar conteúdos da campanha à reeleição. No dia 11/10,
atendendo a um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente do TSE
determinou a retirada do canal do ar, sob a alegação não checada por ele de
disseminação de conteúdos falsos. A decisão foi revertida nesse mesmo dia pelo
corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, que considerou
insuficientes os elementos apresentados para justificar uma medida tão
abrangente e apontou problemas na intervenção de Kassio Nunes em um caso que já
estava sob sua relatoria. Já no dia 12/10 a equipe técnica do TSE concluiu o
exame pericial requisitado atestando que não foram identificadas publicações
com notícias falsas entre os conteúdos analisados.
Todavia,
no dia 13/10, Nunes Marques voltou a suspender o canal, desta vez alegando a
ausência de registro formal junto à Justiça Eleitoral e condicionando sua
reativação ao cumprimento das exigências legais. Cumpre salientar que impor
essa exigência a canais gerenciados por terceiros e apoiadores cria barreiras
burocráticas à mobilização espontânea que não estão expressamente postas na
rotina das campanhas. No fim da tarde do dia 13/10 após o canal ter sido
registrado junto ao TSE, Kassio autorizou a retomada das atividades do
“Exército do Lula” no WhatsApp. Ao fim e ao cabo, o ministro conseguiu atingir
seu objetivo, impedir 48 horas de atividades do canal de comunicações criado
pelo deputado Janones. Na sequência de decisões controversas praticadas por Kássio
Nunes, no dia 15/10, após pedido do deputado Gustavo Gayer (PL), o ministro
autorizou a recomendação algorítmica de perfis e publicações de candidatos
eleitos no primeiro turno, enquanto Lula e Flávio Bolsonaro, por disputarem o
segundo turno, permanecem sujeitos à restrição. Embora a medida não favoreça
diretamente a candidatura de Flávio, pode ampliar o alcance de conteúdos de
seus aliados, suscitando dúvidas sobre a igualdade de condições na disputa
eleitoral.
Num
ensaio perigoso de risco democrático, que bate de frente com as características
do Estado de Direito, o país se depara com a possibilidade de um futuro
repressor, caso Flávio seja eleito. Ao pleitear junto ao TSE mais uma censura à
liberdade de expressão, ao pedir o bloqueio de redes de entidades civis,
artistas e políticos até o segundo turno, a campanha de Flávio choca o país e
oferece uma amostra irrefutável de suas práticas autoritárias e
antidemocráticas.
Engrossam
o caldo de parcialidades, a atuação de uma das maiores big techs. Aliada de
Trump, a Meta tem agido diretamente em prejuízo da campanha de Lula. Ela admite
falhas nas métricas do Instagram que vem prejudicando Lula e favorecendo Flávio
Bolsonaro, o candidato de Trump, mas não esclarece satisfatoriamente o
ocorrido. Também, suspendeu perfis que divulgaram conteúdos em favor de Lula.
Ainda que temporária as suspensões, a retirada do ar comprometeu o alcance e o
engajamento desses perfis. Diante desses fatos, a Meta precisa explicar seus
critérios, dar transparência às suas decisões e responder pelos efeitos de suas
falhas sobre a circulação de informações políticas, sobretudo em um período
eleitoral. Depois das demonstrações de parcialidade em favor da campanha de
Flávio e das denúncias publicadas fartamente pela imprensa nacional,
estrangeira e da campanha do presidente Lula ter acionado o TSE, cobrando
explicações da Meta, a empresa adotou medidas corretivas. Para bom entendedor,
meia palavra basta. Cabe ressaltar, porém, que essa mudança se refere à geração
de imagens pela Meta AI, no WhatsApp, e não comprova que as demais denúncias
sobre o alcance das publicações no Instagram tenham sido resolvidas.
Como se
não bastassem as investidas parciais do ministro indicado por Jair Bolsonaro e
da Meta, Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, também ampliou os atos
de irregularidades ao divulgar mensagens falsas sobre a manifestação em favor
de Lula na Avenida Paulista. Ao disseminar desinformação, Tarcísio rebaixa o
cargo de governador à militância ideológica ilícita. Outra investida denunciada
pelo Intercept Brasil, em16/10, é de que Flávio Bolsonaro teria pago R$ 600 mil
a empresa que comercializa nos EUA uma IA voltada à manipulação eleitoral.
Documentos divulgados por um ex-consultor indicam que a Elytron teria oferecido
uma operação clandestina baseada em inteligência artificial para identificar
eleitores, criar perfis falsos, disseminar informações falsas e atacar
adversários políticos. A campanha de Flávio Bolsonaro nega tal fato.
Até o
presente, foram vários os mecanismos utilizados nesse sentido. Contando com
apoiadores de seu campo ideológico nas esferas do Legislativo, dos governos
estaduais e municipais bolsonaristas, além da Justiça, Flávio desvela sua falta
de compromisso com a democracia quando pretende tutelar o debate público. Há
histórico sobre esta questão na família. Seu pai, Jair Bolsonaro, ao afirmar
que governaria “dentro das quatro linhas”, após perder G a eleição de 2022
produziu uma tentativa de golpe à democracia, inclusive com esboço de um plano
de assassinato do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e de um ministro do
STF.
No
entanto, as preocupações com a lisura do processo eleitoral não se limitam às
decisões judiciais e à atuação das plataformas digitais. As relações políticas
e os episódios envolvendo aliados da candidatura de Flávio Bolsonaro também
merecem atenção. Na quinta-feira, dia 15/10, Márcio Canella (União Brasil),
segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro, foi preso pela Polícia
Federal, na oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma organização
criminosa suspeita de lavar dinheiro por meio de postos de combustíveis.
Ex-prefeito de Belford Roxo, Canella tem ligações políticas com Flávio
Bolsonaro, que apoiou sua pré-candidatura ao Senado. O parlamentar também é
alvo de suspeitas de vínculos com grupos milicianos.
É
diante de fatos como esse, que expõem as relações políticas do candidato com
figuras envolvidas em investigações, que chama a atenção a postura de Flávio
Bolsonaro. A desfaçatez e a hipocrisia do candidato são tão abissais que, nesta
semana, ao perceber a queda nas intenções de voto e as intensas manifestações
de rua em favor de Lula, sua campanha entrou em modo de desespero diante da
possibilidade de uma virada. Depois de Flávio se posicionar de forma totalmente
contrária a um direito inquestionável dos trabalhadores, o fim da escala 6×1,
ele mudou oportunamente de lado na véspera da votação no Senado, encabeçada
pelo governo Lula, na tentativa de angariar alguns votos. Entretanto, conforme
informações publicadas na coluna Painel da Folha de São Paulo, Flávio
assegurou, em conversas reservadas com aliados e empresários, que, caso eleito,
defenderá a revisão de pontos da PEC do fim da escala de trabalho 6×1. Essa
revelação veio logo depois de o parlamentar ter anunciado publicamente que
votaria a favor da proposta no Senado.
Mais
uma vez Flávio não contraria seu caráter de mentiroso contumaz. Assim agem
essas figuras deletérias da extrema direita absolutamente contrárias aos
direitos trabalhistas, às melhorias das condições de trabalho e aos direitos
previdenciários. Levando em conta esses aspectos, é incompreensível que parte
do povo, absurdamente iludida, embarque na armadilha falaciosa de uma mudança
para melhor. O que esse segmento terá, caso Flávio Bolsonaro seja eleito, não
será avanço, mas retirada de políticas públicas e perda de direitos arduamente
conquistados pelos movimentos sociais. O risco é imenso.
Também
é assustador e inacreditável imaginar que um candidato infinitamente
despreparado, com um histórico político concretamente funesto e conhecido por
todos, possa estar tecnicamente empatado nas intenções de voto com um estadista
como Lula. Em seu terceiro mandato, o presidente voltou a tirar o Brasil do
mapa da fome, do qual o país havia retornado durante o governo de Jair
Bolsonaro, reduziu sensivelmente a desigualdade social, promoveu o
desenvolvimento econômico sustentável e avançou na justiça fiscal, com ganhos
sociais concretos, sentidos na vida dos brasileiros. Entretanto, o ódio ao
Partido dos Trabalhadores foi tão bem articulado ao longo dos anos, não apenas
pela extrema direita, mas também com o amplo apoio da mídia corporativa,
financiada pela minoria rica, inclusive por figuras como Vorcaro, que parte da
população já não consegue enxergar o abismo à sua frente. As consequências
desastrosas de uma eventual chegada de Flávio Bolsonaro à Presidência poderão
se manifestar em diversas áreas da vida nacional. Trata-se de uma figura
nefasta que, ao longo de sua trajetória política, não apresentou realizações
relevantes em benefício da população e que carrega o legado de uma família sem
histórico recomendável. Por onde os Bolsonaro passaram, pouco ou nada fizeram
pelo povo brasileiro, a não ser homenagear milicianos e atacar as mulheres,
desrespeitando-as com ofensas bárbaras.
A
rejeição ilógica ao PT por parte daqueles que declaram votar em Flávio impede
que enxerguem o óbvio. Com seus votos, entregarão o país a mãos
desqualificadas, alinhadas internacionalmente a governos destrutivos cujas
políticas têm consequências desastrosas, como demonstram a brutal crise
econômica e social na Argentina sob Javier Milei e a postura de Donald Trump,
que pretende submeter o Brasil aos interesses estadunidenses. Isso significaria
abrir mão de riquezas nacionais que, sob a liderança de Lula, poderiam ser
negociadas por meio de parcerias estratégicas, capazes de gerar vantagens
concretas para o desenvolvimento sustentável do país. É urgente que esse
segmento da população abra os olhos para os riscos de um candidato com vínculos
obscuros com milicianos, suspeito de corrupção, de lavagem de dinheiro e evasão
de divisas.
Diante
desse conjunto de impropérios, cabe ao eleitor avaliar com seriedade as
alianças políticas do candidato Flávio e os riscos que representam para as
instituições democráticas. No dia 25 de outubro de 2026, o povo brasileiro
estará diante de uma escolha que poderá definir os rumos do país por muitos
anos, com riscos à própria democracia. Flávio demonstra, a cada dia, sua
precária estatura pessoal e política. As suspeitas de ilicitudes que recaem
sobre ele bastam para torná-lo inapto a governar a maior potência econômica da
América Latina. Seria uma grave irresponsabilidade do povo brasileiro depositar
nele essa confiança. Por fim cabe a pergunta:
Que
Brasil queremos para o nosso futuro? Um país submisso, repressivo, que corta
direitos sociais, enfraquece a proteção aos trabalhadores, se curva aos
interesses exploratórios dos Estados Unidos sob Trump e convive com decisões
judiciais parciais? Ou um Brasil soberano, democrático e socialmente justo, que
defende seus interesses nacionais, valoriza seu povo e garante oportunidades e
dignidade para todos?
<><
O que diz a Elytron sobre as acusações de manipulação eleitoral
“A
Elytron repudia veementemente qualquer tentativa de associar seu nome à
disseminação de informações falsas, ao uso de deepfakes ou à realização de
operações clandestinas de manipulação da opinião pública. A empresa atua no
segmento de segurança cibernética e da informação, com serviços de natureza
exclusivamente defensiva, e não oferece, não executa nem autoriza esse tipo de
prática para nenhum cliente, nacional ou internacional, incluindo a campanha do
senador Flávio Bolsonaro.
A
empresa não foi contratada pela campanha de Donald Trump, não prestou serviços
a ela ou a intermediários a ela vinculados e não autorizou a realização de
apresentações comerciais em seu nome para oferecer operações de influência
política. Caso seja confirmado que parceiros comerciais ofereceram serviços
irregulares em nome da Elytron, sem sua autorização, a empresa adotará as
medidas contratuais e judiciais cabíveis para responsabilizar os envolvidos e
resguardar sua reputação.
Importante
reforçar que Vincent Reed jamais teve qualquer relação com a Elytron Do Brasil,
que desconhecia sua atuação.”
Fonte:
Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

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