terça-feira, 20 de outubro de 2026

Lições da história da Europa e da China

No livro Two Paths to Prosperity: Culture and Institutions in Europe and China, 1000–2000 (2026), Avner Greif, Joel Mokyr e Guido Tabellini investigam as raízes culturais e sociais capazes de terem acelerado a divergência institucional e econômica entre a Europa e a China, por volta do início do segundo milênio. Explicam como a evolução oposta das estruturas familiares – o declínio da família extensa na Europa e o seu fortalecimento na China – moldou a capacidade de cada sociedade de organizar a cooperação.

Na Europa Ocidental, as redes de parentesco estendido perderam espaço para a família nuclear como a unidade básica da sociedade. Desenvolveu-se o padrão europeu de casamento, caracterizado por casamentos tardios, trabalho pré-conjugal fora do lar paterno, celibato feminino e o casal estabelecer uma nova residência independente. Na China, a família extensa e as redes de parentesco patrilinear (o clã/linhagem) tornaram-se a estrutura ideal e central para organizar a cooperação inter-familiar, o culto ancestral e a proteção mútua.

A Igreja Católica desempenhou um papel determinante na desestruturação dos clãs europeus ao impor proibições rigorosas a casamentos consanguíneos (entre primos), poligamia, concubinato, divórcio e adoção legal. Ao promover a herança bilateral (paterna e materna) e exigir o consentimento explícito da noiva para a validade do matrimônio, a Igreja enfraqueceu o controle dos pais sobre alianças familiares.

Com a família nuclear isolada, a Igreja disseminou uma moralidade universalista – pautada na ideia de responsabilidade individual e igualdade de todos perante Deus e depois diante do Estado de Direito. Funcionou como o modelo primordial de corporação: uma associação autônoma, transnacional e baseada em regras formais entre indivíduos não aparentados.

Na China, o movimento oposto ocorreu com o triunfo do neoconfucionismo a partir da Dinastia Song. Tornou as obrigações morais de parentesco e a lealdade filial a base da ordem social e o currículo do exame imperial. Conduziu ao fortalecimento dos clãs como uma organização social polivalente, sustentada por uma moralidade comunitária ou limitada a ele.

A coesão dos clãs apoiava-se no culto aos ancestrais, os quais santificavam a hierarquia por senioridade e a liderança dos mais velhos em uma gerontocracia. Essa estrutura garantiu uma estabilidade social notável, mas gerou um forte viés conservador e avesso ao risco. A veneração do passado e dos sábios da antiguidade dificultou a aceitação de ideias intelectuais radicais e contestadoras.

Os autores explicam as causas do contraste político entre o absolutismo autocrático na China e o surgimento do governo representativo, parlamentos e o primado da lei (rule of law) na Europa Ocidental.

Na China, o Estado centralizado e a burocracia imperial consolidaram-se muito cedo, antes de a sociedade civil ou elites autônomas poderem desenvolver poder de barganha frente ao imperador.

Na Europa, o colapso do Império Romano do Ocidente desmantelou as infraestruturas estatais e deixou um vácuo de autoridade durante séculos. Nesse ínterim, a sociedade organizou-se “de baixo para cima” (bottom-up) por meio de corporações: cidades autônomas, guildas, ordens religiosas etc. Quando os reis europeus tentaram reconstruir a capacidade estatal e cobrar impostos, na Idade Média tardia, viram-se forçados a negociar e partilhar poder com esses grupos corporativos já consolidados.

Na China, o imperador governava através de um sistema de “dois trilhos”: a burocracia estatal atuava no topo (até ao nível de condado), enquanto os clãs e a elite letrada administravam os assuntos locais, a justiça informal e a coleta de tributos. Como a ética neoconfuciana pregava a submissão aos patriarcas e aos anciãos, a lógica do clã harmonizava-se com a autocracia imperial – na qual o imperador era visto como o grande pai da nação.

A corporação, o Direito de Consentimento e os parlamentos foram marcantes na Europa. Lá, o enfraquecimento dos laços de parentesco levou à formação de corporações entre estranhos. Essas associações dependiam de regras legais explícitas, juramentos e consentimento dos membros.

Quando os monarcas precisavam de receitas para financiar guerras, tinham de obter o consentimento dos grupos corporativos territoriais como as cidades autônomas e a nobreza. Em troca do pagamento de impostos, os reis concediam imunidades e direitos políticos, resultando na criação de assembleias representativas (Cortes e Parlamentos).

Por qual razão a capacidade fiscal da China declinou ao longo do segundo milênio, enquanto a dos Estados europeus se expandiu vertiginosamente? Os autores explicam esse fenômeno através da forma como o Estado se articulou com as organizações não estatais – o clã na China e a corporação (especialmente a cidade autônoma) na Europa.

Os Estados europeus (como a Grã-Bretanha e a Holanda) desenvolveram uma capacidade fiscal extraordinária, a partir do século XVII, arrecadando receitas per capita em prata dezenas de vezes superiores às de Pequim. Os imperadores chineses enfrentavam “o dilema do soberano”. Para evitar as elites centrais ou os burocratas acumularem poder suficiente para liderar rebeliões ou golpes, os governantes enfraqueceram deliberadamente a burocracia central – e o fisco.

Como a burocracia oficial não cresceu no mesmo ritmo da população e do território, o Estado imperial “terceirizou” a administração local, a arrecadação e a manutenção da ordem para os clãs e a elite letrada. Os clãs e magistrados locais não tinham qualquer representação no governo central e não podiam decidir sobre como os impostos seriam gastos. Não tinham incentivos para repassar as receitas a Pequim.

Em contraste, surgiram cidades autônomas, barganha e consentimento na Europa. Lá, a fraqueza inicial dos monarcas forçou-os a negociar com as corporações urbanas (comunas) e a nobreza para financiar guerras. Em troca do pagamento de impostos, os reis concediam imunidades, autonomia e assentos em assembleias representativas (parlamentos). Quando os cidadãos e grupos corporativos aprovavam a imposição de tributos e como podiam fiscalizar os gastos, a tributação ganhava legitimidade política.

Na China, o Direito Penal e Administrativo codificado pelo Estado era predominantemente focado na manutenção da ordem pública, em penalidades criminais e no controle da burocracia. Não se desenvolveu um corpo formal de direito civil/comercial estatizado.

Na Europa, o Direito Civil, Comercial e Personalidade Jurídica brotou da necessidade de regular trocas impessoais entre estranhos. Isso impulsionou a revolução jurídica europeia com as corporações reconhecidas formalmente como entidades jurídicas separadas e distintas de seus membros.

A China e a Europa operaram em simbioses opostas entre o Estado e a sociedade civil. Na China, a aliança do império com os clãs garantiu estabilidade e paz social, em longo prazo, mas condenou o país a uma atrofia fiscal e institucional e o deixou vulnerável no século XIX. Na Europa, a competição entre reis e corporações urbanas forçou o surgimento do consentimento parlamentar, do Direito civil formal e de um Estado fiscal-militar altamente capacitado.

Lá, a Revolução Industrial foi o resultado de uma longa acumulação e aplicação de conhecimento útil, possibilitada pela estrutura corporativa e pelos valores universalistas da sociedade europeia. A divisão política da Europa em múltiplos Estados concorrentes impediu algum soberano sufocar a inovação. Ao contrário da China unificada, onde um decreto imperial podia banir tecnologias, os inovadores europeus podiam cruzar fronteiras e encontrar abrigo em Estados vizinhos, criando um mercado de ideias altamente competitivo.

A tradição corporativa resultou no ecossistema do conhecimento útil. Corporações funcionaram como Incubadoras da Ciência. A inovação científica e tecnológica na Europa ocorreu dentro de organizações corporativas autônomas formadas por indivíduos sem laços de parentesco. Destacaram-se as Universidades e Academias Científicas, privadas ou autônomas (como a Royal Society e a Académie Royale) dedicadas à experimentação, verificação e difusão do conhecimento.

O iluminismo industrial e o capital humano de elite funcionou como uma ponte entre savants e fabricants. O grande diferencial europeu foi a aproximação sinérgica entre os detentores do conhecimento proposicional/científico e os executores do conhecimento prescritivo ou prático. É uma lição da história.

¨      Política de ressentimento

No livro Left adrift: what happened to liberal politics (2024), Timothy Shenk examina como o Partido Democrata transformou sua estratégia e sua base eleitoral a partir da eleição de Bill Clinton em 1992 até a derrota de Hillary Clinton em 2016. Detalha o confronto prático entre os consultores políticos Stan Greenberg (defensor do populismo de classe) e Doug Schoen (defensor do consenso de centro).

Houve uma metamorfose da coalizão democrata. Em 1996, o apoio a Bill Clinton ainda caía quando a renda do eleitor subia, mantendo o padrão tradicional do New deal. Em 2016, sob Hillary Clinton, a base democrata fez uma curva em formato de “U” (ou “anzol”): tornou-se forte no topo (eleitores ricos e com pós-graduação) e na base mais vulnerável, mas encolheu muito no meio da distribuição de renda e entre os trabalhadores sem diploma universitário.

Stan Greenberg atuou como o principal estrategista de Bill Clinton, em 1992, enxergando nele o herdeiro do populismo multirracial de Robert F. Kennedy. Em uma combinação estratégica, Stan Greenberg convenceu Bill Clinton a adotar um populismo econômico incisivo (cortes de impostos para a classe média, aumento de impostos para os ricos e proteção ao emprego), combinado com uma moderação multirracial calculada em pautas culturais (reforma do bem-estar social, rigor no combate ao crime e posicionamento pragmático sobre o aborto).

Bill Clinton chegou a criticar publicamente uma ativista radical para sinalizar credibilidade aos eleitores moderados. Venceu em 1992, mas o candidato independente Ross Perot obteve 18,9% dos votos, atraindo trabalhadores de colarinho azul.   O aviso das urnas evidenciou: a vitória democrata fora uma rejeição ao Partido Republicano, e não uma consolidação definitiva de uma nova maioria.

Com a derrota nas eleições de meio de mandato, em 1994, os democratas perderam o controle do Congresso. Stan Greenberg atribuiu o desastre ao abandono dos temas populistas em favor da austeridade fiscal e do foco na NAFTA. Bill Clinton, em busca de um bode expiatório, afastou Stan Greenberg.

A nova equipe com Doug Schoen dividiu o eleitorado em dois grupos decisivos: Swing 1 (mulheres suburbanas com ensino superior, conhecidas como liberais nos costumes e conservadoras na economia) e Swing 2 (homens de colarinho azul e eleitores de Ross Perot).

A nova consultoria defendeu: “a eleição não era sobre economia ou classe sociais, mas sobre valores”. A retórica de luta de classes foi substituída por mensagens de unidade e busca pelo centro, na estratégia batizada de “triangulação”, garantindo a reeleição de Bill Clinton em 1996, embora com a menor taxa de participação eleitoral desde a década de 1920.

Al Gore, em 2000, demitiu Doug Schoen e trouxe de volta Stan Greenberg, adotando o slogan populista “o povo contra os poderosos” [the people versus the powerful]. Al Gore venceu no voto popular, mas perdeu no Colégio Eleitoral. Evidenciou: a classe trabalhadora de colarinho azul continuava migrando para os republicanos.

Nas primárias democratas (disputa interna em 2008), Mark Penn desenhou a estratégia de Hillary Clinton, tentando posicioná-la como a candidata dos trabalhadores e da classe média, enquanto Barack Obama reuniu os jovens e os eleitores altamente diplomados.

A equipe de Barack Obama descartou os velhos gurus de pesquisas e grupos de foco, substituindo-os por modelos algorítmicos, big data e testes estatísticos automatizados. Mas houve uma cegueira tecnológica em 2016: a campanha de Hillary Clinton dependia fortemente de um algoritmo de projeção chamado “Ada”. Greenberg enviou repetidos alertas aos chefes da campanha, avisando: a mensagem parecia “sem noção” para os trabalhadores de colarinho azul e ser apenas “anti-Trump” não bastaria.

A equipe de Hillary Clinton ignorou os alertas de Greenberg. Donald Trump venceu no condado de Macomb (o histórico bastião de trabalhadores operários analisado por Greenberg), o que o levou à presidência.

Timothy Shenk conclui: a longa disputa travada entre o projeto de classe de Greenberg e o projeto de consenso de Penn e Schoen terminou com a derrota de ambos. As forças da polarização cultural destruíram a base histórica de classe do Partido Democrata, deixando a esquerda sem uma maioria sólida.

Timothy Shenk examina também como as técnicas de consultoria política e as teorias de reconfiguração eleitoral, desenvolvidas nos EUA, foram exportadas para o Reino Unido, moldando a ascensão do New labour de Tony Blair e redefinindo a relação do Partido Trabalhista britânico com a classe trabalhadora.

Após uma derrota dolorosa do Partido Trabalhista britânico nas eleições de 1992, o estrategista Philip Gould viajou para Little Rock para estudar de perto a campanha vitoriosa de Bill Clinton. Philip Gould adotou as análises e os escritos do americano Stan Greenberg como definidores para a reconstrução do Trabalhismo.

Tony Blair argumentou: a vitória esmagadora do Trabalhismo em 1945 fora a exceção, e não a regra. O Partido Trabalhista precisava parar de apelar apenas para a base sindical tradicional em um país onde dois terços dos trabalhadores não eram sindicalizados.

Houve, então, o abandono do socialismo estatista. Tony Blair alterou o regimento do partido, para remover a cláusula em defesa da propriedade estatal dos meios de produção, e redefiniu a ideologia para o chamado de “social-ism”: uma vertente ética e moral focada em igualdade de oportunidades, combate à pobreza e dinamismo econômico compatível com o livre-mercado.

O projeto buscou atrair tanto os filhos da classe trabalhadora com ambições de ascensão social quanto a elite meritocrática diplomada.

Em uma proposta populista de classe, Greenberg defendeu uma mensagem de confronto contra a elite conservadora: “O Trabalhismo trabalha para todos; os Conservadores para os poucos privilegiados”. Mas houve a recusa à “guerra de classes”. Blair rejeitou criar divisão ou discórdia, preferindo a mensagem unificadora de “uma nação” (one nation) e a promessa da terceira via (third way).

A campanha acabou combinando o tom populista brando com promessas concretas de impacto direto no cotidiano (como redução de turmas escolares e diminuição de filas no sistema de saúde pública), resultando na vitória acachapante de 1997.

Com uma nova base eleitoral, o Trabalhismo venceu entre os eleitores com diploma universitário, pela primeira vez na história, e quase dobrou seu apoio entre os 10% mais ricos. Com o descolamento operário, Greenberg chamou essa mudança de “colapso de classe” (class collapse). Embora o Trabalhismo tenha vencido amplamente, a participação eleitoral caiu acentuadamente nos distritos operários mais tradicionais. A classe trabalhadora começava a se sentir alienada do novo projeto.

Durante o governo, as mensagens abstratas da Terceira Via perderam tração e o eleitorado passou a sentir: o governo neoliberal não entregava melhorias suficientes nos serviços públicos. Na campanha de reeleição de 2005, Tony Blair trouxe Mark Penn (arquirrival de Greenberg nos EUA) para sua equipe. Penn e Greenberg instalaram mesas concorrentes, no quartel-general do partido, gerando uma verdadeira “guerra de pesquisas”.

O Trabalhismo venceu em 2005, mas com a menor fatia do voto popular da história recente e com uma queda de 10 pontos percentuais de apoio na metade inferior da distribuição de renda. Em grupos de foco, registrou-se o surgimento de uma “política de ressentimento”, na classe trabalhadora, quanto à imigração, crime e perda de controle sobre a comunidade, sentindo-se esquecida pelas elites cosmopolitas.

Essa fratura não resolvida pelo New Labour culminou no Brexit, em 2016. Permitiu também a Boris Johnson, em 2019, aplicar um populismo de direita (misturando nacionalismo nos costumes e defesa do National Health Service), para capturar a antiga “muralha vermelha” (red wall) operária do Trabalhismo, impondo uma derrota histórica ao partido.

A política de ressentimento, na classe trabalhadora, é um conceito sociológico e político para descrever o sentimento de frustração, abandono e injustiça percebido por trabalhadores. Eles sentem a perda de seu status econômico, social e cultural. Esse fenômeno é explorado para explicar a guinada de parcelas da classe trabalhadora tradicional em direção a discursos populistas e de direita.

 

Fonte: Por Fernando Nogueira da Costa, em A Terra é Redonda

 

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