Lições
da história da Europa e da China
No
livro Two Paths to Prosperity: Culture and Institutions in Europe and China,
1000–2000 (2026), Avner Greif, Joel Mokyr e Guido Tabellini
investigam as raízes culturais e sociais capazes de terem acelerado a
divergência institucional e econômica entre a Europa e a China, por volta do
início do segundo milênio. Explicam como a evolução oposta das estruturas
familiares – o declínio da família extensa na Europa e o seu fortalecimento na
China – moldou a capacidade de cada sociedade de organizar a cooperação.
Na
Europa Ocidental, as redes de parentesco estendido perderam espaço para a
família nuclear como a unidade básica da sociedade. Desenvolveu-se o padrão
europeu de casamento, caracterizado por casamentos tardios, trabalho
pré-conjugal fora do lar paterno, celibato feminino e o casal estabelecer uma
nova residência independente. Na China, a família extensa e as redes de
parentesco patrilinear (o clã/linhagem) tornaram-se a estrutura ideal e central
para organizar a cooperação inter-familiar, o culto ancestral e a proteção
mútua.
A
Igreja Católica desempenhou um papel determinante na desestruturação dos clãs
europeus ao impor proibições rigorosas a casamentos consanguíneos (entre
primos), poligamia, concubinato, divórcio e adoção legal. Ao promover a herança
bilateral (paterna e materna) e exigir o consentimento explícito da noiva para
a validade do matrimônio, a Igreja enfraqueceu o controle dos pais sobre
alianças familiares.
Com a
família nuclear isolada, a Igreja disseminou uma moralidade universalista –
pautada na ideia de responsabilidade individual e igualdade de todos perante
Deus e depois diante do Estado de Direito. Funcionou como o modelo primordial
de corporação: uma associação autônoma, transnacional e baseada em regras
formais entre indivíduos não aparentados.
Na
China, o movimento oposto ocorreu com o triunfo do neoconfucionismo a partir da
Dinastia Song. Tornou as obrigações morais de parentesco e a lealdade filial a
base da ordem social e o currículo do exame imperial. Conduziu ao
fortalecimento dos clãs como uma organização social polivalente, sustentada por
uma moralidade comunitária ou limitada a ele.
A
coesão dos clãs apoiava-se no culto aos ancestrais, os quais santificavam a
hierarquia por senioridade e a liderança dos mais velhos em uma gerontocracia.
Essa estrutura garantiu uma estabilidade social notável, mas gerou um forte
viés conservador e avesso ao risco. A veneração do passado e dos sábios da
antiguidade dificultou a aceitação de ideias intelectuais radicais e
contestadoras.
Os
autores explicam as causas do contraste político entre o absolutismo
autocrático na China e o surgimento do governo representativo, parlamentos e o
primado da lei (rule of law) na Europa Ocidental.
Na
China, o Estado centralizado e a burocracia imperial consolidaram-se muito
cedo, antes de a sociedade civil ou elites autônomas poderem desenvolver poder
de barganha frente ao imperador.
Na
Europa, o colapso do Império Romano do Ocidente desmantelou as infraestruturas
estatais e deixou um vácuo de autoridade durante séculos. Nesse ínterim, a
sociedade organizou-se “de baixo para cima” (bottom-up) por meio de
corporações: cidades autônomas, guildas, ordens religiosas etc. Quando os reis
europeus tentaram reconstruir a capacidade estatal e cobrar impostos, na Idade
Média tardia, viram-se forçados a negociar e partilhar poder com esses grupos
corporativos já consolidados.
Na
China, o imperador governava através de um sistema de “dois trilhos”: a
burocracia estatal atuava no topo (até ao nível de condado), enquanto os clãs e
a elite letrada administravam os assuntos locais, a justiça informal e a coleta
de tributos. Como a ética neoconfuciana pregava a submissão aos patriarcas e
aos anciãos, a lógica do clã harmonizava-se com a autocracia imperial – na qual
o imperador era visto como o grande pai da nação.
A
corporação, o Direito de Consentimento e os parlamentos foram marcantes na
Europa. Lá, o enfraquecimento dos laços de parentesco levou à formação de
corporações entre estranhos. Essas associações dependiam de regras legais
explícitas, juramentos e consentimento dos membros.
Quando
os monarcas precisavam de receitas para financiar guerras, tinham de obter o
consentimento dos grupos corporativos territoriais como as cidades autônomas e
a nobreza. Em troca do pagamento de impostos, os reis concediam imunidades e
direitos políticos, resultando na criação de assembleias representativas
(Cortes e Parlamentos).
Por
qual razão a capacidade fiscal da China declinou ao longo do segundo milênio,
enquanto a dos Estados europeus se expandiu vertiginosamente? Os autores
explicam esse fenômeno através da forma como o Estado se articulou com as
organizações não estatais – o clã na China e a corporação (especialmente a
cidade autônoma) na Europa.
Os
Estados europeus (como a Grã-Bretanha e a Holanda) desenvolveram uma capacidade
fiscal extraordinária, a partir do século XVII, arrecadando receitas per capita
em prata dezenas de vezes superiores às de Pequim. Os imperadores chineses
enfrentavam “o dilema do soberano”. Para evitar as elites centrais ou os
burocratas acumularem poder suficiente para liderar rebeliões ou golpes, os
governantes enfraqueceram deliberadamente a burocracia central – e o fisco.
Como a
burocracia oficial não cresceu no mesmo ritmo da população e do território, o
Estado imperial “terceirizou” a administração local, a arrecadação e a
manutenção da ordem para os clãs e a elite letrada. Os clãs e magistrados
locais não tinham qualquer representação no governo central e não podiam
decidir sobre como os impostos seriam gastos. Não tinham incentivos para
repassar as receitas a Pequim.
Em
contraste, surgiram cidades autônomas, barganha e consentimento na Europa. Lá,
a fraqueza inicial dos monarcas forçou-os a negociar com as corporações urbanas
(comunas) e a nobreza para financiar guerras. Em troca do pagamento de
impostos, os reis concediam imunidades, autonomia e assentos em assembleias
representativas (parlamentos). Quando os cidadãos e grupos corporativos
aprovavam a imposição de tributos e como podiam fiscalizar os gastos, a
tributação ganhava legitimidade política.
Na
China, o Direito Penal e Administrativo codificado pelo Estado era
predominantemente focado na manutenção da ordem pública, em penalidades
criminais e no controle da burocracia. Não se desenvolveu um corpo formal de
direito civil/comercial estatizado.
Na
Europa, o Direito Civil, Comercial e Personalidade Jurídica brotou da
necessidade de regular trocas impessoais entre estranhos. Isso impulsionou a
revolução jurídica europeia com as corporações reconhecidas formalmente como
entidades jurídicas separadas e distintas de seus membros.
A China
e a Europa operaram em simbioses opostas entre o Estado e a sociedade civil. Na
China, a aliança do império com os clãs garantiu estabilidade e paz social, em
longo prazo, mas condenou o país a uma atrofia fiscal e institucional e o
deixou vulnerável no século XIX. Na Europa, a competição entre reis e
corporações urbanas forçou o surgimento do consentimento parlamentar, do
Direito civil formal e de um Estado fiscal-militar altamente capacitado.
Lá, a
Revolução Industrial foi o resultado de uma longa acumulação e aplicação de
conhecimento útil, possibilitada pela estrutura corporativa e pelos valores
universalistas da sociedade europeia. A divisão política da Europa em múltiplos
Estados concorrentes impediu algum soberano sufocar a inovação. Ao contrário da
China unificada, onde um decreto imperial podia banir tecnologias, os
inovadores europeus podiam cruzar fronteiras e encontrar abrigo em Estados
vizinhos, criando um mercado de ideias altamente competitivo.
A
tradição corporativa resultou no ecossistema do conhecimento útil. Corporações
funcionaram como Incubadoras da Ciência. A inovação científica e tecnológica na
Europa ocorreu dentro de organizações corporativas autônomas formadas por
indivíduos sem laços de parentesco. Destacaram-se as Universidades e Academias
Científicas, privadas ou autônomas (como a Royal Society e a Académie
Royale) dedicadas à experimentação, verificação e difusão do conhecimento.
O
iluminismo industrial e o capital humano de elite funcionou como uma ponte
entre savants e fabricants. O grande diferencial europeu foi a
aproximação sinérgica entre os detentores do conhecimento
proposicional/científico e os executores do conhecimento prescritivo ou
prático. É uma lição da história.
¨
Política de ressentimento
No
livro Left adrift: what happened to liberal politics (2024), Timothy
Shenk examina como o Partido Democrata transformou sua estratégia e sua base
eleitoral a partir da eleição de Bill Clinton em 1992 até a derrota de Hillary
Clinton em 2016. Detalha o confronto prático entre os consultores políticos
Stan Greenberg (defensor do populismo de classe) e Doug Schoen (defensor do
consenso de centro).
Houve
uma metamorfose da coalizão democrata. Em 1996, o apoio a Bill Clinton ainda
caía quando a renda do eleitor subia, mantendo o padrão tradicional do New
deal. Em 2016, sob Hillary Clinton, a base democrata fez uma curva em
formato de “U” (ou “anzol”): tornou-se forte no topo (eleitores ricos e com
pós-graduação) e na base mais vulnerável, mas encolheu muito no meio da
distribuição de renda e entre os trabalhadores sem diploma universitário.
Stan
Greenberg atuou como o principal estrategista de Bill Clinton, em 1992,
enxergando nele o herdeiro do populismo multirracial de Robert F. Kennedy. Em
uma combinação estratégica, Stan Greenberg convenceu Bill Clinton a adotar um
populismo econômico incisivo (cortes de impostos para a classe média, aumento
de impostos para os ricos e proteção ao emprego), combinado com uma moderação
multirracial calculada em pautas culturais (reforma do bem-estar social, rigor
no combate ao crime e posicionamento pragmático sobre o aborto).
Bill
Clinton chegou a criticar publicamente uma ativista radical para sinalizar
credibilidade aos eleitores moderados. Venceu em 1992, mas o candidato
independente Ross Perot obteve 18,9% dos votos, atraindo trabalhadores de
colarinho azul. O aviso das urnas evidenciou: a vitória democrata
fora uma rejeição ao Partido Republicano, e não uma consolidação definitiva de
uma nova maioria.
Com a
derrota nas eleições de meio de mandato, em 1994, os democratas perderam o
controle do Congresso. Stan Greenberg atribuiu o desastre ao abandono dos temas
populistas em favor da austeridade fiscal e do foco na NAFTA. Bill Clinton, em
busca de um bode expiatório, afastou Stan Greenberg.
A nova
equipe com Doug Schoen dividiu o eleitorado em dois grupos decisivos: Swing
1 (mulheres suburbanas com ensino superior, conhecidas como liberais nos
costumes e conservadoras na economia) e Swing 2 (homens de colarinho
azul e eleitores de Ross Perot).
A nova
consultoria defendeu: “a eleição não era sobre economia ou classe sociais, mas
sobre valores”. A retórica de luta de classes foi substituída por mensagens de
unidade e busca pelo centro, na estratégia batizada de “triangulação”,
garantindo a reeleição de Bill Clinton em 1996, embora com a menor taxa de
participação eleitoral desde a década de 1920.
Al
Gore, em 2000, demitiu Doug Schoen e trouxe de volta Stan Greenberg, adotando o
slogan populista “o povo contra os poderosos” [the people versus the
powerful]. Al Gore venceu no voto popular, mas perdeu no Colégio Eleitoral.
Evidenciou: a classe trabalhadora de colarinho azul continuava migrando para os
republicanos.
Nas
primárias democratas (disputa interna em 2008), Mark Penn desenhou a estratégia
de Hillary Clinton, tentando posicioná-la como a candidata dos trabalhadores e
da classe média, enquanto Barack Obama reuniu os jovens e os eleitores
altamente diplomados.
A
equipe de Barack Obama descartou os velhos gurus de pesquisas e grupos de foco,
substituindo-os por modelos algorítmicos, big data e testes estatísticos
automatizados. Mas houve uma cegueira tecnológica em 2016: a campanha de
Hillary Clinton dependia fortemente de um algoritmo de projeção chamado “Ada”.
Greenberg enviou repetidos alertas aos chefes da campanha, avisando: a mensagem
parecia “sem noção” para os trabalhadores de colarinho azul e ser apenas
“anti-Trump” não bastaria.
A
equipe de Hillary Clinton ignorou os alertas de Greenberg. Donald Trump venceu
no condado de Macomb (o histórico bastião de trabalhadores operários analisado
por Greenberg), o que o levou à presidência.
Timothy
Shenk conclui: a longa disputa travada entre o projeto de classe de Greenberg e
o projeto de consenso de Penn e Schoen terminou com a derrota de ambos. As
forças da polarização cultural destruíram a base histórica de classe do Partido
Democrata, deixando a esquerda sem uma maioria sólida.
Timothy
Shenk examina também como as técnicas de consultoria política e as teorias de
reconfiguração eleitoral, desenvolvidas nos EUA, foram exportadas para o Reino
Unido, moldando a ascensão do New labour de Tony Blair e redefinindo a
relação do Partido Trabalhista britânico com a classe trabalhadora.
Após
uma derrota dolorosa do Partido Trabalhista britânico nas eleições de 1992, o
estrategista Philip Gould viajou para Little Rock para estudar de perto a
campanha vitoriosa de Bill Clinton. Philip Gould adotou as análises e os
escritos do americano Stan Greenberg como definidores para a reconstrução do
Trabalhismo.
Tony
Blair argumentou: a vitória esmagadora do Trabalhismo em 1945 fora a exceção, e
não a regra. O Partido Trabalhista precisava parar de apelar apenas para a base
sindical tradicional em um país onde dois terços dos trabalhadores não eram
sindicalizados.
Houve,
então, o abandono do socialismo estatista. Tony Blair alterou o regimento do
partido, para remover a cláusula em defesa da propriedade estatal dos meios de
produção, e redefiniu a ideologia para o chamado de “social-ism”: uma
vertente ética e moral focada em igualdade de oportunidades, combate à pobreza
e dinamismo econômico compatível com o livre-mercado.
O
projeto buscou atrair tanto os filhos da classe trabalhadora com ambições de
ascensão social quanto a elite meritocrática diplomada.
Em uma
proposta populista de classe, Greenberg defendeu uma mensagem de confronto
contra a elite conservadora: “O Trabalhismo trabalha para todos; os
Conservadores para os poucos privilegiados”. Mas houve a recusa à “guerra de
classes”. Blair rejeitou criar divisão ou discórdia, preferindo a mensagem
unificadora de “uma nação” (one nation) e a promessa da terceira via (third
way).
A
campanha acabou combinando o tom populista brando com promessas concretas de
impacto direto no cotidiano (como redução de turmas escolares e diminuição de
filas no sistema de saúde pública), resultando na vitória acachapante de 1997.
Com uma
nova base eleitoral, o Trabalhismo venceu entre os eleitores com diploma
universitário, pela primeira vez na história, e quase dobrou seu apoio entre os
10% mais ricos. Com o descolamento operário, Greenberg chamou essa mudança de
“colapso de classe” (class collapse). Embora o Trabalhismo tenha vencido
amplamente, a participação eleitoral caiu acentuadamente nos distritos
operários mais tradicionais. A classe trabalhadora começava a se sentir
alienada do novo projeto.
Durante
o governo, as mensagens abstratas da Terceira Via perderam tração e o
eleitorado passou a sentir: o governo neoliberal não entregava melhorias
suficientes nos serviços públicos. Na campanha de reeleição de 2005, Tony Blair
trouxe Mark Penn (arquirrival de Greenberg nos EUA) para sua equipe. Penn e
Greenberg instalaram mesas concorrentes, no quartel-general do partido, gerando
uma verdadeira “guerra de pesquisas”.
O
Trabalhismo venceu em 2005, mas com a menor fatia do voto popular da história
recente e com uma queda de 10 pontos percentuais de apoio na metade inferior da
distribuição de renda. Em grupos de foco, registrou-se o surgimento de uma
“política de ressentimento”, na classe trabalhadora, quanto à imigração, crime
e perda de controle sobre a comunidade, sentindo-se esquecida pelas elites
cosmopolitas.
Essa
fratura não resolvida pelo New Labour culminou no Brexit, em 2016.
Permitiu também a Boris Johnson, em 2019, aplicar um populismo de direita
(misturando nacionalismo nos costumes e defesa do National Health Service),
para capturar a antiga “muralha vermelha” (red wall) operária do
Trabalhismo, impondo uma derrota histórica ao partido.
A
política de ressentimento, na classe trabalhadora, é um conceito sociológico e
político para descrever o sentimento de frustração, abandono e injustiça
percebido por trabalhadores. Eles sentem a perda de seu status econômico,
social e cultural. Esse fenômeno é explorado para explicar a guinada de
parcelas da classe trabalhadora tradicional em direção a discursos populistas e
de direita.
Fonte:
Por Fernando Nogueira da Costa, em A Terra é Redonda

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