Eugênio
Bucci: O sequestro da esfera pública
Dizem
que somos uma “sociedade interconectada”. O que isso significa? No mais das
vezes, significa que o progresso nas comunicações teria melhorado a nossa vida.
Falamos uns com os outros por meio das plataformas digitais, na maior
simplicidade. As cartas de amor não existem mais, e até os e-mails começam a
ficar antiquados: hoje tudo se resolve pelo WhatsApp, com frases efêmeras,
áudios anódinos e emojis redondos.
A
publicidade comercial migrou para os bits, soterrando as telas que nos
confinam. Bancos disparam avisos de débito para o smartphone do cliente. O
check-in da passagem aérea se tornou uma operação virtual, bem como a compra de
ingresso para o cinema, a reserva no hotel, a matrícula na escola, o
agendamento do exame médico, as reuniões de trabalho e a sessão de psicanálise.
Tudo parece ter acontecido de modo indolor e benfazejo.
As
mudanças ditas positivas, porém, mal escondem as mutações desestruturantes.
Basta ver o que se passa nas campanhas eleitorais. Se olharmos com atenção,
veremos nas eleições um contexto de transformações nocivas, além de
complicadas. Para começar, lembremos que a malha tecnológica que
“interconectou” a sociedade brasileira não é brasileira. Num período eleitoral
como o que está em marcha, o descompasso mostra suas garras.
Plataformas
como Facebook, Instagram, Youtube, WhatsApp, X ou Linkedin são empresas dos
Estados Unidos. Pior: seus CEOs estão alinhados, até o pescoço, com Donald
Trump. Quando os negócios desses senhores imperam sobre o fluxo das mensagens
que trafegam na internet do Brasil, alguma coisa não vai bem ao sul do Equador.
A
tecnologia não é neutra. Até há poucos anos, Mark Zuckerberg, dono do Facebook,
dizia que sua plataforma era uma “praça pública”, apartidária e isenta. Tudo
mentira, claro: o Facebook jamais poderia ser praça pública, pois era
propriedade particular, por mais que Mark Zuckerberg fingisse acreditar em sua
afirmação.
No
final de 2024, o rapaz, que também é dono do Instagram e do WhatsApp, tirou a
máscara. Com Donald Trump eleito pela segunda vez, gravou um vídeo declarando
que se associaria ao presidente para combater a regulamentação das plataformas
no mundo inteiro. Num estalar de dedos, vestiu a armadura de agente global do
trumpismo.
Elon
Musk idem. O chefão do X já deu 276 milhões de dólares ao Partido Republicano
(de Donald Trump) nas eleições de meio de mandato, marcadas para o final deste
ano. Sozinho, o investimento de Elon Musk, travestido de doação, é maior do que
o total de dinheiro que o Partido Democrata conseguiu amealhar no mesmo
período.
Mark
Zuckerberg, Elon Musk e seus pares mandam e desmandam nos circuitos que fazem
do nosso país uma “sociedade interconectada”. Trata-se de um fato singelo.
Trata-se, também, de um pandemônio. Agora, a velocidade e o alcance dos
argumentos dos dois candidatos que disputam o segundo turno não são decididos
no Brasil, mas em um ambiente soturno de algoritmos programados fora do Brasil.
Os
chips dos Estados Unidos definem quantos pares de olhos serão atingidos pela
propaganda política de um ou de outro. Enquanto isso, os executivos dos
conglomerados vão jantar na Casa Branca em clima de promiscuidade assanhada.
Todos
os dias surgem demonstrações desse quadro excruciante. No início da semana,
tivemos a notícia de que o Partido dos Trabalhadores apresentou ao TSE uma
reclamação sobre a Meta (a gigante montada por Mark Zuckerberg para controlar o
Facebook, o Instagram e o WhatsApp).
De
acordo com as alegações do PT, Flávio Bolsonaro teria um engajamento médio 2,96
vezes maior que a de Lula nas redes da empresa, embora tivesse 17,2% menos
seguidores. Em resposta, a Meta atribuiu o baixo alcance de publicações de Lula
ao que chamou de “problemas técnicos”. No mesmo documento, negou favorecimentos
intencionais à chapa de extrema direita e se comprometeu a resolver a falha.
A Meta
pode estar falando a verdade? Sim, pode. A questão, no entanto, não fica
resolvida. As big techs que detêm o monopólio sobre as infovias da campanha
eleitoral no Brasil não são transparentes, não se deixam examinar de modo
algum, fazem o que bem entendem e seguirão assim. O Tribunal Superior Eleitoral
não tem ideia do que se passa dentro delas.
Então,
a gente se pergunta: mas isso pode? Segundo o art. 222 da Constituição Federal,
um cidadão que não seja brasileiro ou uma empresa estrangeira não podem ser
donos ou controladores de um jornal ou de uma emissora de TV no Brasil. Por
quê? Muito simples: jornais e emissoras, sendo mediadores do fluxo de
informações e opiniões, influem diretamente na formação da opinião pública; se
ficam nas mãos de forças internacionais ou, digamos, imperialistas, a soberania
nacional some na nuvem.
Mas as
plataformas digitais, estrangeiríssimas, ficam à vontade para exercer um poder
incomparavelmente maior do que uma estação de TV sobre a opinião pública, O
domínio delas sobre os debates políticos no nosso país é total. Isso mesmo,
total. Nessas horas, vemos com mais nitidez: por trás da expressão “sociedade
interconectada”, existe um sequestro descarado.
• Flávio Bolsonaro, o fariseu. Por Renan
William dos Santos,
Intenções
políticas não precisam virar projeto de lei nem ser anunciadas em entrevista
coletiva para que possamos fazer inferências sobre elas e problematizá-las. Na
controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida, que desde o primeiro turno vem
colocando a campanha de Flávio Bolsonaro na defensiva, boa parte do noticiário
se deteve em discussões sobre a possível manutenção ou retirada do título
oficial de padroeira do Brasil. Mas o problema mais espinhoso talvez não diga
respeito ao que Flávio faria com a padroeira, e sim à coerência entre a
identidade religiosa que reivindica e as posições que dela se esperam.
Desde o
início da corrida eleitoral, Flávio tem feito da conversão evangélica um dos
eixos de sua campanha. Ora, se foi ele mesmo quem pôs a religião no centro da
conversa, não é natural que o eleitor queira saber o que esse novo homem pensa
da santa que a maioria católica do país venera como Padroeira do Brasil?
Quando
perguntas desse tipo se espalham, podem custar caro a quem faz da própria fé um
argumento eleitoral. Há quinze anos, o sociólogo Antônio Flávio Pierucci
recorreu ao chamado “efeito fariseu” para mostrar como esse risco se
materializou na campanha presidencial de José Serra. O conceito designa os
casos em que apelos de alinhamento religioso, dirigidos sobretudo a um
eleitorado conservador, saem pela culatra. A imagem vem do Evangelho de Lucas:
o fariseu se vangloria de suas virtudes diante de Deus, enquanto o publicano
apenas pede perdão. A censura não recai sobre a fé, mas sobre a pretensão de
fazer dela um atestado de superioridade moral.
Em
2010, quanto mais Serra procurava apresentar sua religiosidade pessoal como
superior à da adversária, Dilma Rousseff, mais expunha a própria biografia à
régua moral que escolhera mobilizar. Não tardaram, então, a aparecer episódios
de sua vida familiar que desfizeram a imagem de santo que a campanha buscava
construir.
Mas, se
o efeito fariseu atingiu Serra, por que poupou Jair Bolsonaro, que levou os
acenos religiosos a outro patamar nas disputas eleitorais brasileiras?
Aqui
precisamos lembrar que Jair construiu ao longo dos anos uma relação bastante
peculiar com o mundo evangélico. Frequentou cultos, cercou-se de pastores,
incorporou pautas morais e linguagem religiosa e chegou, em 2016, a ser
batizado no rio Jordão pelo pastor Everaldo. Ao mesmo tempo, nunca deixou de
reafirmar que sua identidade permanecia católica. Ou seja, Jair Bolsonaro nunca
se apresentou propriamente como um convertido. Nunca fez de si a figura do
pecador regenerado. Seus sinais para os evangélicos eram sobretudo de respeito,
proximidade, admiração e aliança.
Jair
nunca quis se vender ao eleitorado como um novo homem. E foi assim que logrou
colher boa parte do bônus da identificação sem assumir integralmente o ônus da
identidade.
Com
Flávio, a coisa muda. Em janeiro de 2024, ele e sua mulher foram batizados na
Comunidade das Nações, em Brasília. Ao recordar o episódio, Flávio o descreveu
como “uma guinada pro lado certo na vida”. Dois anos depois, essa identificação
religiosa ocupa lugar de destaque em sua apresentação pública.
Só que,
em comparação com o que fez seu pai, há uma diferença substantiva entre dizer
“eu respeito vocês” e dizer “eu sou um de vocês”. Identidades trazem consigo
compromissos e expectativas. Quanto mais enfaticamente alguém reivindica a
condição de renascido, mais autoriza que suas posições sejam interrogadas a
partir das exigências que essa mesma identidade estabelece.
É aqui
que a controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida revela uma fragilidade da
estratégia de Flávio que seus adversários, embora tenham explorado o episódio,
ainda não parecem ter levado às últimas consequências. Afinal, não se trata
simplesmente de descobrir se Flávio guarda ou não numa gaveta um projeto para
“destronar” a santa. A questão é outra: que motivos teríamos para supor que a
fidelidade evangélica que ele apregoa aos quatro ventos se flexibilizaria
justamente nesse ponto? Ou seu compromisso com a nova fé admite uma exceção tão
central, ou a lógica de sua adesão o coloca diante de uma conclusão incômoda: a
de que a devoção mariana professada pela maioria da população que pretende
governar seria uma forma de idolatria.
E antes
que os já esgarçados argumentos sobre a diversidade evangélica encontrem algum
atalho teológico no labirinto das interpretações bíblicas, convém lembrar que a
igreja em que Flávio foi batizado é liderada pelo bispo JB Carvalho. Em livro
de 2001, ele escreveu que “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus” e que essa
rainha, no Brasil, “se mascara com o nome de Aparecida”.
O que
esperar, então, de um novo homem que faz do renascimento religioso componente
tão forte de sua identidade pública, senão que seja capaz de esclarecer sua
relação com o que prega o líder de sua própria denominação? Um fiel mais
discreto sobre o próprio pertencimento talvez pudesse se abrigar numa reserva
de consciência, numa autonomia espiritual que acolhe alguns ensinamentos e
descarta outros. Mais difícil é recorrer a esse expediente depois de,
farisaicamente, fazer da conversão uma credencial pública e um supertrunfo
contra os erros do passado.
Ao
trazer sua religiosidade para o centro da conversa pública, Flávio Bolsonaro
criou uma armadilha para si mesmo: quem recorre à arma da fé para apontar o
desvio dos outros pode acabar descobrindo, pelo efeito fariseu, que aponta ao
mesmo tempo três dedos para si e um para Deus.
Fonte: A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário