terça-feira, 20 de outubro de 2026

Alexandre Kubrusly Bornstein: A “areia movediça” da extrema direita

Jair Bolsonaro, pronunciando-se a respeito do fim da escala 6×1 em uma reunião com integrantes do PL realizada em 2024, recomendou aos seus aliados “muita cautela. Não adianta fazer notinha em jornal, editorial, discurso na internet, discurso na câmara. Cada discurso é uma areia movediça”. Acerca dessa questão, realizei, em outro lugar, uma análise do discurso bolsonarista a respeito do fim da escala 6×1 e me parece que o diagnóstico de Bolsonaro está correto, a pauta em questão funciona, de fato, como uma espécie de areia movediça para a extrema direita. Analisei diversas publicações nas redes sociais de políticos influentes da extrema direita durante as semanas de novembro de 2024 em que a discussão a respeito da proposta tomou as redes. Em resumo, esses políticos acusam a medida de ser populista, visando ganhar apoio eleitoral, mas que se aplicada, se realizaria como catástrofe para a população. Segundo eles, os reais efeitos do fim da escala 6×1 seriam o desemprego e a inflação, fantasmas que todo brasileiro de média ou baixa renda aprendeu a temer. Nikolas Ferreira, por exemplo, afirma que “aumentar os funcionários gera despesas para a empresa. […] E sabe quem vai pagar essa conta? Exatamente, você!”. Talvez possamos identificar como cerne da argumentação do discurso analisado a seguinte afirmação, presente em um vídeo repostado por Carla Zambelli: “o patrão não é seu inimigo, seu inimigo é o Estado”. Quer dizer, não se nega que haja a espoliação, a disputa se dá em torno de quem é o agente desta espoliação, se é o patrão ou o Estado. O antagonismo entre empresário e trabalhador é negado, estes, seriam ambos espoliados pelo Estado, especialmente na figura dos políticos corruptos, da burocracia disfuncional, etc.

A resposta da extrema direita aqui analisada não parece ser muito diferente do que seria uma resposta neoliberal tradicional, que nega direitos trabalhistas porque estes seriam prejudiciais para a economia e que, alternativamente, sugere flexibilização das leis trabalhistas, como atesta a PEC 12/2026 defendida por Flávio Bolsonaro. O que se percebe portanto é que, na discussão a respeito do fim da escala 6×1, a extrema direita parece perder o seu comentado caráter antissistema. O movimento outsider que veio para “mudar tudo isso que está ai” como afirmava Bolsonaro em sua campanha de 2018, passa a defender a impossibilidade da mudança; a extrema direita perde seu caráter de “revolta contra o sistema” e tem que assumir abertamente sua posição conservadora. O “amálgama de sentimentos de revolta e ideias sociais reacionárias”, identificado já em 1933 por Reich, que constituiria o fascismo e que podemos ver presente na extrema direita contemporânea, dá lugar a certa melancolia conservadora, que nega a transformação que se anuncia. A possibilidade da mudança real, que viria através da redução da jornada de trabalho, é tratada como um “golpe” que se realizaria como desastre para a população. O tom do discurso assumido é, portanto, essencialmente melancólico, como se dissesse aos trabalhadores que acreditar na possibilidade de melhora da qualidade de suas vidas só poderia ser obra de uma enganação.

A discussão a respeito da escala 6×1 parece ter o potencial de escancarar as contradições entre os interesses da população e os interesses dos representantes da extrema direita, pondo em cheque, dessa forma, sua popularidade. Segundo pesquisa do Projeto Brief em parceria com a plataforma Swayable realizada ainda em 2024, 64,6% do público que se identifica como sendo de direita afirma que “sua visão sobre a direita piora ao saber que parte de seus representantes se opõem à pauta”. Esta é a “areia movediça” da extrema direita: o escancaramento da contradição de uma extrema direita que se quer popular. Em outras palavras, a afirmação do antagonismo entre classe dominante e classe trabalhadora, diretamente presente na discussão a respeito da redução da jornada de trabalho, parece, em alguma medida, desarticular o discurso da extrema direita. Ela, para manter a sua posição de direita popular, precisa da conciliação de classes, isto é, depende da ideia de que não existe antagonismo entre trabalhador e classe dominante. Uma vez expresso tal antagonismo, sua posição se torna insustentável. Assim, o antagonismo difuso e despolitizante da extrema direita entre sistema e antissistema é substituído pelo antagonismo entre classe dominante e classe trabalhadora. Que isso aconteça à luz de uma discussão a respeito da redução da jornada de trabalho não deveria causar espanto, uma vez que já no século XIX, Marx afirmava que “a regulamentação da jornada de trabalho se apresenta, na história da produção capitalista, como uma luta […] entre o conjunto dos capitalistas, i. e., a classe capitalista, e o conjunto dos trabalhadores, i. e., a classe trabalhadora”. Se por um lado é verdade que as novas configurações do mundo do trabalho por vezes ameaçam antigos conceitos e análises, por outro, é igualmente verdade que certas lutas, ainda que ressoem aquelas antigas do século XIX, permanecem absolutamente atuais.

Temos observado nos últimos anos uma espécie de inversão das posições entre esquerda e direita em que a primeira, cada vez mais tem se visto na posição de defesa de direitos já adquiridos, defesa das instituições etc. Nessa dinâmica, a força do movimento de transformação (ainda que este seja nocivo) se encontra com a extrema direita, e a esquerda passa cada vez mais a uma posição conservadora. A própria ideia de resistência, tão comumente ouvida do campo da esquerda, contém em si a pressuposição de que o movimento nos escapa. Resistência é como o atrito, força que se opõem ao movimento. Não que não haja momentos em que ela seja necessária – é claro que há –, mas uma vez que ela se torna o centro de nossa política, abrimos mão da transformação e assim flertamos cada vez mais abertamente com uma posição conservadora. A pauta propositiva da redução da jornada de trabalho faz com que a esquerda volte a ser a vanguarda do processo político enquanto a direita passa a ocupar a posição conservadora, aquela que nega a transformação que se anuncia. Ou seja, é como se a esquerda, ousando avançar, especialmente através de uma pauta tão popular como a redução da jornada de trabalho, tivesse a força de “botar o mundo de cabeça para cima” novamente e, assim, a esquerda volta a ser a força do progresso e a direita a da reação.

Temendo as consequências políticas do escancaramento das contradições de uma direita que se quer popular, só restou à extrema direita recuar. O que podemos identificar, por exemplo na afirmação da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) ao anunciar seu voto à PEC: “nós conservadores estamos do lado do trabalhador, apesar de alguns acharem que nós […] iríamos votar contra o trabalhador. E alguns achavam que nós iríamos, […] fazer um motim. Alguns achavam […] que a gente iria tumultuar”. Frente à pressão popular, à pressão da proximidade das eleições e a visibilidade que a pauta adquiriu, só restou à direita, visando preservar sua popularidade, ceder, o que é expresso no resultado final da votação da PEC em que apenas um senador, Hamilton Mourão (Republicanos-RS), votou contra a proposta. Sóstenes Cavalcante, líder do PL na câmara dos deputados, no entanto, deixou escapar qual seria a estratégia do partido: aprovar o fim da escala 6×1 agora e, no ano que vem, passadas as eleições, aprovar a PEC 12/2026, que permitiria a contratação por hora de trabalho e “livre pactuação contratual direta entre empregado e empregador”, não garantindo assim nem dia de folga para o trabalhador e nem um rendimento mínimo determinado por mês.

Podemos afirmar, portanto, que a mobilização em torno do fim da escala 6×1 emparedou o senado e tornou possível um importante avanço para a classe trabalhadora mesmo num momento marcado por inúmeros retrocessos e por um congresso conservador. É claro que houve uma série de negociações de bastidores para que a PEC fosse aprovada, no entanto, é importante frisar que a mobilização em torno da pauta estabeleceu as condições a partir das quais tais negociações puderam se dar. Em outras palavras, a mobilização torna a negociação possível e não o contrário. Isto é, parte-se da mobilização e não da negociação, esta segunda é apenas o resultado da primeira. A aprovação da PEC serve para nos mostrar de forma clara que mesmo com uma correlação de forças desfavoráveis no congresso é possível avançar. Uma vez feito o debate público e, tendo o apoio da população, é possível emparedar o congresso. Movimento este sempre necessário.

¨      O avanço da extrema direita. Por Oswaldo Miqueluzzi

Utilizando o texto de Ricardo III – peça teatral escrita por William Shakespeare –, João Cezar de Castro Rocha, professor de Literatura Comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em A era de Ricardo III: guerra cultural como método”, analisa o avanço da extrema direita transnacional, a guerra cultural utilizada como principal instrumento da tomada de poder pela extrema direita, o universo digital e as redes sociais, nos quais a extrema direita faz a sua guerra cultural, os efeitos da dissonância cognitiva, que é “indissociável do êxito da extrema direita”, produzindo “narrativas radicalizadoras, de estrutura binária, como o auxílio de fake news e teorias conspiratórias”, assim como desfaçatez da vilania e a banalização do mal.

De acordo com o texto, precisamos aguçar a compreensão do mundo contemporâneo, pois “um fantasma ronda não apenas a Europa, mas todo o mundo: o avanço transnacional da extrema direita”, que se tornou um fenômeno político nas décadas iniciais do século XXI.

Precisamos compreender que vivemos em “um sistema que sempre socorre as elites econômicas, mas que nunca ‘pode’ ajudar os mais vulneráveis em virtude de ‘nobres’ preocupações fiscais”, um sistema onde um neoliberalismo predador “está levando o planeta ao colapso”, com “a precarização das condições de vida”.

É atuando dentro deste sistema que a extrema direita “soube instrumentalizar a frustração e o ressentimento daqueles que, com boa dose da razão, se consideraram deserdados pelo modelo que prometera um Estado de bem-estar social ou uma ordem econômica que asseguraria a acumulação infinita de prosperidade”. Um sentimento antissistêmico gerado por essas condições “contagiou as décadas iniciais do século XXI” e foi apropriado pela extrema direita transnacional, que “chega ao poder legitimamente, seduzindo o eleitorado”.

Trata-se, diz João Cezar de Castro Rocha, de um “fenômeno inquietante”, porque “[o] êxito ocorre por meio de eleições livres e democráticas. A arma empregada na conquista do eleitorado não é a imposição militar, mas a conquista de corações e mentes, traduzida em vitória nas urnas. Tanques nas ruas, pelo menos num primeiro momento, foram substituídos pelas trincheiras das redes sociais”.

Foi assim que políticos como Viktor Orbán, Donald J. Trump, Giorgia Meloni, Jair Messias Bolsonaro, Javier Milei, Marine Le Pen e Nayib Bukele “venceram eleições livres e democráticas e, uma vez empossados, tornam-se arquitetos de uma engenharia institucional monotemática, cujo objetivo é a corrosão interna da democracia que os elegeu”, especialmente as “gerações mais jovens – os deserdados de futuro do neoliberalismo predador do século XXI”.

A espiral dessa extrema direita evoca “o histrionismo destruidor da motosierra de um Javier Milei”, “a falta de empatia psicopata de Jair Messias Bolsonaro e de Elon Musk”, “a promessa catastrófica de destruição completa do planeta” Donald Trump”, o regime de exceção de Bukele Nayib, presidente de El Salvador], que aprovou, em março de 2022, um regime de exceção com a supressão do habeas corpus, assim como os agentes do ICE, de Donald Trump, que, “de igual modo, retiram inconstitucionalmente dos imigrantes o direito ao habeas corpus”.

João Cezar de Castro Rocha denomina este projeto inconfessável de “pinochetização do planeta”, que conjuga neoliberalismo predador, precarização da vida e regime político autoritário” e no qual o termo pinochetização significa a “[venda] de todos os ativos da nação, por meio da privatização indiscriminada; supressão radical dos direitos do trabalho; arrocho salarial, transferindo ao trabalhador os encargos de ajustes fiscais draconianos; retirada do Estado de suas funções sociais; privatização dos serviços de saúde; privatização do ensino público; concentração aguda da renda e aumento correspondente dos índices de desigualdade social; privatização da aposentadoria e dos serviços de seguridade social. Este último ponto levou a uma estatística que segue assombrando a história chilena: o número absurdo de mortes de casais idosos que se suicidavam, juntos, pela impossibilidade de viver com o mínimo de dignidade com a aposentadoria, sempre reduzida pelos institutos privados”.

Para a missão política da extrema direita, sustenta João Cezar de Castro Rocha, “é preciso concentrar forças contra um único e mesmo objeto, e se, por acaso, tal objeto não tiver existência concreta, entram em campo as operações típicas da guerra cultural, com sua capacidade de contágio mimético na invenção de inimigos imaginários”, cujo método adota, “em lugar de tempo suficiente para refletir”, “a mobilização permanente que (se) alimenta (d)a hiperpolitização do dia a dia – profecia autorrealizada que ganha eleições”.

A guerra cultural tornou-se, então, “o principal instrumento da tomada de poder pela extrema direita” e “a mais poderosa máquina eleitoral do século XXI”: “[a] mobilização permanente, formidável combustível político que permitiu à extrema direita um autêntico salto quântico: em lugar de investir energia por um prazo curto durante uma campanha intensa no período eleitoral, surge uma novidade sem paralelo: viver intensamente o dia a dia como se a realidade fosse uma campanha política permanente, sem intervalo ou solução de continuidade”.

Nesse sentido, João Cezar de Castro Rocha anota que “seguiremos no meio do redemoinho, desorientados e perplexos”, se não tivermos “uma compreensão dos efeitos psíquicos e cognitivos da guerra cultural, efeitos esses muito potencializados pelas redes sociais”.

E é no “universo digital” e no “mundo das redes sociais” que a extrema direita vislumbra um “esforço de guerra total e onipresente”, pois, como sustenta o professor, é “somente por meio de um ativo ecossistema de desinformação [que] a forma-capitalismo pode seguir predando a natureza como se não houvesse amanhã”. E foi pela “manipulação da informação, elevada a sua máxima potência graças à onipresença cotidiana do universo digital e das redes sociais”, que se “abriu caminho para a modalidade inédita: o assédio cognitivo passa a governar nossas ações”.

Para o universo digital, não é permitido nenhum repouso para reflexão: “o universo é digital porque tudo se resolve na ponta dos dedos, ágeis em teclar, morosos em ponderar”. Com o seu advento e das redes, consolidou-se “a metódica produção prévia de caos cognitivo. Em outras palavras, a desconstrução sistemática de qualquer possibilidade de consenso mínimo no espaço público em relação a qualquer tema”.

O efeito da dissonância cognitiva é “indissociável do êxito da extrema direita”, operando “por meio da produção de narrativas radicalizadoras, de estrutura binária, como o auxílio de fake news e teorias conspiratórias”. Ela engendra “inimigos imaginários, com a finalidade de alimentar a retórica do ódio, sempre em busca da reprodução infinita de bodes expiatórios, cuja expiação mantém a base política em estado de mobilização permanente”. Não é “luta ideológica, disputa de ideias ou conquista da hegemonia, mas de guerra, cuja lógica necessariamente implica a eliminação do adversário, que não pode senão ser visto como inimigo”.

Neste contexto, na passagem do século XX ao atual, insere-se de forma decisiva “a difusão do negacionismo climático, essencial ao projeto do neoliberalismo predador que enfrentamos em sua expressão contemporânea de uma selvageria sem limites”.

A negação das evidências científicas decorre “da impossibilidade estrutural de reconhecer que o modelo capitalista de predação da natureza levará a terra a um apocalipse nada alegórico”.

De acordo com João Cezar de Castro Rocha, “[o] negacionismo histórico depende de uma série de condições, e a extrema direita investe muito tempo e dinheiro para alcançá-las: a abolição de distinções conceituais; o princípio da equivalência absurda; o apagamento de fronteiras lógicas ou a impossibilidade de discernir o interno do externo, o frio do quente, o verdadeiro do falso”.

A radicalização ideológica é “um produto de nicho que domina as redes sociais”, cujo universo “é potencializado ao máximo pelas grandes plataformas que descobriram no ressentimento a forma de uma mercadoria que literalmente solda e prende centenas de milhões de pessoas ao redor do globo”.

A relação do texto shakespeariano – na peça Ricardo III –, estabelecida por João Cezar de Castro Rocha, está assinalada na entrada em cena do duque Gloucester, o futuro rei Ricardo III, quando “anuncia orgulhosamente o papel que assumirá em sua ascensão meteórica: “I am determined to prove a villain” (Estou decidido a provar-me um vilão)”.

Neste momento, “[estamos] no universo da forma-Ricardo III, que se regozija com as maldades que planeja, goza com a perspectiva da anarquia que precisa instaurar para sentar-se no trono. Arquiteta crueldades e assassinatos como quem participa de banquete em sua homenagem”.

Trata-se da vitória do vilão assumido, da banalidade do mal que “se converteu em motivo de orgulho”, onde “autoridades norte-americanas chegam a fazer cálculos de quanto poderão ganhar com o sequestro do petróleo venezuelano”, sem se importar com ”a desfaçatez da afirmação”.

Segundo João Cezar de Castro Rocha, “os algozes do século XXI não se horrorizam: na verdade, encontram um prazer mórbido no sofrimento alheio”, pois a forma-Ricardo III não tem “nenhum pudor em dizer o nome próprio das coisas” e “o absurdo passa a ser naturalizado e o caos cognitivo já não permita distinguir o verdadeiro do falso”.

Estas considerações nos permitem, em pequena medida, entender como eleitores escolhem “candidatos que anteciparam exatamente as vilanias que de fato cometeram”.

Tem razão João Cezar de Castro Rocha quando assinala que “[estamos] diante duma inversão perversa: abandonado pelo sistema, o elo mais fraco da corrente abraçou o reacionarismo da extrema direita, com suas soluções imediatistas e autoritárias. É como se, na Rússia de 1917, o povo se tivesse levantado para defender o retorno dos Romanov ao poder”.

Segundo ele, “o declínio da vida em comunidade sugere que, no futuro, corremos o risco de nos tornarmos os últimos homens, seguros e autocentrados”, assim como de se cumprir a promessa de Steve Bannon: “A esquerda tradicional olhará com saudade para Donald Trump e se perguntará: onde está Donald Trump quando precisamos dele?”.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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