terça-feira, 20 de outubro de 2026

Bernardo Mello Franco: Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro

Em 30 de abril de 1981, um capitão e um sargento do Exército cruzaram o Rio em missão secreta. Transportavam duas bombas para causar terror e pânico num show que reunia milhares de jovens em comemoração ao Dia do Trabalhador. O plano era culpar a esquerda e sabotar o processo de redemocratização do país.

Em 30 de abril de 1981, um tenente que amava a ditadura, mas era tido pelos superiores como “excessivamente ambicioso”, assistiu em Resende ao nascimento do primeiro filho. Tempos depois, ele entraria na política como porta-voz dos porões.

Ninguém escolhe o dia em que vem ao mundo, e Flávio Bolsonaro não tem culpa de ter nascido no dia do atentado do Riocentro. No entanto, todos são responsáveis pelas escolhas feitas na idade adulta. Entre a democracia e a ditadura, Flávio sempre marcou a segunda opção.

No livro “Mito ou verdade”, o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. “Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser ser tratados como heróis nacionais”, escreve, sobre os agentes da repressão.

A exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e teria sido “massacrado pela mídia”.

O filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ele ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.

O livro foi lançado em 2017, quando Flávio ensaiava concorrer ao Senado. Estava no fim do quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio, onde se notabilizou por subir à tribuna todos os anos para festejar o 31 de março, data cultuada pela extrema direita como aniversário da ditadura.

“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009.

“A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou. Quem haveria de discordar?

Desde que entrou na política, o patriarca do clã milita na defesa do autoritarismo. Especializou-se em exaltar a violência de Estado, atuar pela impunidade de torturadores, ofender viúvas e órfãos de desaparecidos.

Quando o Ministério Público Federal reabriu o caso Riocentro, em 2014, ele fez questão de acompanhar o depoimento de um militar investigado. Diante dos procuradores, atacou a Comissão da Verdade e disse sonhar com uma reedição da Operação Condor, aliança clandestina entre ditaduras do Cone Sul.

A democracia deveria ser tema central na primeira eleição após o 8 de Janeiro e a inédita condenação de generais golpistas.

Os marqueteiros treinaram o candidato do PL para evitar menções à ditadura, mas não podem apagar tudo o que ele já disse e escreveu sobre o tema. Por destino e por escolha, Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro.

•        Luis Felipe Miguel: Lula e o filhote do Coiso na Globo

Na entrevista ao Jornal Nacional, Lula, em geral, foi bem. Ajudou a condução de Renata Lo Prete, que não foi agressiva, nem condescendente, mas imbuída do propósito de fazer o candidato falar. A pior derrapada foi quando ele disse que não sabia que o Bolsa Família não tinha sido reajustado, uma óbvia lorota. Mas, para dar outra resposta, teria ou que dizer que o reajuste é uma medida eleitoreira ou discutir a dificuldade que o governo tem de enfrentar o rentismo, uma conversa que talvez Lula não queira iniciar.

Vi jornalistas da imprensa burguesa dizendo que Lula não foi bem ao falar da atuação de Flávio Dino no caso de Alexandre de Moraes ou da suposta falta de participação do “centro” no seu governo. Discordo.

Ele expôs bem, ainda que de maneira sutil, o fato de que a manobra contra Moraes no Supremo, naquele momento, tinha o objetivo de desequilibrar toda a atuação da corte em favor do filhote Bolsonaro.

E a conversa de que o seu governo foi demasiado à esquerda é obviamente a reclamação de toda a classe dominante, que acha que o PT pode ganhar eleição, quando estão de mal com extrema-direita, mas depois não pode governar: tem que entregar tudo para seus aliados de ocasião conservadores.

O problema deles não é que não tinha gente de “centro” no governo, porque eles sabem que tinha. É que Lula não abriu mão de algumas bandeiras do PT.

E chegou ao final do mandato avançando pautas históricas, como a redução da jornada de trabalho, o primeiro ganho expressivo da classe trabalhadora depois de uma longa noite de reveses continuados. E vem aí também a tarifa zero no transporte coletivo, começando pelos finais de semana.

É interessante olhar para isso. Quando Luiza Erundina, na prefeitura de São Paulo, no final dos anos 1980, planejou zerar a tarifa do ônibus, foi chamada de insana. Um quarto de século depois, o Movimento Passo Livre ainda era desprezado como um bando de guris radicaloides, sem senso de realidade, que não precisava ser levado a sério. Mas, hoje, até políticos de direita estão abraçando a medida.

Parece que a gente consegue avançar, desde que se esforce para pautar o debate. Com questões que falem à classe trabalhadora, ao povo pobre, às maiorias. O fim da escala 6×1 e a tarifa zero mostram isso.

Mas o ponto principal da entrevista foi a afirmação de Lula de que é a favor da redução da maioridade penal, ainda que apenas em caso de crimes hediondos, aparentemente para 16 anos. Isso causou constrangimento em setores da esquerda, que viram na declaração uma traição a princípios importantes.

Creio que Lula fez certo. Fez certo porque desarmou um discurso fácil da direita, o de que ele é leniente com o crime, ao mesmo tempo em que buscou bloquear uma decisão açodada sobre o tema, negando que ela seja incluída de roldão na PEC da Segurança Pública. Deixou claro que o assunto tem que ser discutido a parte. Uma jogada inteligente.

Fez certo também porque este debate tem que ser travado. Eu tenho simpatia pelo abolicionismo penal; penso que a pena privativa de liberdade é uma forma de castigo cruel e desumano e que devemos caminhar para sua abolição, não para sua expansão.

Sou sensível também aos argumentos principais no caso em questão: o desenvolvimento insuficiente do cérebro adolescente, que torna injusto e ineficaz julgá-lo como um adulto, e o viés de classe associado a este punitivismo.

Ao mesmo tempo, porém, entendo que a sociedade exija algum tipo de resposta a crime chocantes cometidos por adolescentes e ao uso deles como soldados pelas facções criminosas. E a falência do modelo atual, com medidas socioeducativas que têm se mostrado em grande medida inócuas, seja para ressocializar os infratores, seja para inibir novas transgressões, é evidente.

O discurso tradicional da esquerda, que tende a minimizar as preocupações de segurança pública, apresentadas como mero reflexo da iniquidade da sociedade, falha ao não dialogar efetivamente com o sentimento da maioria da população, um sentimento que é ancorado em sua experiência vivida, de temor da violência, e que por isso não deveria ser desprezado.

Idealmente, deveríamos ser capazes de conduzir um debate que incluísse eventuais mudanças na lei, talvez com um arranjo que dê aos jovens de 16 e 17 anos um estatuto penal especial, com penalidades específicas, procedimentos reeducativos fortalecidos e a garantia da segregação em relação aos criminosos adultos, mas incluindo também políticas sociais, escolas, geração de oportunidades e controle das plataformas digitais. Um debate que, se travado adequadamente, tiraria espaço do discurso simplista da direita.

Não acredito que tenhamos força para pautar este debate. Mas o presidente Lula sinalizou na direção correta.

Flávio, devemos reconhecer, também foi bem na “sabatina” da Globo. Seu objetivo era mentir e isso ele fez à vontade, com descaramento, e se beneficiou da baixa pressão que Renata Lo Prete impôs sobre ele.

Ela concentrou as perguntas em suas promessas de campanha, raras vezes confrontando seu discurso de hoje com seu comportamento e seus compromissos de sempre. E, quando o fazia, deixava barato, aceitava uma evasiva ou uma inverdade qualquer.

Sei não. Depois do almoço do candidato miliciano com a direção da Globo, uma postura tão fraca alimenta a suspeita de jogo combinado e depõe contra uma jornalista que, até então, eu tinha em boa conta.

Mas ficou evidente qual será a estratégia para o debate da Globo. Ele vai falar o que ensaiou com os assessores, sem se preocupar com o tema em questão. Vai soltar mentiras em ritmo industrial. Vai fazer perguntas agressivas ao presidente Lula, para garantir os cortes de que precisa.

E antes, é claro, vai tomar um Tiorfan, para tentar prevenir o que é seu grande receio: dar um vexame indisfarçável em rede nacional.

Lula está afiado. Tem o que mostrar, em relação ao que está fazendo, e também muito a mostrar em relação aos podres de seu adversário. A questão é que o debate não é o debate: o debate é a matéria prima para a guerra de cortes nas redes.

Nesse luta, somos nós, com Lula e Janones, contra o combo formado pelo bolsonarismo, pela Meta e pelo TSE.

 

Fonte: O Globo/Viomundo

 

Nenhum comentário: