Os
médicos que não querem ter redes sociais
O
dermatologista Emerson Vicente Alves, de 53 anos, quer se manter distante das
redes sociais. "Tem uma nova brincadeira que fala que residência e
capacitação é para médico que não se garante no Instagram", diz, aos
risos. Ele não tem perfis nas plataformas e afirma que a única rede social que
já teve foi o Orkut, extinto em 2014.
Alves
não quis acompanhar um fenômeno que tomou conta dos médicos nos últimos anos:
os perfis profissionais nas redes. Essas plataformas costumam ser usadas para
atrair pacientes e conquistar relevância no mercado. Nelas, médicos
compartilham fotos, vídeos e textos sobre a profissão, procedimentos e doenças.
Muitos
pacientes buscam perfis de médicos em plataformas como o Instagram para
escolher com qual profissional irá se consultar. "A medicina vem
transformando essa realidade de comunicação e os profissionais tentam se
colocar no mercado através dessas redes sociais", afirma o médico Estevam
Rivello, segundo secretário do Conselho Federal de Medicina (CFM).
O CFM
só permitiu que os profissionais divulgassem seus serviços nas redes, seguindo
as normas da entidade, a partir de março de 2024. No entanto, muitos médicos já
tinham perfis antes disso, mas sem regulação do conselho, que possuía
diretrizes consideradas muito restritas para a publicidade da área.
"Antes,
a regulamentação era feita com base no Código de Ética Médica, sem normativas
específicas. Depois de março de 2024, a resolução elucidou pontos controversos
e estabeleceu regras mais específicas", diz Katiuscia Fogaça, que é médica
e publicitária, com doutorado em comunicação social.
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Regulamentação do CFM
Antes
de 2024, a regulação do uso das redes sociais de modo profissional era um
pedido frequente de muitos médicos. "Havia essa necessidade, até mesmo
pela mudança social, por causa dessas relações que são tratadas também
virtualmente. A internet se tornou um cartão de visita importante para muitos
médicos", afirma Fogaça, que integra a Comissão de Divulgação de Assuntos
Médicos (Codame) do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR).
Para
muitos médicos, as redes se tornaram uma obrigação e eles tratam o assunto de
forma cada vez mais profissional. Muitos investem em empresas especializadas em
marketing para produzir os conteúdos para as plataformas.
Não há
um levantamento sobre quantos profissionais possuem perfis em redes como
Instagram e TikTok. "Nos nossos cadastros não colocamos a obrigatoriedade
do médico informar as mídias sociais próprias", explica Rivello. O CFM já
tentou implementar um selo especial para os médicos nas redes sociais, mas o
pedido não foi atendido pela Meta, dona do Instagram, WhatsApp e Facebook.
Enquanto
há médicos que gostam de estar nas redes sociais, outros afirmam que estão
nelas por pura obrigação. Já aqueles que não estão nessas plataformas tentam,
ao máximo, continuar distantes delas.
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Fora das redes
Alves é
dermatologista, uma das especialidades médicas que mais recorrem às redes
sociais, segundo o CFM. Os conteúdos sobre procedimentos estéticos, comuns em
áreas como dermatologia e cirurgia plástica, estão entre os mais difundidos nas
plataformas digitais.
"Toda
vez que você mistura interesses comerciais com áreas sensíveis, como a
medicina, pode haver indução a erros e vieses. Há gente que acerta no que faz
nas redes, mas já me mostraram algumas condições bem questionáveis de
colegas", afirma Alves. "A medicina demanda uma explicação, uma
proteção e uma sinceridade que, muitas vezes, não consegue ser passada em um
vídeo curto. Muitas vezes, o que precisa ser feito não é algo glamouroso para
as redes."
Nas
consultas, muitos pacientes do dermatologista costumam se queixar que não o
encontraram no Instagram. "Aí eu explico que não tenho rede social. Já faz
mais de dez anos que escuto que tenho que fazer um Instagram, que é fundamental
e tudo mais. E o tempo vai passando, eu continuo sem redes e as coisas
continuam funcionando", conta.
O
dermatologista atende diversos funcionários de empresas de tecnologia próximas
ao consultório dele, na região do Itaim Bibi, em São Paulo (SP). "Tenho
vários pacientes dessas empresas, muitas delas da área de mídia social, e o
pessoal vem aqui mesmo que eu não tenha um perfil em rede social. Acaba sendo,
basicamente, indicação interna, um indica para o outro", diz.
"Eu
não conseguiria fazer vídeos todos os dias, responder 400 perguntas no
Instagram, atender e tal. Eu não tenho tempo para isso. E eu acho estranho
terceirizar esse tipo de serviço, porque a pessoa que entra em contato com o
médico quer falar comigo, não com um terceiro que vai responder. Isso é um
negócio curioso."
Alves
avalia que perde pacientes por não ter redes sociais, mas pontua que há outras
formas de ser descoberto. "Dias desses, uma paciente disse que me
encontrou porque foi pesquisar o meu nome para ver a minha formação, o que eu
já tinha feito e quem eu era, por isso me escolheu. Isso também é uma forma
importante para um paciente."
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As redes para médicos iniciantes
Não são
apenas os médicos que atuam na área da estética que estão em massa nas redes.
Nas plataformas há também inúmeros profissionais como psiquiatras,
ortopedistas, nutrólogos, endocrinologistas, ortopedistas, entre outros.
"Há profissionais de todas as especialidades. É uma questão de demanda e
oferta. Como isso tem crescido cada vez mais, muitos sentem essa necessidade de
também fazer a publicização do trabalho", afirma Fogaça.
Os
médicos mais novos estão entre aqueles que mais sentem necessidade de abrir um
perfil nas redes, dizem os especialistas. Além da questão geracional – os mais
jovens costumam ter maior familiaridade com o tema –, isso ocorre porque esses
profissionais precisam ser descobertos por possíveis pacientes, além de
fortalecer a própria marca, principalmente os que atendem em clínicas
particulares.
Mas nem
todo jovem médico está nas redes. Emilio Abelama Neto, de 31 anos, não cogitou
ter um perfil no Instagram ou no TikTok quando concluiu a residência médica em
psiquiatria, no início de 2023. "Não tenho nenhuma rede profissional, só
um Instagram pessoal, mas nem tenho o aplicativo no meu celular, acho que nunca
postei nada."
A
dinâmica dessas plataformas é um dos motivos para que ele evite utilizá-las.
"Eu acho que as redes têm alguns problemas. É difícil manter o controle
sobre o uso delas, porque há um mecanismo que pode levar as pessoas a se
viciarem. E é um ambiente muito voltado à propaganda, que ganha muito com o
tempo das pessoas. É uma lógica que não me interessa", afirma.
Neto
atende em consultórios particulares, mas a sua principal atuação é a área da
pesquisa. Ele afirma que sem redes sociais, médicos e pacientes podem ter
contato, quando necessário, por meio do WhatsApp ou por ligação telefônica.
"Antigamente, podia ser comum até por e-mail, caso o paciente precisasse
entrar em contato para questões mais técnicas."
Ele diz
que tem notado um movimento na psiquiatria de profissionais que usam as redes
para serem encontrados por novos pacientes. "Só que tem muita gente que
posta conteúdos de qualidade muito baixa, ou por pouco conhecimento, ou pela
maneira ali que vai tentar aplicar, acaba virando muito comercial. É preciso
ter um cuidado grande."
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Os problemas das redes dos médicos
Os
médicos que usam as redes profissionalmente precisam seguir algumas condições
apontadas pelo CFM como fundamentais para a categoria. Para divulgar imagens e
resultados de procedimentos, por exemplo, é preciso que o paciente não seja
identificado e as informações sobre a intervenção precisam estar claras na
publicação, como as indicações, fatores que influenciam os resultados e as
possíveis complicações.
O
conselho não permite que o médico prometa resultados, divulgue informações
falsas ou atribua eficácia privilegiada a técnicas e equipamentos. Os
comentários elogiosos de pacientes ou terceiros, compartilhados pelos
profissionais, também são consideradas como publicações do médico e ficam
sujeitos às mesmas regras.
Na
prática, essas regras do CFM nem sempre são respeitadas. Isso pode levar a
punições. O conselho orienta que o profissional faça correções, mas caso as
adequações não sejam feitas, o caso pode até mesmo virar um Processo
Ético-Profissional (PEP).
Nos
últimos anos, os conselhos de medicina passaram a receber inúmeras denúncias
referentes a publicações de profissionais que não seguem as normas
estabelecidas. Segundo Rivello, os números de processos relacionados a
irregularidades nas redes sociais superaram os de erros em procedimentos
médicos ou falta de assistência aos pacientes, que eram os mais comuns no
passado. O CFM informou que não tem levantamentos sobre esses processos em todo
o país até o momento.
Normalmente,
segundo o conselho, os profissionais são notificados, fazem as adequações
necessárias e os procedimentos são encerrados. Muitos desses médicos
notificados por irregularidades alegam que contrataram agências que não
seguiram as regras da categoria.
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Mudança na rotina
Entre
os alvos dessas notificações dos conselhos estão as publicações que propagam
desinformações. Esse tipo de conteúdo sem base científica prejudica até mesmo a
rotina de outros profissionais.
Sofia
Moreira, de 31 anos, é médica de família e comunidade (MFC), no Sistema Único
de Saúde (SUS), e vivencia o impacto da desinformação divulgada por colegas nas
redes. "Passo grande parte das consultas tendo que desmentir falas de
médicos do Instagram. Infelizmente, tem muito médico fazendo conteúdo que não é
baseado em evidência científica, que não tem sentido com a realidade das
pessoas, muitas vezes para ganhar dinheiro em cima disso."
"O
problema é que há muitos profissionais que querem apresentar soluções fáceis,
simplistas, sobre problemas que são muito mais profundos do que, por exemplo,
uma falta de vitamina", completa.
Mas as
redes não são apenas desinformação, frisa Moreira. Ela diz que também há
conteúdo positivo nessas plataformas. "Muitos pacientes vêm com
informações corretas e interessantes que olharam em perfis de médicos. Existem
conteúdos interessantes."
"O
ideal seria que as redes sociais não fossem vistas como lugar para angariar
pacientes, mas sim para compartilhar informações e promoção de saúde, com
medicina baseada em evidência. Mas sei que isso é algo utópico", afirma.
A
médica não tem redes sociais e não planeja usá-las profissionalmente. Apesar
disso, ela não descarta que, no futuro, se sinta na obrigação de criar um
perfil profissional. "Enquanto eu conseguir estar no SUS, não faz parte
dos meus planos ter uma rede social. Mas se eventualmente eu migrar para uma
clínica, pode acontecer de criar um perfil, mas seria a contragosto", diz.
Fonte:
DW Brasil

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