Apertem
os cintos, a Europa vai desmoronar
As
imagens das chamas que envolvem a prefeitura de Limoges, na França, e do
desabamento de sua torre sineira estão correndo o mundo. Episódios como esse só
podem ser condenados, assim como os saques que acompanharam os protestos em
muitas regiões da França.
No
entanto, se nos limitássemos a esse nível de consideração, estaríamos apenas
reproduzindo a clássica postura do conservadorismo pequeno-burguês, que tem
suas razões, mas também é dramaticamente míope. Pôr-se a pregar sermões sobre
carros incendiados e vitrines estilhaçadas, sem ir além, apenas revela que
ainda não se compreendeu a gravidade das circunstâncias em que nos encontramos.
O que
presenciamos na França – e, sob formas diferentes, já em muitos países
europeus, como Espanha, Portugal, Albânia, Bélgica e, desde anteontem, também
na Itália – é tudo, menos um acontecimento irracional. Há, de fato,
acontecimentos históricos que só parecem irracionais a um olhar circunscrito,
mas cuja racionalidade se torna evidente quando se toma distância suficiente
para enxergá-los em perspectiva.
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Racional não significa indolor, nem isento de injustiças
É
preciso exercitar o olhar para sustentar, ao mesmo tempo, dois planos de
análise: aquele em que se podem julgar determinados atos e indivíduos como
bárbaros, incivilizados e vandálicos; e aquele em que se pode – e se deve –
compreender que a história é sempre um rio no qual flutuam destroços e
cadáveres, mas que não se detém com sermões.
O que
está acontecendo obedece a uma racionalidade coletiva implacável, ainda que
seus participantes muitas vezes a compreendam apenas de maneira limitada – ou
sequer a compreendam.
Há
muitos anos, a experiência das populações europeias com suas classes dirigentes
é a de se defrontarem com um organismo tecnocrático anônimo: um muro de
borracha ambulante, que avança no “piloto automático”, inteiramente indiferente
às necessidades da população. A aposta desses setores tecnocráticos ligados às
finanças foi conseguir entorpecer as consciências com o atual “ópio dos povos”,
oferecido pela mídia – entretenimento e infoentretenimento –, e domar os
recalcitrantes com medidas restritivas: um golpe de cassetete aqui, contas
encerradas ali, uma leizinha eleitoral acolá, uma anulação de eleições mais
adiante, e assim por diante.
O
pressuposto geral, tácito e incontestado das cúpulas dirigentes europeias é que
com a plebe não se argumenta: simplesmente se alternam a cenoura e o porrete.
Tudo o
que se diz publicamente é sempre uma mentira instrumental, sem exceções, salvo
nas ocasiões fortuitas em que uma verdade também pode ser instrumentalizada. O
discurso público tornou-se uma encenação interminável, cada vez menos
preocupada em preservar sequer uma aparência de credibilidade.
Assim,
ninguém em sã consciência realmente acredita que a Rússia esteja prestes a nos
invadir. Isso, porém, não impede legiões de falastrões institucionais sem fibra
de repetirem essas merdas todos os dias, com a maior seriedade. E,
naturalmente, o mundo inteiro sabe que, nesse jogo de fábulas alardeadas por
jornais a soldo, o único ponto relevante – o eixo que permanece inalterado, por
mais que mudem as circunstâncias – é o propósito de dispor arbitrariamente dos
recursos públicos, canalizando-os para interesses privados.
Em
essência, há tempos as classes dirigentes se habituaram a tratar a população
como uma besta estúpida, à qual não se reconhece nenhuma motivação racional e
que deve ser tratada, de um lado, com afagos seletivos e privilégios
direcionados e, de outro, pela redução à impotência.
E esse
mecanismo pode funcionar – e de fato funciona – por muito tempo.
Até que
deixa de funcionar.
E deixa
de funcionar no dia em que pessoas demais estão perdendo demais para poderem se
dar ao luxo de permanecer nesse estado de torpor.
Não se
deve entender esse “perder demais” como algo do tipo “morrer de inanição”.
Numa
sociedade moderna, as pessoas chegam a condições de privação intolerável muito
antes de “morrer de fome”.
Hoje,
por exemplo, não poder arcar com o uso de um carro ou com o acesso à internet
significa, para a maioria da população, ser excluída do mundo, do trabalho, do
convívio social, da vida. E o fato de automóveis e celulares terem sido,
outrora, bens de luxo não significa nada: este é, agora, o novo patamar de
“participação na vida em comum”, aquilo que distingue a vida da não vida.
Plebes
moldadas como animais de carga, aos quais se oferecem, de vez em quando, panem
et circenses [pão e circo], bicos de merda e mistificação televisiva, no dia em
que esse jogo emperra não são – nem serão – sensíveis a argumentos em defesa do
decoro público, do respeito à propriedade, da reverência aos monumentos e assim
por diante.
Quem
incendeia automóveis, edifícios históricos e lojas são indivíduos marcados pela
privação cultural e moral. Mas os verdadeiros culpados, os que deveriam pagar a
conta, são as elites que cultivaram e desejaram essa privação, por julgá-la
útil a seus interesses.
Hoje, a
panela de pressão está prestes a explodir. Mesmo que esta onda recue, isso é
apenas o começo, porque as classes dirigentes europeias não dispõem de
condições materiais nem culturais para corrigir o rumo. Portanto, apertem os
cintos, porque vamos nos espatifar.
Fonte:
Por Andrea Zhok - Publicado originalmente nas redes sociais do autor -
Tradução: Ricardo Kobayaski, para A Terra é Redonda

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