terça-feira, 20 de outubro de 2026

Futuro ambiental e climático do planeta depende das eleições no Brasil

Poucas eleições são tão importante para o meio ambiente quanto a disputa presidencial no Brasil. A deste ano, em particular, está sendo acompanhada muito além das fronteiras do país.

Por abrigar a maior parte da Floresta Amazônica, um importante sumidouro de carbono em escala global, as políticas de conservação do Brasil têm impacto mundial.

Ambientalistas já manifestaram preocupação com o fato de o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ter aparecido 2% à frente do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no primeiro turno das eleições.

"Será uma espécie de retorno dos Bolsonaros, portanto, com um Bolsonaro ainda mais radical", afirma Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, uma rede de ONGs brasileiras. "Sem querer soar alarmista, diria que a reeleição de Lula é a única barreira entre nós e o fim da Amazônia."

<><> Uma das defesas mais poderosas da natureza

A Floresta Amazônica armazena grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) liberado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Com isso, ela ajuda a regular o clima da Terra.

Ao longo de décadas, a floresta tropical atuou como uma das defesas mais poderosas da natureza contra as mudanças climáticas. O bioma, no entanto, também tem sofrido com o desmatamento em larga escala.

Durante a presidência do pai de Flávio, Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, os órgãos ambientais foram enfraquecidos e as ações de fiscalização, reduzidas. Com isso, o desmatamento da floresta tropical atingiu taxas sem precedentes.

"A pauta ambiental foi negligenciada, e o controle que o governo exercia sobre a poluição em geral – e, especificamente, sobre o desmatamento – foi revertido", explica Claudio Forner, chefe de política climática da Climate Analytics, um think tank sediado em Berlim.

Durante os quatro anos de governo Bolsonaro, estima-se que 45.586 quilômetros quadrados da Amazônia tenham sido destruídos– uma área maior do que a da Dinamarca. A floresta, por sua vez, já não é tão resiliente quanto antes. Cientistas alertam que, atualmente, partes do bioma emitem mais carbono do que absorvem.

Lula assumiu o governo com uma mensagem de proteção à Amazônia. Ele prometeu o fim do desmatamento até 2030, ampliou o monitoramento da floresta e fortaleceu o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o órgão responsável pela fiscalização ambiental. Sob sua gestão, odesmatamento caiu significativamente, com a previsão de que, em 2026, atinja o menor patamar em uma década. Isso representa uma queda total de 41% em comparação ao período de Jair Bolsonaro na Presidência.

<><> Meio ambiente versus economia

Especialistas já criticaram o histórico de Flávio Bolsonaro no que diz respeito à proteção florestal. Como senador, ele apresentou em 2019 um projeto de lei que poderia ter impactos severos para a Amazônia. Atualmente, proprietários rurais são obrigados a preservar 80% de suas terras com vegetação nativa. O projeto permitiria que eles utilizassem suas propriedades como bem entendessem.

"O sinal vindo presidente poderá ser 'agora vocês podem desmatar' ou 'agora vai ser mais difícil desmatar'", afirma à DW Ana Yang, diretora do Centro de Meio Ambiente e Sociedade do think tank Chatham House, sediado em Londres.

"No momento em que se reduz a capacidade de fiscalização, o desmatamento aumenta", alerta ela.

Flávio também prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2029 – um ano antes da meta de Lula. No entanto, Claudio Angelo vê essa promessa com ceticismo. "Ele acabará com o desmatamento ilegal não fazendo cumprir a lei, mas tornando-o legal", diz.

De modo geral, especialistas em meio ambiente temem que o candidato do PL possa desmantelar muitas das proteções ambientais que foram fortalecidas sob o atual governo.

"Infelizmente, as mudanças climáticas se tornaram uma questão partidária. Em vez de oferecerem uma solução a partir de sua própria perspectiva, os setores de direita retratam as mudanças climáticas como um problema inventado [...] argumentando que a regulação vai contra o crescimento econômico ou a competitividade, e que o objetivo da esquerda seria controlar os meios de produção", explica Forner.

Em uma entrevista divulgada pela mídia em agosto, Flávio disse considerar que eventos climáticos extremos são cíclicos e que não acredita que estejam ligados exclusivamente à influência humana.

<><> Não há história de sucesso climático garantida

Uma vitória de Bolsonaro provavelmente faria com que o Brasil se afastasse de sua posição como líder na agenda climática — posição consolodada no ano passado, quando o país sediou a Conferência do Clima da ONU (COP30) em Belém.

Contudo, especialistas ressaltam que uma vitória de Lula, por si só, não representaria uma história de sucesso climático. Embora a atual gestão tenha promovido reduções significativas no desmatamento, também apoiou planos para expandir a produção de petróleo.

Angelo afirma que a decisão de permitir a perfuração exploratória, como na foz do rio Amazonas, foi uma "traição" ao mandato de Lula, mas acrescentou que o histórico geral do presidente em relação ao clima tem sido "bastante impressionante". "Lula é o pior líder climático do mundo – exceto por todos os outros", diz.

O atual presidente enfrentará Flávio no segundo turno em 25 de outubro. Embora especialistas afirmem que o resultado pode determinar o destino da Amazônia e dos esforços mais amplos para conter o aquecimento global, para muitos brasileiros a questão climática não é prioridade.

"No fim das contas, o que importa para as pessoas é o acesso à educação, ao saneamento e à saúde", afirma Yang. Ela aponta que a construção de uma estrada através da Amazônia para viabilizar o acesso a esses serviços, embora criticada fora do Brasil por destruir partes da floresta tropical, é vista como algo desejável pelos eleitores.

"Eles não têm tempo para se preocupar com isso. Não porque não queiram; mas porque eles estão preocupados com a própria sobrevivência."

•        Amazônia e Cerrado têm menor desmatamento da série histórica

As regiões da Amazônia e do Cerrado registraram entre julho de 2025 e julho de 2026 os menores índices de desmatamento de suas respectivas séries históricas, segundo levantamentos divulgados nesta sexta-feira (16/10) pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Na Amazônia, a área total desmatada no período foi de 3.335 quilômetros quadrados – equivalente a pouco mais do que o dobro da área da cidade de São Paulo –, o menor valor desde o início das medições, em 1988. O número representa uma redução de 41,8% em relação ao ciclo anterior, quando o desmatamento atingiu 5.731 quilômetros quadrados.

No Cerrado, foram 5.516,69 quilômetros quadrados desmatados, o que também aponta a menor taxa da série histórica, que, nessa região, começou em 2001. A queda equivale a 23,8% em relação aos 7.235,27 quilômetros quadrados no período anterior, ou seja, entre julho de 2024 e julho de 2025.

Os dados foram divulgados pelo governo federal durante um evento no Palácio do Planalto, em Brasília, e integram o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), que pertence ao Inpe e calcula as taxas oficiais de desmatamento no país.

No caso da Amazônia, anteriormente, o menor valor da série histórica havia sido de 4.571 quilômetros quadrados, em 2012. Pará, com 1.130 quilômetros quadrados de área desmatada, Mato Grosso, com 849, e Amazonas, com 525, são os estados que lideram o desmatamento na região.

No Cerrado, o menor valor anterior da série havia sido registrado em 2019, com 6.319 quilômetros quadrados. A região tem o Maranhão, com 1.718,59 quilômetros quadrados de área desmatada, liderando a destruição de mata nativa, seguido por Tocantins, com 1.263,06, e Piauí, com 625,24.

<><> Redução de mais de 70% na Amazônia em quatro anos

De acordo com os dados do Inpe, a diminuição do desmatamento em ambos os biomas também fica evidente com a comparação dos resultados de quatro anos atrás. Nesse período, na Amazônia, houve redução de 71,2%, e no Cerrado, de 48,4%.

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No levantamento divulgado em 2022, a Amazônia teve uma área desmatada de 11.594 quilômetros quadrados. Sucessivas quedas fizeram com que a região chegasse ao atual número de 3.335 quilômetros quadrados.

No mesmo período, o Cerrado contabilizava uma área desmatada de 11.012 quilômetros quadrados. Com a redução gradativa nos anos seguintes, a região apresenta praticamente metade da área destruída há quatro anos.

<><> Explicação para a queda

A redução do desmatamento entre 2025 e 2026, assim como a tendência de queda observada nos últimos quatro anos, é atribuída principalmente à retomada das políticas de combate à destruição ambiental durante a gestão da ministra Marina Silva (Rede) à frente do Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima (MMA), no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Marina classificou os números divulgados nesta sexta-feira pelo Inpe como uma "conquista histórica" e "um patrimônio do povo brasileiro".

Segundo o MMA, foram realizadas mais de 76 mil ações de fiscalização no período, que resultaram na aplicação de mais de 15 mil autos de infração e cerca de R$ 12 bilhões em multas por crimes contra a flora. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também embargou mais de 18 mil quilômetros quadrados de áreas alvo de infrações ambientais.

Entre as principais medidas está a retomada, em 2023, do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). Criado em 2004, o programa reúne iniciativas de diversos ministérios e foi um dos principais responsáveis pela expressiva redução do desmatamento observada até 2014.

Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), especialistas e organizações ambientais apontaram o enfraquecimento de órgãos responsáveis pelo combate ao desmatamento ilegal, como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

 

Fonte: DW Brasil

 

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