Por
que é má ideia seguir modelo econômico de Milei, inspiração de Flávio Bolsonaro
A
eleição presidencial brasileira vai ser decidida no segundo turno. Flávio
Bolsonaro (PL), filho do desmoralizado Jair Bolsonaro, terminou o primeiro
turno à frente do presidente Lula (PT), mas nenhum obteve a maioria necessária
para vencer nessa etapa.
O campo
bolsonarista apresenta o programa econômico de Javier Milei como modelo para o
Brasil. Isso, no entanto, ignora tanto as circunstâncias que levaram o
presidente da Argentina ao poder quanto os resultados alcançados pelas suas
políticas.
Quando
os argentinos elegeram Milei, o problema mais urgente do país era a inflação,
que chegou a 211% em 2023.
A
inflação brasileira, em contraste, está em torno de 4,6%, embora os juros
extremamente elevados intensifiquem as pressões fiscais.
A
prioridade imediata da política econômica do governo Lula é elevar a renda real
dos trabalhadores e criar empregos de melhor qualidade, além de reduzir os
juros o suficiente para estabilizar a relação dívida/PIB e abrir espaço para um
aumento sustentado do investimento, o que ampliaria a capacidade produtiva e
permitiria que o crescimento continuasse ou se acelerasse sem pressionar a
inflação.
O que
Milei realmente fez?
O seu
programa econômico se apoiou em três pilares.
O
primeiro era a eliminação rápida do déficit primário para acabar com o
financiamento inflacionário do Tesouro pelo Banco Central.
Isso
foi alcançado principalmente por meio do corte de gastos com infraestrutura,
ciência e universidades públicas e da corrosão, pela inflação, do valor real
das aposentadorias e dos salários do setor público.
O
governo também reduziu os impostos dos mais ricos e ofereceu benefícios fiscais
generosos a grandes investimentos, sobretudo no setor de commodities.
A
estratégia de Milei de deixar a inflação corroer o valor real dos gastos
públicos nem sequer é replicável em um ambiente de inflação baixa como o
brasileiro.
Além
disso, diferentemente da Argentina, a falta de espaço fiscal no Brasil decorre
quase inteiramente do custo muito elevado do serviço da dívida, próximo de 9%
do PIB, devido aos juros reais nas alturas, não ao resultado primário.
Em
seguida, veio a taxa de câmbio, que o governo administrou como a principal arma
contra a inflação.
Por
fim, a promessa de Milei de desmantelar o Estado por meio de corte de gastos e
de uma desregulamentação ampla. Como costuma acontecer com Milei, a retórica
superou em muito a realidade.
Essas
políticas deveriam acabar com a inflação.
Milei
prometeu que a taxa mensal começaria com zero em meados de 2026, o que
significa que ficaria abaixo de 1%. O investimento, por sua vez, deveria
disparar e “tornar a Argentina grande de novo”.
Esse
slogan se apoia no mito nostálgico de que as exportações de grãos e de carne
bovina no fim do século 19 teriam transformado o país em uma potência
econômica.
O
governo Milei, contudo, superestimou a velocidade da queda da inflação e
subestimou os danos que as políticas infligiriam à economia e ao mercado de
trabalho. A inflação recuou, embora esteja longe de zero: a taxa acumulada em
12 meses é de 33,5% e há dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo atual a
médio prazo.
A queda
da inflação foi possibilitada, em parte, por um câmbio mais valorizado, que,
por sua vez, depende do financiamento externo, incluindo um novo empréstimo do
FMI (Fundo Monetário Internacional) obtido sem apoio político amplo.
Somando-se
o novo empréstimo ao valor recorde tomado do FMI em 2018 e 2019, a Argentina
deve hoje US$ 57 bilhões, montante que não vai conseguir pagar no cronograma
atual, o que deixará o país dependente do fundo por muitos anos.
A
população argentina pagou caro pelo experimento de Milei.
Os
salários reais caíram quase 8% desde que ele assumiu o cargo, enquanto o
desemprego subiu de 5,7% para 7,9%.
A
informalidade aumentou à medida que trabalhadores desempregados assumiram
postos de baixa remuneração no setor de serviços.
A queda
da renda real tem deixado um número cada vez maior de famílias com dificuldade
para pagar as dívidas.
A
inadimplência atingiu níveis recordes: 12,8% dos empréstimos bancários às
famílias estão em atraso, ante 4,5% um ano antes.
Isso
equivale a 6 milhões de argentinos — mais de um quarto de todos os tomadores de
crédito — e expressa, de longe, o maior nível de aperto financeiro das famílias
desde que o Banco Central começou a compilar esses dados.
O
consumo e o investimento também estão caindo.
O
investimento recuou 11,1% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do
ano anterior —um mau presságio para o futuro do país. Com a queda rápida do
crédito em termos reais, o setor financeiro está se retraindo. Tudo isso apesar
de termos de troca excepcionalmente favoráveis.
Não
surpreende, portanto, que a economia tenha começado a encolher.
O PIB
caiu 0,6% no segundo trimestre em comparação com o primeiro, e a atividade
econômica recuou 2,9% em julho em relação ao mês anterior, o que levou o
JPMorgan a revisar para baixo a projeção de crescimento deste ano do país.
Espera-se
uma nova contração do PIB no terceiro trimestre, o que colocaria a Argentina,
apesar das promessas de Milei, em recessão técnica.
A
fragilidade do modelo Milei ficou exposta em 2025, quando o país sofreu duas
corridas contra o peso. Em ambas, o governo precisou ser socorrido.
Na
primeira, em abril, o FMI entrou em cena com um empréstimo de US$ 20 bilhões,
dos quais US$ 15 bilhões já foram desembolsados. A segunda ocorreu nas semanas
que antecederam as eleições legislativas de outubro, quando o Tesouro dos
Estados Unidos interveio para sustentar o câmbio.
Sem o
socorro externo, o peso teria se desvalorizado e a inflação teria voltado a
subir.
Essas
intervenções tiveram um preço elevado, tanto em novos compromissos financeiros
internacionais quanto em política externa. Agora dependente do apoio americano
para evitar uma disparada da inflação, a Argentina se tornou, na prática, um
Estado cliente dos EUA, que, sob Donald Trump, vêm usando regularmente o seu
poder econômico para promover os próprios interesses sem consideração pelo
direito ou pelas normas internacionais.
O
experimento de Milei fracassou.
O seu
único êxito parcial, a redução da inflação, teve um custo enorme: o sistema
produtivo argentino está mais pobre, os trabalhadores têm menos oportunidades e
o setor público, ainda mais endividado com o FMI que quando Milei assumiu o
cargo, depende perigosamente de apoio externo para sustentar o peso.
O
Brasil não recorre ao FMI desde que quitou integralmente a sua dívida, em 2005.
Isso
conferiu ao país uma independência econômica considerável, que deve ser
preservada e fortalecida.
O
Brasil e a Argentina, os dois maiores membros do Mercosul, deveriam ter
ambições maiores que as oferecidas pelo modelo de Milei.
A
eleição presidencial brasileira opõe dois futuros econômicos muito diferentes.
Um
busca uma economia mais desenvolvida, com uma base produtiva mais
diversificada, inovadora e rica.
O outro
aponta para uma dependência maior de commodities, um mercado interno em
retração e a condição de Estado cliente dos EUA.
O que
está em jogo no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro não é só a
democracia brasileira, mas também a prosperidade econômica que o país tanto
trabalhou para conquistar.
• Brasil pela democracia e contra a
pobreza. Por Sandoval Alves Rocha
O
Brasil passa por um momento histórico. Depois da vitória sobre a Ditadura
Burguesa-Militar, o Brasil realiza a sua 10ª eleição presidencial. Durante
aquele período ditatorial em que predominou a crueldade fria, o silêncio
forçado e a violação sistemática dos direitos humanos, o Brasil era impedido de
escolher os seus representantes políticos, inclusive o presidente da República.
As decisões sobre a nação eram tomadas por pessoas totalmente alheias às
necessidades da população. Essas decisões eram aplicadas de cima para baixo
impondo derrotas, humilhação e mortes a toda a sociedade brasileira.
Durante
os 21 anos de Ditadura, tivemos que suportar a falta de liberdade de expressão,
o desaparecimento e assassinatos de muitos cidadãos, a perseguição cotidiana,
enfim a humilhação estabelecida pelas elites brasileiras e pelos Estados Unidos
da América. Não era permitido pensar livremente, atuar politicamente, lutar
pelos nossos direitos. As riquezas que produzíamos eram drenadas para as
classes mais poderosas e não podíamos nem reclamar. Tivemos que resistir, pois
essa era a única solução que tínhamos. Resistindo, articulando, lutando e
sofrendo conseguimos vencer esse tempo sombrio, redemocratizando o Brasil.
A vida
para o brasileiro nunca foi fácil. Sempre houve desafios e dificuldades, mas
sempre houve também a vontade de vencer. A Democracia foi uma dessas conquistas
alcançadas e festejadas. Ao longo do tempo democrático, também passamos por
muitos reveses, mas conseguimos superar com esforço. Atrás dessas tentativas de
retrocesso sempre foi muito forte a atuação egoísta das elites brasileiras, a
omissão dos principais meios de comunicação, a traição à Constituição da
República, o ódio aos pobres, aos indígenas e aos negros.
As
eleições de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff foram outras dessas
conquistas inegáveis, que trouxeram consigo a melhoria da qualidade de vida das
populações mais pobres através de dezenas de políticas sociais. Não é o caso de
relacionar todas essas políticas aqui, mas sentimos que melhoramos as nossas
condições de saúde, de educação, de moradia e de trabalho. A pobreza diminuiu,
o desemprego quase desapareceu, conquistamos respeito e admiração
internacionais. Tornamo-nos liderança e referência na América Latina.
O
período dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro foi outro desses reveses
indesejados da história que tivemos de superar para salvar a nossa cidadania e
democracia. Neste período obscuro, nos deparamos com golpes e tentativas de
golpes, aumento da fome, do desemprego, da devastação ambiental, a elevação dos
índices de pobreza e miséria, o desmonte da educação pública, a adoção da
necropolítica frente à Pandemia da Covid-19.
Lula
retornou novamente pelos votos do povo brasileiro. Nos últimos quatro anos, o
Brasil iniciou um processo de resgate da sua cidadania, recobrando o respeito
internacional e a estima mundial. A pobreza começou novamente a diminuir, a
educação ganhou fôlego, o desemprego sofreu forte queda, as políticas sociais
foram retomadas e ampliadas, o meio ambiente se tornou preocupação de Estado, a
saúde saiu da UTI, a redução da jornada de trabalho foi conquistada. O Brasil
novamente retoma o caminho da superação.
Nessas
eleições, os brasileiros e brasileiras se deparam mais uma vez diante da
necessidade de lutar pela democracia e pelo bem comum, votando no candidato das
conquistas. Luiz Inácio Lula da Silva novamente é convocado pela população para
continuar fazendo as melhorias necessárias, pensando nos setores mais pobres e
marginalizados do país e levando em consideração a proteção dos nossos biomas
naturais. Nas eleições de outubro, a luta pela democracia e contra a pobreza se
torna novamente a preocupação da nação frente aos oportunistas que nunca
fizeram nada pelo Brasil e estão sempre buscando formas de sabotar as
conquistas brasileiras e prejudicar o povo tupiniquim.
Fonte:
Por Laura Carvalho, Martin Guzman e Joseph E. Stiglitz, na Folha de S.
Paulo/IHU

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