terça-feira, 20 de outubro de 2026

Síndrome de Boreout: entenda condição causada pelo tédio dos profissionais

Quando falamos em adoecimento no trabalho associamos rapidamente à Síndrome de Burnout, doença ocasionada pelo excesso de demandas. Há, porém, um fenômeno menos conhecido que parte do oposto: o Boreout, sofrimento psicológico ligado ao tédio e a falta de estímulos profissionais.

Em entrevista à CNN Brasil, a psicóloga Denise Milk Vargas explicou que, apesar do Boreout ainda não ser reconhecido como diagnóstico clínico nos principais sistemas de classificações de doenças, ele descreve uma condição de desinteresse que merece atenção e que pode ocasionar em problemas maiores no futuro.

O trabalho ocupa um espaço importante na construção da nossa identidade, da autoestima e do sentimento de pertencimento. Quando uma pessoa passa a perceber que suas capacidades estão sendo desperdiçadas e que sua contribuição não faz diferença, pode surgir um processo progressivo de sofrimento emocional. - Psicóloga Dra. Denise Milk Vargas

<><> O trabalho seria o "brinquedo" do adulto?

Segundo Vargas, sim. Quando as atividades estão alinhadas às características e as necessidades de cada pessoa, isso pode causar uma sensação de prazer e realização. Por outro lado, quando o ao contrário acontece um sentimento de frustração pode ser tomado por aquele (a) trabalhador (a).

Existe uma condição fundamental: precisamos ser desafiados na medida adequada. Quando as exigências ultrapassam continuamente nossos recursos, podemos adoecer pelo excesso. Quando permanecem muito abaixo das nossas capacidades, podemos experimentar tédio, desmotivação e perda de significado - .Psicóloga Dr. Denise Milk Vargas

<><> O que provoca o Boreout?

Entre os principais fatores no ambiente profissional, estão:

1.       Atividades excessivamente repetitivas;

2.       Falta de desafios compatíveis com as capacidades;

3.       Ausência de perspectivas de crescimento;

4.       Percepção de que o trabalho não tem significado;

5.       Gestores que não lideram de maneira adequada e não definem objetivos claros aos profissionais.

De acordo com a psicóloga, o problema não está em trabalhar menos, mas em permanecer por longos períodos em uma atividade em que não vê mais perspectivas. "Existe uma diferença importante entre ter uma rotina tranquila e sentir-se profissionalmente esvaziado", disse.

<><> Sinais de alerta

Os sinais mais frequentes são:

•        desmotivação persistente;

•        apatia;

•        irritabilidade;

•        dificuldade de concentração;

•        sensação de inutilidade;

•        queda da autoestima;

•        cansaço mental, mesmo quando a carga de trabalho não é alta;

•        alterações no sono;

•        ansiedade;

•        tristeza;

•        sintomas físicos relacionados ao estresse.

Os sintomas não são exclusivos da Síndrome e podem estar associados à outras doenças, por este motivo é importante passar com um profissional.

<><> Tratamento

De acordo com a psicológica, o primeiro passo é reconhecer e buscar avaliação profissional, principalmente quando os sintomas são persistentes ou ultrapassam e afetam a vida pessoal. "O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender os fatores envolvidos, recuperar a percepção de valor pessoal, desenvolver estratégias de enfrentamento e construir caminhos para uma relação mais saudável com o trabalho", explica.

Dependendo da intensidade dos sintomas, pode ser necessária avaliação médica, principalmente diante de sinais de depressão, ansiedade ou alterações importantes no sono.

•        Pesquisa mostra disparidade de efeitos do trabalho na saúde mental

A relação entre o ambiente de trabalho e a saúde mental dos funcionários está mais evidente do que nunca.

Um levantamento recente da Inmar Intelligence, empresa de tecnologia e dados, entrevistou mil trabalhadores nos Estados Unidos e revelou o seguinte: 34% afirmam que o trabalho impacta positivamente sua saúde mental, enquanto 33% relatam efeitos negativos.

A conclusão dos pesquisadores é de que essa disparidade de percepções reforça o papel crucial das lideranças e do desenho organizacional em promover ambientes mais saudáveis e inclusivos.

“Os dados confirmam que saúde mental e condições de trabalho estão profundamente interligados”, destacou a Inmar, que recomenda que as companhias melhorem a comunicação e a clareza nas funções. Além disso, o suporte da liderança é um dos caminhos para mudanças efetivas em ambientes de trabalho.

A pesquisa apontou que os principais fatores positivos no ambiente de trabalho são: segurança no emprego (45%), carga de trabalho razoável (40%), gestão acolhedora (40%), opções de trabalho flexível (39%) e cultura organizacional saudável (38%).

Em contrapartida, os principais fatores negativos incluem: comunicação ineficaz (32%), excesso de trabalho ou demandas pouco claras (30%), cultura tóxica ou estressante (29%), falta de reconhecimento (25%) e gestão não solidária (24%).

<><> Ambientes de apoio aumentam produtividade

Na mesma linha, um estudo da Simon Fraser University mostrou que funcionários têm 55% mais probabilidade de compartilhar problemas de saúde mental quando percebem um ambiente acolhedor.

Já a falta de abertura sobre esses temas está relacionada a maiores níveis de ansiedade, absenteísmo e queda de desempenho.

“Ambientes com apoio emocional não só promovem bem-estar, mas também garantem maior engajamento e retenção de talentos”, destaca o relatório.

Corroborando essa tendência, a Universidade de Iowa encontrou indícios de que licenças remuneradas podem reduzir taxas de suicídio, quando implementadas de forma estruturada.

<><> Empresas começam a agir globalmente

Apesar dos desafios econômicos, muitas organizações já dão passos concretos para o fim de uma cultura tóxica.

Um levantamento do Business Group on Health revelou que 93% dos 131 empregadores globais entrevistados pretendem manter ou ampliar suas ofertas de bem-estar em 2025, com quase metade dando prioridade absoluta à saúde mental.

Entre as iniciativas mais frequentes estão programas de assistência aos funcionários, gestão de stress, treinamentos em resiliência e práticas de mindfulness.

<><> No Brasil

Nos últimos tempos, a discussão sobre o bem-estar no ambiente corporativo ganhou destaque também no Brasil, impulsionada por mudanças importantes na legislação trabalhista.

Um dos marcos é o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, iniciativa do governo federal que reconhece organizações comprometidas com práticas voltadas à saúde mental dos seus colaboradores.

Para obter o selo, as empresas precisam cumprir uma série de exigências, como oferecer apoio psicológico e psiquiátrico, promover campanhas de conscientização e garantir transparência nas suas ações internas.

Outra medida relevante é a revisão da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), elaborada pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A partir de 2026, a norma passará a incluir os riscos psicossociais no escopo do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o que representa um avanço significativo na proteção da saúde mental dos trabalhadores.

Originalmente prevista para entrar em vigor em 2025, essa atualização foi adiada para dar mais tempo às empresas se adaptarem aos novos requisitos. Ainda assim, o primeiro ano de vigência terá caráter educativo, com foco em esclarecimento e orientação, em vez de de punição.

Para Alex Araújo, CEO da 4LifePrime, empresa especializada em saúde ocupacional, para que essas ações realmente gerem impactos positivos e sustentáveis, ''é fundamental que as empresas comecem pelo mapeamento dos riscos psicossociais".

"Esse diagnóstico permite identificar as principais carências internas e, a partir disso, desenvolver estratégias eficazes e personalizadas para transformar o ambiente organizacional e promover o bem-estar dos colaboradores'', explica.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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