Luciane
Soares da Silva: O que aprendi virando voto
Este é
um artigo escrito enquanto o país expande todo tipo de experiência imagética.
Exatamente por isto e em defesa da sociologia, preciso registrar o campo
realizado nas últimas semanas nos bairros de Campos dos Goytacazes, norte
fluminense. Ouvimos a razão para o voto no Parque Prazeres, Baleeira, Novo
Horizonte, Margem da Linha, Novo Jóquei, Conselheiro Josino, Travessão e
Custodópolis. Foram muitos quilômetros diariamente.
Este
grupo foi formado por estudantes, uma assessora parlamentar, militantes e
professores. Por gente do povo em cada bairro, disposta a nos guiar na
interação e na compreensão cartográfica local.
Para
entender o método, importa destacar os padrões apresentados para a razão do
voto. Particularmente considerando que são estes bairros da classe
trabalhadora, com todas as marcas da desigualdade urbana, interessa entender o
voto na extrema direita. É possível destacar dois tipos principais de eleitor.
Em geral homens.
Em um
primeiro grupo o desalento da condição citadina é uma confusão entre
atribuições do município e do governo federal. A sensação de uma vida que não
melhora, a opressão exercida pelo patrão, pelo político local e pelo pastor.
Neste caso também encontramos mulheres que não conseguiram acessar cirurgias,
que estão sem renda até mesmo para o deslocamento ao local de votação, que
vivem quadros de comprometimento da saúde mental cuidando sozinhas de seu
núcleo familiar.
Representam
um voto não convicto e são a maioria das mais de 1000 pessoas abordadas nestas
semanas. Podemos dizer que experimentam uma cidadania precária e carregam a
herança ausente. A esta herança se soma a ausência de cidade. Depositam
frustrações difusas no voto. Ou votam contra o governo ou não irão votar.
O
segundo grupo é representado por um perfil mais ativo, formador de opinião. São
os donos e donas de pequenos comércios. Alegam que o Bolsa Família é utilizado
de forma inadequada por mulheres que desviam o dinheiro para outros fins. Mesmo
que seus comércios sejam pequenos, seu discurso se aproxima de empresários que
reclamam por não conseguir alguém para trabalhar. Este grupo culpa o governo
por isto. Com eles estão donos de oficinas, de lojas de bicicletas, material de
construção e até quiosques de churrasco.
São
reativos, negacionistas, apresentam a pauta moral, o problema de um banheiro
comum e acreditam em fake news envolvendo crianças. São a tradução local do
bolsonarismo. Eles odeiam o presidente, eles odeiam a esquerda e qualquer pauta
de defesa de direitos sociais. Um deles no Novo Jóquei, um homem negro, com
aproximadamente 30 anos nos disse que perdeu “terras” em Guarus para o
Movimento Sem Terra.
Este
homem se classifica como “capitalista”. Mesmo vivendo uma rotina de trabalho de
auto precarização, explicita com agressividade seu voto e seu grito de desejo
por pertencer a outra classe social. Existe o desejo conservador pela ordem e
pelo autoritarismo que estabelece relações de poder dentro destes bairros.
Em meio
a isto, o povo, seu medo e esperança. Os trabalhadores que passaram a comemorar
o fim da escala 6X1 no dia 15 de outubro. As mulheres e sua capacidade de
compreensão sensível sobre quem são os Bolsonaro. Este trabalho de base se
constitui em um alento e um desafio sobre a substância “ democracia”. Um homem
nos relata que perdeu um filho e desde então a esposa não trabalhava mais. Com
outros filhos para criar, um olhar cansado e medo até de falar alto as
palavras, ele disse ser obrigado a votar por trabalhar em determinada
secretaria do município.
Os
casos se multiplicam. Existem muitos Vorcaros do Novo Jóquei que passam de
carro novo e mostram maços de dinheiro. Estes homens representam um espectro
violento, armamentista e que vive o sonho estadunidense desconhecendo o quão
cruel é a relação entre o trabalhador e o patrão nos Estados Unidos. Mas as
histórias que ouvimos, as casas, as ruas, as praças, o trabalho de virar voto é
a pesquisa possível e abandonada. A enquete operária, a observação
participante, o tema urgente.
Abordo
uma senhora negra, saindo do culto na manhã de domingo na Baleeira e
conversamos sobre voto. Ela tem medo de perder seus benefícios. Compreende o
que está em jogo. Seus direitos. Mesmo que não fosse o Bolsa Família seu voto
está decidido. Ela não gosta dos Bolsonaro. Encontramos muitas mulheres que
ainda não sabiam o que muda no salário mínimo.
O
aluguel social em Campos não resolve o problema da moradia. As 700 famílias que
vivem na Ocupação Novo Horizonte vêm ao longo dos últimos anos investindo na
autoconstrução e melhoria de suas casas e terrenos. No dia 12 de outubro,
conversamos com esta população. Muitas votam longe do bairro e a ausência de
transporte impossibilitou o voto no primeiro turno. Como impossibilita o
deslocamento para trabalho nos outros dias do ano.
Para
esta população o corte dos benefícios impactaria diretamente sua subsistência.
E estamos falando de um perfil que se repete país afora: mães solo que cuidam
de filhos e pais. Ainda temos de falar de saúde mental de pessoas que sofrem
com a ausência de acesso à saúde integral.
Os
motoboys neste momento traduzem a precariedade. Colocam a vida em jogo
diariamente em plataformas que pagam muito pouco. Sob sol escaldante. Neste
caso, a expressão de desagravo ao presidente Lula aponta para um problema
experimentado por trabalhadores de plataforma. Mas nem sempre da mesma forma. É
uma escala de quem vive mais exposto, ganha menos, tem menos proteção e menos
ganhos. Não há dúvida de que homens e mulheres fazendo entregas de moto e de
bicicleta ocupam a pior posição entre os trabalhadores de aplicativo.
No fim
das contas, ganhamos muito ao ouvir a população. Esta cidadania precária mostra
que devemos avançar. Programas de combate a insegurança alimentar, a defesa do
SUS, da soberania, da ciência seguem em nosso horizonte. Mas o senhor
aposentado não foi votar por dificuldades de informação, uma outra senhora
levou o título do filho, uma terceira, não esperou a fila. É com estas pessoas
que o diálogo está aberto.
Nestas
caminhadas muita gente tem passado de bicicleta, moto ou a pé a declarado voto.
Dois trabalhadores da construção civil já tinham votado em Lula no primeiro
turno. Nos falaram que o Brasil é nosso. Estas pessoas equilibram a vida todos
os dias. Estão ali, algumas delas em quase confinamento, confundindo
responsabilidades do município com responsabilidades do governo federal.
É
preciso conversar, encaminhar o que é um direito básico. O voto não é um fim.
Me parece cada vez mais um meio. Que revela uma radiografia do Brasil em 2026.
Cujo resultado impactará toda a continente americano.
É
perfeitamente aceitável em um regime democrático que existam críticas. É
necessário como prerrogativa democrática. Desde o primeiro dia do segundo turno
é possível ver um país tomando as ruas. O sentimento não poderia ser outro.
Para os que nasceram na década de 70 e viram o movimento por Diretas Já, o
mesmo sentimento anima o pais. Soberania Já.
É um
momento raro em que suspendemos nossa vida e ampliamos nossos braços para tocar
a nação no que define nosso direito a autodeterminação, nosso protagonismo
frente ao interesse estrangeiro. Suspendemos nossa vida para dar corpo ao
coletivo que salvaguarda a democracia ameaçada de morte por um projeto que
colocará abaixo a Amazônia, todas as riquezas e conquistas até aqui.
É
preciso lembrar que o Brasil é dos brasileiros (porque isto fez sentido para os
idosos), é preciso lembrar que o voto é secreto (porque isto fez sentido para
uma mãe de duas meninas, esperando mais um filho que não pode nomear seu voto),
é preciso lembrar os trabalhar nestas plataformas é arriscar a vida
cotidianamente (e isso fez sentido para duas jovens fazendo entregas para
aplicativos, usando a própria bicicleta).
Estamos
juntos e isto é potente. Reavivamos um sentido de povo, soberania, proteção aos
direitos conquistados. Como dizia Darcy Ribeiro é “inventar o Brasil que
queremos”.
Fonte:
A Terra é Redonda

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