Espanha,
o celeiro da Europa, está ficando sem água
O
Parque Nacional de Doñana, no sudoeste da Espanha, uma das áreas úmidas mais
importantes da Europa, lar de milhões de aves migratórias e de espécies
ameaçadas como o lince-ibérico, está secando. Mas o aumento das temperaturas e
a seca provocados pelas mudanças climáticas são apenas parte do problema.
Protegida
pela Unesco, a região na costa atlântica depende de um aquífero subterrâneo que
vem sendo explorado por centenas de poços ilegais. O motivo: o abastecimento
europeu de frutas e hortaliças. A Espanha fornece um quarto dos produtos
frescos consumidos na Europa, abastecendo as regiões mais frias do continente
com frutas e verduras durante todo o ano.
A
escala da extração de água na Espanha é impressionante: em 2016, a ONG WWF
Espanha estimou que a área úmida de Doñana abrigava mais de mil poços ilegais e
mais de 1,7 mil reservatórios que irrigavam ilegalmente uma área equivalente a
4,2 mil campos de futebol.
"Fica
mais quente a cada ano. E a água seca muito rapidamente", disse à DW um
morador de El Rocío, cidade ao norte das áreas úmidas.
"Para
mim, no dia a dia, a principal questão são os meus animais", afirmou outro
morador, enquanto prendia seu cavalo a uma carruagem turística. "Preciso
buscar água para eles, mas o poço não tem água suficiente para fornecer tudo de
uma vez."
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Morangos são lucrativos, mas têm um custo
A
região de Doñana era originalmente uma área de caça da realeza, composta por
pântanos e lagoas. No início do século 20, partes da área passaram a ser usadas
para agricultura de sequeiro, técnica usada em regiões áridas e com uso quase
exclusivo de água de chuva.
Mas, em
1971, a Espanha, então sob a ditadura do general Francisco Franco, declarou a
irrigação da região de interesse nacional. O Plano Almonte-Marismas, batizado
em referência ao aquífero explorado, fazia parte de um enorme esforço estatal
para aumentar a produção de alimentos.
As
autoridades decidiram apostar nos morangos, que chamavam de "ouro
vermelho". Segundo cálculos baseados em dados da Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), os morangos podem gerar
receita bruta de até 150 mil euros (aproximadamente R$ 886 mil) por hectare ao
ano contra cerca de 20 mil euros (R$ 118 mil) para batatas ou 15 mil euros (R$
88,6 mil) para uvas.
Mas
cultivar morangos em larga escala também exigia muito mais água. As autoridades
distribuíram cotas e concessões generosas, aparentemente sem considerar quanto
o aquífero seria capaz de suportar. Mesmo essas cotas legais não eram
suficientes para os campos em constante expansão.
Os
agricultores recorreram a poços e reservatórios ilegais para compensar a
diferença. Eles foram construídos para armazenar água, drenando recursos
hídricos de moradores da região e do sítio vizinho declarado Patrimônio Mundial
da Unesco.
"Houve
uma seca extrema e falta de atenção por parte da administração pública",
disse Pedro Bañez, da associação de usuários de água do condado. "E
acabamos com várias propriedades rurais, ou partes delas, situadas fora das
áreas classificadas como terras agrícolas irrigáveis."
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Polícia e ONGs rastreiam ladrões de água
O ponto
de virada ocorreu em 2019. Após inúmeras denúncias sobre poços irregulares, uma
criança de dois anos caiu em um poço profundo, supostamente ilegal, em uma
propriedade rural próxima a Málaga e morreu. Depois disso, a Guarda Civil
espanhola criou unidades especializadas em roubo de água.
Dois
anos depois, em 2021, o Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu que a
Espanha havia falhado na proteção do aquífero de Doñana e concluiu que o país
violava a legislação europeia.
Hoje, a
polícia e organizações como a WWF Espanha monitoram a extração ilegal, tanto em
Doñana quanto em outras regiões agrícolas sobrecarregadas do país, usando uma
combinação de ferramentas antigas e modernas. O trabalho começa com imagens de
satélite da região, comparadas com mapas de direitos de uso da terra para
identificar áreas mais verdes do que seu status legal permitiria. Em seguida,
drones dão aos investigadores uma visão mais detalhada da origem da água
utilizada.
Alguns
poços são totalmente ilegais. Outros são legais, mas retiram mais água do que o
permitido, algo que exige inspeções presenciais para ser comprovado.
Os
investigadores verificam os hidrômetros que medem quanta água está sendo
retirada de um poço. Fraudes são comuns, frequentemente com o uso de ímãs
potentes que interferem no mecanismo interno dos medidores, permitindo que a
água passe sem ser registrada.
Agricultores
flagrados fazendo extração ilegal podem ser acusados de crimes ambientais e
fraude. A maioria recebe multas, mas as penas podem chegar a cinco anos de
prisão.
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Governo e agricultores tentam combater desperdício de água
Na
tentativa de reverter décadas de uso excessivo, autoridades locais e nacionais
negociaram um plano conjunto de 1,4 bilhão de euros (R$ 7,8 bilhões).
O
governo continuou fechando poços ilegais, lacrando quase 300 apenas na região
de Doñana.
As
autoridades também começaram a comprar propriedades rurais, recuperando áreas
naturais e transformando-as em zonas protegidas, além de criar fundos para
gerar empregos em outros setores, como turismo e energia renovável.
Enquanto
isso, os agricultores tiveram de mudar a forma como irrigam suas plantações.
Muitos
adotaram sistemas de irrigação por gotejamento, nos quais cada planta recebe
seu próprio gotejador, combinado com sensores de umidade que informam
exatamente de quanta água ela necessita. Isso reduz o desperdício tanto de água
quanto de fertilizantes.
Os
agricultores também passaram a cultivar produtos menos intensivos em água e a
transferir parte da produção para os meses mais frios do ano.
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Soluções para garantir água
A
Espanha não está sozinha diante desse problema. À medida que as economias
amadurecem, a produção de frutas e hortaliças tende a ser transferida para
lugares com mão de obra mais barata, menos restrições e mais sol.
México,
Brasil e Colômbia produzem alimentos para partes dos Estados Unidos, enquanto
países do Sudeste Asiático exportam grandes quantidades de produtos agrícolas
para China e Japão. Alguns países do norte da África, entre eles Marrocos e
Egito, também abastecem seus vizinhos europeus com frutas e hortaliças frescas.
Mas, assim como ocorre na Espanha, a agricultura intensiva tem pressionado os
recursos hídricos locais.
O
Marrocos tentou reverter essa tendência usando comparações por satélite para
monitorar a irrigação e oferecendo subsídios a agricultores que migram para
sistemas de gotejamento. Na Índia, o governo busca incentivar o cultivo de
espécies menos dependentes de água.
Na
Califórnia, Estados Unidos, o governo pagou agricultores para interromper
determinados tipos de irrigação e aprovou legislação destinada a monitorar e
distribuir a água de forma mais sustentável.
Garantir
o abastecimento de água, que já não é visto como um recurso ilimitado, será um
desafio cada vez maior à medida que os efeitos das mudanças climáticas se
intensificarem. Enfrentar a superexploração exigirá um esforço coordenado de
governos, agricultores e das indústrias que dependem dessa água.
Fonte:
DWV Brasil

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