terça-feira, 20 de outubro de 2026

O que é a dengue grave?

A dengue é uma doença transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti e afeta pessoas de todas as idades, conforme explicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Com a picada de um mosquito Aedes aegypti infectado, o vírus da dengue penetra na corrente sangüínea. Durante um período de quatro a sete dias, chamado de incubação, o vírus se multiplica em órgãos como baço, fígado e tecidos linfáticos. Neste período, a pessoa está infectada, mas não transmite a doença se for picada pelo vetor, explica um artigo no site da Fundação Oswaldo Cruz ( Fiocruz).

Passado o período de incubação, o vírus retorna à corrente sangüínea. Neste momento, tem início o período de viremia, que dura cerca de seis dias - nesse momento, o indivíduo infectado pode transmitir a doença se for picado pelo vetor (o mosquito).

Em alguns casos, a doença pode evoluir para sua forma grave, conhecida popularmente conhecida como dengue hemorrágica). "A dengue hemorrágica é uma parte da evolução da doença", diz Ricardo Teijeiro, médico infectologista e membro da Sociedade Argentina de Infectologia. O termo dengue hemorrágica, na verdade, deixou de ser usado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2009, uma vez que a hemorragia, nesses casos, nem sempre está presente.

Segundo o especialista, esse tipo de dengue ocorre devido a uma diminuição das plaquetas no sangue, o que causa hemorragia em qualquer órgão, como no nariz ou na boca. Se a pessoa já contraiu a doença alguma vez, e novamente é picado pelo Aedes aegypti  e contrai a doença pela segunda ou terceira vez, as chances de desenvolver dengue hemorrágica crescem.

No entanto, as complicações da dengue grave podem ser prevenidas por meio de exames médicos, afirma o infectologista argentino.

<><> Quais são os sintomas da dengue grave?

Alguns pacientes com dengue podem ser assintomáticos, enquanto outros apresentam sintomas. Entre os mais comuns, Teijeiro menciona dor de cabeça, dores musculares ou nas articulações, dores atrás dos olhos e fadiga na forma da dengue comum. Quando a doença evolui para a forma grave, há uma diminuição das plaquetas e consequente hemorragia.

De acordo com o site do Ministério da Saúde do Brasil, o aparecimento de manchas vermelhas na pele, sangramentos (nariz, gengivas), dor abdominal intensa e contínua e vômitos persistentes podem indicar um sinal de alarme para dengue hemorrágica.

Segundo a OMS, a dengue em sua forma mais severa de todas tem os seguintes sintomas clínicos: choque ou dificuldade respiratória devido a extravasamento grave de plasma dos vasos sanguíneos; sangramento intenso; e comprometimento grave de órgãos (lesão hepática, miocardite e outros). Esse é um quadro muito grave que necessita de imediata atenção médica, pois pode ser fatal.

<><> Como se prevenir da dengue grave?

Uma vez que a doença é transmitida pela picada de mosquitos infectados, a melhor prevenção consiste em evitar o contato com esses insetos.

Nesse sentido, o infectologista argentino recomenda evitar o acúmulo de água em recipientes externos para interromper o desenvolvimento de larvas de mosquitos. As orientação do Ministério da Saúde é para não acumular água em latas, embalagens, copos plásticos, tampinhas de refrigerantes, pneus velhos, vasinhos de plantas, jarros de flores, garrafas, caixas d´água, tambores, latões, cisternas, sacos plásticos e lixeiras, nem deixar piscinas sujas, entre outros.

Vale a pena também usar roupas que cubram pernas e braços; usar repelente adequado (com icaridina); e claro: procurar ajuda médica diante de qualquer sintoma de alerta.

Pessoas infectadas com dengue também podem fazer seu papel para a prevenção, informa Teijeiro. Por exemplo, ao usar repelente e evitar novas picadas, a pessoa com dengue interrompe o ciclo da doença, impossibilitando que mosquitos não infectados contraiam o vírus.

•        Mudanças climáticas aumentam casos de doenças como dengue e chikungunya

Especialistas vêm alertando: o aumento médio da temperatura e das mudanças nos regimes de chuva observadas nas últimas décadas está intimamente ligado ao aumento dos casos de doenças tropicais, em especial da dengue.

De acordo com um boletim de setembro do Ministério da Saúde do país, em 2022 os registros dessa doença tiveram um aumento de 189% em relação ao mesmo período de 2021. Em números absolutos, neste ano estima-se que mais de 1 milhão e 300 mil casos de dengue ocorreram no país.

“Estamos observando um clima cada vez mais quente e úmido, o que é um cenário muito propício para doenças como a dengue aumentarem sua área e grau de incidência”, afirma Christovam Barcellos, pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz (Lis/Icict), que explica sobre a correlação entre crise climática e enfermidades tropicais.

Segundo Barcellos, essas doenças chamadas popularmente de tropicais por serem mais comuns nas regiões localizadas entre os trópicos, são muito dependentes de condições de clima para sua disseminação.

O alerta não se limita à dengue. Um estudo de revisão literária presente no livro “Saúde em Foco: Temas Contemporâneos” (Editora Científica, 2020), identificou uma relação entre as mudanças climáticas e o aumento de casos de doenças como a malária, a chikungunya, a doença de Chagas, a esquistossomose e a leishmaniose.

Por isso, além da alta de casos, “também é possível observar uma constância nos registros ao longo do ano, quando o esperado era uma maior transmissão durante as estações mais quentes e uma diminuição considerável durante as frias”, diz o pesquisador.

<><> Qual a relação das doenças tropicais com o clima

As doenças que se enquadram como tropicais são aquelas cuja incidência é mais favorecida pelo clima das zonas tropicais. O trabalho publicado em 2020 no “Saúde em Foco” explica que isso acontece porque o ciclo de vida dos vetores, reservatórios e hospedeiros dessas enfermidades estão diretamente ligados à dinâmica dos ecossistemas e variáveis de clima.

Isso quer dizer que os mosquitos transmissores da dengue, malária e chikungunya, por exemplo, necessitam de certas condições climáticas – no caso temperaturas quentes e umidade – para sobreviverem.  O mesmo acontece com os vetores da doença de Chagas (protozoário Trypanosoma cruzi) e da esquistossomose (caramujo Schistosoma mansoni).

Entretanto, Barcellos enfatiza que essas moléstias, apesar do nome, não estão limitadas às zonas tropicais. “Elas também ocorrem em partes do mundo em que o clima é mais frio”, diz o pesquisador.

Na verdade, Barcellos esclarece que atualmente é mais correto usar o termo doenças negligenciadas, porque “a incidência delas também está muito ligada com as condições dos países em que elas ocorrem mais e, em sua maioria, são menos desenvolvidos”. Ele explica que são lugares onde há pesquisa insuficiente, poucos medicamentos e tratamentos: “Isso dificulta o controle”, reforça.

<><> Como as mudanças climáticas aumentam casos de dengue e outras doenças tropicais

Como os transmissores das doenças prosperam no calor, o aumento da temperatura média da Terra pode favorecer sua proliferação. Segundo o “Saúde em Foco”, “ao observar a ecologia de vetores relacionados às doenças tropicais, percebe-se a forte relação com as altas temperaturas, a umidade relativa do ar elevada, o tempo de duração da estação de verão ou das condições de calor e umidade.”

Além disso, o artigo também relaciona as mudanças nos ciclos de chuva com o aumento dos casos. No caso das doenças transmitidas por mosquitos, como a dengue, chikungunya e a malária, o aumento da precipitação propicia maior pontos de água parada, que são habitats ideais para o desenvolvimento das larvas dos mosquitos.

O maior volume de água nas chuvas também está ligado com mais casos de esquistossomose. Segundo a publicação, a presença do caramujo transmissor está associada à coleções hídricas com pouca correnteza, como lagos, lagoas e córregos. Portanto, quando ocorrem inundações e transbordamentos de lagoas com a presença do caramujo, outras fontes de água acabam contaminadas.

<><> Dengue, doença que é preocupação mundial

Fora a influência da temperatura, no caso específico da dengue uma pesquisa publicada em janeiro de 2022 pela revista científica Plos One identificou que a perda da vegetação nativa por conta da ação humana também está relacionada com o aumento de infecções.

O estudo analisou especificamente o crescimento de casos de dengue entre 2001 e 2019 nas regiões de ocorrência de cerrado no Brasil. Nesse período, foram registrados pouco mais de 7 milhões e 950 mil casos de dengue nos estados que abrangem o bioma, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais. Enquanto isso, quase 282 mil quilômetros quadrados de área nativa foram desmatados nesta região.

Os resultados mostraram que o aumento das infecções pelo vírus da dengue têm uma relação direta entre o desmatamento, a diminuição dos predadores naturais do Aedes aegypti – mosquito transmissor da dengue - e o crescimento das áreas urbanas. “A dengue é uma doença muito urbana, então quanto menos mata e mais cidade, mais infecções”, comenta Barcellos.

Outro trabalho, realizado pelo Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz, identificou um aumento massivo de casos em todo o Brasil nos últimos 20 anos, principalmente na região Centro-Oeste, onde a vegetação nativa predominante é o cerrado.

Segundo os dados do Observatório, a taxa de casos de dengue passou de 100 por 100 mil habitantes entre 2001 a 2007, para 10 mil por 100 mil habitantes entre 2014 e 2020.

A alta dos casos de dengue não é uma preocupação exclusiva do Brasil. A Organização Mundial de Saúde (OMS) relata que o número de casos de dengue notificados no mundo aumentou mais de oito vezes nas últimas duas décadas.

De 505.430 casos em 2000, os números subiram para mais de 5,2 milhões em 2019. As estimativas da organização, porém, prevêem que cerca de 390 milhões de infecções pelo vírus da dengue aconteçam anualmente.

Não só os casos estão aumentando, mas a geografia da doença também se espalha. De acordo com a OMS, antes de 1970, apenas nove países haviam registrado epidemias graves de dengue. A doença agora é endêmica em mais de 100 países da África, Américas, Mediterrâneo Oriental, Sudeste Asiático e Pacífico Ocidental. Além disso, a organização também alerta para ameaças de surtos de dengue na Europa.

<><> Como combater as doenças tropicais como a dengue

Segundo Barcellos, as soluções para controlar essas doenças vão de ações individuais até mudanças globais. “Usar calças compridas, sapatos fechados e instalar telas e mosquiteiros nas casas vêm se mostrando eficazes para evitar infecções, principalmente para pessoas que vivem em regiões com alta ocorrência de insetos transmissores”, afirma ele.

Mas essas medidas não resolvem o cenário como um todo. “Também é preciso melhores condições de trabalho e equipamentos de proteção, em especial para ocupações ao ar livre, como a agricultura. E melhores habitações”, diz Barcellos.

(Veja também: Para evitar pandemias, é preciso respeitar a natureza)

Casas de alvenaria, por exemplo, evitam a proliferação do inseto vetor da doença de Chagas, que costuma habitar as fundações de casas de madeira e pau-a-pique.

Além disso, Barcellos alerta que o meio urbano precisa se adequar para a prevenção das doenças. “Não adianta a casa das pessoas ter conforto e ser um ambiente que as protege de infecções, se elas correm riscos na rua”, diz.

Entre as medidas que ajudariam na prevenção estão melhores infraestruturas de saneamento básico, transporte público, capacidade de drenagem para evitar enchentes e respostas mais rápidas e eficazes em caso de desastres naturais. “Quando acontece um desastre numa cidade ela tem que ser recuperada rapidamente. O fornecimento de água, coleta de esgoto e de lixo, tudo tem que voltar a funcionar rapidamente para não dar condições de proliferação de doenças”, ressalta Barcellos.

No âmbito global, a mitigação do aquecimento global a partir da diminuição das emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento teria um efeito direto no controle das doenças tropicais.

“Se por um lado as mudanças climáticas aumentam os casos dessas enfermidades, diminuir o que causam essas mudanças é essencial para o controle. E isso deve ser uma vontade global, não só dos países mais afetados”, finaliza Barcellos.

 

Fonte: National Geographic Brasil

 

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