Chris
Thornhill: A ponte de Flávio
Nossa
sociedade global compartilhada apresenta atualmente uma série de
características políticas que colocam em risco o futuro da democracia. Cada uma
dessas características implica um ataque à soberania dos Estados nacionais e à
soberania que os cidadãos exercem por meio de suas atividades políticas.
Em
primeiro lugar, um fenômeno amplamente disseminado consiste na adoção, por
presidentes ou líderes políticos, de novas técnicas destinadas a modificar a
configuração das Constituições sob as quais vivemos, especificamente com o
propósito de reduzir o grau de participação democrática que uma Constituição
torna possível. Frequentemente, isso é realizado por meio de apelos populistas:
os líderes alteram progressivamente a estrutura do Estado para restringir a
representação democrática, alegando possuir um mandato popular para fazê-lo
(como nos casos da Hungria, da Polônia e dos Estados Unidos).
Em
situações extremas, isso ocorre quando presidentes e líderes em exercício
modificam a Constituição mediante um autogolpe, isto é, arrogando-se um mandato
executivo para transformar a Constituição de maneira a restringir as liberdades
populares e a participação pública. Em ambos os casos, os líderes que assim
procedem frequentemente proclamam possuir uma autoridade constituinte especial
que legitimaria suas ações.
Em
outras palavras, procuram legitimar suas decisões perante os cidadãos
insistindo que desfrutam de um apoio social extraordinário ou que possuem uma
compreensão intuitiva da vontade popular, o que lhes conferiria autoridade para
transformar a estrutura institucional do Estado. Entretanto, os líderes que
agem dessa maneira geralmente o fazem sem legitimação constitucional prévia.
Costumam chegar ao poder sem anunciar exatamente o que farão uma vez instalados
no governo e, posteriormente, modificam a ordem constitucional. Assim, sua
pretensão de realizar a vontade constituinte do povo revela-se manifestamente
ilusória.
Em
segundo lugar, outro fenômeno recorrente consiste no fato de que o ambiente
internacional de segurança no qual um Estado está inserido determina, cada vez
mais, a forma de democracia em que vivem seus cidadãos. Os Estados tornam-se
menos democráticos à medida que respondem a ameaças — reais ou projetadas —
provenientes de além de suas fronteiras. Desde 2001, esse fenômeno tornou-se
particularmente visível, sendo possível observar a militarização da democracia
em diversas regiões.
Em
alguns casos, os Estados modificam seus sistemas democráticos em razão de seu
ambiente externo, reagindo a ele mediante a adoção de formas mais autoritárias
de governo (Rússia, Estados Unidos, Israel, Turquia e Índia). Em outros,
determinados Estados pressionam outros a modificar suas instituições políticas
em função do sistema internacional de segurança.
Na
América Latina, esse último fenômeno é amplamente disseminado. Em todo o
continente, o governo de Washington está empenhado em criar um sistema de
segurança que sirva aos seus interesses, amplie sua influência sobre outros
governos nacionais e dite a forma de governo de outros Estados. Em particular,
a militarização da guerra às drogas criou uma retórica por meio da qual os
Estados Unidos conseguiram exercer influência sobre outros Estados,
utilizando-a para penetrar e controlar seus sistemas nacionais de segurança.
Em
terceiro lugar, outro fenômeno recorrente consiste na crescente interconexão
entre as redes de elites existentes no interior das sociedades nacionais e as
redes de elites de outras sociedades, especialmente dos Estados Unidos. Essa
interação forma uma teia clientelista transnacional, na qual a circulação de
influência e privilégios ocorre por meio de procedimentos informais ou
pessoais, contornando os canais formais de representação dos Estados nacionais.
Na
América Latina, isso se manifesta no plano econômico, à medida que a atuação de
poderosos interesses transnacionais se torna visível no esvaziamento dos
regimes fiscais estabelecidos pelos governos nacionais. O fenômeno também se
manifesta, de maneira mais ampla, na esfera pública, uma vez que os processos
de decisão política são frequentemente subvertidos pela manipulação dos meios
de comunicação, pela influência externa sobre a comunicação nacional e pela
mobilização do poder sistêmico por meio da internet.
Em
conjunto, esses três fenômenos criam um contexto extremamente desfavorável à
democracia. Na raiz deles encontra-se o fato de que, em muitas regiões do
mundo, grupos de elite, tanto nacionais quanto transnacionais, abandonaram seu
compromisso com a democracia. Durante a segunda metade do século 20, as elites
transnacionais tinham fortes razões para apoiar a democracia. Durante a Guerra
Fria, o investimento das elites na democracia era elevado, ao menos na Europa,
porque ela parecia preferível ao comunismo.
No
primeiro período posterior à Guerra Fria, esse investimento permaneceu elevado,
uma vez que a democracia constituía um mecanismo para: (a) orientar os antigos
Estados autoritários em direção ao Ocidente; e (b) estabelecer, no interior dos
Estados nacionais, sistemas políticos adaptados ao capitalismo global.
Atualmente, porém, é difícil encontrar elites econômicas que apoiem
genuinamente a democracia.
Dos
Estados Unidos à França, da Argentina à Colômbia, da Rússia à Turquia e ao
Norte da África, muitos integrantes das elites simplesmente abandonaram a
democracia, na qual já não veem grande utilidade. Muitos deles, seja pela
persuasão, seja pela força, voltam contra a própria democracia parcelas da
população que dela se beneficiam.
Para
alcançar esse objetivo, as elites associam suas agendas a uma variedade de
discursos, que podem adquirir influência particular em diferentes sociedades.
Conforme o contexto, podem promover suas causas recorrendo a palavras de ordem
relacionadas à tributação, à corrupção, à imigração, às minorias, à religião, à
sexualidade ou à cultura. Contudo, a finalidade desses discursos é amplamente
intercambiável entre os diferentes países. Eles são utilizados simplesmente
para afastar os cidadãos da democracia, conduzindo as populações de diferentes
Estados a se distanciarem dela por razões distintas, mas com o resultado comum
de infligir danos extremos às sociedades nacionais.
Hoje,
esses fenômenos convergem no Brasil de maneira incomum e excepcionalmente
ameaçadora. O segundo turno das eleições atuais provavelmente expressará essas
tendências e seus efeitos corrosivos com uma intensidade implacável. Por
exemplo, as atuais circunstâncias políticas brasileiras estão fortemente
vinculadas ao ambiente internacional de segurança, e uma vitória de Flávio
Bolsonaro conduzirá à integração imediata do Brasil a uma comunidade de
segurança controlada por Trump.
Essa
comunidade está enraizada em uma diretriz fundamental da política externa dos
Estados Unidos: exercer o controle hemisférico sobre a América do Sul, em
grande medida em razão das ameaças à predominância norte-americana
representadas pela ascensão da China. Nessa comunidade, o Brasil será a joia da
coroa, assim como a Índia foi para o Império Britânico.
O papel
reservado ao Brasil exigirá que o país aceite uma condição de soberania
limitada, na qual decisões fundamentais sobre política externa, integração
regional e transregional e até mesmo acordos comerciais serão predeterminadas
por Washington. Além disso, a força do clientelismo transnacional é
especialmente evidente no Brasil e será dramaticamente reforçada caso Flávio
Bolsonaro vença.
Muitas
das declarações programáticas que ele apresentou antes do segundo turno sugerem
que pretende instituir um sistema fiscal que ofereça condições extremamente
vantajosas aos investidores estrangeiros, reduzindo os salários internos, as
condições de vida e o poder de negociação dos trabalhadores, de modo a alinhar
a economia às poderosas redes externas. No centro desse programa estarão
políticas destinadas a facilitar o acesso estrangeiro aos recursos naturais
brasileiros, especialmente na Amazônia, com base em um acordo de repartição de
lucros entre oligarcas locais e investidores norte-americanos. Mais uma vez, o
resultado imediato será uma catastrófica hemorragia da soberania brasileira.
Sob
esses aspectos, o Brasil representa uma manifestação intensificada de processos
globais comuns. Se Flávio Bolsonaro vencer, os resultados desses processos
reproduzirão as características mais extremas de acontecimentos semelhantes em
outras sociedades. O que distingue o caso brasileiro, entretanto, é a natureza
da transformação constitucional que está sendo planejada.
Na
preparação para o segundo turno, Flávio Bolsonaro vem sinalizando claramente
que promoverá revisões profundas do Direito Constitucional, incluindo a
ampliação do limite de seu próprio mandato e a reestruturação das instâncias
superiores do Poder Judiciário. Também vem indicando que modificará aspectos
fundamentais da legislação que reduzirão drasticamente a qualidade da
democracia para a maioria dos cidadãos e subverterão todo o conjunto de
direitos sociais que sustenta o direito constitucional brasileiro.
Isso
significa, na prática, que o segundo turno das eleições está sendo concebido
como uma declaração constituinte e que, caso Flávio Bolsonaro vença, extrairá
desse resultado um mandato inabalável para promover uma transformação
institucional profunda e provavelmente irreversível. A população brasileira
está sendo convidada a exercer sua força política mais essencial — seu poder
constituinte — como parte de um ato antidemocrático de sabotagem
constitucional. Se votarem em Flávio Bolsonaro, os cidadãos brasileiros
utilizarão sua força democrática fundamental em uma decisão pela qual, muito
provavelmente, reduzirão seu próprio papel no governo, sancionando o
desmantelamento da ordem constitucional por meio do poder constituinte. Dessa
maneira, os cidadãos brasileiros dissolverão sua própria soberania, tanto na
política interna quanto no plano internacional.
Essa
transformação constitucional, caso seja bem-sucedida, terá consequências
desastrosas dentro e fora do Brasil. No plano internacional, fornecerá um novo
arsenal aos líderes autoritários, que se sentirão encorajados a orquestrar
golpes constitucionais, supondo que poderão facilmente reivindicar o respaldo
de seus cidadãos. Atualmente, o Brasil é um dos pouquíssimos Estados grandes e
influentes que possuem um governo progressista, genuinamente comprometido com o
bem-estar de seus cidadãos, e o enfraquecimento da democracia brasileira por
meio de um golpe constitucional previamente anunciado terá implicações
inimagináveis em todo o mundo.
No
plano interno, o que Flávio Bolsonaro está fazendo assemelha-se a uma situação
na qual um povo é incentivado a atravessar uma ponte constitucional em direção
a um Estado autoritário. Enquanto as pessoas atravessam a ponte, acreditando
fazê-lo no exercício de seu poder constituinte, a própria ponte está sendo
destruída, de modo que, uma vez alcançado o outro lado, não haverá um caminho
fácil de volta — pois a ponte já não existirá.
Tal
exercício do poder constituinte constituirá um acontecimento no qual os
cidadãos utilizarão seu poder mais essencial para renunciar a esse mesmo poder;
o poder constituinte atribuído aos cidadãos será reduzido, ou talvez já não
reste poder algum a ser exercido. Isso afetará imediatamente os cidadãos que
são explicitamente visados pelas políticas de Flávio Bolsonaro; a exclusão de
parcelas inteiras da cidadania brasileira do processo político integra seu
cálculo estratégico. Entretanto, com o passar do tempo, muitos cidadãos que
hoje se sentem atraídos por algumas de suas posições ou políticas — por
exemplo, suas propostas tributárias ou suas concepções sobre proteção social ou
gênero — não obterão qualquer vantagem do sistema que ele terá criado. Mas já
não haverá espaço para que mudem de opinião.
Para a
maioria dos cidadãos, as consequências materiais de uma vitória de Flávio
Bolsonaro provavelmente serão desastrosas, e apenas os grupos sociais cuja
posição esteja firmemente vinculada aos fluxos de capital provenientes dos
Estados Unidos tenderão a obter benefícios. Nenhum outro grupo social
provavelmente obterá vantagens duradouras da erosão da democracia brasileira. A
sociedade brasileira como um todo será transformada em uma insidiosa
clanocracia, cujas elites terão sua legitimidade apenas parcialmente fundada em
seus compromissos com grupos efetivamente situados no interior da sociedade
brasileira. Da mesma forma, atravessar a ponte de Flávio privará os cidadãos
das liberdades fundamentais de escolha, e o fio essencial que conecta as
sociedades ao longo do tempo — a liberdade de definir coletivamente seu próprio
rumo na história — terá sido lançado ao vento.
A
escolha a ser feita no segundo turno das eleições é uma escolha simples entre
soberania coletiva e autoenfraquecimento coletivo, e afeta a soberania de cada
brasileiro, em ambos os lados da ponte. Se Flávio Bolsonaro vencer, será
difícil imaginar como o Brasil poderá, no futuro, retomar o controle de seu
destino, pois já não haverá uma referência constitucional evidente à qual os
cidadãos e seu governo possam retornar para enfrentar os desafios do país ou
modificar consensualmente os rumos do governo.
O que
está se acumulando na sociedade brasileira não é apenas a perspectiva de um
autoritarismo extremo, mas também a de um conflito social extremo. Os
Bolsonaros conduzem a política de uma maneira muito semelhante a uma guerra
civil. Suas políticas são orientadas para a eliminação de seus adversários e
para a transformação das instituições políticas, que são concebidas
simplesmente como espólios privados de uma disputa pelo poder.
A
reação de Jair Bolsonaro, em 2023, à perda da Presidência da República
demonstra claramente que ele possui uma mentalidade militarizada de guerra
civil. Isso reflete o modelo estabelecido em Washington, onde a linha que
separa a política democrática da violência civil tornou-se extremamente tênue.
Esse modelo certamente será reproduzido por Flávio Bolsonaro, que
manifestamente aprova a tentativa de tomada militar do poder em 2023 e está
determinado a conduzir uma guerra de desgaste contra seus inimigos, tanto
pessoais quanto institucionais.
Meu
receio é que a única saída dessa violência acabe passando por uma violência
ainda maior. Se os projetos de Flávio Bolsonaro forem concretizados, como será
possível, no futuro, promover transformações constitucionais que atendam aos
interesses daqueles que terão sido excluídos da clanocracia bolsonarista por
meio de procedimentos pacíficos? Se tudo ocorrer conforme seus planos, não
haverá uma resposta fácil para essa pergunta.
Essas
reflexões finais situam-se no extremo mais sombrio do espectro de possíveis
consequências de um golpe de Bolsonaro. Ainda assim, é evidente que não haverá
um caminho direto de volta pela ponte caso os cidadãos brasileiros tomem, em 25
de outubro, a decisão fatídica de exercer seu poder constituinte contra sua
própria democracia. Se isso acontecer, será difícil vislumbrar um futuro
pacífico para o Brasil, que não seja marcado por uma extrema militarização
interna ou por conflitos internos igualmente extremos.
Fonte:
ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário