A
meritocracia contra o mérito: o caso Lula
Se a
meritocracia fosse realmente uma medida dos esforços e realizações individuais,
poucas biografias seriam tão exemplares quanto a de Lula, um menino pobre,
nordestino, migrante, que conheceu a fome, teve pouca escolarização formal,
tornou-se operário e chegou à Presidência da República. No entanto, justamente
quando alguém que não pertence às elites econômicas, letradas e
majoritariamente brancas realiza a promessa máxima da ascensão individual, o
discurso do mérito parece perder sua capacidade de reconhecê-lo. Essa
contradição não é uma simples incoerência: ela revela a função social da
própria ideologia meritocrática. O discurso de mérito nunca serviu propriamente
para reconhecer quem supera as condições de sua origem, mas para transformar
privilégios historicamente produzidos em qualidades individuais daqueles que já
ocupam posições de poder.
As
teorias sociais têm evidenciado isso há tempos, mais de séculos: os sistemas de
dominação costumam se reproduzir pela consubstanciação entre duas dimensões, a
concreta e a simbólica. Ou seja, precisam de mecanismos objetivos, de um
conjunto de ações e operações concretas, para produzir uma dada realidade.
Precisam, ao mesmo tempo, de mecanismos simbólicos: um conjunto de
representações, ideias, imagens e discursos para justificar e assegurar a ordem
produzida. A supremacia branca é um exemplo didático disso. Ao longo da
história, se estabeleceu a partir de políticas de expropriação, saqueando
territórios, objetos e conhecimentos produzidos por outros povos e racializando
o sistema capitalista de produção, de modo a assegurar que a superexploração
fosse dirigida aos não brancos, e que o bens por ela produzidos ficassem
preservados em seu grupo.
Do
ponto de vista simbólico, tem se apoiado no investimento massivo de sua
invisibilização e da própria noção de raça, sob o pretexto de que ela não
existe, não importa ou não afeta em nada as relações sociais. No Brasil, esse
ideário conveniente se manifesta como doutrina no mito da democracia racial e
na crença na meritocracia. Trata-se da ideia, amplamente difundida e aceita, de
que somos todos iguais, de que os resultados a que cada sujeito chega e as
condições existenciais que alcança estariam relacionadas a suas qualidades
subjetivas e, portanto, são um reflexo das capacidades e esforços subjetivos.
Dessa perspectiva, as desigualdades deixam de ser explicadas pela história,
pelo racismo e pelas condições materiais e passam a parecer resultado exclusivamente
do mérito individual. Logo, os brancos estariam onde estão porque “se
esforçaram”.
Alguns
eventos, todavia, têm permitido observar circunstâncias em que esse discurso,
tão investido e propalado, não opera. Essas eleições no Brasil, que colocam um
homem pobre, nordestino, sem instrução superior, vitimado pela fome na infância
em máxima projeção e evidência, no epicentro da cena pública, disputando, no
espaço político, sua permanência no mais alto cargo do Executivo do país,
escancaram que abrigar-se sob manto do mérito não é extensivo para todos. A
contradição, tão reveladora quanto constrangedora, é que a meritocracia, que
tem servido tão bem para justificar o privilégio de quem já nasceu com
vantagens de toda ordem, não se presta a reconhecer a trajetória de quem
efetivamente rompeu com os determinantes sociais de sua origem.
Lula
cumpre uma biografia que poderia perfeitamente ser apresentada como exemplo de
ascensão por esforço individual: foi de migrante a operário e, suplantando a
branquitude letrada que organiza a política no Brasil, chegou três vezes à
Presidência da República. Teve pouco apoio, inclusive, de políticas que ele
mesmo, posteriormente, criou para subsidiar os milhões de brasileiros de
origens e classe semelhantes a sua. Embora haja reconhecimento desse feito por
alguns setores, é igualmente expressiva a desqualificação de sua expertise,
habilidades, feitos e história, com alguma frequência retorcidos em
significantes que, por abrigarem profunda desumanização, não merecem ser
repetidos.
A
meritocracia também não se ressente com o presidenciável que concorre com Lula,
um sujeito cuja ocupação, trajetória e todos os capitais acumulados foram
desenhados por privilégios – os quais, além de se construírem por atos bastante
reprováveis, como ocupação de cargos fantasmas, rachadinhas, desvio de dinheiro
e outras ilicitudes, antecederam sua atuação: tanto já estavam lá, permitindo
que gozasse de uma estrutura de vantagens, que se consolidou como político sem
nunca ter aprovado um único projeto. Nesse caso, o discurso sobre o mérito bem
poderia ser refutado, mas não.
A
aporia através da qual o discurso meritocrático se manifesta e é mobilizado
provoca algumas questões. Primeiro, o discurso sobre o mérito não é um discurso
sobre os feitos, mas sobre os “bem feitos”. Ele não opera reconhecendo
realizações, mas como um mecanismo de naturalização e, mais ainda, de
essencialização dos lugares de privilégio socialmente construídos, cuja
historicidade é apagada pela produção de narrativas heroicas e individuais que
tem como única função intitular os (já previamente) escolhidos.
Segundo,
as ideologias servem à dominação e só servem à dominação. É por isso também que
pouco importa preservarem alguma coerência lógica ou aplicada: basta que
contribuam para a manutenção de seus fins. Nada de estranho, portanto, que
flexione aleatoriamente, abrigando quem dela não é digno e excluindo quem
poderia ser legatário legítimo. Sua lógica, nesse sentido, é certa: a
potenciação do poder. Então, não deve ser mobilizada se promover o contrário,
a desestabilização das relações de poder estabelecidas: a meritocracia só serve
para deixar o mundo como está, dar legitimidade ao fato de que poucos decidam
por muitos, de que poucos voem em jatinhos com a aposentadoria de muitos, que
poucos frequentem as universidades, financiadas pelos impostos de todos, mas
não deve servir jamais a mudar essa realidade.
Terceiro,
desdobramento da anterior, não pode ser considerada apenas uma forma
discursiva: a ideologia é uma manifestação simbólica, ainda que mediada, dos jogos
de força que compõem a estrutura
social. Não é difícil enxergar: somente
uma ordem material consubstanciada pela supremacia branca poderia produzir o
cinismo como operação político-discursiva
estratégica para reproduzir e legitimar a violência
que lhe é constitutiva.
• Só existe um caminho para o Brasil do
futuro: Lula 13. Por Maurici de Morais
Faltam
poucos dias para o povo brasileiro ir às urnas para eleger o próximo presidente
da República, e o segundo turno deixou claro que o país tem apenas uma opção
para construir um caminho na direção de um futuro melhor: Lula, 13. A
candidatura de extrema-direita de Flávio Bolsonaro é puro suco de retrocesso e
destruição. E isso ficou muito claro no debate realizado pela TV Band.
A
campanha de Lula no segundo turno vem crescendo e contagiando as pessoas. São
milhões nas ruas, nas capitais e em muitas cidades do país, colorindo a
paisagem e manifestando seu compromisso com um país justo, democrático e que
quer superar suas desigualdades. A massa que ocupa as ruas em defesa de mais um
mandato para Lula não é formada exclusivamente por petistas ou pessoas de
esquerda, mas contém muitas pessoas que querem, pelo menos, um país com o
mínimo de respeito, humanidade e civilidade na política. E só Lula reúne essas
qualidades.
No
debate da TV Band, Flávio Bolsonaro não respondeu a uma pergunta sequer feita
pelo presidente Lula. Tentou a todo custo fazer chacota e produzir frases de
efeito para cortes nas redes sociais, além de mentir inúmeras vezes. Deixou
claro seu despreparo, sua arrogância e o descaso com que trata o cargo público
de maior importância no país, pois parecia um menino bobo de quinta série
fazendo deboche de algo importantíssimo, que é governar o Brasil.
Talvez
esse comportamento seja resultado de um fato simples e objetivo: de fato,
Flávio Bolsonaro não tinha respostas que o favorecessem nas perguntas feitas
por Lula. Aliás, não responder foi uma estratégia usada por Flávio também na
entrevista ao Jornal Nacional, quando a própria apresentadora, Renata Lo Prete,
afirmou que ficou sem respostas.
Diante
da troca de afagos em mensagens de áudio de WhatsApp com Daniel Vorcaro, dono
do Banco Master, o que Flávio Bolsonaro iria dizer? A verdade é que, de fato,
recebeu R$ 134 milhões de Vorcaro, em transações com fortes indícios de lavagem
de dinheiro, já que essa quantidade de dinheiro daria para filmar alguns
filmes, e não apenas o “Dark Horse”. Flávio tentou usar a fake news encomendada
à revista Veja para insinuar que são todos iguais.
Devemos
lembrar que Vorcaro foi preso em operação da Polícia Federal do Governo Lula, e
que foi no governo Bolsonaro que obteve autorização para virar banqueiro,
negada mais de uma vez em ocasiões anteriores. Ainda assim, Lula fez o desafio
definitivo: disse que abriria seu sigilo bancário, fiscal e telefônico junto
com os da família Bolsonaro, porque quem não deve não teme. Flávio fingiu que
não ouviu a proposta e não quis assumir esse compromisso de transparência com a
sociedade brasileira.
Flávio
também mentiu ao tentar negar suas relações com Antonio Carlos Camilo Antunes,
conhecido como Careca do INSS, pivô do escândalo de desvios de dinheiro de
aposentados, em esquema estruturado no governo Jair Bolsonaro, e que foi
investigado e desmontado no Governo Lula. O fato é que Flávio dividia endereço
em Brasília da sua empresa de capacetes Bravo Gafeno com empresas do Careca do
INSS. Nesse tema, inclusive, a Polícia Federal enviou ao Supremo Tribunal
Federal (STF) pedido para investigar Flávio Bolsonaro por suspeita de lavagem
de dinheiro envolvendo Willer Tomaz, seu amigo advogado que também é ligado às
fraudes do INSS.
Teve
mentira de Flávio Bolsonaro também sobre segurança. Ele tentou jogar no colo de
Lula a responsabilidade pelo aumento no roubo de celulares, mas uniu duas
mentiras de uma só vez. A primeira é que não é atribuição do Governo Federal
cuidar da Segurança Pública, e é justamente essa mudança que o presidente Lula
propôs na PEC da Segurança Pública que sofre resistências de Flávio Bolsonaro e
aliados no Congresso Nacional e ainda não foi votada. A proposta de Lula é que
o Governo Federal passe a cuidar da segurança, junto com Estados e municípios.
Depois,
veio a mentira dos celulares, pois os dados do Anuário Brasileiro de Segurança
Pública de 2025, divulgados neste ano, mostram que o roubo de celulares caiu
18,6%. Só não caiu no Estado do Rio de Janeiro, governado por Cláudio Castro
(PL) até março deste ano, aliado de Flávio, que além de ter sido preso por
suspeita de corrupção, não conteve o roubo de celulares que subiu 19,4%.
Na
saúde, então, nem se fala. O filho do Bolsonaro falou que o governo do pai “não
teve o melhor resultado” na saúde, quando a verdade é muito mais grave.
Negligenciou a ciência, jogou contra as medidas de controle da pandemia,
boicotou as vacinas demorando para adquirir as primeiras doses, defendeu a
cloroquina como tratamento quando o mundo todo já sabia que era ineficaz e
debochou de quem contraiu a doença e ficou sem conseguir respirar. Um escárnio,
um crime de lesa humanidade, uma gestão conduzida contra o povo brasileiro que
permitiu que mais de 700 mil pessoas morressem de Covid.
O fato
é que a agressividade de Flávio Bolsonaro, a coleção de mentiras e o despreparo
mostrados no debate contrastam com a experiência, compromisso e seriedade de
Lula para tratar os assuntos importantes que o Brasil precisa cuidar.
Contrastam também com as gigantescas manifestações de rua por todo o país e a
mobilização nas redes sociais em favor da reeleição de Lula. O povo foi pras
ruas dizer que o único caminho para construir o futuro do Brasil é Lula.
Temos
mais alguns dias para reforçar e ampliar essa linda mobilização. Cabe a nós
agora usar todos os momentos até o dia da votação para mostrar que, com Lula,
teremos um país paramudar para melhor, enquanto que com Flávio e os Bolsonaro o
caminho é de destruição, entrega dos nossos patrimônios e descaso com o povo.
Fonte:
Por Mônica Mendes Gonçalves e Lia Vainer Schucman, no Le Monde/Brasil 247

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