quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A meritocracia contra o mérito: o caso Lula

Se a meritocracia fosse realmente uma medida dos esforços e realizações individuais, poucas biografias seriam tão exemplares quanto a de Lula, um menino pobre, nordestino, migrante, que conheceu a fome, teve pouca escolarização formal, tornou-se operário e chegou à Presidência da República. No entanto, justamente quando alguém que não pertence às elites econômicas, letradas e majoritariamente brancas realiza a promessa máxima da ascensão individual, o discurso do mérito parece perder sua capacidade de reconhecê-lo. Essa contradição não é uma simples incoerência: ela revela a função social da própria ideologia meritocrática. O discurso de mérito nunca serviu propriamente para reconhecer quem supera as condições de sua origem, mas para transformar privilégios historicamente produzidos em qualidades individuais daqueles que já ocupam posições de poder.

As teorias sociais têm evidenciado isso há tempos, mais de séculos: os sistemas de dominação costumam se reproduzir pela consubstanciação entre duas dimensões, a concreta e a simbólica. Ou seja, precisam de mecanismos objetivos, de um conjunto de ações e operações concretas, para produzir uma dada realidade. Precisam, ao mesmo tempo, de mecanismos simbólicos: um conjunto de representações, ideias, imagens e discursos para justificar e assegurar a ordem produzida. A supremacia branca é um exemplo didático disso. Ao longo da história, se estabeleceu a partir de políticas de expropriação, saqueando territórios, objetos e conhecimentos produzidos por outros povos e racializando o sistema capitalista de produção, de modo a assegurar que a superexploração fosse dirigida aos não brancos, e que o bens por ela produzidos ficassem preservados em seu grupo.

Do ponto de vista simbólico, tem se apoiado no investimento massivo de sua invisibilização e da própria noção de raça, sob o pretexto de que ela não existe, não importa ou não afeta em nada as relações sociais. No Brasil, esse ideário conveniente se manifesta como doutrina no mito da democracia racial e na crença na meritocracia. Trata-se da ideia, amplamente difundida e aceita, de que somos todos iguais, de que os resultados a que cada sujeito chega e as condições existenciais que alcança estariam relacionadas a suas qualidades subjetivas e, portanto, são um reflexo das capacidades e esforços subjetivos. Dessa perspectiva, as desigualdades deixam de ser explicadas pela história, pelo racismo e pelas condições materiais e passam a parecer resultado exclusivamente do mérito individual. Logo, os brancos estariam onde estão porque “se esforçaram”.

Alguns eventos, todavia, têm permitido observar circunstâncias em que esse discurso, tão investido e propalado, não opera. Essas eleições no Brasil, que colocam um homem pobre, nordestino, sem instrução superior, vitimado pela fome na infância em máxima projeção e evidência, no epicentro da cena pública, disputando, no espaço político, sua permanência no mais alto cargo do Executivo do país, escancaram que abrigar-se sob manto do mérito não é extensivo para todos. A contradição, tão reveladora quanto constrangedora, é que a meritocracia, que tem servido tão bem para justificar o privilégio de quem já nasceu com vantagens de toda ordem, não se presta a reconhecer a trajetória de quem efetivamente rompeu com os determinantes sociais de sua origem.

Lula cumpre uma biografia que poderia perfeitamente ser apresentada como exemplo de ascensão por esforço individual: foi de migrante a operário e, suplantando a branquitude letrada que organiza a política no Brasil, chegou três vezes à Presidência da República. Teve pouco apoio, inclusive, de políticas que ele mesmo, posteriormente, criou para subsidiar os milhões de brasileiros de origens e classe semelhantes a sua. Embora haja reconhecimento desse feito por alguns setores, é igualmente expressiva a desqualificação de sua expertise, habilidades, feitos e história, com alguma frequência retorcidos em significantes que, por abrigarem profunda desumanização, não merecem ser repetidos. 

A meritocracia também não se ressente com o presidenciável que concorre com Lula, um sujeito cuja ocupação, trajetória e todos os capitais acumulados foram desenhados por privilégios – os quais, além de se construírem por atos bastante reprováveis, como ocupação de cargos fantasmas, rachadinhas, desvio de dinheiro e outras ilicitudes, antecederam sua atuação: tanto já estavam lá, permitindo que gozasse de uma estrutura de vantagens, que se consolidou como político sem nunca ter aprovado um único projeto. Nesse caso, o discurso sobre o mérito bem poderia ser refutado, mas não.

A aporia através da qual o discurso meritocrático se manifesta e é mobilizado provoca algumas questões. Primeiro, o discurso sobre o mérito não é um discurso sobre os feitos, mas sobre os “bem feitos”. Ele não opera reconhecendo realizações, mas como um mecanismo de naturalização e, mais ainda, de essencialização dos lugares de privilégio socialmente construídos, cuja historicidade é apagada pela produção de narrativas heroicas e individuais que tem como única função intitular os (já previamente) escolhidos.

Segundo, as ideologias servem à dominação e só servem à dominação. É por isso também que pouco importa preservarem alguma coerência lógica ou aplicada: basta que contribuam para a manutenção de seus fins. Nada de estranho, portanto, que flexione aleatoriamente, abrigando quem dela não é digno e excluindo quem poderia ser legatário legítimo. Sua lógica, nesse sentido, é certa: a potenciação do poder. Então, não deve ser mobilizada se promover o contrário, a desestabilização das relações de poder estabelecidas: a meritocracia só serve para deixar o mundo como está, dar legitimidade ao fato de que poucos decidam por muitos, de que poucos voem em jatinhos com a aposentadoria de muitos, que poucos frequentem as universidades, financiadas pelos impostos de todos, mas não deve servir jamais a mudar essa realidade.

Terceiro, desdobramento da anterior, não pode ser considerada apenas uma forma discursiva: a ideologia é uma manifestação simbólica, ainda que mediada, dos jogos de força que compõem a estrutura social. Não é difícil enxergar: somente uma ordem material consubstanciada pela supremacia branca poderia produzir o cinismo como operação político-discursiva estratégica para reproduzir e legitimar a violência que lhe é constitutiva.

•        Só existe um caminho para o Brasil do futuro: Lula 13. Por Maurici de Morais

Faltam poucos dias para o povo brasileiro ir às urnas para eleger o próximo presidente da República, e o segundo turno deixou claro que o país tem apenas uma opção para construir um caminho na direção de um futuro melhor: Lula, 13. A candidatura de extrema-direita de Flávio Bolsonaro é puro suco de retrocesso e destruição. E isso ficou muito claro no debate realizado pela TV Band.

A campanha de Lula no segundo turno vem crescendo e contagiando as pessoas. São milhões nas ruas, nas capitais e em muitas cidades do país, colorindo a paisagem e manifestando seu compromisso com um país justo, democrático e que quer superar suas desigualdades. A massa que ocupa as ruas em defesa de mais um mandato para Lula não é formada exclusivamente por petistas ou pessoas de esquerda, mas contém muitas pessoas que querem, pelo menos, um país com o mínimo de respeito, humanidade e civilidade na política. E só Lula reúne essas qualidades.

No debate da TV Band, Flávio Bolsonaro não respondeu a uma pergunta sequer feita pelo presidente Lula. Tentou a todo custo fazer chacota e produzir frases de efeito para cortes nas redes sociais, além de mentir inúmeras vezes. Deixou claro seu despreparo, sua arrogância e o descaso com que trata o cargo público de maior importância no país, pois parecia um menino bobo de quinta série fazendo deboche de algo importantíssimo, que é governar o Brasil.

Talvez esse comportamento seja resultado de um fato simples e objetivo: de fato, Flávio Bolsonaro não tinha respostas que o favorecessem nas perguntas feitas por Lula. Aliás, não responder foi uma estratégia usada por Flávio também na entrevista ao Jornal Nacional, quando a própria apresentadora, Renata Lo Prete, afirmou que ficou sem respostas.

Diante da troca de afagos em mensagens de áudio de WhatsApp com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o que Flávio Bolsonaro iria dizer? A verdade é que, de fato, recebeu R$ 134 milhões de Vorcaro, em transações com fortes indícios de lavagem de dinheiro, já que essa quantidade de dinheiro daria para filmar alguns filmes, e não apenas o “Dark Horse”. Flávio tentou usar a fake news encomendada à revista Veja para insinuar que são todos iguais.

Devemos lembrar que Vorcaro foi preso em operação da Polícia Federal do Governo Lula, e que foi no governo Bolsonaro que obteve autorização para virar banqueiro, negada mais de uma vez em ocasiões anteriores. Ainda assim, Lula fez o desafio definitivo: disse que abriria seu sigilo bancário, fiscal e telefônico junto com os da família Bolsonaro, porque quem não deve não teme. Flávio fingiu que não ouviu a proposta e não quis assumir esse compromisso de transparência com a sociedade brasileira.

Flávio também mentiu ao tentar negar suas relações com Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, pivô do escândalo de desvios de dinheiro de aposentados, em esquema estruturado no governo Jair Bolsonaro, e que foi investigado e desmontado no Governo Lula. O fato é que Flávio dividia endereço em Brasília da sua empresa de capacetes Bravo Gafeno com empresas do Careca do INSS. Nesse tema, inclusive, a Polícia Federal enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedido para investigar Flávio Bolsonaro por suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo Willer Tomaz, seu amigo advogado que também é ligado às fraudes do INSS.

Teve mentira de Flávio Bolsonaro também sobre segurança. Ele tentou jogar no colo de Lula a responsabilidade pelo aumento no roubo de celulares, mas uniu duas mentiras de uma só vez. A primeira é que não é atribuição do Governo Federal cuidar da Segurança Pública, e é justamente essa mudança que o presidente Lula propôs na PEC da Segurança Pública que sofre resistências de Flávio Bolsonaro e aliados no Congresso Nacional e ainda não foi votada. A proposta de Lula é que o Governo Federal passe a cuidar da segurança, junto com Estados e municípios.

Depois, veio a mentira dos celulares, pois os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, divulgados neste ano, mostram que o roubo de celulares caiu 18,6%. Só não caiu no Estado do Rio de Janeiro, governado por Cláudio Castro (PL) até março deste ano, aliado de Flávio, que além de ter sido preso por suspeita de corrupção, não conteve o roubo de celulares que subiu 19,4%.

Na saúde, então, nem se fala. O filho do Bolsonaro falou que o governo do pai “não teve o melhor resultado” na saúde, quando a verdade é muito mais grave. Negligenciou a ciência, jogou contra as medidas de controle da pandemia, boicotou as vacinas demorando para adquirir as primeiras doses, defendeu a cloroquina como tratamento quando o mundo todo já sabia que era ineficaz e debochou de quem contraiu a doença e ficou sem conseguir respirar. Um escárnio, um crime de lesa humanidade, uma gestão conduzida contra o povo brasileiro que permitiu que mais de 700 mil pessoas morressem de Covid.

O fato é que a agressividade de Flávio Bolsonaro, a coleção de mentiras e o despreparo mostrados no debate contrastam com a experiência, compromisso e seriedade de Lula para tratar os assuntos importantes que o Brasil precisa cuidar. Contrastam também com as gigantescas manifestações de rua por todo o país e a mobilização nas redes sociais em favor da reeleição de Lula. O povo foi pras ruas dizer que o único caminho para construir o futuro do Brasil é Lula.

Temos mais alguns dias para reforçar e ampliar essa linda mobilização. Cabe a nós agora usar todos os momentos até o dia da votação para mostrar que, com Lula, teremos um país paramudar para melhor, enquanto que com Flávio e os Bolsonaro o caminho é de destruição, entrega dos nossos patrimônios e descaso com o povo.

 

Fonte: Por Mônica Mendes Gonçalves e Lia Vainer Schucman, no Le Monde/Brasil 247

 

Nenhum comentário: