A
democracia vai às ruas — e Flávio revela o despreparo nas telas
O
debate realizado neste domingo acrescentou uma dimensão ainda mais preocupante
à disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Mais do
que apresentar propostas, Flávio expôs uma postura agressiva, imatura e
incompatível com a responsabilidade exigida de quem pretende ocupar a
Presidência da República.
Em vez
de demonstrar equilíbrio, preparo e capacidade de formular políticas públicas,
o candidato recorreu a ataques, provocações e respostas marcadas pelo
radicalismo. Em determinado momento, chegou a defender a castração de
indivíduos envolvidos em crimes de abuso sexual contra crianças e estupros. O
tema é grave demais para ser tratado como instrumento de efeito retórico ou
como frase de impacto em um debate eleitoral.
O abuso
sexual infantil exige investigação rigorosa, punição nos termos da lei,
proteção integral às vítimas, prevenção, acompanhamento psicológico e
fortalecimento das instituições responsáveis. A resposta do Estado não pode ser
baseada em vingança, impulsos autoritários ou propostas apresentadas sem
discussão jurídica, médica e constitucional. Quando um candidato transforma uma
tragédia social em palanque para defender medidas extremas, revela mais sobre
sua disposição de explorar o medo do que sobre sua capacidade de governar.
O
debate mostrou um Flávio agressivo, mas não necessariamente preparado.
Confundiu firmeza com hostilidade e autoridade com intimidação. A postura
exibida pode agradar ao núcleo mais radical de seus apoiadores, acostumado a
uma comunicação baseada no confronto permanente. No entanto, também pode
afastar eleitores indecisos que esperam do próximo presidente serenidade,
responsabilidade e capacidade de diálogo.
O
Brasil não precisa de um governante que trate a política como uma disputa de
provocações. Precisa de alguém capaz de coordenar ministérios, enfrentar crises
econômicas e sociais, dialogar com governadores e prefeitos, respeitar o
Congresso Nacional, preservar a autonomia dos Poderes e representar o país
diante do mundo.
O
primeiro turno consolidou uma presença expressiva da extrema direita no
Legislativo. O segundo turno definirá quem ocupará a Presidência da República,
mas a escolha envolve muito mais do que a preferência por dois nomes. Está em
jogo o futuro da democracia, das políticas sociais, da soberania nacional e da
capacidade do Estado de enfrentar as desigualdades brasileiras.
As
manifestações realizadas nos últimos dias deixaram clara a posição de amplos
setores da sociedade. Pessoas foram às ruas para protestar contra as ideias
defendidas por Flávio Bolsonaro, reafirmar o compromisso com a democracia e
manifestar apoio ao presidente Lula. Os atos foram, em sua maioria, pacíficos e
demonstraram que a sociedade brasileira não está indiferente ao que está em
disputa.
Durante
boa parte da última década, a extrema direita ocupou as redes sociais com uma
comunicação agressiva, permanente e altamente organizada. O bolsonarismo
transformou a indignação em método político, utilizando vídeos curtos,
mensagens emocionais, ataques às instituições e a criação constante de
inimigos.
Esse
cenário, porém, parece estar mudando.
Os
dados recentes de engajamento nas redes sociais chamam atenção. Flávio ainda
mantém uma base proporcionalmente muito ativa, capaz de comentar, compartilhar
e reagir intensamente a cada publicação. Lula, por outro lado, estaria ganhando
aproximadamente duas vezes mais seguidores, o que indica uma expansão mais
acelerada de sua presença digital.
A
diferença entre engajamento e crescimento precisa ser compreendida. Um
candidato pode ter uma militância menor, porém extremamente mobilizada. Outro
pode estar ampliando sua base para além do público que tradicionalmente o
acompanha. Nesse caso, o crescimento de Lula pode revelar uma mudança mais
profunda na dinâmica da disputa.
O
debate da CNN reforçou essa percepção. Enquanto Flávio pareceu apostar
novamente no confronto, Lula teve a oportunidade de se apresentar como uma
alternativa de estabilidade e reconstrução. Não se trata de afirmar que um
debate, isoladamente, decide uma eleição. Mas a maneira como cada candidato se
comporta pode influenciar eleitores que ainda observam a disputa sem uma
decisão definitiva.
A
Presidência da República não é um palco para demonstrações de valentia verbal.
O país precisa de liderança, não de agressividade; de firmeza, não de
brutalidade; de autoridade, não de autoritarismo.
Flávio
possui experiência parlamentar. Foi deputado estadual no Rio de Janeiro por
vários mandatos e é senador desde 2019. O que não possui é experiência na
chefia de um Executivo, muito menos na condução de uma federação complexa,
desigual e diversa como o Brasil.
Governar
o país exige muito mais do que manter uma base mobilizada. É necessário
formular políticas públicas, administrar recursos, enfrentar crises, negociar
com diferentes setores da sociedade e respeitar os limites constitucionais. Não
basta herdar um sobrenome politicamente conhecido ou repetir a linguagem de uma
corrente ideológica.
O
Brasil precisa de planejamento, responsabilidade e capacidade de negociação.
Precisa reconstruir políticas públicas, gerar empregos, reduzir a pobreza,
enfrentar a violência e recuperar sua posição internacional.
A
postura apresentada no debate também suscita uma pergunta essencial: como um
candidato que reage com agressividade a seus adversários lidará com movimentos
sociais, jornalistas, professores, servidores públicos, governadores de
oposição e instituições que eventualmente contrariem seus interesses?
A
candidatura de Flávio está associada a um campo político que, nos últimos anos,
atacou sistematicamente as instituições democráticas. O bolsonarismo
questionou, sem provas, a segurança das urnas, pressionou o Supremo Tribunal
Federal, atacou a imprensa e transformou universidades, organizações da
sociedade civil e movimentos sociais em inimigos políticos.
A
crítica às instituições é legítima. Nenhum Poder está acima da sociedade. Mas
existe uma diferença entre fiscalizar instituições e tentar destruí-las
politicamente. A democracia não sobrevive quando cada decisão desfavorável é
apresentada como conspiração e quando a derrota eleitoral é tratada como
resultado ilegítimo.
As
manifestações de apoio a Lula e à democracia representam justamente uma
resposta a esse método. Elas reafirmam que as urnas devem ser respeitadas e que
a política não pode ser conduzida por ameaças, mentiras e ataques permanentes
às instituições.
A
defesa de Lula, nesse contexto, não se limita a uma preferência eleitoral. Para
milhões de brasileiros, Lula representa a possibilidade de reconstrução do
Estado, fortalecimento das políticas sociais e retomada de um projeto de
desenvolvimento com inclusão.
Seus
governos foram marcados pela redução da pobreza, pela ampliação do acesso ao
ensino superior, pelo fortalecimento de programas de transferência de renda e
pela valorização da presença brasileira no cenário internacional. Isso não
significa ignorar erros, contradições ou críticas. Significa reconhecer que há
uma diferença profunda entre um projeto de reconstrução institucional e uma
política baseada na radicalização permanente.
A
democracia não é apenas o direito de votar. É também o direito à saúde, à
educação, à moradia, ao trabalho, à alimentação e à dignidade. Uma sociedade
profundamente desigual não pode ser considerada plenamente democrática quando
milhões de pessoas permanecem excluídas das condições básicas de cidadania.
Na
segurança pública, o debate também precisa superar soluções simplistas. A
violência contra crianças é uma das formas mais cruéis de criminalidade e deve
ser combatida com rigor. Mas a proteção das vítimas não pode ser usada para
justificar respostas improvisadas ou propostas incompatíveis com o Estado de
Direito.
O
combate ao abuso sexual infantil exige investigação especializada, atendimento
às vítimas, responsabilização dos criminosos, prevenção, educação, controle das
redes de exploração e fortalecimento das instituições. O Estado deve punir, mas
também deve agir dentro da lei. Direitos fundamentais não desaparecem diante da
indignação, por maior que seja a gravidade do crime.
O mesmo
vale para a segurança pública em geral. O combate ao crime exige inteligência,
investigação, integração entre as polícias, controle das fronteiras, combate à
lavagem de dinheiro e políticas sociais. O armamento indiscriminado, o
encarceramento em massa e a ampliação sem controle da força estatal não
resolvem as causas da violência.
A
extrema direita apresenta a defesa da ordem como sua principal bandeira. Mas
não existe ordem verdadeira em uma sociedade marcada pela fome, pelo
desemprego, pela precariedade dos serviços públicos e pela violência cotidiana
contra a população pobre e negra.
A
economia será outro teste decisivo. Promessas de redução de impostos, aumento
de benefícios e crescimento acelerado não podem ser feitas sem planejamento e
fontes de financiamento. O Brasil precisa retomar o crescimento com geração de
empregos, valorização do salário mínimo, fortalecimento da indústria, estímulo
à ciência e tecnologia e ampliação dos investimentos públicos.
No
campo ambiental, o país precisa combater o desmatamento ilegal, proteger os
povos indígenas e fortalecer os órgãos de fiscalização. A Amazônia não pode ser
tratada como obstáculo ao desenvolvimento nem como instrumento de disputa
ideológica. A floresta está diretamente ligada à agricultura, ao regime de
chuvas, à produção de energia e à segurança alimentar.
A
política externa também não pode ser conduzida por ressentimentos ou
alinhamentos automáticos. O Brasil precisa manter relações equilibradas com
China, Estados Unidos, Europa, países africanos e vizinhos sul-americanos. Deve
recuperar sua tradição de diálogo, cooperação e defesa do multilateralismo.
A
possibilidade de Flávio Bolsonaro conceder indulto ao pai, Jair Bolsonaro, caso
chegasse à Presidência enquanto o ex-presidente permanecesse preso, seria outro
ponto de profunda preocupação. Ainda que a prerrogativa presidencial de
conceder indultos esteja prevista no ordenamento jurídico, sua utilização em
benefício de um familiar direto provocaria inevitável questionamento político e
ético.
O
problema não seria apenas jurídico. Seria republicano. O Estado não pode ser
confundido com uma extensão de uma família política. As instituições não podem
ser utilizadas para proteger aliados, apagar responsabilidades ou promover
vinganças contra adversários.
O
debate da CNN não encerra a eleição, mas revelou uma diferença de estilo e de
concepção política. Flávio aposta na agressividade, no comportamento que beira
a molecagem, como demonstração de força. Lula se apresentar como liderança
capaz de reconstruir pontes, recuperar políticas públicas e devolver
previsibilidade ao país.
Cabe
aos eleitores avaliar qual dessas posturas corresponde aos desafios do Brasil.
O país não precisa de um presidente que grite mais alto, ameace mais ou ofereça
soluções radicais para problemas complexos. Precisa de um governo que saiba
trabalhar, negociar, planejar e respeitar a democracia.
As
manifestações recentes e o crescimento do apoio a Lula nas redes mostram que o
campo democrático está reagindo. A extrema direita continua possuindo uma base
digital disciplinada e muito ativa, mas já não parece monopolizar a capacidade
de mobilização política.
O
desafio agora é transformar seguidores em participação efetiva, diálogo nos
territórios, organização comunitária e defesa ativa do voto. O alcance digital
é importante, mas não substitui o trabalho político presencial nem a capacidade
de apresentar propostas concretas para a vida real.
A
eleição continua indefinida. Flávio mantém uma base sólida e intensamente
engajada. Lula cresce com velocidade maior e conquista novos espaços de
comunicação. O debate de ontem pode ter reforçado a fidelidade dos apoiadores
mais radicais de Flávio, mas também pode ter exposto, para os eleitores
indecisos, a falta de equilíbrio e de preparo que uma candidatura presidencial
exige.
O
segundo turno definirá o presidente, mas o primeiro turno já produziu um novo
equilíbrio de forças no Legislativo. Lula, se eleito, terá de governar sob
forte pressão de uma direita parlamentar fortalecida. Precisará negociar sem
abrir mão de princípios, reconstruir políticas públicas e mobilizar a sociedade
em torno de um projeto nacional capaz de enfrentar a desigualdade.
A
defesa de Lula, neste momento, é também a defesa de uma concepção de democracia
que não se limita às urnas. É a defesa da liberdade, dos direitos sociais, da
soberania nacional, da proteção ambiental e da possibilidade de construir um
país menos desigual.
As
pessoas foram às ruas para afirmar isso. Agora começam a ocupar também as
redes. E, depois do debate da CNN, torna-se ainda mais necessário dizer com
clareza: governar o Brasil exige muito mais do que agressividade, frases de
efeito e disposição para atacar adversários.
Exige
maturidade.
Exige
responsabilidade.
Exige
respeito às instituições.
E,
acima de tudo, exige compromisso com o conjunto da sociedade — não apenas com a
própria família política ou com o grupo mais radical de seus apoiadores.
Fonte:
Por Maria Luiza Falcão, em Brasil 247

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