O
risco para os agricultores do Sul por trás da política econômica de Flávio
Bolsonaro
A
política de privatizações e desinvestimentos defendida por Flávio Bolsonaro (PL) pode representar
um risco para agricultores do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul,
que dependem do fornecimento de fertilizantes para manter a produção. O alerta
tem como precedente uma decisão tomada durante o governo de seu pai, Jair
Bolsonaro (PL): o fechamento, em 2020, da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados
do Paraná (Fafen-PR), em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba.
A
unidade, pertencente à Petrobras, produzia amônia e ureia, insumos fundamentais
para a fabricação de fertilizantes
utilizados na agricultura. Seu fechamento provocou a demissão de 396 empregados
diretos, atingiu centenas de trabalhadores terceirizados e reduziu a capacidade
nacional de produção em um setor estratégico para o agronegócio brasileiro. Os
fertilizantes representam, em média, 20% do custo de culturas agropecuárias.
A
decisão foi tomada em janeiro de 2020, quando a Petrobras, sob a gestão
indicada pelo governo Bolsonaro, buscava se desfazer de ativos considerados
menos rentáveis. A estatal alegou que a fábrica acumulava prejuízos nos
primeiros meses de 2019 e que não havia conseguido encontrar um comprador.
O
argumento financeiro, entretanto, desconsiderava uma questão estratégica: o
Brasil já dependia fortemente de fertilizantes importados para sustentar sua
produção agrícola. Ao encerrar as atividades da Fafen, o governo reduziu ainda
mais a capacidade de produção interna, deixando agricultores mais expostos às
oscilações do dólar, aos preços internacionais e às crises de abastecimento.
A
contradição ficou evidente dois anos depois. Em fevereiro de 2022, Jair
Bolsonaro viajou à Rússia para negociar garantias de fornecimento de
fertilizantes ao Brasil, justamente quando cresciam as tensões internacionais
que culminariam na invasão da Ucrânia. Neste momento, o preço da ureia chegou
próximo a US$ 800/tonelada, espremendo a margem e diminuindo a rentabilidade do
produtor rural. Enquanto buscava assegurar insumos produzidos no exterior, seu
governo mantinha fechada uma fábrica brasileira capaz de contribuir para
reduzir essa dependência.
Para os
produtores rurais do Sul, a questão é especialmente sensível. Paraná, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul têm na agricultura uma das principais bases de
suas economias. Culturas como soja, milho, trigo e arroz dependem da utilização
de fertilizantes, e aumentos nos custos desses produtos comprometem a
rentabilidade das propriedades, especialmente entre pequenos e médios
agricultores.
O risco
não se limita a uma eventual escassez física de adubos. A dependência externa
também significa que guerras, sanções comerciais, problemas logísticos e
variações cambiais podem encarecer a produção agrícola brasileira, mesmo quando
as safras apresentam boas condições de produtividade.
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Lula reabre fábrica fechada por Bolsonaro
A
política para o setor mudou no governo Lula (PT). Depois de anos de
paralisação, a Petrobras retomou as operações da Araucária Nitrogenados e, em
30 de abril de 2026, anunciou a primeira produção de ureia na unidade desde seu
fechamento.
A
fábrica tem capacidade instalada para produzir 720 mil toneladas de ureia por
ano, volume equivalente a aproximadamente 8% do mercado nacional. A retomada
representa um passo para recuperar a produção brasileira
de fertilizantes
e diminuir a exposição do agronegócio às importações.
A
reativação integra uma estratégia mais ampla do governo Lula, que inclui a
retomada das fábricas de fertilizantes da Bahia e de Sergipe e a conclusão de
uma unidade em Mato Grosso do Sul. Em setembro de 2026, Lula sancionou a lei
que instituiu o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes
(Profert), voltado à ampliação da produção nacional e à redução da dependência
das importações, que ainda representam mais de 80% do consumo brasileiro. A
iniciativa busca estimular investimentos em um setor estratégico para a
agricultura e para a segurança alimentar do país.
A
necessidade dessa política ficou ainda mais evidente em 2026, com os conflitos no Oriente
Médio e seus efeitos sobre o mercado internacional de energia e fertilizantes.
Segundo o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e
Biocombustíveis (Ineep), a dependência brasileira de importações de
nitrogenados se aproximava de 95% em 2025.
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Flávio defende retomada das privatizações
Apesar
do precedente deixado pelo governo de seu pai, Flávio Bolsonaro incluiu em seu
programa de governo a retomada do Programa Nacional de Desestatização e a
aceleração de concessões.
A
campanha de Flávio afirma que não pretende privatizar a Petrobras. O próprio
candidato negou essa possibilidade em 9 de outubro. Entretanto, seu coordenador
político, Rogério Marinho, já admitiu que os ativos das estatais poderão passar
por avaliações, sem descartar a venda de participações ou unidades específicas.
É
justamente nesse ponto que a experiência da Fafen-PR nos serve de alerta. A
Petrobras não precisou ser privatizada para que a fábrica de Araucária fosse
fechada. Bastou uma mudança na orientação da companhia, que passou a priorizar
a rentabilidade de determinados ativos em detrimento da manutenção da produção
nacional de fertilizantes.
A
dúvida é se um eventual governo Flávio Bolsonaro manteria a
estratégia de fortalecimento da produção nacional ou voltaria a submeter
unidades como a Fafen à mesma lógica econômica que levou ao fechamento de
Araucária em 2020.
Para os
agricultores do Sul, a resposta pode ter consequências diretas sobre os custos
de produção. A experiência do governo Jair Bolsonaro mostrou que decisões
tomadas dentro da Petrobras podem afetar muito mais do que o balanço financeiro
da estatal: podem comprometer empregos industriais, reduzir a oferta doméstica
de insumos e aumentar a vulnerabilidade de um dos setores mais importantes da
economia brasileira.
Fonte:
Sul 21

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