quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Euforia com governos de direita perde força na América Latina e preocupa investidores

A onda de otimismo dos mercados financeiros com a eleição de governos de direita na América Latina começa a perder força. Depois de impulsionar bolsas de valores, moedas e títulos públicos em diferentes países, investidores passaram a questionar a capacidade dos novos presidentes de cumprir promessas econômicas, equilibrar as contas públicas e preservar o apoio popular.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, gestores internacionais já começaram a reduzir suas posições em ativos latino-americanos diante das dificuldades enfrentadas por governos como os da Colômbia, do Chile, do Peru e do Equador. O movimento também chama a atenção para o Brasil, onde parte do mercado financeiro aposta em uma mudança de governo nas eleições presidenciais deste mês.

Na Colômbia, a vitória de Abelardo de la Espriella no primeiro turno, em maio, provocou uma forte valorização dos ativos locais. As ações chegaram a acumular ganhos superiores a 20% em relação às mínimas, enquanto a moeda se fortaleceu e os juros dos títulos públicos recuaram.

Entretanto, apenas dois meses após assumir a Presidência, o político enfrenta uma grave crise fiscal, descrita por integrantes de sua equipe como a pior do país desde o século 19. O cenário contribuiu para enfraquecer o entusiasmo inicial dos investidores.

No Chile, o movimento também perdeu intensidade. A eleição do presidente de ultradireita José Antonio Kast, há 11 meses, havia impulsionado a bolsa a patamares recordes, mas a valorização perdeu fôlego diante dos desafios de seu governo.

<><> Fundos internacionais reduzem investimentos na região

O otimismo com a guinada política à direita levou investidores a ampliar suas apostas na América Latina ao longo dos últimos meses.

Desde o início de 2025, um índice da MSCI que acompanha ações latino-americanas acumulou valorização superior a 70%. Os títulos públicos da Bolívia e do Equador também estiveram entre os ativos de melhor desempenho dos mercados emergentes.

Agora, parte desses ganhos começa a ser revista.

Gestoras como a Frontier Road, sediada em Londres, e a Fidelity International reduziram sua exposição à região. Martin Bercetche, gestor da Frontier Road, afirmou que diminuiu quase integralmente seus investimentos latino-americanos depois de manter uma avaliação bastante positiva por mais de um ano e meio.

“Essa tese, em grande parte, já se concretizou”, afirmou Bercetche. O gestor disse que mantém interesse em ativos do Equador, mas que a exposição da empresa aos demais mercados da região é pequena.

Nos últimos três meses, títulos públicos em dólar do Equador e do Peru acumularam perdas superiores a 3%, refletindo a deterioração das expectativas.

No Equador, o presidente Daniel Noboa enfrenta queda de popularidade após um período de apoio às suas políticas de segurança e reformas fiscais. A retomada dos subsídios aos combustíveis, em meio aos efeitos da guerra no Irã sobre os preços da energia, também aumentou a pressão sobre as contas públicas.

<><> Brasil entra no radar diante da disputa presidencial

A perda de entusiasmo com governos de direita em outros países ocorre enquanto investidores acompanham a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Desde meados de agosto, as ações brasileiras acumularam valorização superior a 20%, em um movimento associado, em parte, às expectativas de setores do mercado financeiro sobre uma possível mudança na condução da política econômica.

Apesar disso, a experiência de países vizinhos demonstra que uma vitória eleitoral não garante a implementação de reformas nem a manutenção do otimismo dos investidores.

Eric Fine, da gestora VanEck, mantém uma posição relevante em títulos da dívida brasileira denominados em reais, mas avalia que os desafios fiscais podem limitar os ganhos futuros.

Já Polina Kurdyavko, responsável por mercados emergentes da RBC BlueBay Asset Management, considera que a trajetória dos ativos brasileiros dependerá da capacidade do próximo governo de negociar com o Congresso e conduzir ajustes no orçamento.

Segundo ela, uma agenda voltada ao equilíbrio fiscal poderia favorecer os investimentos, enquanto a priorização de outras questões políticas poderia reduzir a duração de uma eventual valorização.

A composição do Congresso eleito também entra nessa avaliação, já que os aliados de Flávio Bolsonaro no PL deverão ocupar mais de um terço das cadeiras do Senado a partir de 2027.

<><> Argentina e Peru também enfrentam desgaste político

As dificuldades não se limitam aos países que passaram recentemente por mudanças de governo.

No Peru, a presidente Keiko Fujimori enfrenta queda de popularidade poucos meses após assumir o cargo, em meio à preocupação da população com a economia e a criminalidade.

Na Argentina, o presidente Javier Milei também registra desgaste político diante dos efeitos de sua política de austeridade, da fragilidade do mercado de trabalho e do crescimento econômico desigual.

A situação tem provocado preocupação entre investidores, com os rendimentos dos títulos soberanos argentinos voltando a atingir níveis de dois dígitos.

Para analistas internacionais, esses episódios colocam em dúvida a interpretação de que as vitórias eleitorais da direita representem necessariamente um apoio popular duradouro a políticas de austeridade e reformas favoráveis ao mercado.

O desafio dos novos governos será transformar o apoio conquistado nas urnas em resultados econômicos concretos, em um cenário marcado por endividamento público, pressão sobre o custo de vida e dificuldades para preservar a popularidade.

•        Chico Alves: Imprensa banaliza baixarias de Flávio Bolsonaro e depois cobra ‘propostas’ no debate

Chega a ser cômica a lamentação de quase toda a imprensa pela falta de propostas para o país no debate da Band, entre os candidatos a presidente Lula e Flávio Bolsonaro. Nos últimos anos, o noticiário dos principais veículos normalizou todas as barbaridades ditas e feitas pelos bolsonaristas. Agora, editores e comentaristas se dizem surpresos com a ausência de discussão sobre os problemas estruturais do Brasil, como se não tivessem colaborado para a baixaria.

Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, os demais integrantes do clã e os políticos que os apoiam sempre basearam sua estratégia de ação em uma viga-mestra: a mentira. Não aquela lorota que tradicionalmente todo político sempre contava para aumentar suas qualidades e minimizar seus defeitos. Não. Para os Bolsonaros, a mentira é ferramenta de trabalho.

Desde 2018, quando essa família se tornou protagonista na política, a imprensa tem falhado miseravelmente em mostrar ao público o quão mentirosa ela é. Não é difícil constatar que existe um espaço enorme nos grandes sites, jornais e emissoras para propagar a invenções dessa gente — batizei de editoria “diz Flávio”. Quase sempre as falsidades disparadas pelo filho 01 ficam sem a devida contestação — algo que é, ou deveria ser, obrigação do jornalismo.

Por conta disso, a mentira tornou-se comum.

Outro sustentáculo do bolsonarismo é a truculência, a disseminação do ódio, a oposição à civilidade, o culto à morte. Mesmo depois de todos comentários racistas, machistas, homofóbicos e agressivos que o clã e seus apoiadores distribuíram nos últimos anos, Flávio resolveu usar sua fala mansa para apresentar-se como o candidato moderado que nunca foi. Apesar disso e das conhecidas ligações do candidato do PL com milicianos, assassinos e criminosos de vários tipos, o jornalismo hegemônico o trata como se fosse um gentleman.

Por conta disso, a violência da extrema direita foi naturalizada.

Para completar, no tripé do bolsonarismo temos ainda a conhecida aversão às instituições democráticas. Desde que surgiu na política, Jair Bolsonaro louva a ditadura militar, na votação do impeachment de Dilma invocou o facínora Brilhante Ustra e na Presidência da República comandou uma tentativa de golpe de Estado. Flávio segue a mesma linhagem golpista, agora em uma versão mais branda, e, portanto, mais perigosa.

A atuação do candidato da família Bolsonaro no movimento que culminou no 8 de Janeiro é indiscutível. Mas não só: continua atentando contra a democracia brasileira ao pedir ao presidente dos Estados Unidos que tome conta do Brasil. Mesmo assim, é entrevistado a todo momento fazendo juras às instituições republicanas sem que seja confrontado pelos jornalistas com sua prática na vida real. É a condescendência travestida de imparcialidade.

Por conta disso, o golpismo tornou-se rotina.

Era esse personagem, integrante do grupo que jogou na lama a politica nacional, que estava em um dos púlpitos do debate da Band.

No outro, um estadista com décadas de serviços prestados à democracia, que conviveu, debateu e trabalhou com alguns dos principais políticos da história recente do país. Alguém que respeita tanto as instituições que submeteu-se a ficar preso 580 dias até provar que foi vítima de injustiça. Um homem que é respeitado e ouvido pelos maiores líderes mundiais.

Como a imprensa permitiu que o patético Flávio Bolsonaro fosse ganhando tanto espaço até chegar a esse ponto, de participar de um debate presidencial com alguém da estatura monumental de Lula?

Não foram “os candidatos” que baixaram o nível do debate. Foi um só, com a ajuda do jornalismo da grande mídia.

Para lançar mão da anedota clichê: debater com Flávio Bolsonaro é o mesmo que jogar xadrez com um pombo: ele faz cocô no tabuleiro, derruba as peças e sai voando cantando vitória.

A imprensa falhou muito — e continua falhando — em identificar para o público quem é o enxadrista e quem é o pombo.

•        Flávio lidera em mentiras no debate, apontam agências de checagem

As checagens realizadas após o debate presidencial de domingo (18), na Band, identificaram mais afirmações falsas, enganosas ou distorcidas de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do que do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre as declarações selecionadas pelas principais equipes de verificação do país. Levantamentos da Agência Lupa, Aos Fatos, UOL Confere e Estadão Verifica contestaram acusações feitas pelo senador sobre criminalidade, corrupção, gastos públicos e políticas do governo federal.

As verificações também identificaram erros de Lula, principalmente sobre indicadores econômicos e o patrimônio do adversário. Os levantamentos utilizaram critérios próprios, mas registraram diferenças na quantidade de declarações problemáticas atribuídas aos candidatos.

O ICL Notícias reuniu os resultados das quatro equipes. As contagens abaixo consideram os vereditos publicados e distinguem afirmações classificadas como falsas daquelas consideradas enganosas, exageradas, incompletas ou sem comprovação.

<><> O que apontaram as agências de checagem

•        Agência Lupa: oito declarações de Flávio foram classificadas como falsas, contra duas de Lula. Considerando também exageros, falta de contexto e alegações insustentáveis, foram 19 declarações problemáticas do senador e sete do presidente.

•        UOL Confere: contestou dez declarações de Flávio, sendo três falsas, cinco enganosas, uma exagerada e uma insustentável. Entre as falas de Lula, identificou cinco problemas: uma falsa, uma enganosa e três exageradas.

•        Estadão Verifica: contestou 13 declarações de Flávio, sendo duas falsas, cinco enganosas, cinco sem contexto e uma exagerada. Entre as cinco declarações contestadas de Lula, duas foram consideradas enganosas, duas exageradas e uma imprecisa.

•        Aos Fatos: publicou 26 registros de checagem sobre Flávio, dos quais 24 apresentaram correções, ressalvas ou contextualizações e dois confirmaram as informações. Entre os 23 registros sobre Lula, quatro receberam correções ou ressalvas, enquanto 19 confirmaram as afirmações ou seus elementos centrais.

Os números correspondem às declarações selecionadas pelas equipes, não à totalidade das falas do debate. Também não podem ser somados, porque algumas afirmações foram verificadas por mais de uma agência e os critérios de classificação são diferentes.

<><> Criminalidade e gastos públicos concentraram falsidades

Entre as declarações mais contestadas de Flávio estão as acusações sobre a segurança pública. O senador afirmou que a criminalidade havia explodido no governo Lula, mas as verificações da Lupa e do Aos Fatos apontaram que a generalização não corresponde aos indicadores disponíveis, que registraram redução em diferentes modalidades de crime.

Flávio também atribuiu ao presidente a iniciativa de recorrer à Justiça para restabelecer as chamadas saidinhas de presos. A Lupa classificou a afirmação como falsa, esclarecendo que a ação mencionada foi apresentada pela Associação Nacional da Advocacia Criminal, e não pelo governo federal.

Outra declaração contestada foi a de que 73% dos presidiários teriam votado em Lula. O Aos Fatos identificou distorção no uso do dado, que não permite concluir que essa proporção corresponda à população carcerária brasileira.

As despesas com viagens também foram utilizadas pelo senador para atacar o presidente. Flávio afirmou que Lula e a primeira-dama Janja haviam gastado R$ 7 bilhões, mas as verificações mostraram que o montante citado abrange despesas de diferentes órgãos federais, não apenas viagens pessoais do casal.

Na economia, o senador afirmou que o governo Lula registrou recorde de fechamento de empresas. A declaração foi classificada como falsa pelo Aos Fatos.

<><> INSS, Vorcaro e acusações sem comprovação

O debate também foi marcado por acusações envolvendo as fraudes em descontos de aposentadorias e pensões do INSS e as investigações relacionadas ao Banco Master.

Flávio afirmou que Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, teria integrado o governo Lula. A informação foi classificada como falsa pelo Aos Fatos.

O senador também negou manter escritório com Antunes. A checagem contestou a declaração a partir de informações sobre o compartilhamento de endereço entre empresas relacionadas aos dois. Esse vínculo de endereço, isoladamente, não demonstra a existência de uma sociedade empresarial.

Outra afirmação contestada foi a de que apenas parlamentares do PT teriam apresentado emendas para flexibilizar regras de controle dos descontos associativos em benefícios previdenciários. O Aos Fatos verificou que a atuação parlamentar não se restringiu ao partido.

Flávio ainda apresentou acusações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, incluindo a alegação de um suposto pagamento de R$ 30 milhões ao Instituto Lula. O UOL Confere considerou insustentável a acusação baseada em um áudio atribuído ao empresário, cuja autenticidade não foi demonstrada.

A Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e a defesa do banqueiro negaram a existência do depoimento mencionado pelo senador.

<><> Projeto sobre munições e acusações contra Lula

Outro episódio que apareceu nas verificações envolveu a atuação de Flávio no Senado.

Questionado sobre uma proposta de retirada da identificação de munições utilizadas pelas forças de segurança, o senador omitiu que havia defendido a medida durante discussão legislativa. O Aos Fatos confirmou o histórico parlamentar mencionado por Lula no debate.

A rastreabilidade de munições pode ser relevante para investigações criminais, pois permite identificar lotes e reconstruir a circulação de materiais utilizados em ocorrências policiais e crimes.

As agências também contestaram afirmações de Flávio sobre a atuação internacional do governo Lula. Entre elas, a acusação de que o presidente teria viajado aos Estados Unidos para defender organizações criminosas e a declaração de que o governo brasileiro não teria adotado medidas contra o tarifaço americano. O Aos Fatos classificou ambas como falsas.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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