O
líder de seita apocalíptica que deixou quase 200 crianças morrerem de fome
O líder
de uma seita apocalíptica queniana, Paul Mackenzie, foi considerado culpado
pelo assassinato de 191 pessoas. Todas elas, exceto uma, eram crianças.
Mackenzie
ordenou que os membros da sua seita deixassem seus filhos passarem fome até a
morte, para poderem "encontrar Jesus".
Sua
doutrina proibia a educação e afirmava que a medicina moderna era
"maligna".
Outros
28 líderes da seita também foram condenados por assassinato. Todos eles haviam
se declarado inocentes e defenderam repetidamente que ninguém havia sido
forçado a morrer.
Ao
emitir seu julgamento por oito horas na cidade portuária de Mombasa, no Quênia,
a juíza Diana Mochache afirmou que os seguidores de Mackenzie acreditavam que
ele fosse "porta-voz de Jesus".
Um dos
acusados declarou que Mackenzie havia dito aos seus seguidores que qualquer
pessoa que "resistisse à ordem de jejuar deveria ser forçada a ir para o
céu com socos e pontapés".
Os
sepultamentos no interior da floresta onde ficava a seita eram chamados de
"casamentos". Os mortos "eram homenageados como tendo se casado
com Jesus", segundo a juíza.
Uma
testemunha declarou que uma mulher grávida havia sido proibida de amamentar seu
bebê recém-nascido, que morreu 12 dias depois. "Ela foi instruída a jejuar
até a morte e seguir seus filhos", segundo a testemunha.
O
ex-chefe de segurança de Mackenzie, Enos Amanya Ngala, foi inicialmente
acusado, mas fez um acordo de confissão e se tornou testemunha da promotoria.
Mackenzie
e outros líderes da seita também enfrentam vários outros processos judiciais,
que incluem acusações de terrorismo, radicalização e negação de educação a
crianças.
Mas
esta é a primeira vez em que o pastor enfrentou o veredito pelas acusações mais
sérias de assassinato. Ele deve receber sua sentença no dia 6 de novembro.
Mackenzie
foi preso em 2023, após a descoberta de mais de 400 corpos em covas rasas na
floresta de Shakahola, perto do litoral queniano, onde ele liderava seus
seguidores vindos de todo o país.
Stephen
Mwiti tem 48 anos. Ele conta que perdeu todos os seus seis filhos para a seita.
Sua ex-esposa também foi condenada por assassinato, além de Mackenzie.
"Sou
um homem feliz por todas as pessoas terem sido condenadas", contou ele à
BBC, fora do tribunal.
"Todos
os meus seis filhos morreram na floresta de Shakahola", declarou Mwiti
antes do veredito. Visivelmente emocionado, ele segurava uma fotografia da sua
família. "Só encontrei e enterrei os restos do meu filho Samuel.
Foram
contratados 17 homens da cidade próxima para a terrível tarefa de escavar as
covas rasas. Alguns deles receberam apenas US$ 8 (cerca de R$ 40) por dia.
"Cada
cova que encontrávamos tinha pelo menos três corpos", conta James, um dos
escavadores. "Alguns dos restos eram de crianças com poucas semanas de
idade."
"Certa
vez, encontramos 12 corpos de crianças enfileirados dentro de uma cova. Era
enorme, os corpos estavam dispostos como se fossem roupas, um em cima do
outro."
Os
escavadores descreveram alguns dos corpos das crianças como tendo suas
"mãos e pés amarrados e os corpos enrolados em lençóis".
Muitos
dos seguidores de Mackenzie eram de outras partes do Quênia, mas alguns dos
restos são de pessoas conhecidas da comunidade. O motivo é que os membros da
seita, muitas vezes, visitavam a cidade próxima de Shakahola em busca de
mantimentos e água do rio Galana, que atravessa o local.
"Às
vezes, carregávamos pessoas na motocicleta em direção à floresta", conta
outro escavador, Salim Karisa. "Mas era tão secreto e planejado que
ninguém sabia dizer o que acontecia lá dentro."
Mackenzie
fundou os Ministérios Internacionais da Boa Nova em 2003. Nos 16 anos
seguintes, a popularidade da igreja aumentou, atraindo milhares de seguidores
nas suas filiais por todo o Quênia.
Sua
igreja mantinha uma estação de televisão chamada Times TV. Ela transmitia seus
sermões, da sua igreja em Malindi, no sudeste do país.
Seus
sermões dos Dias Finais incluíam teorias da conspiração que descreviam a
educação como "maligna", a assistência médica como "contra a
doutrina" e os documentos de identidade digitais como "marca do
demônio".
O filho
de Paul Mackenzie, Dan Paul Mackenzie, afirmou ter trabalhado como câmera na
igreja. "As crianças se sentavam atrás, os adultos no meio e todos
cantavam canções de louvor a manhã inteira", descreve ele.
O
autoproclamado pastor começava seus ardentes sermões ao meio-dia. Alguns deles
incluíam a "expulsão de demônios".
A
igreja principal fechou em 2019 e Paul Mackenzie se mudou para a floresta de
Shakahola, incentivando seus fiéis a segui-lo.
Peter
Shukrani tem 23 anos. Ele conta que sua mãe se mudou para Shakahola com ele
naquela época.
Ele
começou a frequentar a igreja de Mackenzie quando tinha oito anos de idade e o
descreve como seu "pai espiritual". Ele destaca que "nunca fala
mal dele".
Na
floresta, Shukrani ficou doente e sua condição se deteriorou porque as
medicações eram proibidas.
"Minha
mãe jogava fora todos os remédios que eu deveria tomar porque ela acreditava
que apenas Deus poderia me curar", relembra Shukrani.
A
comunidade foi descrita como composta por casas de barro espalhadas pela vasta
floresta.
"Vivíamos
uma vida normal, calma, jejuando por alguns dias e, depois, tendo uma pequena
refeição", ele conta.
Os
criadores de animais da região descobriram os primeiros restos mortais em março
de 2023. Àquela altura, centenas de pessoas haviam morrido.
"Nós
carregávamos alguns para fora da floresta, mas eles eram tão frágeis que
morriam nos nossos braços", explica Salim Karisa, um dos escavadores.
Shukrani
foi um dos homens resgatados da floresta. Ele estava doente e acamado há
semanas, mas sua condição havia se agravado porque sua mãe jogava fora todas as
medicações necessárias para sua recuperação.
"Minha
mãe acreditava na doutrina do pastor Mackenzie, de que a medicina era
maligna", explica ele. "Eu teria morrido se não tivesse sido
resgatado da floresta de Shakahola."
Muitos
dos corpos ainda não foram identificados, devido ao seu avançado estado de
decomposição.
Nos
documentos judiciais, vários deles são indicados como "meninos
desconhecidos" e identificados pela localização do seu túmulo e data da
descoberta.
Mesmo
com o sofrimento imposto aos seguidores de Mackenzie — homens, mulheres e
crianças que morreram de fome, estrangulamento ou foram espancados até a morte
—, sem falar no seu próprio sofrimento, Shukrani acredita que Mackenzie é
"uma pessoa boa, que se importa comigo".
"Mackenzie
não forçou ninguém a jejuar. As pessoas fizeram estas escolhas por si próprias
devido às suas crenças", declarou ele, antes do anúncio do veredito.
"Eu
ainda o amo e ele continua sendo meu pastor."
Já Dan
Mackenzie acreditava que seu pai deveria ser considerado culpado de
assassinato.
"Ele
foi o líder, ele era alguém que eles procuravam. Por isso, ele é um assassino
em massa", declarou ele, antes do veredito.
Fonte:
BBC News Shakahola (Quênia)

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