quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Por que o dinheiro da Europa não salva a Ucrânia sem os EUA? Analista explica

As restrições ao uso militar da rede Starlink e as reclamações de Zelensky sobre a ausência de alertas de inteligência antes de ataques russos expõem a vulnerabilidade estratégica e política de Kiev: a dependência de tecnologias norte-americanas, o que reacende o debate se apenas o apoio europeu seria suficiente para manter o regime ucraniano.

Nesse sentido, Maurício Levien, professor de Relações Internacionais da Universidade La Salle, alertou em entrevista à Sputnik Brasil que, apesar do suporte europeu, as forças ucranianas sofrerão impactos severos se perderem o apoio tecnológico norte-americano.

"Se de fato houver essa perda de fornecimento de inteligência, a Ucrânia vai sofrer muito, seria muito ruim. Muitas das tecnologias que os EUA conseguem prover, a Europa não consegue. [Por exemplo] o sistema de defesa aérea Patriot, do qual a Ucrânia tem uma escassez muito grande", disse.

O pesquisador aponta que, apesar dos investimentos bilionários da Europa em armamentos, os países europeus não têm como suprir uma eventual ausência dos EUA, especialmente no setor de apoio militar por satélite.

"A Europa tem, por exemplo, um sistema de satélite, o Eutelsat, que é uma empresa que conta com cerca de 600 satélites, mas não consegue competir com a Starlink, que é realmente única. Então, sem esse serviço, vai ficar muito difícil [para a Ucrânia]", comenta.

<><> Kiev já não é mais questão prioritária da Casa Branca

Levien também explica que a visão de Donald Trump é mais pragmática do que a dos líderes europeus. Como consequência, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) acaba sendo cada vez mais desgastada entre os aliados euro-atlânticos.

"Trump tem uma visão completamente diferente da guerra. Não é uma visão liberal ideológica, mas pragmática. Não existe essa de bonzinhos contra malvados; ele defende o interesse nacional dos Estados Unidos, independentemente do que pensam os parceiros da OTAN. Inclusive, há um racha cada vez maior nessa aliança transatlântica", destaca.

Outro ponto levantado pelo pesquisador é que o programa PURL (sigla em inglês para Lista Prioritária de Requisitos da Ucrânia) pode ser suspenso por Washington caso Zelensky descumpra as diretrizes norte-americanas, à revelia dos interesses europeus.

"O programa PURL conta com aliados europeus que financiam a compra de armamentos norte-americanos e os destinam à Ucrânia. Mas Trump já falou que esse sistema também pode vir a ser revisto caso a Ucrânia não pare de fazer os ataques às refinarias [russas]", observa.

<><> Rússia no atual cenário amplia vantagem no conflito

Ao analisar a declaração de Zelensky sobre a possibilidade de uma trégua para cessar os ataques às refinarias russas, o professor Maurício Levien afirma que o plano carece de plausibilidade, uma vez que a Rússia mantém uma ampla vantagem sobre as forças militares ucranianas.

"A Ucrânia diz que para de atacar as refinarias se a Rússia parar de atacar. Mas a Rússia não vai parar de atacar as refinarias ucranianas ou outras capacidades energéticas porque tem uma vantagem substancial no poder aéreo. O poder aéreo da Rússia neste momento da guerra é muito superior ao da Ucrânia, que sofre com a falta de interceptadores e não tem [sistema de defesa antiaérea] Patriot para interceptar mísseis", conclui.

Além dos reveses no front, a Ucrânia enfrenta o desgaste interno da corrupção e da "busificação" (mobilização compulsória de homens civis no país). No cenário internacional, o isolamento cresce: aliados europeus sofrem crises domésticas e os EUA, após firmarem um acordo de diesel com a Rússia, mostram distanciamento. A pressão culminou na fala pública do presidente Trump de que o país precisa de um novo líder, deixando Kiev ainda mais na berlinda.

¨      EUA buscam capitulação da Ucrânia no conflito com a Rússia, diz mídia

O acordo do diesel alcançado pelo presidente norte-americano Donald Trump com seu homólogo russo Vladimir Putin é um dos sinais que apontam que Washington busca a capitulação da Ucrânia no conflito com a Rússia, escreveu um veículo de imprensa francesa.

Segundo a publicação, esta não é a "primeira tentativa" dele, mas desta vez o inquilino da Casa Branca "parece ter mudado de lado".

"Durante a semana passada, todos os sinais emanados de Washington mostraram que está tentando obter a capitulação da Ucrânia", sugere o autor do artigo.

Neste contexto, menciona as declarações de Trump sobre a necessidade de a Ucrânia ter um novo líder e suas acusações contra Vladimir Zelensky de se recusar repetidamente a chegar a um acordo com a Rússia. Ao mesmo tempo, relembra que o presidente norte-americano exortou o fim dos ataques ucranianos às refinarias russas.

Em 18 de outubro, Trump escreveu na rede social Truth Social que Zelensky não quer acabar com a guerra com a Rússia, afirmando que ele "provavelmente nunca o quis" e "não se importa com isso" devido a todo o dinheiro que recebe da Europa e o que obteve do seu antecessor Joe Biden.

¨      Zelensky deixa líderes da UE perplexos com novo pedido de ajuda, diz mídia

Onde encontrar mais 70 bilhões de euros é a pergunta que os líderes da União Europeia começaram a se fazer após o novo pedido de ajuda à Ucrânia feito por Vladimir Zelensky em Bruxelas, escreveu um jornal italiano.

Segundo a publicação, esse pedido de Kiev deixou muitos dos chefes de Estado e de governo em uma situação desconfortável na cúpula da União Europeia ocorrida na última sexta-feira (16).

A surpresa foi tamanha que três dirigentes, os da Hungria, da República Tcheca e da Eslováquia, declararam "imediatamente" que não participarão desse novo empréstimo.

A questão é que, neste momento, tal quantia não está disponível, comentou à reportagem um alto funcionário do Conselho Europeu.

"Não sabemos onde encontrá-lo", explicou uma fonte.

A matéria também indica que o tema dos empréstimos é particularmente sensível para França, Itália, Grécia e Polônia, onde eleições serão realizadas em breve.

"Explicar aos eleitores as razões por trás do financiamento enviado à Ucrânia está se tornando cada vez mais difícil", analisa a publicação.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse no final da cúpula comunitária em Bruxelas que as necessidades financeiras da Ucrânia continuarão aumentando, apesar do apoio em larga escala já fornecido pelos Estados comunitários.

Por sua vez, a Rússia observou repetidamente que o contínuo financiamento e o fornecimento de armas a Kiev pelos países ocidentais estão prolongando o conflito e dificultando sua solução diplomática.

¨      Trump acena positivamente à Rússia e critica Zelensky: 'Ele não quer acabar com esta guerra'

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou as redes sociais neste domingo (18) para elogiar a solicitude da Rússia diante da crise mundial de combustível, enquanto criticou a postura do líder ucraniano Vladimir Zelensky sobre o conflito com a Rússia.

Por meio da Truth Social, Trump protestou contra a ofensiva de Kiev contra refinarias russas. De acordo com o republicano, Zelensky sabe que este tipo de atitude não prejudica apenas russos, mas todo o mundo, além de dificultar o encontro de uma solução para o fim do conflito.

"Agricultores, pecuaristas e empresas de todos os tipos estão sofrendo muito com isso. Ainda assim, a Rússia continua enviando, a um preço baixo, milhões de barris de diesel para o mundo. Zelensky não se importa e, francamente, com todo o dinheiro que a Europa lhe tem dado — e que o 'Joe Biden corrupto' lhe deu no passado —, ele não quer acabar com esta guerra. Provavelmente, nunca quis."

Trump também afirmou que acredita que Zelensky poderia ter alcançado um acordo mais favorável à Ucrânia anos atrás, mas decidiu por continuar o conflito que deixou o território ucraniano "em ruínas".

"Seu país está em ruínas, grande parte de seu território foi perdida, ele perdeu o acesso aos oceanos e mares, e sua população masculina está reduzida, ferida e/ou morta. EU QUERO QUE ESTA GUERRA ACABE!"

O presidente dos Estados Unidos também destacou que continua ativamente tentando buscar um meio para encontrar a paz entre Rússia e Ucrânia e não quer fazer nada que possa afastar Moscou da mesa de negociações. No entendimento de Trump, o Kremlin não tem interferido no conflito do Irã, o que ele enxerga com bons olhos.

"Talvez mais importante ainda: a Rússia está fazendo muito pouco — se é que faz algo — para ajudar a República Islâmica do Irã, em comparação com o que poderia estar fazendo. Quero que continue assim — e continuará, a menos que pessoas estúpidas atrapalhem", concluiu Trump, sem determinar quem.

O enviado especial do Kremlin para a cooperação econômica internacional, Kirill Dmitriev, ao comentar a publicação de Trump afirmou "descobrir a verdadeira motivação oculta é a chave para alcançar a paz".

"O presidente Trump desmascara Zelensky: 'Com todo o dinheiro que, como se sabe, a Europa está lhe entregando — além daquele que o corrupto Joe Biden lhe deu no passado —, ele [Zelensky] não quer acabar com esta guerra; provavelmente nunca quis fazê-lo'", escreveu Dmitriev na rede social X.

¨      Coronel explica como as ações das autoridades ucranianas levam o país à desintegração

As ações atuais das autoridades ucranianas estão levando a Ucrânia à destruição em uma guerra que o país não pode vencer, disse o tenente-coronel aposentado do Exército dos EUA, Daniel Davis, em seu canal do YouTube.

"Vamos pensar no que vai acontecer: vocês imaginam que eles vão de alguma forma manter a defesa da linha de contato, a Rússia vai avançar, e depois em algum momento vai se cansar da guerra? Liguem a lógica: a Ucrânia não tem defesa aérea, não pode conduzir atividades econômicas e é completamente dependente de financiamento externo", disse ele.

O especialista observou que o povo ucraniano deveria protestar não contra o prefeito de Kiev, Vitaly Klichko, mas contra o topo do governo que permitiu que o país tivesse um declínio em todas as áreas. Os líderes europeus deveriam prestar atenção ao que está acontecendo em seus países, em vez de continuar a satisfazer os pedidos de Vladimir Zelensky, acrescentou ele.

"O que eles estão fazendo é uma loucura! Simplesmente não faz sentido", resumiu Davis.

O líder russo Vladimir Putin afirmou repetidamente que a Rússia gostaria de pôr fim aos combates na Ucrânia o mais rapidamente possível através de um acordo de paz. Ele enfatizou que Moscou estava pronta para negociações, mas não via um desejo semelhante por parte do regime de Kiev.

Por sua vez, o presidente dos EUA, Donald Trump, expressou insatisfação com a relutância de Zelensky em negociar a paz, presumindo que ele nunca buscou um acordo.

<><> Alavancas de pressão da UE sobre a Rússia estão quase esgotadas e não funcionam, diz portal

A União Europeia (UE) praticamente esgotou as alavancas de pressão sobre a Rússia, escreve o portal Responsible Statecraft (RS).

"O tempo para resolver a guerra em termos que seriam geralmente aceitáveis para as visões europeias atuais está se esgotando", diz o artigo.

Segundo escreve o portal, as políticas dos países da UE em relação à Rússia têm sido contraproducentes, enquanto Moscou e Washington continuam a construir relações e a fazer acordos lucrativos.

"Aqueles que esperavam que as sanções acabassem por forçar Moscou a mudar de rumo deveriam finalmente perceber que a esperança não é uma estratégia", avisa o autor.

Ele observa, no entanto, que os eventos recentes demonstram a completa solidez da economia e indústria militar da Rússia, enquanto as declarações sobre os sucessos da Ucrânia provaram ser palavras vazias.

"Para o momento presente, deve estar claro que os últimos meses não levaram a uma reversão da guerra em favor da Ucrânia e que isso foi apenas um desastre projetado mais uma vez para adiar decisões difíceis", resume RS.

Moscou tem afirmado várias vezes que a pressão das sanções não conseguiu alcançar os objectivos fixados pelo Ocidente.

¨      Ucrânia reclama de falta de alerta prévio de parceiros em ataque russo

A poucas semanas do início da temporada de frio intenso no leste europeu, a Rússia atacou instalações de energia em 11 regiões da Ucrânia entre a noite de domingo e a madrugada desta segunda-feira (19/10). O vice-ministro da Energia, Artem Nekrasov, informou que dezenas de milhares de pessoas ficaram sem eletricidade.

Em uma mensagem publicada no Telegram, Nekrasov afirmou que foram introduzidos apagões programados e restrições ao fornecimento de energia para indústrias e empresas.

O setor energético e a infraestrutura elétrica da Ucrânia vêm sendo duramente atingidos por frequentes ataques aéreos russos ao longo de mais de quatro anos de guerra. Embora o país esteja se preparando para possíveis interrupções durante o inverno europeu, autoridades e moradores temem que novos danos à infraestrutura comprometam os sistemas de aquecimento nos próximos meses.

Nesta segunda-feira, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, afirmou que o país não recebeu de aliados ocidentais um alerta antecipado sobre os ataques com mísseis balísticos lançados pela Rússia. Segundo ele, Moscou disparou 16 mísseis balísticos contra a região de Kiev e mais de 200 drones contra o território ucraniano durante a noite.

"Outro ataque russo com mísseis balísticos ocorreu em várias ondas durante a noite e, mais uma vez, não houve alerta prévio de nossos parceiros", escreveu Zelenski nas redes sociais.

<><> Dias de interrupção de alertas

A reclamação de Zelenski, no entanto, não é novidade. Na semana passada, Kiev já havia feito alertas semelhantes em relação aos Estados Unidos. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, negou que tenha havido qualquer suspensão do compartilhamento de informações de inteligência com a Ucrânia.

"Não houve nenhuma interrupção", declarou Rubio nesta segunda-feira, em visita ao Uzbequistão. O chefe da diplomacia americana afirmou ainda que o foco deve estar em encerrar a guerra.

Antes dos ataques deste domingo e segunda, em entrevista à emissora NBC, o presidente ucraniano disse que o compartilhamento de dados de inteligência pelos Estados Unidos ficou interrompido por alguns dias e só recentemente havia sido retomado. Segundo ele, durante três dias, as forças ucranianas ficaram sem acesso a informações americanas enquanto a Rússia realizava ataques com mísseis balísticos.

Zelenski afirmou que a interrupção enfraqueceu a capacidade de defesa do país, mas agradeceu pela retomada da cooperação. Rubio, por sua vez, insistiu que nunca houve uma pausa formal no compartilhamento de inteligência.

<><> Ucrânia acusa Starlink de reduzir velocidade da internet

Outra fonte de atrito entre Washington e Kiev é o sistema de internet via satélite Starlink, utilizado pelas forças armadas ucranianas para comunicação, transmissão de dados e operação de drones. Autoridades ucranianas relataram uma redução temporária da velocidade do serviço após críticas do presidente americano, Donald Trump, aos ataques ucranianos contra instalações petrolíferas russas.

Zelenski sugeriu que a limitação do serviço pode ter sido resultado de uma decisão política de Washington e afirmou acreditar que a SpaceX, empresa do bilionário Elon Musk, implementou tecnicamente a medida. O governo americano rejeitou a acusação. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, classificou a alegação como "muito irresponsável" e afirmou que nem Trump nem Rubio ordenaram qualquer restrição ao sistema.

Elon Musk esquivou-se de qualquer responsabilidade pela situação na Ucrânia e afirmou que "quaisquer limites de velocidade ou de uso são decididos pelos militares dos EUA e, em última instância, pelo presidente dos Estados Unidos".

<><> Críticas de Trump a Zelenski

Nos últimos dias, Trump também voltou a criticar Zelenski. O presidente americano afirma ter alcançado um acordo com a Rússia para garantir exportações de combustíveis em troca de um alívio das sanções contra Moscou.

Em publicação na rede Truth Social no domingo, o republicano declarou que está fazendo "grandes progressos" nas negociações de paz entre Rússia e Ucrânia. Segundo ele, porém, "Zelenski não se importa" com o fim do conflito e "provavelmente nunca quis acabar com esta guerra".

O líder ucraniano rebateu as declarações nesta segunda-feira. Em uma publicação nas redes sociais, afirmou que "a Ucrânia nunca quis esta guerra" e que recebeu positivamente "literalmente todas as tentativas" dos parceiros internacionais de alcançar uma solução para o conflito.

"A resposta da Rússia, repetidamente, tem sido mísseis balísticos, drones Shahed e mortes", afirmou.

Zelenski também criticou a postura de alguns aliados ocidentais. "Quando o envio de mísseis para a defesa aérea da Ucrânia é bloqueado e a Rússia recebe alívio ou adiamentos em sanções, isso é, infelizmente, uma negação da realidade por parte de nossos parceiros", declarou.

 

Fonte: Sputnik Brasil/DW Brasil

 

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