quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O jornalismo na disputa pelo futuro da democracia no Brasil

O resultado do primeiro turno das eleições reacendeu as preocupações sobre o futuro da democracia brasileira. Motivos não faltam. Aqui, interessa olhar para um de seus pilares mais frequentemente invocados: a liberdade de imprensa.

As razões para preocupação com uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro são conhecidas. O candidato reivindica e encarna o legado político de seu pai, cujo governo representou o período mais sombrio para o jornalismo desde a redemocratização. Durante quatro anos, jornalistas foram alvos recorrentes de insultos, intimidações e campanhas de ódio. A desinformação tornou-se indissociável da comunicação do governo, especialmente durante a pandemia de Covid-19 e nas falsas acusações de fraude eleitoral. Em quatro anos, o Brasil chegou à sua pior pontuação no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, elaborado anualmente pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF) desde 2002.

As referências internacionais de Flávio Bolsonaro reforçam os temores de uma nova ofensiva contra a imprensa. Nos Estados Unidos, Donald Trump recorre a pressões institucionais e econômicas contra grandes redes de televisão. Na Argentina, Javier Milei transformou o ódio aos jornalistas em slogan político. Em El Salvador, o governo de Nayib Bukele combina pressões administrativas, propaganda e asfixia financeira, levando jornalistas e redações inteiras ao exílio. São experiências distintas que mostram como a hostilidade à imprensa, quando banalizada, pode abrir caminho para mecanismos cada vez mais severos de pressão e censura.

A chegada de Lula ao seu terceiro mandato, em 2023, marcou uma mudança significativa nas relações entre o governo e a imprensa. A descredibilização sistemática dos jornalistas deixou de fazer parte da comunicação cotidiana do Poder Executivo. Também houve avanços na transparência pública, após um período marcado por restrições e pelo uso abusivo do sigilo. Na área de segurança, o governo criou o Observatório Nacional da Violência contra Jornalistas e fortaleceu políticas de proteção, embora esses mecanismos ainda apresentem limitações. Segundo os registros da RSF, nenhum jornalista foi assassinado no país em decorrência de sua atividade durante o mandato. O Brasil passou da 110ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, em 2022, para a 52ª, em 2026, uma recuperação de 58 posições.

A integridade da informação também se consolidou como um eixo importante da agenda do governo Lula, com iniciativas voltadas à proteção da informação confiável e à responsabilidade das plataformas digitais. Durante a presidência brasileira do G20, em 2024, o Brasil contribuiu para colocar o tema no centro das discussões sobre a economia digital. Em parceria com a ONU e a Unesco, o país lançou a Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas, estabelecendo uma conexão entre os trabalhos iniciados no G20 e a COP30, realizada em Belém, em 2025. Durante a conferência, foram assumidos compromissos relacionados à proteção do jornalismo ambiental, à responsabilização das plataformas e à sustentabilidade econômica da mídia.

No Brasil, porém, os resultados legislativos dessa agenda foram mais limitados. O Executivo participou ativamente dos debates sobre transparência e responsabilização das plataformas digitais, mas enfrentou dificuldades para transformar essas discussões normas. O projeto para criar a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (PL 2630), que buscava estabelecer novas obrigações para essas empresas, acabou engavetado no Congresso, em meio a resistências políticas e à mobilização das grandes empresas de tecnologia. O projeto de lei sobre inteligência artificial (PL 2338), aprovado pelo Senado em 2024, perdeu parte das disposições relacionadas à integridade da informação ao longo de sua tramitação e ainda não foi votado pela Câmara dos Deputados.

O próximo governo encontrará, portanto, um debate em aberto sobre as regras do espaço digital, onde uma parcela crescente dos brasileiros se informa. Nas últimas duas décadas, as plataformas passaram a exercer enorme influência sobre a visibilidade, o alcance e a monetização dos conteúdos jornalísticos. Suas decisões afetam o acesso às notícias e a circulação de conteúdos falsos ou manipulados, frequentemente sem transparência suficiente sobre os critérios adotados.

A responsabilidade dessas empresas tornou-se objeto de uma disputa política internacional sobre os limites da liberdade de expressão. Setores da direita global, incluindo o bolsonarismo, apresentam iniciativas de regulação das plataformas como formas de censura. Nos Estados Unidos, essa posição também se manifesta na aproximação entre setores da direita e grandes empresários de tecnologia, como Elon Musk e Mark Zuckerberg. Flávio Bolsonaro tem se oposto a iniciativas legislativas e decisões judiciais voltadas à responsabilização dessas empresas.

Essa aproximação reúne interesses distintos, mas convergentes em torno da resistência a determinadas formas de regulação. Para as grandes empresas de tecnologia, está em jogo a preservação da autonomia sobre seus modelos de negócio, com menos exigências de transparência e responsabilização. Para determinados movimentos políticos, a defesa de uma concepção praticamente irrestrita da liberdade de expressão pode se associar à contestação da credibilidade do jornalismo e de outras instituições que produzem conhecimento verificável.

As consequências dessa disputa ultrapassam a regulação das plataformas e alcançam as próprias bases do debate democrático. Uma democracia pode conviver com interpretações radicalmente diferentes sobre o país. Precisa, porém, preservar as condições para que afirmações sobre a realidade sejam investigadas, verificadas e contestadas publicamente. Quando a credibilidade de uma informação passa a depender exclusivamente da identidade política de quem a transmite, o debate público perde uma de suas bases. O jornalismo contribui para preservar referências compartilhadas, mesmo entre pessoas que discordam profundamente sobre os rumos do país.

É por isso que o futuro do jornalismo não pode ocupar um lugar secundário nesta eleição. O que está em disputa não são apenas as garantias para que a imprensa investigue o poder sem intimidação, mas também a possibilidade de a sociedade ter acesso a informações independentes e confiáveis. O direito à informação precisa ser tratado como uma questão central nas escolhas sobre o futuro democrático do Brasil.

•        Por que Flávio Bolsonaro não respondeu sobre Milei no debate da Band. Por Marcia Carmo

Na semana passada, num jantar de gala em Washington, o irmão do candidato Flávio Bolsonaro, Eduardo, abraçou, efusivamente, o presidente argentino Javier Milei. “Vamos tirar a pontapés o comunista ditador do Brasil”, disse Milei, ao lado de Eduardo. Foi claramente um recado – mais um insulto – ao presidente Lula. Milei, como recordam nos bastidores do Itamaraty, é o único chefe de Estado com quem Lula não conversa, já que mantém diálogo, por exemplo, com Kast, do Chile, e Keiko Fujimori, do Peru, que são também da extrema-direita. A relação entre o Brasil e a Argentina foi ‘rebaixada’, como se diz na diplomacia, depois que Milei participou da convenção do PL em São Paulo que definiu a candidatura de Flávio Bolsonaro. As agressões de Milei contra o presidente do Brasil levaram, então, à decisão de retirada do embaixador Júlio Bitelli da embaixada em Buenos Aires. Dificilmente ele voltará. Desde então, Milei não parou de usar sua metralhadora verbal contra Lula. E comemorou o resultado da eleição no primeiro turno, que deu vantagem de 1,8% da votação para Flávio Bolsonaro, a quem chama de “amigo”, na comparação com Lula.

<><> “Motosserra de Milei”

No debate, domingo, na Band, o presidenciável Flávio Bolsonaro não respondeu quando Lula o perguntou sobre Milei e seus planos de copiar a motosserra do argentino, caso seja eleito. “Vai pegar emprestada a motosserra do Milei?, questionou o presidente. “Você já viu quanto está a pobreza na Argentina?” No mês passado, a coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, afirmou que usaria “um pouco de inspiração no que foi feito no governo Milei”.

<><> Pobreza na Argentina e filas por emprego

Segundo dados oficiais, o índice de pobreza na Argentina subiu de 28% para 32,2% no primeiro semestre deste ano diante do último semestre de 2025. O índice de desemprego (7,1%) é o mais alto desde 2021 e são frequentes as imagens de filas quilométricas no interior do país de pessoas desempregadas que disputam uma oportunidade de trabalho. A economia argentina não decola. A economia caiu 0,6% no segundo trimestre na comparação com o trimestre anterior, neste ano, segundo dados oficiais. O FMI reduziu, na semana passada, a previsão de crescimento econômico do país. Antes previa expansão de 3,5% e agora de 2,1% neste ano. A situação econômica e social não mudaram o víeis da política interna e externa de Milei. Ele continua dizendo que vencerá a eleição presidencial que será realizada daqui a um ano, em outubro de 2027. A fragmentação da oposição não ajuda a canalizar a insatisfação popular a Milei que hoje tem cerca de 30% a 35%, dependendo da pesquisa de opinião.

<><> Milei e Flávio

Com esta dura realidade, Milei parece não ser um bom exemplo a ser citado por Flávio Bolsonaro nesta reta final da campanha. Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas feitas pelo presidente Lula, durante o debate na Band quando faltam poucos dias para a definição, nas urnas, sobre o rumo do Brasil. Algumas das perguntas sem respostas: o voto de Bolsonaro contra a ampliação da licença-maternidade no Rio de Janeiro; sua postura negativa em relação ao  rastreamento de munições; o assassinato de Marielle Franco; o destino dos R$ 134 milhões do ex-banqueiro e presidiário Daniel Vorcaro; a atuação de Flávio Bolsonaro como advogado de um policial acusado da morte de Ana Clara, de cinco anos de idade, em Niterói, no Rio de Janeiro, e a intenção de copiar o plano econômico do argentino Milei, caso seja eleito. Bolsonaro desconversou em cada uma das perguntas de Lula. Agora, a expectativa é para o debate na Globo, o último antes da eleição. Enquanto isso, Milei continua realizando postagens contra Lula em suas redes sociais. Nesta segunda-feira, um dia depois do debate, postou uma charge ao lado de Flávio Bolsonaro e Lula que a ele se dirige dizendo com dedo em riste: “Amigo do Milei”. Na imagem, Lula está junto de Claudia Scheibaum, do México, Gustavo Petro, da Colômbia, Cristina Kirchner, da Argentina, Ortega, da Nicarágua, e Diaz Canel, de Cuba. Mas Milei nada retrucou sobre a observação de Lula sobre o aumento da pobreza na Argentina. Seja como for, a pergunta de Lula, no debate da Band, foi um dos principais assuntos na imprensa argentina na noite de domingo e nesta segunda-feira.

 

Fonte: Por Artur Romeu, no Le Monde/Brasil 247

 

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