Sem
educação, clima ou fome: O dito e não dito na propaganda eleitoral de Flávio
Bolsonaro
“A boca
fala do que o coração está cheio”, diz o versículo 31 do capítulo 12 do livro
bíblico de Mateus. E apesar de a fé ter entrado em cheio na campanha
presidencial, a lição não parece ter sido colocada em prática pela propaganda
eleitoral do candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro (PL). Educação,
fome, moradia, mobilidade e clima foram termos que nenhum dos guias de exibição
gratuita na TV mencionaram ao longo de sua corrida presidencial. A palavra
“constituição”, inclusive, não foi sequer mencionada pelo candidato em 14
inserções gratuitas até o momento.
Segundo
especialistas ouvidos pela Agência Pública, até então, o foco do discurso de
Flávio Bolsonaro esteve em provocar comoção nos eleitores, através do medo e
projetar força pessoal, através da autopromoção.
A
palavra “Brasil”, por exemplo, é a mais usada pela campanha do ultradireitista,
numa frequência mais de 18 vezes superior a termos como “proposta(s)”. Embora
faça parte do seu slogan “O Brasil vai Vencer”, “Brasil” também é usado
conjuntamente a “Brasileiro(s)” e “Soberania” para criar sentido de
pertencimento nacional, unidade, identidade coletiva e à defesa da nação. É o
que diz a professora e pesquisadora em semiótica da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN) Lilian Muneiro.
A
responsabilidade pela elaboração do conteúdo dos guias – roteiro, cenário e
edição, por exemplo – é integralmente do partido político. A legislação garante
o espaço na programação de rádios e televisões, comerciais e públicas, para
veiculação do guia ou propaganda eleitoral de candidatos a cargos estaduais,
federais e presidência durante 70 minutos por dia, distribuídos entre os
comerciais da emissora.
O
levantamento da Pública identificou as palavras mais repetidas por Flávio
Bolsonaro nos 14 vídeos de seu guia eleitoral até agora. As peças estão
disponíveis no perfil do candidato no YouTube e foram exibidas em rede nacional
de 28 de agosto a 14 de outubro. O levantamento também identificou palavras que
o candidato não citou, mesmo sendo assuntos de preocupação mundial.
Para a
professora do Departamento de Letras da UFRN e pesquisadora em análise do
discurso, Cellina Muniz, a escolha de palavras de Flávio Bolsonaro não deve ser
interpretada como coincidência, pois para seu campo de estudos, as palavras que
usamos não são só nossas, e carregam uma história. A construção narrativa visa
projetar uma imagem de si “historicamente associada a regimes tipicamente
autoritários. Governos totalitários, de diferentes posicionamentos ideológicos,
sempre se pautaram na idolatria da figura mítica de um ‘chefe’ que tenta se
afirmar simultaneamente como combatente e como guardião”, avalia.
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O dito…
O termo
“medo” aparece duas vezes mais que “esperança” nos guias eleitorais de Flávio
Bolsonaro. “Esse discurso tenta comover seu público e construir sua adesão por
meio do apelo emocional com a criação de um ‘inimigo’ a ser combatido (as
milícias, o petismo etc.)”, avalia a professora Cellina Muniz.
“O
Brasil nunca teve tanto medo”, disse o candidato no programa exibido no dia 1º
de setembro, se referindo a grupos de facções espalhados pelo Brasil. “Comando
Vermelho”, “facções”, “PCC” “organizações narcoterroristas” e “milícias” não
são termos dos mais recorrentes no guia eleitoral, mas aparecem duas vezes mais
que as palavras “democracia” e “paz” na mensagem passada aos eleitores.
Apesar
do apelo ao medo, alguns fatos conectam o candidato ao universo que critica.
Ainda em setembro, a revista piauí expôs que em 2023, o senador Flávio enviou
emenda parlamentar para o Instituto de Formação Profissional José Carlos
Procópio (Ifop), uma ONG sediada na Taquara, reduto miliciano na Zona Oeste do
Rio. O pedido partiu de Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, preso e condenado
por agir como braço operacional da organização criminosa dos irmãos Brazão, os
mandantes do assassinato de Marielle Franco. Peixe é apontado como o elo entre
os Brazão e os milicianos da região de Jacarepaguá.
Em sua
análise, a pesquisadora de semiótica Lilian Muneiro comentou que os vocábulos
sobre segurança produzem juntos um “eixo de sentido associado à
vulnerabilidade, ao risco, à necessidade de proteção e ao restabelecimento da
ordem. Nesse conjunto, também é possível observar a dimensão passional do
discurso”, afirma.
As
escolhas do que compõe o discurso repetido de Flávio Bolsonaro também ajuda a
indicar suas prioridades narrativas. O candidato do PL falou mais em picanha do
que em Deus ou saúde durante a propaganda eleitoral. O termo “picanha” foi
repetido sete vezes, e superou também os vocábulos “corrupção”, “trabalhador” e
“escola”. “A picanha é o símbolo do velho, do que tem de mais velho na
política, que a gente não aguenta mais, tem uma diferença fundamental entre o
atual presidente e eu”, disse o candidato no vídeo veiculado uma semana antes
do dia da votação.
“No
conjunto dos termos e expressões que são reiterados na fala do candidato,
constróem-se eixos discursivos que focam em uma ideia sem aprofundamento,
imediatista, apressada e impregnada de um senso de urgência e de ‘medo’, que
não dá conta nem explica o processo de construir um ‘Brasil’, como se um país
continental pudesse se resumir a soluções simplistas e genéricas”, avalia
especialista em semiótica e professora de ciências do consumo da Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Jaqueline de Melo.
Outra
palavra de grande incidência foi “mulher(es)”, a quinta mais citada. No
discurso de Flávio Bolsonaro ela está constantemente relacionada a “mães”, como
visto no primeiro programa do guia, exibido em 29 de agosto: “Quando eu aprendi
com a minha mãe, que formou a minha visão de como as mulheres são. De como elas
lideram de uma forma diferente. Em muitas coisas, muito melhor do que os
homens”. “Família(s)” também ganhou destaque, sendo a oitava palavra mais
citada.
A
recorrência destes termos ligados ao feminino conotam um sentido de proteção,
cuidado e à reprodução social, o que sugere uma valorização dos vínculos
familiares, falou a pesquisadora Muneiro. Essa valorização não significa
necessariamente uma relação harmônica na “vida real”.
Em
junho deste ano, a madrasta do candidato e senadora eleita, Michelle Bolsonaro
(PL), publicou em suas redes sociais dois vídeos onde se dizia “apunhalada”,
“humilhada” e “maltratada” por Flávio Bolsonaro. “Ele disse que seria melhor eu
ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não
entendia nada de política. Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava
tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era
insignificante. E então eu me recolhi”, disse a ex-primeira-dama no vídeo, que,
semanas depois, fez nova publicação indicando reconciliação com o enteado.
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…O não dito…
Um
elemento do discurso que também é campo de estudo para analistas é o silêncio.
“O não dito faz sentido também. Temas que são importantes para o cotidiano das
pessoas não estão presentes, o que nos leva a entender não serem prioridades”,
opina Lilian Muneiro. Cultura, Amazônia, meio ambiente, mobilidade urbana,
moradia e clima são alguns dos termos tradicionais no debate democrático mas
que não foram mencionados até agora pela propaganda eleitoral de Flávio
Bolsonaro.
Segundo
pesquisa divulgada em setembro deste ano pela Ipsos, saúde, corrupção
financeira/política, pobreza e desigualdade social, educação, mudanças
climáticas e ameaças ao meio ambiente estão entre as dez principais
preocupações dos brasileiros.
“A
pergunta que me faço é: de que Brasil está se falando quando as palavras
‘ladrão’ e ‘bandido’ aparecem mais que as palavras ‘escola’ e ‘trabalhador’?
Como é possível mencionar os termos ‘melhor’, ‘mudar’ e ‘futuro’, sem ao menos
se referir a um projeto de ‘educação pública’ e de ‘oportunidades de emprego’ e
‘geração de renda?’”, reflete Jaqueline de Melo.
As duas
vezes em que cita o pai, o discurso de Flávio indica continuidade/referência do
governo dele. “[…] gera mais empregos e o consumo aumenta. E o governo arrecada
mais, taxando menos. Sem sufocar você. Isso já aconteceu com o Bolsonaro”,
disse no programa exibido no dia 3 de setembro.
O
“sufoco”, no entanto, não se limita a questões de tributação, como o candidato
faz parecer. No primeiro ano de governo, Jair Bolsonaro bloqueou R$ 5,839
bilhões de investimento na educação brasileira, o que levou os estudantes às
ruas contra o congelamento. No âmbito do meio ambiente, em 2020 a Amazônia
Legal teve 276 quilômetros quadrados de área desmatada, um aumento de 10% em
relação a dezembro de 2019, segundo dados do Sistema de Alerta do Desmatamento.
A gestão Bolsonaro também foi marcada pelo retorno do Brasil ao Mapa da Fome em
2021, de acordo com o relatório das Nações Unidas e a ameaça constante de
direitos.
Outra
ausência notada foi a da palavra “agro”. Embora se diga aliado do Agronegócio,
e seja apoiado por figuras do setor, como o presidente da Frente Parlamentar
Agropecuária (FPA), deputado federal reeleito Pedro Lupion (Republicanos/PR), o
candidato à presidência não fez nenhuma menção ao tema durante a propaganda
eleitoral gratuita. Os termos “feminicídio” e “racismo” também ficaram de fora
das peças de campanha do filho 01 de Jair Bolsonaro.
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…e o mutante
A
propaganda eleitoral do segundo turno começou em 9 de outubro e, até agora,
dois programas do candidato Flávio foram ao ar: um dia 12, outro dia 14 de
outubro, e as palavras trazidas por elas mantêm a tônica do que é dito no
primeiro turno.
De
novidade nos roteiros da propaganda eleitoral para a TV há termos curiosos,
como “hospital”, ausente em todo o primeiro turno, e menções a programas do
governo federal, como o Farmácia Popular e o Bolsa Família.
O
posicionamento é uma clara resposta à campanha do adversário petista, Lula, que
prioriza esses mesmos temas e põe em xeque a manutenção do investimento deles
em um eventual governo Flávio Bolsonaro.
Essa
estratégia fica evidente quando se percebe que Nossa Senhora Aparecida,
protagonista da polêmica, que envolveu sua campanha, sobre a suposta alteração
do título de “padroeira do Brasil” para “padroeira dos brasileiros católicos
apostólicos romanos”, estava entre os temas do programa exibido no dia 12 de
outubro, feriado nacional em homenagem à santa.
O
Farmácia Popular é um dos programas sociais protagonistas destas eleições,
sendo usado pelas candidaturas de formas diferentes. A medida foi implementada
em 2004 durante o primeiro mandato de Lula, que nessas eleições fala em dar
continuidade à proposta. O programa conta com ampla aprovação da população,
que, segundo uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (14) pelo
AtlasIntel/Bloomberg, é um acerto para 89% dos entrevistados.
Este
programa também esteve na mira dos cortes orçamentários do mandato de Jair
Bolsonaro, que em 2022 enviou ao congresso uma proposta que previa 59% de
redução nos recursos do Farmácia Popular. Em seu plano de governo, Flávio não
cita o programa social, mas no programa exibido no dia 12 de outubro, afirma
que o Farmácia Popular “continua, claro”.
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Metodologia
• Foram identificados os 14 vídeos
institucionais que integraram o guia eleitoral de TV para a corrida presencial
2026 do candidato Flávio Bolsonaro;
• As peças foram transcritas e analisadas
de acordo com a densidade de vocábulos utilizados;
• Conectores, artigos, preposições e
pronomes foram excluídos do levantamento;
• Variações de um mesmo termo, por gênero
ou número, foram unidos para melhor refletir o sentido do discurso exibido no
guia;
• A partir da lista das 106 palavras mais
recorrentes, a nuvem de palavras foi criada para representar as prioridades
discursivas.
Fonte:
Por Cecília Melo e, Lucas Bezerra, da Agência Pública

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