‘Dark
Horse da Shopee’: 2º filme sobre Bolsonaro teve convite a Vorcaro e é alvo da
Ancine
Um
segundo filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro guarda muitas
semelhanças com Dark Horse, produção que ficou famosa por ter recebido pelo
menos R$ 62 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e por ter colocado o
candidato à presidência Flávio Bolsonaro sob investigação da Polícia Federal.
Entidades ligadas ao documentário A Colisão dos Destinos, que estreou em maio
nos cinemas com salas vazias, também receberam emendas parlamentares de
deputados bolsonaristas — entre eles Mario Frias (PL-SP). Assim como Dark
Horse, o documentário está mencionado em mensagens do celular de Vorcaro, que
foi convidado a ver a obra em uma sessão particular junto com Flávio e Jair. A
diferença, no entanto, é o valor da produção.
Enquanto
a produção internacional teve custo declarado de R$ 75,1 milhões – valor maior
que grandes produções como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto -, A Colisão dos
Destinos teria gasto apenas R$ 4,5 mil, conforme declarou a produtora à Agência
Nacional de Cinema (Ancine).
Por
conta deste valor, considerado baixo pela agência para um longa-metragem, a
Ancine abriu uma diligência contra a produtora Dori Filmes, responsável pelo
documentário. O filme foi lançado simultaneamente em 17 estados, em maio deste
ano, e tem participações do ex-presidente e seus filhos, além de políticos
bolsonaristas.
Em um
documento obtido pela Agência Pública, a Ancine solicita que a Dori Filmes
confirme o valor do financiamento. “O valor informado não condiz com os custos
de uma obra audiovisual”, justificou a diligência. Em resposta, a produtora
alegou que não houve gastos com produção e finalização porque “todos os
técnicos trabalharam de forma voluntária, como parceiros da obra”, tratando-se
de um projeto “inteiramente sem dinheiro”.
Apesar
da alegação, a Dori Filmes e outra entidade audiovisual também ligada ao
diretor Doriel Francisco receberam R$ 860 mil em emendas parlamentares dos
deputados federais Mario Frias, Marcos Pollon (PL-MS) e do ex-deputado Eduardo
Bolsonaro, além de R$ 22 mil da cota parlamentar de Frias. Além disso, também
houve pagamentos de R$ 600 mil por meio do diretório do Partido Liberal e R$ 84
mil da ONG Academia Nacional de Cultura, comandada por Karina Gama, a produtora
de Dark Horse. O montante total recebido pelas entidades ligadas ao
documentário foi de R$ 1,5 milhão.
Os
recursos entraram no caixa das entidades ligadas ao documentário A Colisão dos
Destinos no período em que estava sendo produzido. Somente a Dori Filmes, de
propriedade de Francisco, ficou com R$ 106,4 mil desse total.
O
relatório da Ancine também aponta que o deputado federal Mário Frias ocupou a
função de produtor executivo do filme, cargo que é responsável pela gestão
financeira da produção. O documento cita ainda que o argumento do documentário
foi escrito por Frias em parceria com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que foi
cassado em 2025 e que atualmente vive nos Estados Unidos.
A
Pública foi ao endereço oficial da Dori Filmes, na zona rural de Sobradinho, no
Distrito Federal. Em vez de uma sede empresarial, a reportagem encontrou casas
simples e sem muro em um terreno de difícil acesso por estrada de terra. Não há
indícios físicos da produtora no local, e um vizinho afirmou desconhecer a
existência da empresa. Disse também nunca ter ouvido falar de Doriel Francisco.
Além da
diligência sobre o valor da obra, a Ancine também abriu uma investigação para
apurar os dados de exibição do documentário nos cinemas. A agência informou, em
resposta à Pública via Lei de Acesso à Informação, que a distribuidora de A
Colisão dos Destinos (função que foi exercida pela própria Dori Filmes) não
reportou quantas salas exibiram a obra e qual foi o tamanho do público. O envio
destas informações é obrigatório. A empresa foi notificada e está correndo o
prazo para enviar os dados de forma voluntária.
A
Colisão dos Destinos estreou em 14 de maio, em 56 salas de cinema que
permaneceram esvaziadas. O lançamento ocorreu um dia depois de O Intercept
Brasil revelar que o senador Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões ao
ex-banqueiro Daniel Vorcaro para produzir Dark Horse. Este valor, no entanto, é
superior aos R$ 75,1 milhões declarados pela produtora de Karina Gama à Ancine.
Por conta disso, o candidato à presidência é investigado por suspeita de
corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
Nos
bastidores da Ancine, A Colisão dos Destinos foi apelidada de “Dark Horse da
Shopee” por remeter a uma versão de baixo orçamento do longa de produção
internacional.
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Frias queria exibir filme a Vorcaro junto com Flávio e Jair Bolsonaro
A
Colisão dos Destinos também aparece nas conversas vazadas do celular de
Vorcaro, às quais a Pública teve acesso. Em 21 de março de 2025, Mario Frias
procurou o banqueiro às 7h25 da manhã. “Bom dia, irmão”, ele disse. Em seguida,
enviou um arquivo de vídeo com o trailer do documentário.
O
deputado disparou várias mensagens em sequência para Vorcaro:
“Quando
você quer assistir ao documentário? Aí no dia sala? Só me fala dia e hora
convida o Ciro kkkk [sic]. E bora assistir ‘A Colisão dos Destinos’. O único
documentário do mundo feito sobre o homem. Tmj”, escreveu. Vinte minutos
depois, Vorcaro respondeu apenas “Bom dia”.
Frias
continuou: “Só marcar. Tá pronto. Chama quem você quiser e me fala dia e hora,
irmão. Vc vai adorar o filme.” O banqueiro sinalizou que poderia “na outra
semana”, “pois a que vem não irei a bsb”, continuou. O deputado respondeu:
“Fechado”.
Em
outra conversa, de 27 de março de 2025, o empresário e lobista Thiago Miranda
diz a Vorcaro que Flávio Bolsonaro e Frias pediram para levar Jair Bolsonaro
para assistir ao documentário na casa de Vorcaro. “Flavio e Mario me pediram
isso. Querem levar o presidente na sua casa para assistirem juntos com vc o
documentário”, disse.
O
banqueiro mais uma vez foi sucinto: “Vamos marcar sim”. Miranda insistiu: “Me
passa duas opções de data que fica melhor pra você semana que vem?” Não fica
claro, pelas mensagens, se o encontro aconteceu. Na época, a assessoria de
Flávio negou que tenha ocorrido.
Na
pré-estreia do filme, o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara,
disse à CNN que o filme iria reforçar a campanha de Flávio à presidência da
República. “Eu vou fazer campanha com este documentário nos municípios do meu
estado para todos verem a história de um homem que admiramos.” O filho de
Bolsonaro teve 47% dos votos válidos no primeiro turno das eleições.
Nós
procuramos Doriel Francisco, Dori Filmes, Mario Frias, Marcos Pollon e Eduardo
Bolsonaro, mas não obtivemos resposta até a sua publicação. O espaço permanece
aberto.
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Dinheiro de ONG ligada a Dark Horse
A
Colisão dos Destinos também tem relação com a ONG Academia Nacional de Cultura,
comandada por Karina Gama, a produtora de Dark Horse. A ONG fez um repasse de
R$ 84 mil para a Dori Filmes entre 2025 e 2026. A informação consta de um
relatório da Polícia Federal, revelado pela Folha de S.Paulo, no contexto das
investigações sobre o Dark Horse. Até o momento, a produtora não se manifestou
sobre o motivo do pagamento.
Em
2024, ano em que A Colisão dos Destinos foi rodado, Mário Frias repassou R$
22,4 mil de sua cota parlamentar à Dori Filmes por serviços de divulgação do
mandato, como revelado por O Globo. Segundo as notas fiscais apresentadas à
Câmara, com valores entre R$ 3,5 mil e R$ 7 mil, a produtora teria
confeccionado folders e vídeos sobre a atuação do deputado.
Ainda
naquele ano, Frias também destinou uma emenda parlamentar de R$ 180 mil, via
Ministério da Cultura, para a ONG Passos da Liberdade. O diretor Doriel
Francisco integra a presidência da entidade como primeiro secretário e é
coautor de outras obras audiovisuais da organização.
A
Passos da Liberdade ainda recebeu verbas de emendas de Eduardo Bolsonaro,
enquanto ainda tinha mandato, e do deputado Marcos Pollon, nos valores de R$
500 mil e R$ 180,9 mil, respectivamente. Na época, os deputados disseram que o
dinheiro seria para o financiamento do documentário Nós (anteriormente chamado
de Genocidas), sobre regimes autoritários comunistas. Doriel Francisco é
creditado como co-roteirista do filme. As emendas passaram a ser descritas no
site da ONG depois de reportagem do UOL.
O
diretório do PL também enviou R$ 600 mil do fundo partidário para a Passos da
Liberdade sob a justificativa de “prestação de serviços de assessoria de
comunicação e de produção audiovisual” em Minas Gerais. À Folha, a organização
confirmou o contrato com o PL para “prestação de serviços de comunicação
institucional”.
Com
sede em Porto Alegre, a ONG é presidida por Rodrigo Cassol Lima, que foi o
número dois da Secretaria Nacional de Desenvolvimento Cultural durante o
governo Bolsonaro. Na época, o órgão era subordinado à Secretaria Especial de
Cultura, chefiada por Mário Frias. O filme Nós é dirigido por outro ex-membro
do governo Bolsonaro: Gustavo Lopes, que foi secretário nacional de
Audiovisual.
Em
resposta à Pública, a Passos da Liberdade disse que não teve participação
financeira e nem envolvimento com a produção de A Colisão dos Destinos. A
organização também disse que o documentário Nós deve ser lançado em streaming
em novembro e que o contrato com o PL é de natureza institucional. Leia a
íntegra.
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Prestação de serviços em campanhas bolsonaristas
Após a
estreia de A Colisão dos Destinos, a Dori Filmes foi contratada por duas
campanhas bolsonaristas nas eleições deste ano para produção de vídeos. A
vereadora de São Luís, Flávia Bethier (PL-MA), que se autointitula “a
bolsonarista do Maranhão” e é presidente do PL Mulher no estado, pagou R$ 30
mil pelos serviços da Dori e mais R$ 19.700 para a Star City, empresa da qual
Doriel se tornou sócio em junho deste ano. Ela concorreu a uma vaga como
deputada federal e passou como suplente.
Entre
junho e julho, Berthier patrocinou uma caravana que levou exibições gratuitas
do filme a São Luís e mais de 20 cidades do interior do Maranhão. Flávio
Bolsonaro gravou um vídeo agradecendo a política pela iniciativa. “Bora
resgatar o Brasil começando pelo Maranhão”, diz ele. Também houve apresentações
em cidades de Pernambuco.
Outro
candidato que contratou o diretor do documentário de Bolsonaro para prestar
serviços para sua campanha, por R$ 20 mil, foi Vilmar Vigo, conhecido como
“Bolsonaro da Shopee” por se parecer fisicamente com o ex-presidente. Vigo
concorreu à Câmara Federal pelo Mato Grosso, mas não se elegeu.
Doriel
Francisco entrou como sócio em duas empresas – a Star City Mídia e Capital
Facilities Gestão Administrativa e Imobiliária – em junho deste ano, pouco
antes do período eleitoral. Ele se tornou sócio de Deuselis Braga André Filho,
lotado como assessor parlamentar do senador Izalci Lucas (PL).
Deuselis
é dono de páginas nas redes sociais que reúnem influenciadores de direita e faz
campanha para Flávio Bolsonaro. Ele também comanda páginas que agrupam atos
conservadores pelo Brasil e organiza protestos de direita. Mais recentemente,
organizou uma motocarreata em Brasília. O próprio candidato gravou um vídeo, ao
lado de Deuselis, chamando para o ato.
A
página de Deuselis nas redes sociais, chamada “Influenciadores de Direita”, é
mencionada como “parceira” na produção de A Colisão dos Destinos, junto com uma
agência de marketing político de Brasília de pequeno porte. Berthier e Deuselis
não responderam ao pedido de entrevista.
O
documentário A Colisão dos Destinos exibe a “história não contada” do
ex-presidente preso por tentativa de golpe de Estado, retratado como uma figura
simples que foi escolhida por Deus para comandar o país. As filmagens
aconteceram antes de ele ser condenado por tentativa de golpe de Estado e
proibido de dar entrevistas.
Fonte:
Por Amanda Audi - Colaboração: Duda Sousa, Nicolas Aquino, em Agência Pública

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