O
impacto ambiental oculto da IA
No
começo de maio a Google anunciou que adicionaria inteligência artificial (IA) à
sua ferramenta de busca. Quando o novo recurso foi lançado, o AI Overviews começou a oferecer
tópicos no topo das consultas, queira você ou não — a chegada deles veio graças
a um custo invisível. Cada vez que você procura por algo como “quantas pedras
eu devo comer” e a IA “instantânea” do Google te diz que “pelo menos uma pequena
pedra por dia”, você está consumindo aproximadamente três watts-hora de
eletricidade, de acordo com Alex De Vries, fundador da Digiconomist, uma
companhia de pesquisa que investiga as consequências não intencionais de
tendências digitais. Isso equivale a dez vezes mais energia do que a consumida
pela busca tradicional do Google, que é aproximadamente a mesma quantidade
utilizada em uma conversa de uma hora em um telefone doméstico (lembra
deles?).
De
Vries calcula que adicionar as respostas geradas por IA a todas as buscas do
Google poderia facilmente consumir, coletivamente, tanta eletricidade quanto um
país como a Irlanda. Ao contrário de seus chatbots, as companhias por trás
desses avanços são bem menos solícitas quando pedimos que compartilhem
informações. Mesmo que pesquisadores como De Vries possam fazer estimativas
embasadas, a falta de transparência industrial faz com que ainda seja
surpreendentemente difícil expressar em números exatos quanta energia e água a
IA chega a utilizar. Mesmo assim, a demanda está escalonando, tendo em vista
que a tecnologia está incorporada a tudo, do sistema operacional do seu iPhone
até a forma como sua seguradora do carro calcula taxas. Se a adoção em massa da
inteligência artificial transformou a vida digital praticamente do dia para a
noite, a regulação dos seus impactos físicos não seguiu o mesmo ritmo. Agências
federais como a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, cuja
tarefa é coletar informações sobre o uso de energia de indústrias, não estão
registrando a demanda dos data centers que tornam as IA possíveis —
apesar do disparo no consumo do setor. “Não há nenhuma obrigação de divulgar
informações sobre a quantidade de energia ou recursos que os sistemas de IA em
geral utilizam”, afirma Merve Hickok, presidente e pesquisador diretor do
Centro de IA e Política Digital, uma organização de pesquisa sem fins
lucrativos. Quando jornalistas fazem pedidos para obter essas informações, os
registros geralmente vêm com trechos ocultados. Todo esse sigilo limita a
capacidade das empresas de serviços públicos e dos órgãos reguladores de
compreender como essas demandas estão mudando. Isso é um problema porque os
data centers estão ultrapassando rapidamente a capacidade da rede
elétrica, fazendo uso ainda de fontes de energias poluentes, como usinas de
carvão. Companhias de tecnologia também têm um longo histórico de negociação de
tarifas especiais e descontos pelo seu uso massivo de energia — ou seja, em
muitos casos, são consumidores como você que subsidiam o consumo de energia não
divulgado dos centros de dados.
Além de
energia, essas instalações sugam imensas quantias de água para esfriar seus
servidores, e, geralmente, escolhem fincar suas presas em lugares que a terra é
barata — tais como desertos. Poucos operadores divulgam quanta água utilizam,
embora um quinto dos servidores obtenha água “de bacias hidrográficas com
níveis de estresse moderado a alto”. Globalmente, um artigo estima, a demanda
por água dos data centers chegaria, nos próximos anos, à metade do que o Reino
Unido consome. Apesar das questões sobre o impacto dos data centers ganharem
relevância na atenção pública, as companhias têm expandido as restrições sobre
o que elas compartilham ou não a respeito de suas operações. Em uma
resposta escrita endereçada para nós, um porta-voz do Google disse que desde
que a IA generativa foi introduzida no mecanismo de busca, os custos
computacionais tiveram uma queda de 80%. Afirma que, com base em dados
internos, a análise de De Vries “superestima os valores” e que seus sistemas
são muito mais eficientes.
<><>
Todos pagam o custo secreto das IAs
Em
dezembro do ano passado, Stephen Ward subiu ao púlpito numa audiência pública
no Condado de Prince William, na Virgínia. Na ocasião, o Conselheiro dos
Supervisores considerava a aprovação de uma dos maiores projetos de data
centers do mundo. Ele entrou na fila antes do amanhecer para conseguir uma
senha e passou cinco horas esperando no saguão até finalmente ter a
oportunidade de falar. Nos anos 1970, Ward foi economista na Agência de
Proteção Ambiental, onde ele prestava assessoria a formuladores de política
públicas sobre regulamentações de resíduos perigosos, antes de se tornar
diretor de investimentos da Charles Schwab Investment Management na década de
1990. “Estou acostumado a tomar decisões de investimento de vários bilhões de
dólares”, disse ele ao conselho. “A magnitude não deveria isentar ninguém de
fornecer informações detalhadas; quanto maior o investimento, mais
pormenorizadas deveriam ser as informações sobre ele.” O projeto PWC
Digital Gateway propôs a instalação de até trinta e sete novos datacenters na
área rural, ocupando mais de 800 hectares de terra (o que equivale a cerca de
1100 campos de futebol). Esses imensos armazéns abrigam dezenas de milhares de
servidores, os quais geralmente são empilhados em torres verticais de racks.
Quando você conversa com qualquer bot de IA sobre uma encomenda extraviada, sua
consulta é enviada para um desses servidores. Um hardware de alto desempenho
processa sua questão em um programa de computador que toma decisões de um jeito
similar ao cérebro humano. Essa rede neural, como costumam chamar, recorre a um
modelo de linguagem treinado em grande escala antes de enviar a resposta gerada
de volta ao seu dispositivo. Esse processo geralmente requer o fornecimento de
energia constante durante 24 horas por dia, algo que para as concessionárias
dificulta ainda mais o trabalho de gerenciamento. Além disso, estas instalações
requerem equipamento elétrico de alta capacidade como transformadores,
disjuntores e, muitas vezes, novas subestações para se conectar às linhas de
transmissão. Toda essa energia gera muito calor, motivo pelo qual diversos
sistemas complexos de trocadores de calor e equipamentos de refrigeração se
entremeiam no centro dos corredores dos data centers.
Atualmente,
a Virgínia do Norte possui o maior mercado de data centers do mundo. Ela é o
lar de companhias como Amazon Web Services, Google Cloud e Microsoft Azure. É o
capítulo mais recente da longa história da região com a indústria tecnológica:
a própria internet nasceu em Arlington, em 1969, quando um projeto militar
originalmente concebido para interligar universidades foi ativado. Nas décadas
seguintes, foi instalada uma profusão de cabos de fibras óticas, proporcionando
uma conectividade de alta velocidade bastante atrativa. Na década de 1990, isso
levou as primeiras empresas ponto-com, como a AOL — cujo zumbido característico
da conexão discada já foi onipresente para quem estava on-line — a se
instalarem ali. Ano passado, a sede abandonada da empresa de tecnologia foi
demolida para dar lugar a mais data centers. À medida que surgem cada vez
mais propriedades voltadas para abrigar servidores, a maior concessionária de
energia do estado, a Dominion Energy, tem se desdobrado para acompanhar esse
crescimento. Críticos afirmam que apenas o projeto Digital Gateway exigirá pelo
menos três gigawatts de eletricidade, o equivalente à demanda de energia de 750
mil residências. “De onde virá toda essa energia?”, perguntou Ward ao Conselho
de Supervisores.
É uma
pergunta que a PJM Interconnection, organização regional de transmissão que
abrange 13 estados e o Distrito de Columbia, também tem feito. A entidade, que
coordena o fluxo de eletricidade no mercado atacadista em partes do leste dos
Estados Unidos, aprovou recentemente um conjunto de projetos de transmissão no
valor de US$ 5,1 bilhões, destinados principalmente a levar mais energia aos
data centers da Virgínia. “O problema é que esses custos serão
distribuídos entre os diferentes estados que integram a rede”, afirma David
Lapp, do Conselho de Moradores de Maryland, um órgão independente do estado de
Maryland que defende os consumidores residenciais de serviços de energia. O
aumento na capacidade de transmissão supera o consumo da maior concessionária
de energia de Maryland em seus horários de pico atuais. “A escala, o alcance e
o custo dos projetos do projeto [Digital Gateway] são sem precedentes”,
escreveu Lapp ao Conselho de Administração da PJM antes de argumentar, junto
aos reguladores federais de energia, que a PJM havia distribuído injustamente
os custos para Maryland. A Comissão Federal Reguladora de Energia rejeitou seu
pedido em maio, fazendo Maryland arcar com US$ 551 milhões. Esse cenário
é comum. Em Indiana, por exemplo, os reguladores do setor elétrico aprovaram
recentemente um novo campus de data centers de US$ 800 milhões da Meta
Platforms, Inc., proprietária do Facebook e de outros serviços de mídia social.
A tarifa, negociada em sigilo para o fornecimento de energia da instalação, foi
suprimida dos documentos públicos, mas foi divulgado que a infraestrutura
necessária para conectá-la à rede custará US$ 82 milhões.
A
Secretaria de Defesa dos Consumidores de Serviços Públicos permitiu que esses
custos fossem repassados aos consumidores, sob o argumento de que o
empreendimento traria investimentos de capital para a região. Os data centers,
no entanto, não geram muitos empregos locais. Ainda assim, a instalação de
Indiana será duplamente subsidiada, pois também receberá do estado uma isenção
de imposto sobre vendas por 35 anos. Assim como as empresas de financiamento
imobiliário lucram com os juros, algo que as incentiva a conceder mais
financiamentos, as concessionárias de energia lucram ao investir em
infraestrutura. Isso porque as regulamentações permitem que essas empresas
obtenham retorno sobre seus investimentos em melhorias como novas linhas de
transmissão. Em outras palavras, as concessionárias também lucram ao repassar
os custos dos data centers para o público. De fato, a apresentação mais recente
da Dominion para investidores comemorava o “crescimento robusto na base de
ativos regulados” e projetava um aumento impressionante de 8.500 megawatts na
demanda. Esse arranjo envia às indústrias um sinal de preço errado, Lapp
argumenta. Se as empresas de tecnologias pagassem a carga integral por seu uso
de energia, elas seriam incentivadas a encontrar maneiras de reduzir o uso. Ao
invés disso, muitas vão numa direção oposta: apesar dos objetivos de tornar-se
livre do uso de fontes de carbono até 2030, as emissões da Microsoft tiveram um
salto de 30% em 2023, graças aos seus investimentos recentes em IA.
Ao
todo, a inteligência artificial poderá representar cerca de 9% da demanda total
de energia do país até o final da década, constata um novo relatório do
Instituto de Pesquisa de Energia Elétrica (EPRI). Outras estimativas sugerem
que a demanda global de energia para data centers poderá dobrar até 2026,
enquanto algumas concessionárias de energia, como as do Arizona e de
Washington, podem registrar um crescimento de até 10% na demanda. Essa
fome insaciável dos data center por eletricidade está retardando a transição à
energia verde. Quando o proprietário de duas usinas termelétricas a carvão em
Maryland apresentou planos para fechá-las no ano passado, a PJM solicitou que
elas continuassem operando até pelo menos 2028 para garantir a estabilidade da
rede. Além disso, a inteligência artificial também está sendo usada para
aumentar ativamente a produção de combustíveis fósseis. A Shell, por exemplo,
tem implantado IA agressivamente para encontrar e produzir petróleo em águas
profundas. . Mesmo antes da integração com a IA do Google nesta primavera,
a média da atividade digital do usuário gera 229 quilos de dióxido de carbono
por ano. Isso significa que o uso atual da internet no mundo já representa
cerca de 40% do orçamento de carbono per capita necessário para manter o
aquecimento global abaixo de 1,5 graus Celsius. Na ausência de monitoramento e
regulação, o setor continua a crescer sem controle. De volta ao Condado de
Prince William, a audiência pública se prolongou, tendo em vista os mais de 350
depoentes. No lado de fora, as estrelas piscavam e desvaneciam em um amanhecer
manso. Finalmente, vinte e sete horas depois do início da reunião, o conselho
declarou seu voto final, decidindo pela permissão ao projeto Digital Gateway
para ir adiante.
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As agências reguladores não conseguem acompanhar o ritmo
Há
muitas questões urgentes para lidar a respeito do crescimento vertiginoso da
IA, mas os governos têm agido muito devagar. Em setembro, o líder da maioria no
senado, o democrata de Nova York Chuck Schumer, convocou a primeira reunião, de
uma série de encontros a portas fechadas, com líderes do setor de IA para
discutir o futuro da indústria. Defensores da justiça digital, como Grant
Fergusson, bolsista do programa Equal Justice Works no Electronic Privacy
Information Center, afirmam que essas reuniões são exemplos claros do poder que
os representantes da indústria exercem na formulação de políticas para a IA.
“Os impactos ambientais não foram abordados”, afirma Fergusson. Ele acrescenta
que questões importantes conectadas aos direitos civis só foram incluídas
tardiamente nas discussões do Senado, após pressão de grupos da sociedade
civil. “Como era de se esperar, esse processo moldado sob medida pelos
interesses da indústria levou o Senado a um resultado favorável ao próprio
setor”, apontou uma coalizão formada por 52 organizações de defesa de direitos
e pesquisa. Não é uma coincidência: um relatório da organização independente
Public Citizen revelou que o número de lobistas envolvidos em questões
relacionadas à IA disparou em 2023, com um aumento de 120%. A grande maioria
representava interesses empresariais. Entre eles, 60 trabalhavam para a
Microsoft, enquanto a Amazon contratou outros 35. No ano passado, Amazon,
Alphabet (controladora do Google), Meta e Microsoft gastaram, cada uma, mais de
10 milhões de dólares em lobby para defender seus interesses. Até agora, grande
parte do debate sobre os riscos da inteligência artificial tem se concentrado
em cenários exagerados, típicos da ficção científica, como chatbots que
desenvolvem consciência ou o surgimento de uma inteligência artificial geral.
Segundo McBrien, a indústria gosta de dar destaque a essas preocupações porque
“os riscos futuros mais dramáticos desviam a atenção de suas práticas
comerciais atuais”. No outono passado, o então presidente dos Estados
Unidos, Joe Biden, assinou uma ordem executiva determinando que o Instituto
Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST), órgão responsável por desenvolver
padrões e diretrizes para diversos setores, estabelecesse novas normas para a
IA. Para orientar esse trabalho, o instituto criou o Consórcio do Instituto de
Segurança em Inteligência Artificial, que recentemente promoveu reuniões a
portas fechadas para discutir os riscos dessas tecnologias. Em um desses
encontros, representantes do setor privado se opuseram à inclusão do consumo de
energia na proposta de diretrizes do órgão, segundo um participante que
preferiu não se identificar por não ter autorização de sua organização para
falar sobre o assunto. A proposta prevê a avaliação dos impactos ambientais e medidas
para combater o greenwashing, ou seja, a divulgação de alegações
ambientais enganosas para transmitir uma imagem de sustentabilidade.
Ainda
que os impactos ambientais da IA sejam discutidos a portas fechadas, a pressão
exercida pelas empresas de tecnologia por meio de lobistas têm impedido que
essas questões sejam contempladas na legislação estadual e federal. Questionado
sobre a sustentabilidade do setor, um representante do Instituto Nacional de
Parâmetros e Tecnologia afirmou que “nossos especialistas em IA estão
sobrecarregados” e acrescentou que o órgão não tinha “ninguém com esse tipo de
especialização” disponível para conceder a entrevista. Para Fergusson, a falta
de transparência nessas discussões é parte do problema. “Os impactos ambientais
são alvo de debates intensos na elaboração dessas normas para a IA, mas quase
nunca aparecem nas propostas legislativas que temos visto nos âmbitos estadual
e federal. Isso se deve, em parte, à forte pressão exercida pelas empresas de
tecnologia por meio de seus lobistas.” A Administração de Informação Energética
dos Estados Unidos (EIA), órgão que analisa dados sobre energia e que, provavelmente,
seria responsável por monitorar o consumo energético da IA caso os reguladores
adotassem essa recomendação, também não calcula o consumo de energia dos data
centers. Segundo um porta-voz da instituição, a última pesquisa sobre o consumo
de energia de edifícios comerciais, realizada em 2018, não conseguiu
identificar separadamente o consumo dos data centers, em parte porque poucas
empresas participaram do levantamento. A falta de dados dificulta tanto a
compreensão do problema pela população quanto a atuação dos órgãos reguladores
para enfrentá-lo, afirma o senador democrata Edward Markey, de Massachusetts.
Em fevereiro, ele apresentou um projeto de lei para estabelecer, minimamente,
diretrizes voluntárias para a divulgação dos impactos ambientais da IA.
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Uma equação perigosa
Enquanto
isso, cresce a resistência à expansão dos data centers — e não apenas entre
grupos progressistas. Estados tradicionalmente favoráveis à instalação de novos
empreendimentos, como a Carolina do Sul, já discutem leis para impedir que
esses centros recebam condições privilegiadas das concessionárias de energia.
Há anos, empresas como a Amazon usam sua influência para conseguir vantagens
junto às concessionárias. Na Virgínia, por exemplo, a empresa conseguiu
repassar aos consumidores de energia os US$ 170 milhões necessários para
enterrar linhas de transmissão ligadas a um de seus data centers. Recentemente,
a Amazon também negociou com a comissão de serviços públicos de Ohio uma tarifa
de energia mais baixa para abastecer seus data centers, que devem consumir
enormes quantidades de eletricidade nos próximos dez anos. Os termos do acordo
não foram divulgados, graças a um compromisso firmado em 2017 para manter em
sigilo um desconto concedido anteriormente à empresa. Estima-se, porém, que o
novo acordo transfira cerca de US$ 135 milhões por ano em custos para os demais
clientes da concessionária.
Segundo
estimativas de analistas do Goldman Sachs, as empresas de energia dos Estados
Unidos precisarão investir US$ 50 bilhões para ampliar a geração de
eletricidade e atender à demanda dos data centers. Esse investimento pode
resultar em aumentos expressivos nas contas de luz dos consumidores. Na
primavera deste ano, o Departamento de Energia dos Estados Unidos tentou
obrigar que pelo menos as empresas de mineração de criptomoedas informassem
quanto consomem de energia. A iniciativa, porém, foi barrada por um juiz do
Texas, que suspendeu temporariamente a medida por meio de uma ordem judicial. A
posição do Texas, no entanto, pode estar indo em outra direção. Em junho, o
presidente do Conselho de Confiabilidade Elétrica do Texas (ERCOT), responsável
pela operação da rede elétrica estadual, afirmou que a infraestrutura
energética do estado precisará dobrar de capacidade na próxima década para dar
conta da demanda dos data centers e da mineração de criptomoedas. Em resposta,
o vice-governador sinalizou que pretende examinar mais de perto essas
“indústrias de nicho, que consomem enormes quantidades de energia e geram
poucos empregos”.
Até
insiders do setor reconhecem que não é possível continuar como está. “As
empresas de IA têm fortes incentivos financeiros para evitar uma fiscalização
efetiva”, escreveram ex-funcionários da OpenAI em uma carta aberta publicada
recentemente. “Não acreditamos que estruturas de governança corporativa, feitas
sob medida, sejam suficientes para mudar esse cenário”. Eles também afirmam que
não se pode confiar na disposição dessas empresas de divulgar informações
voluntariamente e defendem a criação de mecanismos independentes de regulação.
Como
qualquer tecnologia, a IA pode ser usada tanto para fins positivos quanto
negativos. A Microsoft, por exemplo, afirma que ela pode contribuir para
descobrir e desenvolver soluções climáticas, como formas mais eficientes de
gerar energia renovável e novos materiais para capturar carbono. A empresa
também está trabalhando com o Google para agregar a demanda das duas companhias
por energia renovável. O Google, por sua vez, se comprometeu a zerar as
emissões líquidas de suas operações até 2030. No entanto, a enorme demanda de
energia do setor de tecnologia também está dificultando o cumprimento de metas
estaduais de transição para fontes de energia limpa. Alguns especialistas, como Rob Gramlich,
diretor da Grid Strategies, consultoria especializada no setor elétrico,
argumentam que não cabe às concessionárias decidir se a energia está sendo
usada de maneira responsável. “A maioria das leis estaduais e das políticas
para o setor elétrico parte da obrigação de fornecer energia”, explica
Gramlich. “Isso significa que as concessionárias devem atender a todos os
clientes, independentemente da finalidade do consumo.” Esse é, na verdade, um
dos principais argumentos a favor da criação de mecanismos como um imposto
sobre o carbono, que atribuiria um custo às emissões e ajudaria a incorporar ao
preço da energia os impactos reais de seu uso. Ao passo que os estados começam
a reconsiderar o quanto estão dispostos a acolher data centers, os impactos
negativos da IA vêm sendo cada vez mais transferidos para países do Sul Global,
onde as empresas podem se beneficiar de tarifas mais baixas de eletricidade e
água.
Para
Brian Chen, diretor de políticas públicas da organização sem fins lucrativos
Data & Society, é difícil dimensionar os danos concretos causados pela IA
porque “as empresas de tecnologia ocultam as consequências desses sistemas, e a
maioria das pessoas nem pensa nelas”. A América Latina, por exemplo, vive uma
onda de expansão dos data centers, como é o caso dos arredores da Cidade do
México, que enfrenta uma grave crise hídrica e se aproxima de um cenário em
que, num futuro não muito distante, as torneiras podem secar. “Também
precisamos questionar quem arca com os impactos mais pesados”, afirma Boxi Wu,
pesquisador de pós-graduação no Instituto de Internet de Oxford. Para Wu, é
preciso examinar toda a cadeia produtiva da IA, desde a extração dos minerais
de terras raras necessários à infraestrutura até o lixo eletrônico gerado pela
rápida evolução dos chips. Em um artigo publicado recentemente, Wu mostra como
as desigualdades econômicas e políticas na produção de IA reproduzem relações
de poder herdadas do colonialismo. A extração de minerais, frequentemente
marcada pela exploração e pela poluição, ocorre sobretudo em regiões como a
China, a África e a América Latina, enquanto os produtos finais são consumidos
nos Estados Unidos e na Europa. Ninguém gosta de pensar que seus hábitos de uso
da internet podem estar privando outras pessoas do acesso à água potável. Ao
receber a conta de luz, nem sempre é fácil perceber a relação entre o anúncio
mais recente da Apple sobre IA e o aumento da tarifa de energia. Além disso, as
empresas de tecnologia estão gastando muito dinheiro para tornar ainda mais
difícil a identificação dessa relação.
Na
Virgínia, enquanto dirige pelo bairro onde mora, Ward vê terrenos sendo
desmatados. As árvores são derrubadas e só restam os tocos. Ele se lembra de
quando visitou, ainda criança, o histórico Parque Nacional do Campo de Batalha
de Manassas, onde ocorreram combates durante a Guerra Civil americana. Na
época, tentava imaginar como teria sido a vida daqueles que lutaram naqueles
campos. Em breve, enormes edifícios de quatro andares vão se erguer sobre a
paisagem do parque histórico. Mas o que mais preocupa Ward são as consequências
para os recursos hídricos da região. Segundo ele, o projeto Digital Gateway
recebeu “carta branca”: não precisará informar quanto de água subterrânea
consome e não terá limite para a captação. Além disso, a vasta expansão das áreas
pavimentadas fará com que mais água da chuva escorra pela superfície, em vez de
penetrar no solo e abastecer os aquíferos dos quais o condado depende. As
pessoas não percebem que, quando a água subterrânea acaba, não há outra fonte
para substituí-la. “Elas não vivem em contato com a natureza”, diz Ward.
“Vivemos em um mundo em que há um cano na parede, a água sai da torneira e
ninguém faz ideia de onde ela vem.”
E
conclui: “Mas, quando acaba, acabou.”
Fonte:
Por Lois Parshley - Tradução Natanael Alencar

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