quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A resposta racista e descontrolada aos protestos nas escolas francesas

Após os protestos e tumultos que varreram a França neste fim de semana, na sequência da escalada do movimento social desencadeado por ocupações de estudantes do ensino médio, a direita internacional respondeu com uma narrativa abertamente racista. Eles retratam os protestos como obra de invasores muçulmanos, numa aliança traiçoeira com grupos de esquerda criados artificialmente, que estariam trabalhando para incendiar o país.

“A França está em chamas!”, reagiu Donald Trump. “A imigração de pessoas de um mundo completamente diferente, pessoas com ódio no coração, destruiu aquele país que um dia foi grandioso. Fechem suas fronteiras e assumam o controle, antes que seja tarde demais!”

“Os liberais ocidentais importaram o Terceiro Mundo para a França e outros países em nome da diversidade e da compaixão. Ignoraram questões fundamentais de assimilação e compatibilidade. Foram avisado que isso levaria à situação atual, mas não deram ouvidos”, publicou o vice-presidente de Trump, JD Vance, em reação a um vídeo do campanário da prefeitura de Limoges em chamas. “Rezo para que a França, um país lindo com pessoas incríveis, pare com essa loucura antes que mais de seus monumentos sejam consumidos pelo fogo. E espero que os estadunidenses estejam prestando atenção. Este é o futuro que os democratas do Congresso desejam para o seu país.”

A narrativa ignora todas as reivindicações populares, incluindo o custo de vida exorbitante na França, um sistema educacional precário e a legítima indignação com a violência brutal perpetrada pela polícia contra estudantes do ensino médio no início do mês. Desde o início do movimento, substituir essas preocupações por uma retórica racista e alheia à realidade tem sido a linha oficial adotada pela reação internacional.

“O que está acontecendo na França nada mais é do que uma migração em massa fora de controle”, publicou Trump em uma conta oficial do governo da Casa Branca no início deste mês, quando o movimento começou a ganhar destaque na mídia internacional. “Não se trata de escolas, mas sim do Islã querendo dominar um país que já foi grande!”

“A Europa abriu suas fronteiras e falhou em confrontar o islamismo radical”, comentou o senador do Texas, Ted Cruz, na época. “AOC, Mamdani, El-Sayed e Talarico querem nos levar nessa direção.”

“Precisamos reconhecer que os protestos pró-Palestina são, fundamentalmente, protestos contra o Ocidente, e suas ambições são muito maiores do que erradicar Israel do rio ao mar”, declarou o bilionário do ramo de fundos de hedge, Bill Ackman, em resposta à presidente de um think tank de Berlim, que descreveu um vídeo de manifestantes cantando “Somos todos filhos de Gaza” como o início de uma “Revolução Islâmica na Europa”.

“No Irã, foram necessários aproximadamente dois anos para passar desse estágio para o caos completo e o estabelecimento da República Islâmica”, escreveu a presidente do Instituto Zera, Maral Salmassi. “Vimos o mesmo simbolismo, as mesmas bandeiras e ouvimos exatamente os mesmos slogans. Preparem-se.”

A Fox News ecoou e reforçou esse tema desde o início, publicando uma reportagem em 9 de outubro que tentava deslegitimar o movimento estudantil, retratando-o como uma conspiração global entre comunistas e muçulmanos.

“Uma rede transnacional de 50 grupos se mobiliza em torno dos protestos estudantis, sendo que apenas 1/3 deles são compostos por jovens”, dizia o subtítulo sensacionalista da matéria, que afirmava ter descoberto uma operação global de “organizações comunistas e socialistas de extrema esquerda” que estariam usando os “protestos estudantis acalorados” para promover uma “agenda política e ideológica”.

Os racistas histéricos da França, apoiados por organizações de mídia estadunidenses de extrema direita dedicadas a disseminar propaganda racista, também se manifestaram desde o início.

“É preciso ser cego para não ver o que está acontecendo aqui”, disse Thaïs d’Escufon, ex-porta-voz do extinto grupo nacionalista branco francês Génération identitaire, à apresentadora Chanel Rion, da One America News, descrevendo os protestos estudantis como “tumultos étnicos”.

“Eles só mostram imagens dos estudantes da burguesia, do centro de Paris, mas na verdade a maioria dos protestos vem de cidades ou áreas com muita substituição racial”, explicou d’Escufon, usando “substituídas” para se referir a áreas com uma porcentagem menor de brancos.

“É difícil ver essas imagens… Você olha para isso e não parece Paris”, disse Rion, emocionado, após mostrar imagens aéreas de uma multidão anônima de manifestantes na Place de la Nation, em Paris, depois de uma marcha. “Parece Mogadíscio… E, no entanto, você viu a foto que a BBC usou. Eles fazem parecer que são apenas estudantes franceses nativos chateados com a falta de quadros-negros.”

A reportagem da Fox também corroborou a ideia de que a mídia suavizou o movimento ao retratá-lo como “estudantes protestando contra a deterioração das condições escolares”.

Na realidade, afirmou Fox, o movimento “é… parte de uma extensa infraestrutura de sindicatos, ativistas comunistas, partidos políticos de extrema esquerda e organizações de mídia internacionais… [que] estão organizando manifestações, convocando greves, mobilizando apoiadores e transmitindo os distúrbios ao redor do mundo”.

A reportagem da Fox argumenta que apenas quinze das cinquenta organizações envolvidas no movimento são grupos estudantis de fato, e entre esses grupos estão movimentos juvenis comunistas e uma associação de estudantes muçulmanos.

Destacando as organizações comunistas e muçulmanas, Fox conclui que existe uma “aliança ‘vermelha-verde’ entre esquerdistas e muçulmanos”.

“Os comunistas vermelhos e os muçulmanos verdes não têm nada em comum, a não ser o mesmo inimigo: o Ocidente judaico-cristão, capitalista e livre, liderado pelos EUA”, disse Mike Gonzalez, pesquisador sênior da Heritage Foundation, à Fox. “O objetivo deles é nos desmantelar.”

O fascista britânico Tommy Robinson atacou o movimento por motivos semelhantes.

“A mensagem ecoa uma narrativa perniciosa na mídia francesa que busca retratar qualquer forma de organização política por parte de muçulmanos franceses como um evidente cavalo de Troia para o islamismo.”

“Os ‘estudantes franceses’ estão destruindo Paris novamente neste momento”, brincou ele na semana passada, enquanto um vídeo da polícia francesa correndo ao lado de um carro em chamas era exibido.

Na última quarta-feira, Robinson atacou Bally Bagayoko, prefeito de Saint-Denis pelo partido France Insoumise, em uma postagem com um link para um vídeo de Bagayoko anunciando uma restrição à venda de bebidas alcoólicas nos arredores da estação ferroviária da cidade entre 19h e 6h.

“Bally Bagayoko fez história em março de 2026 ao se tornar o primeiro prefeito negro e muçulmano de Saint-Denis”, escreveu Robinson. “Juntou-se aos protestos contra os invasores na semana passada. Hoje, anunciou a proibição do álcool. Acordem, França!”

<><> Um Cavalo de Al-Tróia

Amensagem ecoa uma narrativa perniciosa na mídia francesa que busca retratar qualquer forma organização política por parte de muçulmanos franceses como um evidente cavalo de Troia para o islamismo.

“Por trás das reivindicações sobre a situação precária das escolas de ensino médio, a organização Étudiants musulmans de France (EMF) e seus aliados intensificam sua luta contra a ‘islamofobia de Estado’”, diz um subtítulo de uma reportagem do Le Point, alegando que “redes islâmicas” estão tentando amplificar o movimento. O artigo cita uma organização estudantil muçulmana que, segundo ele, um relatório governamental do ano passado identificou como o braço jovem da Irmandade Muçulmana.

O artigo acusa organizações como a EMF de “cooptar” os protestos e afirma que as publicações da organização “dizem muito” sobre sua estratégia.

Um dos exemplos disso, datado do início do mês, é uma declaração em apoio à luta dos estudantes do ensino médio “por um ambiente de aprendizagem decente e digno”. A declaração da EMF se opõe à austeridade governamental nos serviços públicos, incluindo as universidades; a uma lei que aumenta as taxas para estudantes estrangeiros; a medidas governamentais que cancelam os subsídios de aluguel para estudantes estrangeiros; a “parcerias universitárias com empresas genocidas e ecocidas”; ao sistema seletivo e “racista” de admissão nas universidades; e à repressão governamental aos protestos.

Le Point também aponta para a AJ+, o braço de mídia social da Al Jazeera financiado pelo Catar, por sua produção viral nas redes sociais que destaca as condições escolares atrozes e a violência policial como um vetor para disseminar essa narrativa.

“A maioria deles retorna ao tema da violência policial, sem mencionar a violência dos manifestantes, e acusa a ‘grande mídia’ de mentir sobre a ‘violência’ das marchas”, diz o artigo do Le Point.

<><> Uma resposta liberal

Os protestos violentos do fim de semana, que reuniram pelo menos meio milhão de pessoas, degeneraram em violência. Segundo relatos, a polícia de Paris perdeu o controle da situação, enquanto militantes do Black Bloc e vândalos aproveitaram o caos para saquear alguns dos bairros mais elegantes da cidade.

Vídeos como o do campanário de Limoges em chamas viralizaram como exemplos da destruição causada por “bárbaros” do Terceiro Mundo na França Eterna.

“Espero que o mundo esteja prestando atenção aos protestos na França”, disse Tim Kennedy, um militar famoso e lutador de MMA. “Não há bandeiras francesas sendo hasteadas nesses protestos. Esta é a consequência da imigração em massa.”

A ideia de que não havia bandeiras francesas hasteadas nos protestos é uma mentira descarada. Eu vi muitas ao longo de vários dias. Mas a publicação é representativa do endurecimento da narrativa estabelecida no início do mês.

Os liberais pró-europeus também se juntaram às lamentações e condenações.

“A ideia de que não havia bandeiras francesas hasteadas nos protestos é uma mentira descarada.”

“A Polônia não repetirá os erros de outros países europeus, nem pagará por eles”, anunciou o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, sem fazer referência direta aos protestos na França. “Estamos defendendo firmemente a fronteira contra a imigração ilegal, temos nossa própria política de asilo (não aceitamos pedidos), deportamos aqueles que violam a lei polonesa.”

“Vídeos e imagens chocantes estão chegando da França”, publicou o presidente húngaro Péter Magyar. “Diante dessa destruição sem sentido e dessa violência injustificada, talvez agora esteja claro para todos por que a Hungria defende a abordagem mais rigorosa possível em relação à migração e por que não afrouxaremos nossa proteção de fronteiras ou nossa política de imigração sob nenhuma pressão.”

Os liberais irresponsáveis dos EUA, embora condenem a abordagem claramente racista e reconheçam que os estudantes manifestantes formam uma “coalizão extremamente diversa”, flertaram com essa narrativa. Thomas Chatterton Williams, em um artigo na revista The Atlantic intitulado “A violência que varre a França nunca teve realmente a ver com escolas”, descarta qualquer conteúdo real nos protestos após analisar cinco vídeos virais das redes sociais.

“Grande parte dos protestos estudantis se tornou um exercício de ressentimento niilista… sob o pretexto de reforma educacional”, escreve Williams, apontando para vídeos que mostram atos de violência, danos à propriedade ou estudantes se manifestando e gritando, frequentemente propagandeados por contas agregadoras de mídias sociais que promovem uma narrativa anti-imigração, muitas vezes retratando a imigração árabe e africana na Europa como um cavalo de Troia para o islamismo.

“A violência não se limitou a um lado só”, admite Williams, com benevolência, traçando paralelos entre estudantes fazendo declarações antipoliciais em meio a multidões ou cantando em coro músicas de rap com referências de mau gosto ao terrorismo e os ferimentos desfigurantes e que mudam a vida dos estudantes, infligidos pela polícia. “Um policial disparou uma granada de gás lacrimogêneo na cabeça de um adolescente, arrancando a maioria de seus dentes. Mais recentemente, um jovem de 15 anos perdeu a mão depois que um policial disparou uma granada de efeito moral.”

No fim das contas, a França está “à mercê dos manifestantes”, argumenta Williams. “Os franceses protestam demais” e “nos últimos anos, a cultura de protesto na França tem sido tolerada e glorificada a ponto de beirar a insanidade”.

“Algumas dessas reivindicações podem ser válidas”, admite Williams, “mas a violência que se espalha pela França tem pouco a ver com preocupações pedagógicas”.

<><> Protestando pela direita

Oprimeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, apresentou um argumento semelhante na quinta-feira, quando afirmou que a movimentação social “já não era um movimento de estudantes do ensino médio”, mas sim um “movimento de violência urbana, cuja intensidade aumentou ainda mais nos últimos dias”.

Em um discurso na noite de domingo, o presidente Emmanuel Macron creditou a violência da noite anterior a “agitadores de grupos dissidentes de extrema esquerda, juntamente com vários delinquentes”, enquanto Lecornu denunciou o suposto “importante papel” do candidato presidencial do France Insoumise, Jean-Luc Mélenchon, e seu partido, por fomentar a violência.

Embora o governo francês não tenha adotado as mesmas teorias grotescamente racistas da extrema direita estadunidense, britânica e francesa, ele se une a esses grupos na narrativa de que essa movimentação social é produto de forças externas e ilegítimas que tentam instrumentalizar as reivindicações dos estudantes do ensino médio.

Essa ideia ficou particularmente evidente em uma reportagem do Le Canard enchaîné na quarta-feira, que revelou que Lecornu havia instruído pessoalmente o ministro do Interior a explorar a possibilidade de processar Mélenchon por “incitar a rebelião”. Lecornu só recuou depois de se sentir inseguro quanto ao possível impacto que a prisão de Mélenchon poderia ter sobre o movimento.

O jornal noticiou quase sete mil prisões nas últimas três semanas, das quais 86% eram de jovens entre quatorze e dezoito anos. As autoridades realizaram cerca de duas mil prisões adicionais durante o fim de semana.

“O objetivo dessa tática é assustar os estudantes e seus pais para que parem a revolta o mais rápido possível”, disse um chefe de polícia ao Le Canard.

O governo continua com medo dessa mobilização social porque ela não é uma conspiração estrangeira, obra de imigrantes invasores ou uma conspiração “islamo-esquerdista”. Racistas poderosos continuarão insistindo nessa ideia, pois é uma maneira conveniente de silenciar as reivindicações das massas, mas isso não mudará a realidade. O governo Macron trouxe violência às ruas da França. Uma reportagem publicada na manhã de segunda-feira, informando que Macron rejeitou a oferta de renúncia do Ministro do Interior, Laurent Nuñez, envia uma mensagem clara de que ele apoia as ações da polícia, apesar dos apelos formais por diálogo e da condenação mecânica da violência na noite anterior.

Os estudantes franceses têm reivindicações legítimas e muitos deles estão determinados a seguir protestando até que o governo lhes atenda.

 

Fonte: Por  Marlon Ettinger - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

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