Boi,
Bala e Bíblia: três letras de uma mesma relação de forças
Há três
letras que parecem explicar a realidade porque conseguem condensá-la. «BBB» é
uma delas. No Brasil, a sigla que reúne Boi, Bala e Bíblia tornou-se uma forma
corrente de identificar setores do Congresso Nacional associados ao latifúndio
e ao agronegócio, à expansão das políticas de armamento e segurança punitivista
e ao conservadorismo religioso, especialmente em determinados segmentos
evangélicos. Mas três letras não explicam uma sociedade. Elas apenas nomeiam
uma convergência. E é justamente essa convergência que precisa ser explicada.
Boi,
Bala e Bíblia não constituem uma organização única, não obedecem a uma direção
central e não expressam interesses absolutamente idênticos. O que existe é uma
articulação política contingente entre forças sociais distintas. Interesses
diferentes podem encontrar uma plataforma comum sem deixarem de ser diferentes.
Podem disputar entre si e, ao mesmo tempo, convergir na defesa de determinadas
formas de propriedade, autoridade, segurança, família e ordem social. É nessa
articulação que aparece uma determinada relação de forças: a terra, a coerção e
o consenso. Não como três compartimentos separados da sociedade, mas como
dimensões que podem se reforçar na reprodução de uma mesma ordem social. O Boi
organiza interesses materiais vinculados à propriedade e à exploração econômica
do território. A Bala expressa uma determinada concepção do exercício da
coerção e da administração dos conflitos sociais. A Bíblia, em determinados
setores religiosos, mobiliza comunidades, valores, identidades e redes de
sociabilidade capazes de produzir consenso. A questão, portanto, não é
descobrir uma organização secreta escondida atrás das três letras. É
compreender como forças sociais diferentes conseguem transformar interesses
particulares em força política e, em determinadas circunstâncias, convertê-los
em políticas de Estado. Por isso, compreender a BBB exige olhar para além do
Congresso Nacional. A questão agrária brasileira, a construção histórica dos
aparelhos coercitivos e a transformação de determinadas organizações religiosas
em forças políticas não nasceram juntas. Possuem histórias diferentes. O que
interessa é compreender em que momento essas histórias diferentes encontram uma
zona de convergência. Essa convergência não elimina as contradições. Ao
contrário. A política capitalista não exige que os sujeitos sejam homogêneos.
Exige que interesses distintos possam ser organizados sob determinadas formas
de direção política. É aí que a questão da hegemonia aparece.
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Boi: terra, poder e conflito
Para
compreender o Boi é preciso voltar muito antes da existência do atual
agronegócio. A concentração da terra no Brasil não é uma novidade da República,
nem uma consequência recente da expansão das commodities. Ela está inscrita na
formação histórica da sociedade brasileira. A colonização organizou a
apropriação territorial em torno da grande propriedade, da exploração do
trabalho e da concentração dos recursos naturais. A escravidão sustentou
durante séculos essa estrutura. A abolição não realizou uma transformação da
propriedade fundiária. A República tampouco rompeu com essa ordem. A questão
agrária não pode ser reduzida, portanto, à quantidade de hectares pertencentes
a cada proprietário. A terra é uma relação social de poder. Ela produz riqueza
e renda, mas também produz capacidade de mando, controle territorial e poder
político. Quem controla grandes extensões não controla apenas um ativo
econômico. Controla recursos, circulação, formas de trabalho e, em determinadas
regiões, condições fundamentais para a reprodução da vida social. Os dados
confirmam a profundidade dessa concentração. A estrutura fundiária brasileira é
historicamente uma das mais desiguais do planeta, e essa desigualdade é o
resultado de um processo político deliberado. É nesse terreno histórico que
deve ser compreendido o fenômeno da grilagem. As chamadas terras devolutas
constituem parte importante da história da apropriação territorial brasileira.
O Estado permaneceu proprietário de extensas áreas, enquanto diferentes
mecanismos jurídicos, administrativos e fraudulentos permitiram, ao longo do
tempo, sua incorporação ao patrimônio privado. A grilagem não é simplesmente
uma ilegalidade individual praticada por um proprietário. Em determinados
contextos, é um mecanismo de apropriação territorial que combina ocupação,
falsificação documental, violência, pressão política e posterior tentativa de
legalização. A fronteira entre o legal e o ilegal, nesse processo, nunca foi
apenas jurídica. Foi política. Isso permite compreender uma característica
fundamental da formação brasileira: aquilo que posteriormente aparece como
propriedade privada consolidada pode carregar consigo uma longa história de
violência, expropriação e apropriação do território.
O
capitalismo agrário não apagou essa história. Transformou-a. O velho latifúndio
não desapareceu porque o capitalismo agrário se modernizou. Foi incorporado a
novas formas de valorização do capital. O proprietário de terra pode hoje estar
integrado a cadeias agroindustriais, mercados financeiros, empresas
exportadoras, empresas de insumos e estruturas logísticas internacionais. A
magnitude econômica do setor é incontestável. O agronegócio representou 25,13%
do PIB brasileiro em 2025, ante 22,9% em 2024, e respondeu por 48,5% de todas
as exportações do país, que atingiram US$ 169,2 bilhões. O setor emprega cerca
de 26% de todas as ocupações no Brasil. Essa pujança econômica se traduz
diretamente em poder político. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reúne
cerca de 350 deputados e senadores, sendo o maior e mais influente frentes do
Congresso Nacional. Em votações decisivas, a FPA opera como um bloco de pressão
organizado, capaz de pautar a agenda legislativa e vetar iniciativas contrárias
aos seus interesses. A FPA não representa simplesmente «os fazendeiros».
Expressa parte de uma articulação mais ampla de interesses vinculados à
propriedade, à produção agropecuária, à expansão da fronteira agrícola, à
regularização fundiária e às cadeias econômicas que se organizam em torno da
terra. E onde a propriedade precisa ser defendida contra aqueles que a
contestam, a questão econômica encontra a questão da coerção. Os dados da
Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelam a violência dessa disputa. Em 2025,
foram registrados 1.593 conflitos no campo no Brasil, uma redução de 28% em
relação aos 2.207 de 2024. No entanto, o número de assassinatos no campo
dobrou: passou de 13 em 2024 para 26 em 2025. A redução dos conflitos não
significou redução da violência; ao contrário, a letalidade aumentou.
A
dimensão internacional agrava o quadro. As grandes empresas do agronegócio
brasileiro — JBS, Cargill, Bunge, Amaggi, ADM — estão integradas a cadeias
globais de valor que conectam a produção brasileira aos mercados
internacionais. A Moratória da Soja, acordo que impedia a compra de soja de
áreas desmatadas da Amazônia, foi efetivamente abandonada por essas empresas,
abrindo caminho para a expansão da fronteira agrícola sobre a floresta. Em
2025, Amazônia e Cerrado responderam juntos por mais de 84% de toda a área
desmatada no país. O Cerrado concentrou 54,9% do desmatamento, com 7.235 km²
perdidos. Na Amazônia, o desmatamento foi de 5.796 km², uma redução de 11,08%
em relação ao ano anterior, mas ainda equivalente à perda de 1588 hectares por
dia — cerca de 5 árvores por segundo. O uso de agrotóxicos também bateu
recorde. Em 2025, foram 9.729 casos de intoxicação notificados no Brasil, uma
alta de 84% em relação a 2015, o equivalente a 27 pessoas intoxicadas por dia.
O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e os danos à saúde —
especialmente de mulheres e crianças — incluem mutações de DNA, anomalias
congênitas, alterações hormonais, câncer de mama e leucemia. A face mais brutal
da exploração do trabalho no campo permanece. O Boi, portanto, não é apenas a
vaca, a soja ou a propriedade. É uma relação entre território, propriedade e
poder.
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Bala: coerção, punitivismo e a produção do inimigo
A Bala
não representa apenas aqueles que defendem a venda de armas. Representa uma
determinada concepção da ordem social. Diante do conflito, mais coerção. Diante
da criminalidade, mais prisão. Diante do medo, mais armas. Diante da pobreza,
mais polícia. A questão social é transformada progressivamente em questão de
segurança. O problema começa quando essa racionalidade deixa de ser uma
resposta circunstancial e passa a constituir uma forma de fazer política. O
punitivismo não é simplesmente o desejo de punir. É uma racionalidade que
converte conflitos sociais em problemas criminais e desloca a resolução de
contradições estruturais para o fortalecimento dos aparelhos coercitivos do
Estado. Mas a coerção precisa de um objeto. É preciso produzir um inimigo.
«Bandido bom é bandido morto» não é apenas uma frase brutal. É uma síntese
política. Ela transforma o adversário social em corpo eliminável e desloca a
questão dos direitos para a questão da neutralização. Quem é o inimigo? A
resposta não é socialmente neutra. No Brasil, a construção histórica do inimigo
criminal está profundamente atravessada por classe e raça. A República nasceu
sem romper com a estrutura social construída pela escravidão. A população negra
foi juridicamente libertada, mas não recebeu, com a abolição, acesso à
propriedade da terra, condições materiais de igualdade ou proteção estatal
capaz de alterar sua posição na estrutura social. A liberdade jurídica
coexistiu com relações materiais de desigualdade. Essa contradição não
desapareceu. Transformou-se.
A
escravidão terminou juridicamente em 1888. A criminalização racial, não. Em
1890, apenas dois anos depois da abolição, o Código Penal republicano passou a
criminalizar a vadiagem e outras condutas associadas às formas de circulação e
existência dos setores populares. Posteriormente, a legislação de contravenções
penais de 1941 manteve a figura da vadiagem. A lei não precisava dizer «prendam
os negros». O mecanismo era mais sofisticado. Em uma sociedade recém-saída da
escravidão, na qual a população negra havia sido excluída da propriedade da
terra, submetida a enormes obstáculos de acesso ao trabalho estável e
abandonada pelo Estado à própria sorte, determinadas condições sociais podiam
ser convertidas em indícios de criminalidade. A liberdade formal podia
coexistir com mecanismos materiais de controle. A criminologia positivista do
final do século XIX contribuiu para produzir uma linguagem científica capaz de
racializar o crime. Cesare Lombroso e outros autores do positivismo
criminológico formularam concepções que associavam características físicas e
sociais à propensão criminosa. No Brasil, essas ideias encontraram terreno
entre intelectuais e agentes do Estado preocupados em administrar a população
negra e pobre. Posteriormente, o movimento eugenista incorporaria outras formas
de determinismo biológico e racial. O problema não é apenas intelectual. É
político. Quando uma sociedade transforma desigualdades históricas em
características naturais de determinados grupos, torna-se mais fácil apresentar
a repressão como necessidade objetiva. O Estado não estaria perseguindo negros
pobres. Estaria combatendo o crime. A diferença entre as duas frases é
justamente o mecanismo ideológico.
O
punitivismo contemporâneo não nasceu dessa história. Mas atualiza, sob novas
formas, uma antiga capacidade estatal de transformar determinados sujeitos
sociais em problema de ordem. Os números do encarceramento em massa são
eloquentes. Em 2025, o Brasil tinha 964.668 pessoas privadas de liberdade,
somando presos em penitenciárias e delegacias. O país tem a terceira maior
população carcerária do mundo, com uma taxa de 439 presos por 100 mil
habitantes. O perfil racial da população carcerária revela a continuidade da
lógica escravista: 69,6% das pessoas presas são negras. Entre as mulheres, o
percentual é ainda mais alto: 68,7% são negras, segundo o Anuário Brasileiro de
Segurança Pública de 2025. A criminalização não é um fenômeno aleatório: ela
tem cor, classe e território. A violência policial é a face mais visível da
Bala. Em 2025, 6.602 pessoas foram mortas por ações policiais no Brasil, um
aumento de 5,4% em comparação com 2024. Em média, foram mais de 18 mortes por
dia. O Brasil mantém, por quatro anos consecutivos, um patamar anual acima de
seis mil vidas perdidas em intervenções policiais. Estudos da Rede de
Observatórios da Segurança apontam que a letalidade policial tem como principal
alvo a população negra. Em 2025, foram registradas 4.330 mortes decorrentes de
intervenção policial, o maior número da série histórica, com aumento de 6,4% em
relação ao ano anterior. O Nordeste concentra os piores índices: a Bahia
registrou 1.570 mortes em ações policiais, o maior número do país. A expansão
das políticas de armamento ganha significado político quando é acompanhada por
uma determinada representação da sociedade. Durante o governo Bolsonaro, a
ampliação do acesso a armas e a criação e expansão do universo dos CACs —
caçadores, atiradores e colecionadores — tornaram-se parte importante dessa
disputa política. Os números impressionam. O Brasil tem 1.022.021 certificados
de registro ativos de CACs, que somam 1.588.677 armas registradas. Para se ter
uma ideia da dimensão, o efetivo do Exército brasileiro é de 360 mil pessoas —
menos de um terço do número de CACs registrados. Entre 2023 e 2025, foram
feitos 240 mil novos registros de armas (160 mil de CACs e 80 mil de defesa
pessoal). Três em cada dez CACs não possuem arma registrada, o que levanta
sérias preocupações sobre o controle e a fiscalização desses arsenais. Mas o
fenômeno não deve ser reduzido a uma relação automática entre expansão legal do
armamento e criminalidade organizada. O que precisa ser investigado são os
mecanismos concretos de circulação, fiscalização, desvio e abastecimento dos
mercados legais e ilegais de armas. O dado politicamente relevante está em
outro lugar. A expansão do armamento foi acompanhada por uma expansão
discursiva da ideia de que a sociedade deveria estar armada para se defender.
Defender-se de quem? Essa pergunta é fundamental. Porque toda política de
segurança pressupõe uma determinada representação do perigo. Há aqueles que
precisam ser protegidos e aqueles dos quais é preciso proteger-se. Quando essa
distinção se organiza segundo classe, raça e território, a segurança deixa de
ser apenas uma política pública. Passa a ser uma forma de administrar a
sociedade.
A Bala
não é apenas doméstica. O Brasil é um importador relevante de armamentos, com
uma estrutura de fornecedores que revela uma divisão internacional do trabalho
militar. Os Estados Unidos ocupam posição sistêmica, a Europa fornece
plataformas complexas e cooperação industrial, enquanto Israel atua em nichos
tecnológicos especializados. No período de 2018 a 2025, o Brasil importou de
Israel 100 mísseis antitanque Spike-MR, além de sistemas de radar, eletrônicos
para aeronaves e drones. As importações de armas militares dos EUA somaram
US13,8 milhões, e de Israel, US 9,8 milhões. A Bala também se manifesta na
dimensão urbana. Facções criminosas e milícias ampliaram seu alcance
territorial e social no Brasil. Segundo pesquisa Datafolha de 2025, 19% da população
brasileira convive com a presença de facções ou milícias em seu bairro. Em
2025, 21% dos entrevistados relataram essa prática em suas comunidades, um
aumento em relação aos 18% registrados em 2024. As milícias não são apenas
grupos criminosos: são formas de controle territorial que combinam violência,
exploração econômica e, em muitos casos, legitimidade social construída por
meio de assistência e “proteção”.
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Bíblia: consenso, mídia e moral
A
terceira letra introduz uma dimensão diferente da coerção. A Bíblia não deve
ser compreendida simplesmente como religião. O que interessa politicamente é a
transformação de determinadas organizações religiosas em forças sociais capazes
de produzir identidade, pertencimento, organização comunitária, representação
política e consenso. Isso exige uma precaução fundamental. Não existe um único
«evangelismo» politicamente homogêneo. Existem diferentes denominações,
teologias, igrejas, lideranças e posições políticas. Há setores conservadores,
mas também experiências religiosas vinculadas a diferentes formas de
organização popular. A questão não é transformar milhões de fiéis em uma
categoria política homogênea. É compreender quais organizações, quais lideranças
e quais forças sociais conseguem converter a experiência religiosa em
capacidade política.
Os
dados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE, revelam a magnitude do fenômeno. Os
evangélicos representam 26,9% da população brasileira — cerca de 47,4 milhões
de pessoas. Em 2010, eram 21,6%. O crescimento foi de 5,2 pontos percentuais em
doze anos, embora haja sinais de desaceleração em relação à década anterior.
Pela primeira vez na história do país, mais de um quarto da população se
declara evangélica. Esse crescimento não é apenas religioso: é político. A
bancada evangélica no Congresso Nacional é uma das mais influentes, com 219
deputados e cerca de 20 senadores. Em 2025, a bancada viveu um racha inédito,
com a eleição de Gilberto Nascimento (PSD-SP) para a presidência por votação,
quebrando uma tradição de escolha por consenso. A maioria é conservadora, mas a
heterogeneidade interna revela que não se trata de um bloco monolítico. A
partir das décadas finais do século XX, o crescimento das igrejas evangélicas
alterou profundamente o mapa religioso brasileiro. O fenômeno avançou pelas
grandes cidades, periferias e regiões do interior, adquirindo enorme capacidade
de organização social. É justamente essa capacidade que produz sua importância
política. Uma igreja pode ser um lugar de culto. Mas também pode ser uma rede
de sociabilidade. Pode ser um lugar onde se constrói identidade, onde se formam
lideranças, onde circulam informações, onde se organizam campanhas e onde se
estabelecem interpretações sobre família, trabalho, sexualidade, violência,
propriedade e autoridade. Isso significa que a religião pode funcionar como
força organizada na sociedade civil. Não se trata, portanto, de perguntar
simplesmente se os evangélicos são conservadores. A pergunta historicamente
relevante é outra: quais igrejas? quais lideranças? quais organizações? quais
alianças? quais recursos? quais pautas? Somente assim é possível transformar a
denúncia em análise.
A
produção de consenso não se dá apenas nos templos. A mídia desempenha papel
central na difusão de representações que naturalizam a propriedade, legitimam a
coerção e moralizam a desigualdade. O cenário midiático brasileiro é marcado
por alta concentração de propriedade privada, com uma relação estreita entre
poder político, econômico e religioso. Os cinco maiores grupos — Globo, Record,
SBT, Bandeirantes e Folha — dominam a audiência e a opinião pública. O grupo
Record, pertencente à Igreja Universal do Reino de Deus, é um ator central
nessa configuração. A emissora opera RecordTV e RecordNews na TV aberta, além
do portal R7, e se tornou um veículo de difusão da visão de mundo evangélica
conservadora. A “guerra santa” entre Globo e Record, as duas maiores redes de
televisão do país, é também uma disputa pela direção cultural e política da
sociedade brasileira. A hegemonia BBB não se sustenta apenas pela força e pela
fé. Ela produz seus próprios intelectuais orgânicos: think tanks, mídias
especializadas, cursos de formação, pastores-intelectuais. Organizações como o
Instituto Millenium (IMIL), o Instituto Mises Brasil (IMB), o Instituto Liberal
e o Instituto Atlas articulam-se com empresas e produtoras de conteúdo como a
Brasil Paralelo para difundir uma visão de mundo ultraliberal e conservadora. A
Brasil Paralelo, embora negue vínculos formais, é associada a esses think tanks
e produz documentários e conteúdos que mobilizam narrativas históricas e
políticas alinhadas à direita.
Uma
ordem social não precisa convencer todos os seus membros de que ela é justa.
Precisa produzir representações capazes de torná-la aceitável, inevitável ou
natural. É nesse ponto que determinadas formas de moral religiosa podem
adquirir uma função política. A família, a autoridade, a propriedade, o
trabalho, a sexualidade e a segurança deixam de aparecer como relações
historicamente construídas e passam a ser apresentadas como expressões de uma
ordem natural. A desigualdade pode aparecer como mérito. A autoridade, como
necessidade. A propriedade, como direito absoluto. A pobreza, como fracasso
individual. A violência, como resposta legítima ao inimigo. É nesse processo
que a disputa econômica se transforma em disputa cultural. E a disputa cultural
pode voltar a reforçar a estrutura econômica. Essa circularidade é fundamental.
O Boi precisa de uma ordem social que naturalize determinadas formas de
propriedade e desigualdade territorial. A Bala precisa de uma sociedade que
aceite a expansão da coerção como resposta ao conflito. A Bíblia, em
determinados setores conservadores, pode contribuir para produzir uma linguagem
moral capaz de legitimar essa ordem. Nenhuma dessas funções é absoluta. Nenhuma
delas é exclusiva. Mas, quando se articulam, produzem uma força política maior
do que a soma mecânica das três. É também nesse terreno que aparece a disputa
sobre a família e o lugar social das mulheres. O crescimento das denúncias e
dos registros de violência contra as mulheres não pode ser atribuído
diretamente ao crescimento do evangelicalismo ou à existência da bancada BBB.
Há múltiplos fatores envolvidos: mudanças na capacidade de denúncia,
legislação, políticas públicas, transformações culturais, condições econômicas
e permanências patriarcais. Mas reconhecer essa complexidade não significa
retirar a questão da disputa política. Determinados setores conservadores
disputam permanentemente a definição do que deve ser a família, qual deve ser o
lugar social das mulheres, como deve ser tratada a sexualidade e quais políticas
públicas podem ser desenvolvidas para enfrentar a violência contra as mulheres.
A questão é material. As mulheres participam da reprodução social, sustentam
famílias, realizam trabalho doméstico e de cuidado e, em milhões de casos,
assumem praticamente sozinhas a responsabilidade pela reprodução da vida. A
violência não acontece fora dessa estrutura. Ela se articula com a divisão
sexual do trabalho, com a dependência econômica, com o abandono paterno e com a
precariedade das políticas de proteção. A desigualdade racial produz efeitos
ainda mais profundos. Mulheres negras estão submetidas simultaneamente a
relações de exploração, opressão racial e desigualdade entre homes e mulheres.
A reprodução social também é uma relação de força. Por isso, a disputa sobre a
família não é uma questão secundária ou meramente cultural. Ela participa da
disputa sobre quem realiza, em que condições e com quais custos, o trabalho
necessário para reproduzir a sociedade.
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A disputa pelo Estado
O
Congresso não é um espaço exterior à sociedade. É uma instituição atravessada
pelas relações de força que existem fora dela. Por isso, a presença de
ruralistas, setores armamentistas e grupos religiosos conservadores no
Parlamento não deve ser tratada como uma anomalia do sistema político. Ela
expressa a capacidade de determinadas forças sociais de transformar recursos
econômicos, capacidade organizativa, valores e mobilização social em
representação institucional. O Estado capitalista não pertence mecanicamente a
uma única classe ou a uma única fração. Ele organiza, media e condensa
conflitos. Isso não significa que o Estado esteja acima das classes. Significa
que a dominação não se realiza pela simples ocupação direta de todos os seus
aparelhos por um único sujeito. Diferentes forças disputam instituições,
políticas, orçamento, legislação, nomeações e decisões administrativas.
O
orçamento público é um dos principais mecanismos de conversão de força social
em força política.
A
disputa pelo Estado não se limita ao Executivo e ao Legislativo. O Judiciário é
um espaço central dessa disputa. A judicialização da questão agrária, o lawfare
contra lideranças indígenas e camponesas e a seletividade do sistema de justiça
são mecanismos concretos pelos quais a BBB converte força social em força
política. O Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu, em 2026, o julgamento
conjunto das ações sobre o Marco Temporal, declarando inconstitucional a tese
que condicionava a demarcação de terras indígenas à ocupação em 5 de outubro de
1988. A Lei 14.701/2023, que instituiu o Marco Temporal, teve trechos
declarados inconstitucionais. No entanto, a disputa continua: em junho de 2026,
o ministro Fachin pediu vista no julgamento dos recursos contra a decisão que
barrou a tese, suspendendo o processo. A judicialização da questão agrária e
indígena é um mecanismo concreto pelo qual a BBB converte força social em força
política — e, ao mesmo tempo, um espaço onde essa força é contestada. A questão
central não é, portanto, saber se a BBB «controla» o Estado brasileiro. A
questão é saber quanto de sua força social consegue transformar em força
política e quanto dessa força consegue converter-se em política de Estado. Essa
conversão possui mecanismos concretos: leis, orçamento, nomeações, políticas
públicas, decisões administrativas, alianças partidárias, disputas eleitorais,
discursos. A relação de força social chega ao Estado por diferentes caminhos. É
assim que interesses particulares podem adquirir forma universal. Uma
reivindicação de determinado setor pode aparecer como defesa da liberdade. Uma
política de proteção da propriedade pode aparecer como defesa da ordem. Uma
expansão da coerção pode aparecer como defesa da segurança. Uma determinada
moral pode aparecer como defesa da família. É precisamente nesse deslocamento
que a hegemonia se realiza: quando uma determinada direção social consegue
apresentar interesses particulares como se fossem interesses gerais.
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O que as três letras escondem
A BBB é
uma expressão contemporânea de uma sociedade marcada por relações históricas de
propriedade, desigualdade, coerção e disputa pelo consenso. A concentração
fundiária vem da formação social brasileira. A criminalização de populações
negras e pobres possui raízes profundas na passagem da escravidão para o
trabalho livre. O punitivismo contemporâneo atualiza formas antigas de
construção do inimigo. A expansão de determinadas organizações religiosas
produziu novas redes de sociabilidade e novas formas de intervenção política.
Nada disso nasceu ontem. Mas também não permaneceu igual. A forma mudou. A
relação de poder se transforma. É justamente por isso que não basta repetir que
a terra, a polícia e a religião sempre existiram. É preciso compreender como
suas funções sociais são reorganizadas em cada conjuntura e como forças
diferentes conseguem construir novas formas de articulação política. O
capitalismo brasileiro não reproduz simplesmente estruturas herdadas.
Reorganiza-as. A concentração da propriedade pode ser integrada a cadeias
globais de valorização. A coerção pode incorporar novas tecnologias, discursos
e dispositivos jurídicos. As instituições religiosas podem converter redes
comunitárias em capacidade eleitoral e parlamentar. O passado não desaparece. É
reorganizado no presente. É por isso que compreender a BBB exige olhar para
além das três letras e para além do Congresso Nacional. É preciso olhar para a
formação histórica do Brasil, para a estrutura de classes, para a propriedade
da terra, para o racismo, para os aparelhos coercitivos, para a reprodução
social, para as formas de produção do consenso e para a disputa pelo Estado. As
três letras são apenas a superfície. Por baixo delas existe uma sociedade
atravessada por relações de força. E é nessa sociedade que se disputa a
propriedade, a coerção, o consenso e, em última instância, a direção do Estado.
Boi, Bala e Bíblia não são três nomes para o mesmo interesse. São três formas
diferentes de organizar forças sociais distintas em torno de uma determinada
disputa: quem possui, quem manda e quem consegue fazer com que essa ordem
pareça natural.
Fonte: Por
Lisandro Cañon, no Blog da Boitempo

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