quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Leonardo Boff: Um Brasil subserviente ou um Brasil soberano?

O debate político entre Lula e Flávio Bolsonaro na TV Bandeirantes (Band), no domingo, foi de péssima qualidade. Flávio Bolsonaro não queria discutir problemas, mas apenas, comportando como um moleque, desestabilizar Lula. Parecia uma intriga de botequim. Lula despertou tarde demais. E teve que suportar uma inimaginável falta de respeito e de civilidade. As urnas dirão.

Em todos os casos, nestas eleições de 2026, joga-se o destino do Brasil. Um dos candidatos à Presidência, de forma antipatriótica, propõe um Brasil desavergonhadamente subserviente aos Estados Unidos de Donald Trump. Aplaudiu o tarifaço contra nossa economia. Caso ganhe a eleição – que a desgraça não aconteça – propôs que técnicos norte-americanos ajudem na fase de transição do governo Lula ao seu. Deste modo, o alinhamento à política e aos interesses norte-americanos estaria garantido. Ademais entregaria de bandeja nossas terras ricas e outros minerais com funções estratégicas.

Uma pessoa com intenções neocoloniais e entreguistas jamais poderia apresentar-se como candidato ao mais alto cargo da nação. Se nossa justiça realmente funcionasse menos para os interesses das elites e mais para os coletivos do povo brasileiro, o lugar deste pretendente seria a prisão por crime se corrupção, de lesa-pátria e de traição: Flávio Bolsonaro.

Se esse candidato de viés conservador e até fascista como seu pai – preso por tentativa de golpe – sair eleito, preparemo-nos para o pior, especialmente os submetidos à pobreza, os operários e funcionários públicos. Sofreriam as universidades, os centros técnicos e de pesquisa que veriam seus subsídios encurtados ou anulados. A ecologia, os indígenas, os quilombolas e as mulheres seriam temas rebaixados ou ausentes. Sem falar nas artes e na liberdade de expressão. Voltaríamos à situação de colônia, um país subalternizado, cuja identidade lhe fora sequestrada.

É ponto de honra e sinal de amor à pátria derrotar esse inimigo da pátria, e o projeto antinacional que representa.

O outro candidato, vindo dos fundões do Brasil e sobrevivente da fome e da miséria, já cuidou de nossa gente por três vezes, introduzindo mudanças, jamais feitas em nossa país, em favor dos mais marginalizados com políticas sociais eficazes a ponto de tirar, segundo a ONU, o Brasil do mapa da fome, pois seu antecessor golpista deixara 33 milhões passando fome e vivendo na miséria.

Desmontou em termos culturais, educacionais e trabalhistas e outras políticas públicas quase tudo o que se havia conquistado durante séculos.

O presidente Lula, opositor de Flávio Bolsonaro, comparece como um dos protagonistas do multilateralismo e do conjunto dos países do Grande Sul que compõe os BRICS. Consciente de nossa soberania e da importância estratégico-ecológica de nosso pais, foi, inicialmente, o primeiro chefe de Estado que se opôs à arrogância de Donald Trump,cuja estratégia consiste em submeter os demais países com ameaças econômicas e eventualmente militares. Lula deixou claro que o “Brasil não cabe como quintal de nenhum país”.

Com senso de equilíbrio sustenta relações diplomáticas e comerciais com os EUA e simultaneamente com a China, sem dar nenhum sinal de submissão, mas de soberania e de liberdade ao estabelecer o caminho brasileiro rumo à sua autonomia e desenvolvimento sustentável, preservando o mais que pode a floresta da Amazônia que regula os climas da maioria dos países. Sua proteção é fundamental para o equilíbrio ecológico de todo o planeta.

Negocia com liberdade com dezenas de países. Na arena internacional grangeou mais e mais admiração por sua capacidade de diálogo e de respeitabilidade face às suas sugestões dos problemas da humanidade.

Não poderemos de forma alguma que essa herança política e humanitária se perca e o destino do país seja entregue a alguém que não ama o Brasil e preferiria que fosse parte do destino dos EUA, hoje posto em discussão por seu processo irrefreável de decadência.

A nossa luta é romper com a dependência colonial e neocolonial de outros centros de poder e de fortalecer a fundação de um outro tipo de país, que albergue a todos os seus habitantes com dignidade e esteja aberto, dadas as ameaças que pesam sobre o planeta Terra, às fomes e sedes do mundo inteiro. Daí a importância decisiva da reeleição de Lula. Não é uma questão apenas nacional, mas de dimensões planetárias.

Nossa missão é manter essa luz acessa, alimentá-la e não permitir que trilhemos um caminho que nos levará a um abismo. Esta seria a tragédia, caso seu opositor vencer e que nada fez para o povo brasileiro, senão colocá-lo sob a canga de uma potência militarmente poderosíssima, mas paupérrima em termos de humanidade, de colaboração para um destino feliz para o planeta Terra, para os povos e para o nosso país.

Votarei em Lula 13.

•        Brasil – Lula ou barbárie. Por André Márcio Neves Soares

Se se mantiver a tendência do primeiro turno, de vitória de Flávio Bolsonaro, perderemos muito como sociedade! Pois a questão, na presente eleição, não é de pura e simples derrota democrática do governo atual, e sim de qual projeto de civilização terá se sagrado vencedor na eleição.

Confesso que fiquei baqueado, chocado mesmo, com o resultado do primeiro turno! Apesar de as pesquisas eleitorais nunca apresentarem um favorito, eu esperava que Lula tivesse alguma margem de votos, para ter chance de repetir o feito de 2022. Infelizmente, eu estava errado.

Eu sei que essas últimas quase três semanas foram intensas, com a população mobilizando-se com o objetivo de evitar a barbárie. As forças progressistas não deram o braço a torcer e continuam lutando, ainda mais desesperadamente. Afinal, se Lula conseguir a façanha de virar o jogo, afastaremos o espectro do fascismo por mais alguns anos. Mas ainda que isso aconteça, a expressiva votação em Flávio Bolsonaro é prenúncio de turbulências futuras. Lula está em sua última jornada, e o lulismo se encerra com ele. Não existe herdeiro. Isso, por si só, já muito preocupante.

É fato que todas as vitórias de Lula em eleições anteriores – salvo a sua reeleição, em 2006 – foram revestidas de algum senso de urgência civilizatória. E essa urgência só aumentou com o passar das eleições. Com efeito, em 2002, contra José Serra, e em 2006, contra Geraldo Alckmin, a vitória do candidato petista foi contra a direita nacional e o projeto econômico-financeiro do neoliberalismo, capitaneado pelos Estados Unidos. No entanto, após o “impeachment” de Dilma Rousseff, em 2016, a direita brasileira retornou ao poder e preparou o caminho para ascensão de um ator até então pouco conhecido no cenário nacional: a ultradireita.

A eleição de Jair Bolsonaro, que somente foi possível após o fenômeno estadunidense “Donald Trump”, dois anos antes, confirmou a existência de algo muito sinistro na alma de nossa nação, já conceituado por Sérgio Buarque de Holanda décadas atrás, a saber, que o homem cordial brasileiro possui um ardil psicológico e comportamental que revela uma dubiedade de caráter, muito além do temperamento emotivo.

Já sabíamos disso. O que não sabíamos era que o caráter nacional, pelo menos parte dele, não pode mais ser traduzido apenas pelas categorias de cordialidade “buarquianas”, como a repulsa às regras formais, a mistura entre o público e o privado e a violência disfarçada, tudo envolto em um sentimento ambíguo que vem do coração, para o bem ou para o mal.

De fato, desde a ascensão do bolsonarismo, boa parte da sociedade brasileira está envolta na ambiguidade emocional para o mal. Assim, o ódio ao nordestino, ao ser humano de cor, às comunidades LGBTQUI+, aos defensores do clima etc. faz parte de uma racionalidade orgânica da ultradireita que vê na pessoa diferente de si uma ameaça. O show de horrores dos eleitos para cargos do Poder Legislativo confirma essa perspectiva.

Então pergunto: e agora? Existe uma frase, falsamente atribuída a Winston Churchill (1874 – 1965), primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial, que diz: “Se entrares no inferno, permaneça nele”. Obviamente, ninguém quer permanecer no inferno. A ideia da frase seria a de ter resiliência, de permanecer vivo e atuante para sair dele. Será que, mais uma vez, vamos precisar ter resiliência para superar o governo do zero um? Porque não resta dúvida de que um novo governo Bolsonaro nos levará de volta ao inferno. Como o pai, Flávio Bolsonaro colocará o Brasil de volta ao mapa da fome, em menos de dois anos. E ficaremos de joelhos!

Definitivamente, não precisa ser assim. Será que já esquecemos das mais de 700.000 mortes pela Covid-19, ocorridas enquanto Bolsonaro pai fazia chacota e andava de motocicleta? Será que esquecemos que seu infame Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, queria desmatar e garimpar sem limites, passando a boiada?

Será que esquecemos que o miliciano Adriano da Nóbrega, morto covardemente pela polícia baiana, foi condecorado com a medalha Tiradentes, a maior condecoração do Poder Legislativo fluminense, enquanto estava preso, acusado de homicídio, em 09 de setembro de 2005, por iniciativa de Flávio Bolsonaro? Será que esquecemos que Bolsonaro pai tentou dar um golpe de Estado, com planos para matar Ministro do STF, Lula e seu vice? Esquecemos das cenas dantesca de invasão dos três poderes em Brasília por uma horda de fanáticos? Esquecemos que o esquema do Banco Master beneficiava diretamente a família Bolsonaro, apesar de não apenas a ela?

Concordo com o texto mais devastador de Luís Felipe Miguel sobre “O povo e sua vontade”. A ignorância política das massas é um fato, e a esquerda brasileira nunca atuou efetivamente para combatê-la. É claro que não é só por burrice, mas também perversidade. Eu acrescentaria dois componentes, extraídos de John Gray: o primeiro histórico, que estabelece que, “Sem dúvida a intolerância à realidade é inata ao espírito humano. Cada era tem uma imagem alucinatória de si mesma, que persiste até ser dispersada pelos acontecimentos” (p. 8); e o segundo, de cunho político-religioso, segundo o qual “…o declínio da religião que se deu no século XX fez-se acompanhar da ascensão da política fundada na fé, uma continuação da religião por outros meios que provou ser tão destrutiva como a religião em seus piores momentos” (p. 9). É possível introduzir, ainda, um componente psicológico, qual seja, o da persistência da mentalidade colonial.

Ora, seria um erro afirmar que, desde que fomos “descobertos”, nossas elites jamais abandonaram a subserviência e a imitação da principal potência mundial? De fato, primeiro Portugal, depois a Inglaterra e, mais recentemente, os Estados Unidos, sempre exerceram o poder simbólico e material aqui dentro.

Nesse sentido, um tema muito pouco pesquisado, e que me parece de extrema relevância, é, como dito acima, a emergência do bolsonarismo como fenômeno de massa, em paralelo à ascensão do trumpismo. O fenômeno daqui não teria se criado sem o de lá. Parece que estamos sempre a reboque dos acontecimentos na vida do país susserano, atualmente nos Estados Unidos.

É claro que essa imitação tem interesses próprios aqui dentro. Lula é odiado, pela elite da “Faria Lima”, por tentar mitigar a sanha devoradora de recursos públicos pelos mais abastados. Mas também é detestado pela metade de um povo que necessita de um mito para dar sentidos às suas vidas. Afinal, Lula pode ter sido tudo até agora, menos um mito. Pelo contrário. Lula traduz o simples que deu certo.

Em outras palavras, Lula é o ser-comum que conseguiu, pelas próprias forças, superar as barreiras impostas pelo “status quo” nacional. O mito em si não, conforme as palavras de Nancy e Lacoue-Labarthe: “O mito sempre foi o mito de um evento e de um advento, o mito do evento absoluto, fundador” (p. 15). Segundo esses autores, onde o mito é procurado, é o evento que é desejado. Mas qual evento os eleitores de Bolsonaro filho perseguem? O evento de submissão e imitação, de maneira autoritária ou não, da potência máxima do planeta, atualmente os Estados Unidos, que rege, e sempre regeu, nosso porvir.

Concordo, em parte, com Ruy Castro, quando disse que “Não é só a tentativa de volta a um passado que nunca existiu, mas a promessa de um futuro que também não existirá”. O passado que metade do eleitorado brasileiro deseja ver de volta pode, realmente, nunca ter se sido vivido por uma boa parcela dos que agora o desejam. Mas a outra parte, sim.

Afinal, não só de jovens estamos falando. Ainda que os anseios pela família, pelos costumes, pela tradição, pela ordem, pela religião, pela defesa da liberdade e, vejam só, até pela defesa da democracia, sejam discursos de ordem imaginária, é justamente desse tipo de discurso que se nutre o mito.

Por outro lado, seria necessário investigar qual futuro não existirá, se o bolsonarismo voltar com toda a força. A emancipação política; a defesa do fim da exploração dos trabalhadores – notem o fim da escala 6×1 –; a luta pelo fim da devastação predatória da natureza – vejam que nunca se desmatou tão pouco a região amazônica como agora –; a manutenção do ganho real e progressivo, ainda que pequeno, do salário mínimo etc., não serão prioridade e serão prejudicados nesse cenário.

Esse é o futuro que desejam os eleitores bolsonaristas? Se sim ou não é irrelevante, pois esse certamente é o futuro que todos teremos, em repetição ao já existiu no governo de Bolsonaro pai.

É importante refletir sobre o que disse Nancy e Lacque-Labarthe: “A crença não surge por si, ela deve ser despertada e mobilizada nas massas” (p. 62). Nestas circunstâncias, a história serve como balizador sobre o que existirá ou não no futuro. A ultradireita nacional, assim como a mundial, conhece os ensinamentos de Hitler sobre como pôr as massas em movimento em direção a ela.

A esquerda tupiniquim parece esquecer completamente disso, para só lembrar, de tempos em tempos, quando precisa salvar o país da catástrofe, como aconteceu em 2002 e em 2022, na tentativa de reeleição de Bolsonaro pai. Nem sempre dá tempo…

É difícil prever o que acontecerá no dia 25/10/2026. A reação progressista se fez maior do que muitos esperavam no campo ultraconservador, após a vitória de Bolsonaro filho no primeiro turno. Todas as pesquisas estão dando empate técnico. Ao meu ver, a única chance que Lula tem é engajar os ausentes e os que votaram em branco ou nulo no primeiro turno. Eles somam mais de 33 milhões de pessoas. É gente suficiente para evitar a barbárie!

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: