Eleições
2026: o que realmente pesa contra Flávio Bolsonaro e Lula?
Candidato
a presidente e senador, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se tornou alvo de
uma nova investigação no Supremo Tribunal Federal (STF). O inquérito vai apurar
suposto crime de lavagem de dinheiro que teria sido praticado em parceria com o
advogado Willer Tomaz, alvo de outra
apuração por possível envolvimento no desvio de recursos do INSS — nesse outro
caso, Flávio não é investigado. A existência do novo inquérito contra o senador
foi revelada no domingo (18/10) pelo jornal Estado de S. Paulo e confirmada
pela BBC News Brasil. O caso foi sorteado para o gabinete de Alexandre de
Moraes e corre em sigilo.
O
candidato do PL também é alvo de outra investigação que apura possíveis crimes
no repasse de quase R$ 70 milhões pelo Banco Master para financiar o filme Dark
Horse, em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Os potenciais
desdobramentos das duas investigações podem ser impactados caso Flávio vença a
eleição. O caminho natural após um inquérito é que seja arquivado, caso faltem
provas, ou que seja apresentada uma denúncia criminal. No entanto, a
Constituição Federal prevê que, durante o mandato, o presidente "não pode
ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções". Ou
seja, se eventuais crimes praticados não estiverem relacionados com o exercício
da Presidência, não pode ser aberto um processo criminal, explica o
criminalista João Pedro Pádua, professor de direito da Universidade Federal
Fluminense (UFF). "É uma questão em aberto se o presidente pode ser
investigado [por atos estranhos ao mandato]. Em tese, sim, mas a denúncia teria
de esperar o fim do mandato para ser sequer recebida", explica.
O
professor ressalta que a prescrição dos crimes investigados fica suspensa neste
período — em tese, os casos seriam retomados após o fim do mandato
presidencial.
Procurada
pela BBC News Brasil sobre o caso Willer Tomaz, a defesa de Flávio não
respondeu. Sobre o caso Dark Horse e o dinheiro pedido a Daniel Vorcaro, Flávio
nega qualquer ilegalidade. Veja mais abaixo o que ele fala sobre milícias e o
caso das rachadinhas.
Entenda
melhor a seguir as duas investigações contra o Flávio no STF, as suspeitas de
vínculos com milicianos e o que aconteceu com o caso da "rachadinha",
que foi arquivado.
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Willer Tomaz
O novo
inquérito vai apurar suposto crime de lavagem de dinheiro por Flávio e seu
amigo advogado Willer Tomaz. A investigação mira suspeitas envolvendo
plataformas de pagamento digital e o setor de apostas no Rio de Janeiro, quando
o Estado era governado pelo aliado de Flávio, Cláudio Castro (PL). O
ex-governador também é alvo no inquérito. A apuração tem origem na análise do
celular de Willer Tomaz, apreendido no início de agosto em uma operação da
Polícia Federal para apurar o possível envolvimento do advogado no esquema que
desviou bilhões do INSS — Flávio não é alvo desse outro inquérito. No relatório
que embasa a abertura do inquérito, a PF diz que encontrou no material
analisado "referências a festas, encontros e reuniões envolvendo ambos
[Tomaz e Flávio]".
Há
também registro de vínculo em uma conta bancária em nome da empresa Alcazar
Holding, na qual Flávio era mencionado como "usuário master". Ainda
segundo o relatório, foi identificado um grande volume de transações entre
diferentes empresas e casas de apostas. Apenas uma conta bancária de Willer
chegou a movimentar "aproximadamente R$ 130 milhões entre março e maio de
2025", destaca o relatório.
"Verificou-se
que o volume diário de apostas realizado pelo investigado [Tomaz] alcança
cifras milionárias, em patamar muito superior ao normalmente esperado para uma
atividade de jogo recreativa", diz ainda a PF.
Segundo
informações do jornal O Estado de S. Paulo e da TV Globo, a PF também suspeita
que uma "sala secreta" encontrada em agosto — após uma denúncia
anônima — no hangar usado por aviões de Willer Tomaz no aeroporto de Brasília
teria sido usada para guardar dinheiro vivo. Os investigadores identificaram
ainda suspeitas de que uma empresa de meio de pagamento de Tomaz, a Pixs
Cobrança (posteriormente denominada RioPag), teria sido favorecida no governo
de Cláudio Castro, realizado em 2023, para vencer um edital da Loterj para
processar os pagamentos dos apostadores às empresas de apostas autorizadas pela
autarquia. Ainda segundo a PF, outra empresa de Tomaz, a Rede Loto, foi a
primeira a obter autorização da Loterj para explorar apostas esportivas de
quota fixa, com prazo inicial de até cinco anos. O relatório aponta ainda que a
Cathedral, uma holding do ramo de apostas online de propriedade de Tomaz, pagou
viagens internacionais para Flávio e sua família.
Flávio
reconhece ser amigo próximo de Willer Tomaz. Já era sabido que o senador e sua
família com frequência viajam ao exterior de jatinho com o advogado. Segundo
reportagem do jornal O Globo de 18 de setembro, ambos fizeram cinco viagens
internacionais juntos entre janeiro e maio de 2025, para destinos como Estados
Unidos, África do Sul e Europa. Procurado na ocasião, o senador não respondeu
sobre quem custeou as viagens. Em uma delas, o candidato do PL viajou com sua
família da Flórida (EUA) a Brasília em janeiro do ano passado em um jatinho que
pertencia a Tomaz em sociedade com uma empresa de Daniel Vorcaro, banqueiro que
está preso acusado de fraudes bilionárias no Banco Master. O advogado também
estava no voo. Em nota enviada ao Estado de S. Paulo no domingo, o senador
negou estar sendo investigado no STF. "Os autos que chegaram à Corte
sequer foram convertidos em inquérito, não houve manifestação da
Procuradoria-Geral da República ou qualquer decisão judicial a respeito.
Noticiar como 'novo inquérito' o que não passa de um expediente recém-autuado,
pendente de análise, distorce a realidade e induz o leitor a erro", disse.
Por
meio de nota à BBC News Brasil, o escritório de Willer Tomaz criticou o
vazamento de informações sigilosas a poucos dias da eleição e disse que
"todas as empresas e participações do advogado são lícitas, identificadas
em registros públicos e informadas em sua declaração de imposto de renda. Não
há sócios ocultos, contas não declaradas nem patrimônio escondido. A Rede Loto,
integralmente detida pela Cathedral, nunca lançou operação de apostas",
reforçou. "O senador Flávio Bolsonaro jamais teve acesso ou poderes sobre
conta de qualquer empresa do advogado. A relação entre os dois é de amizade
entre famílias, e amizade não é crime", disse ainda. Já Cláudio Castro
respondeu à BBC News Brasil por meio de sua assessoria. O ex-governador disse
que é amigo de Tomaz e o conhece desde 2020, mas nega ilegalidades. Informou
ainda que o advogado atuou em sua defesa em alguns processos de graça. "Cláudio
Castro afirma que não praticou qualquer ato ilícito, não recebeu vantagem
indevida e nega qualquer relação entre sua amizade com Willer e decisões
administrativas do Governo do Estado", afirmou também.
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Caso Master
Flávio
Bolsonaro é alvo de um inquérito da Polícia Federal que apura suposta lavagem
de dinheiro, corrupção e outros possíveis crimes no financiamento do filme Dark
Horse junto ao Banco Master. O senador negociou diretamente com o então
banqueiro Daniel Vorcaro um contrato de cerca de R$ 134 milhões para financiar
o filme sobre a vida de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Cerca de
metade do valor foi de fato pago, segundo a PF, até que os desembolsos foram
interrompidos com a liquidação do Master em novembro de 2025, após o Banco
Central detectar fraudes bilionárias. A suspeita da PF é que parte dos recursos
repassados tenha sido desviada para outra finalidade. Até o momento, a
produtora do filme não detalhou como os quase R$ 70 milhões recebidos foram
gastos. O dinheiro não foi diretamente para a produtora, mas para um fundo
imobiliário nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, amigo
de Eduardo Bolsonaro.
Flávio
Bolsonaro nega qualquer ilegalidade. "Eu estou falando de um pedido de um
patrocínio privado para um filme privado, sem absolutamente nenhuma
contrapartida", afirmou na sexta-feira (15/10), durante sabatina da TV
Globo. Os contatos do senador com Vorcaro começaram no final de 2024 e se
estenderam até mesmo após sua primeira prisão, em 17 de novembro de 2025. O
senador chegou a encontrar o banqueiro em dezembro daquele ano, em sua casa,
quando ele estava em prisão domiciliar, usando tornozeleira eletrônica. Segundo
Flávio, o encontro serviu apenas para encerrar a relação e o financiamento do
filme.
Vorcaro
foi preso novamente em março. Ele é suspeito de liderar fraudes bilionárias à
frente do banco, que envolveram depósitos de grandes fundos de pensão de
servidores estaduais e municipais. Um deles foi o Rioprevidência, dos
servidores estaduais do Rio de Janeiro, na época governado pelo aliado de
Flávio, Cláudio Castro (PL). O fundo aplicou R$ 3,69 bilhões no Master e amarga
prejuízos com a operação.
O
inquérito que investiga Flávio pelo filme Dark Horse tramita no gabinete
do ministro do STF André Mendonça.
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As acusações de vínculos com milicianos
O
senador já enfrenta há anos acusações de vínculos com milicianos, após empregar
em seu antigo gabinete de deputado estadual no Rio de Janeiro parentes de
Adriano da Nóbrega — capitão expulso da Polícia Militar em 2014 por
envolvimento com o jogo do bicho e que, depois, foi acusado de atuar como
miliciano e chefiar o Escritório do Crime, especializado em assassinatos por
encomenda. Sua mãe, Raimunda Magalhães, e sua então esposa, Danielle Mendonça
da Costa, trabalharam no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de
Janeiro (Alerj), até serem exoneradas em 2018, quando o escândalo da
"rachadinha" veio à tona. Elas são suspeitas de terem participado de
um esquema em que pessoas contratadas para atuar no gabinete atuariam como
funcionários fantasmas e devolveriam parte dos seus salários a Flávio
Bolsonaro.
No caso
mais recente ligando o senador a milícias, o jornal Estado de S. Paulo revelou
em setembro que o gabinete do senador enviou, em 2024, emenda parlamentar no
valor de R$ 199 mil para um suposto projeto esportivo no Rio de Janeiro após
pedido do miliciano Robson Calixto, conhecido como "Peixe", que foi
condenado em fevereiro no STF por envolvimento no assassinato da vereadora
Marielle Franco (PSOL-RJ). De acordo com a reportagem, "as informações
fazem parte de investigação da Polícia Federal deflagrada em julho deste ano
para apurar desvios de emendas enviadas a entidades do Rio de Janeiro
vinculadas ao ex-deputado Chiquinho Brazão e ao ex-conselheiro do Tribunal de
Contas do Estado (TCE) Domingos Brazão, condenados pela morte de Marielle
Franco". Dentro dessa apuração, a Polícia Federal encontrou no celular de
Calixto diálogos sobre a liberação da emenda entre ele e uma assessora de
Flávio Bolsonaro, Maria de Fátima Bezerra Castro. Em resposta ao jornal, o
senador Flávio Bolsonaro afirmou que os recursos foram destinados dentro da
legislação vigente, sem comentar os diálogos de sua assessora com o miliciano. "A
emenda foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do
Ministério do Esporte. A entidade executora apresentou notas fiscais dos
materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados. A responsabilidade
pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar.
Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como
determina a lei", diz a nota.
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Rachadinha, o caso arquivado
Flávio
Bolsonaro entrou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em 2003 e
cumpriu quatro mandatos. No último ano, em 2018, quando foi eleito senador e
seu pai presidente, foi revelado o escândalo da rachadinha. O caso veio à tona
após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontar
movimentação milionária na conta de Fabrício Queiroz, chefe de gabinete de
Flávio na Alerj, incompatível com seu salário. Depois, em 2020, Queiroz foi
acusado na denúncia do Ministério Público de ser o operador de um esquema que
recolhia parte do salário dos funcionários do antigo gabinete de Flávio em
benefício do parlamentar, o que configuraria a chamada rachadinha. Segundo a
denúncia, 12 funcionários fantasmas receberam, no total, R$ 6,1 milhões, em
valores da época. Desse montante, o Ministério Público afirma que ao menos R$ 2
milhões foram comprovadamente para a conta de Queiroz e outros R$ 2 milhões
foram disponibilizados à organização criminosa por meio de saques em espécie. Entre
as ações suspeitas estavam depósitos fracionados em dinheiro vivo feitos por
Queiroz na conta do atual senador e de sua esposa que, segundo a denúncia,
coincidiram com o vencimento de parcelas de financiamentos para adquirir dois
imóveis no Rio de Janeiro.
Além
disso, os promotores identificaram que Queiroz pagou com dinheiro vivo 169
boletos referentes a pagamentos da escola das filhas de Flávio Bolsonaro e do
plano de saúde da família entre 2013 e 2018, somando R$ 247 mil, em valores da
época.
Durante
as investigações, Queiroz admitiu que recebia parte dos salários dos
funcionários, mas disse fazer isso sem anuência de Flávio, o que não convenceu
o Ministério Público. Na versão de sua defesa, os recursos eram usados para
contratar informalmente outras pessoas para atuar em apoio à atuação
parlamentar do então deputado estadual. "Nunca teve início um processo
criminal contra mim. Eu nunca respondi criminalmente por isso. Foram mais de 30
assessores meus que foram investigados, quebra de sigilo de 11 anos para trás.
Essa devassa", disse Flávio Bolsonaro em abril, ao responder sobre as
acusações em entrevista ao podcast Inteligência Ltda.. "O que o
Queiroz tinha ali no gabinete, ele cuidava de uma parte da minha assessoria que
trabalhava em rua, fazia panfletagem, fazia eventos e tal, e ele tinha
autonomia sobre esse pessoal e ele fala que ele fazia isso", continuou,
repetindo a versão de Queiroz de que o dinheiro que recebeu de funcionários do
gabinete de Flávio não era "rachadinha", mas servia para ele
contratar mais pessoas informalmente.
Para o
filho mais velho de Bolsonaro, as denúncias eram perseguição política para
atingir o governo do pai. "Eu passei 16 anos da minha vida sem ter uma
acusação de nada. Bastou o presidente se eleger que começam a aparecer as
narrativas". Flávio chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio
de Janeiro em 2019 pelos crimes de organização criminosa, peculato e lavagem de
dinheiro. O caso, porém, foi paralisado por decisões judiciais sem que o mérito
das acusações fosse julgado, após controvérsias em torno do foro privilegiado
do senador e da legalidade das provas. O Superior Tribunal de Justiça (STJ),
por exemplo, anulou decisões da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro que
permitiram a quebra de sigilo bancário e fiscal do parlamentar e de pessoas
relacionadas a ele, porque considerou que a medida não foi devidamente
fundamentada. Já o STF anulou relatórios feitos pelo Coaf que embasaram a
investigação e as provas decorrentes deles, porque entendeu que o órgão não
poderia produzir relatórios de inteligência financeira contra suspeito que
ainda não tenha sido incluído formalmente em procedimento investigatório. Procurado
pela BBC News Brasil em maio, o Ministério Público do Rio de Janeiro informou
que o caso foi encerrado após o ministro do STF Gilmar Mendes rejeitar um
recurso pedindo a reabertura da investigação em fevereiro de 2025.
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O que pesa contra Lula
No
domingo (18/10), no primeiro debate frente a frente do segundo turno, os
candidatos à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), passaram boa parte
do primeiro bloco trocando acusações de corrupção sobre os próprios candidatos
e também alguns de seus parentes. Mas o
que de fato pesa contra o presidente e seus familiares?
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Lava Jato
Lula
enfrentou uma série de acusações na Operação Lava Jato. Hoje todos os
procedimentos estão encerrados ou suspensos. Isso aconteceu por três caminhos:
absolvição, anulação por violação de direitos do acusado e arquivamento. Houve
absolvição, por exemplo, na denúncia em que ele, Dilma Rousseff e outros
integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT) eram acusados de organização
criminosa. A absolvição sumária veio em dezembro de 2019, após o próprio MPF
pedir esse desfecho. Nos casos mais conhecidos, o do triplex do Guarujá e o do
sítio de Atibaia, Lula chegou a ser condenado. Mas os processos foram anulados
ou interrompidos porque a Justiça entendeu que houve ilegalidades contra o
Lula.
No
primeiro, o petista foi acusado de receber uma cobertura no Guarujá, cidade no
litoral paulista, do grupo OAS, como um suposto acerto por desvios de recursos
da Petrobras durante o governo petista. No segundo, Lula foi acusado de ser
beneficiado por obras realizadas por OAS e Odebrecht em um sítio em Atibaia, no
interior de São Paulo, que pertencia a um amigo seu e que o então ex-presidente
frequentava com sua família. Também nesse caso, a força-tarefa da Lava Jato
dizia que essas benfeitorias foram bancadas com dinheiro desviado da estatal. Em
ambos os casos, a defesa de Lula argumentava que os dois imóveis jamais
pertenceram a ele. Os advogados também afirmaram que não havia qualquer prova
concreta de que as obras foram pagas com dinheiro desviado da Petrobras, já que
essas acusações se baseavam na palavra de delatores ou de outros réus do
processo, que estariam tentando se beneficiar na Justiça ao acusar Lula. O caso
do triplex foi julgado por Sergio Moro, então juiz e hoje senador pelo PL,
eleito governador do Paraná no primeiro turno das atuais eleições. O caso do
sítio foi julgado pela juíza Gabriela Hardt. As duas condenações foram
confirmadas depois pelo Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF-4). No caso
do triplex, isso ocorreu ainda em 2018, o que tornou Lula inelegível naquela
eleição. Ele também foi preso naquele ano porque o STF autorizou a prisão após
condenação em segunda instância.
Em
2021, o STF anulou as condenações. O ministro Edson Fachin reconheceu que a
vara de Curitiba não seria a jurisdição correta para o processo. A Segunda
Turma, e depois o plenário, consideraram que Moro agiu com parcialidade no caso
do triplex, extensão depois aplicada ao do sítio. O petista ficou preso 580
dias antes de as condenações serem anuladas. Com o retorno à estaca zero, o
prazo estabelecido na legislação penal para possível punição dos crimes, caso
Lula fosse considerado culpado, terminou. E, quando não há mais possibilidade
de punição, as acusações são arquivadas definitivamente. Ou seja, Lula não pode
mais ser julgado nos casos do triplex e do sítio de Atibaia.
Lula,
então, pode ser considerado inocentado da Lava Jato?
O termo
"inocentado" não existe dentro da linguagem jurídica e é usado de
forma coloquial. Dentro das normas jurídicas, uma pessoa acusada pode ser
condenada ou absolvida.
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Operação Zelotes
Lula
virou réu em 2017 por tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização
criminosa no âmbito da Operação Zelotes, acusado de favorecer montadoras por
meio de uma medida provisória em troca de doações ao PT. A acusação era de que
Lula teria editado uma MP em 2009 para favorecer algumas empresas do setor
automotivo em troca de propina que, segundo o Ministério Público Federal (MPF),
teria sido de R$ 6 milhões para o custeio de campanhas eleitorais do partido. A
defesa do então ex-presidente argumentou que não havia provas. A Justiça
Federal absolveu Lula em 2021. O juiz Frederico Botelho de Barros Viana, da 10ª
Vara Federal, concluiu que não havia evidências mínimas que comprovassem a
participação de Lula no esquema. Outros réus também foram absolvidos na mesma
decisão.
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Lulinha
Ainda
que Lula não figure como investigado, suspeitas envolvendo seu filho mais
velho, Lulinha, pressionam a campanha do presidente. No debate da Band, Flávio
Bolsonaro acusou o governo do petista de "roubar" os aposentados, em
referência ao escândalo do INSS. Atualmente, Lulinha, como é conhecido, vive
com a família em Madri, na Espanha. Ele entrou nos holofotes por ser alvo de
três inquéritos no STF, abertos a pedido da PF e autorizados em julho e agosto.
Os
inquéritos apuram suspeitas de tráfico de influência: o possível favorecimento
de uma empresa de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS",
na venda de derivados de cannabis ao Ministério da Saúde; a suspeita de
beneficiar empresários em contratos da Dataprev; e suposta atuação de um grupo
para favorecer empresas no governo federal. O nome de Lulinha surgiu no âmbito
da Operação Sem Desconto, quando testemunhas disseram ter ouvido que Antunes
fez pagamentos a Lulinha, incluindo R$ 25 milhões e uma "mesada" de
R$ 300 mil. Pelo relatório da CPMI, o relato é de um ex-empregado de Antunes e
não há confirmação documental pública.
Lulinha
admitiu que acompanhou Antunes em uma viagem à Portugal em 2024 — com
hospedagem e passagens pagas por Antunes — para visitar uma fábrica de produção
de cannabis medicinal. Mas Lulinha disse não ter recebido nenhum pagamento do
empresário. Sua defesa afirma que ele desconhecia as atividades de Antunes com
o INSS.
Em
março, a CPMI do INSS rejeitou, por 19 votos a 12, o relatório do deputado
Alfredo Gaspar (PL-AL), que pedia o indiciamento de 216 pessoas, entre elas
Lulinha, e sua prisão preventiva. Gaspar é da oposição e foi acusado de agir
politicamente — hoje ele é candidato a vice na chapa de Flávio. Os inquéritos
envolvendo Lulinha estão correndo no STF. Em agosto, a Procuradoria-Geral da
República (PGR) pediu que fossem enviados à primeira instância. O argumento é
de que, como não ocupa cargos políticos com foro privilegiado junto ao STF, não
haveria motivos para que as investigações tramitassem no Supremo. A Corte, no
entanto, ainda não deferiu o pedido.
No
debate presidencial, Lula afirmou que acredita na inocência do filho. Ele
também já disse, anteriormente, que o caso tem que ser apurado. Já a defesa de
Lulinha disse à BBC News Brasil que não responderá a "questões de fatos e
de mérito feitas com base em relatórios iniciais da polícia" e que "a
inocência de Fábio será provada primeiro no lugar adequado, que é o processo".
O caso envolvendo Lulinha tem outro personagem também próximo ao presidente
Lula: o seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como
Marcola. Ele apareceu no radar da PF durante as investigações de suposto
tráfico de influência, depois que investigadores identificaram que ele teria
tido despesas pagas por uma lobista próxima a Lulinha. Marcola deixou o cargo
em julho e nega ter repassado a minuta de contrato enviada pela lobista. Na
ocasião, Lula disse que a relação gerava suspeita no Planalto e que, se ele
errou, responderia por isso.
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Roberta Luchsinger
A
empresária Roberta Moreira Luchsinger é outro nome que tem sido explorado pelos
adversários políticos de Lula. Também alvo das investigações, ela é apontada
como amiga próxima de Lulinha e elo entre ele e Antunes, sendo suspeita de ter
intermediado pagamentos para o filho do presidente. Lula não figura como
investigado nesses inquéritos. Luchsinger concedeu uma entrevista à CNN Brasil
no sábado (17/10), em que afirmou estar disposta a tentar um acordo de delação
premiada. No canal, a lobista acusou a PF de agir para proteger Lulinha. Ela
passou a ser investigada pela Polícia Federal nos últimos dois anos no âmbito
da Operação Sem Desconto, que apura um esquema de descontos não autorizados em
aposentadorias e pensões do INSS. Roberta também está sendo investigada para
apurar suspeitas de que atuou de forma irregular, fazendo lobby de empresas
interessadas em obter contratos com o governo federal.
Segundo
levantamento do Estadão com base na Lei de Acesso à Informação, ela esteve 42
vezes em órgãos do governo federal entre o início do terceiro mandato de Lula,
em janeiro de 2023, e abril de 2024. Em 41 dessas ocasiões, as visitas não
apareceram nas agendas oficiais das autoridades. Em algumas dessas visitas,
Roberta estava acompanhada de empresários ou de pessoas próximas a Lulinha. Em
dezembro de 2025, foi alvo de uma operação de busca e apreensão. Um dos pontos
que levaram Roberta ao radar da PF foi sua relação financeira com o
"Careca do INSS". Segundo os investigadores, empresas ligadas a
Antunes fizeram cinco pagamentos de R$ 300 mil para uma empresa de Roberta,
totalizando R$ 1,5 milhão.
A
atuação de Roberta junto ao governo também é um dos elementos que ajudam a
explicar o interesse da PF em suas relações com Lulinha.
Uma das
linhas investigadas pela PF é verificar se Lulinha teria atuado para facilitar
a autorização, pelo governo, da comercialização de cannabis medicinal. Em
depoimento à PF em maio, segundo informações divulgadas pelo UOL, ela afirmou
que prestou serviços para Antunes relacionados à regulação do mercado de
canabidiol e que foi remunerada por esse trabalho. Disse ainda que, quando
conheceu o lobista, não sabia das suspeitas que posteriormente surgiriam contra
ele. Nos últimos meses, sua defesa vem argumentando que a empresária estaria
sendo alvo de uma perseguição. Além das movimentações financeiras, a PF ainda
investiga o conteúdo das comunicações de Roberta e Antunes.
Ao
longo da entrevista à CNN Brasil, Roberta fez várias queixas sobre Lula. A
empresária, no entanto, não apresentou informações novas sobre as investigações
em curso. O presidente disse à TV Globo que a lobista é uma "pilantra
muito grande", que teria enganado muitas pessoas. No debate, respondeu a
Flávio Bolsonaro afirmando que Roberta Luchsinger "é problema da Polícia
Federal".
Fonte:
BBC News Brasil

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