O
ciclo eleitoral virou um ciclo de protestos
Em 5 de
outubro, centenas de estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram em
passeata por Niterói contra a eleição de Flávio Bolsonaro (PL). Era o dia
seguinte ao primeiro turno, em que Flávio Bolsonaro terminou 1,9 ponto
percentual à frente do presidente Lula (PT) e o PL elegeu as maiores bancadas
da Câmara e do Senado desde a Constituição de 1988.
Na
quarta (7), o ato Juventude na Rua pela Democracia levou milhares de pessoas ao
centro do Rio. Na quinta (8), houve protestos em universidades de pelo menos 13
estados e do Distrito Federal. A onda não nasceu da campanha de Lula. O vídeo
em que o presidente convoca “Bora para a rua!” foi ao ar quando os atos já
tinham começado, e integrantes da própria campanha disseram à CNN Brasil que o
movimento era espontâneo, “sem necessariamente a participação da coordenação”.
No
domingo (11), rua e campanha se encontraram: a Marcha pela Democracia,
convocada por entidades estudantis e movimentos sociais, levou Lula à avenida
Paulista. As campanhas leem a rua de modos opostos. A de Lula diz que os atos
lhe deram fôlego; a de Flávio, que a reação da esquerda “não fura a bolha”.
Protestos
e campanha têm o mesmo objetivo: derrotar Flávio Bolsonaro e reeleger Lula. Mas
a autonomia da rua mostra que o ciclo eleitoral virou um ciclo de protestos.
Isso levanta duas perguntas. A primeira é se a rua vai mover votos no segundo
turno, em 25 de outubro. A segunda é que papel ela terá no dia seguinte, seja
quem for o vencedor.
Entre
os casos documentados pela ciência política, o mais parecido com o nosso é o da
França em 2002. Com Jean-Marie Le Pen e o então presidente Jacques Chirac no
segundo turno, cerca de 350 manifestações contra a extrema direita tomaram o
país no 1º de Maio. Os economistas Nicolas Lagios, Pierre-Guillaume Méon e Ilan
Tojerow usaram a chuva daquele dia, que esvaziou alguns atos e poupou outros,
para medir o efeito sobre o voto. Pela versão preliminar do estudo, sem os
protestos, Jean-Marie Le Pen teria obtido de 0,9 a 2,8 pontos percentuais a
mais. Segundo os autores, os atos tornaram menos aceitável votar nele, e a
imprensa local levou esse efeito a cidades sem manifestação. Jacques Chirac
ganhou votos à direita, entre eleitores que abandonaram Jean-Marie Le Pen, e à
esquerda, entre os que desistiram de anular o voto.
A
pesquisa mais extensa vem dos Estados Unidos. O cientista político Omar Wasow
estimou que, nos anos 1960, os protestos não violentos do movimento negro
renderam cerca de 1,6 ponto percentual aos democratas nos condados próximos. Os
distúrbios que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King, em 1968,
tiveram o efeito oposto: em condados com população ao menos 90% branca, o voto
democrata caiu de 5,6 a 7,9 pontos percentuais. Nas simulações do autor, sem
aqueles distúrbios, o democrata Hubert Humphrey teria derrotado o republicano
Richard Nixon em três de cada quatro cenários.
No
Brasil, o ensaio geral foi o #EleNão, uma semana antes do primeiro turno de
2018. Nas pesquisas daqueles dias, Jair Bolsonaro subiu cerca de seis pontos
percentuais entre as mulheres, e Fernando Haddad (PT) oscilou de 22% para 21%
no eleitorado total. A imprensa falou em efeito rebote, mas não encontrei
estudo que tenha testado a tese, e a semana teve outros fatos, como a reação
antipetista à ascensão de Haddad e a saída de Jair Bolsonaro do hospital.
Nas
urnas, protestos podem mobilizar a base, reduzir a abstenção e até tirar do
adversário alguns eleitores pouco engajados. O efeito francês, no entanto,
dependeu de uma norma que atravessou o espectro político. Os atos de outubro só
se aproximam do caso francês se levarem para a rua, e para o noticiário, gente
que não costuma votar na esquerda.
Se
forem lidos como mais uma demonstração de força do campo lulista, vão mobilizar
quem já vota em Lula, o que conta numa disputa separada por menos de dois
pontos e em que 33,4 milhões de eleitores não votaram no primeiro turno.
Violência e distúrbios podem custar caro e produzir o efeito oposto, e o risco
não é hipotético: na dispersão do ato da Paulista, a Secretaria da Segurança
Pública de São Paulo registrou “algumas ocorrências de tumulto, pichações e
depredação”.
Para o
dia seguinte, há uma lógica recorrente: quem perde a eleição tende a ir para a
rua, e quem ganha, a sair dela. Hanspeter Kriesi observou o padrão na Europa
Ocidental, onde os novos movimentos sociais recuavam quando a esquerda chegava
ao governo. Nos Estados Unidos, Michael Heaney e Fabio Rojas mostraram que as
vitórias democratas de 2006 e 2008 desmobilizaram o movimento contra as guerras
do Iraque e do Afeganistão, embora as guerras continuassem.
Seja
qual for o resultado, o Congresso eleito imporá uma agenda difícil ao campo
democrático. O PL terá 121 deputados e 28 senadores. Pela classificação do
Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a direita passou
de 248 para 260 deputados e de 32 para 48 senadores. O Supremo Tribunal Federal
(STF), que serviu de contrapeso ao governo Jair Bolsonaro, chegará a 2027 como
alvo.
Se
Flávio Bolsonaro vencer, esse Congresso dará sustentação a um presidente que
prometeu anistiar os envolvidos no 8 de janeiro e cujo plano de governo propõe
acabar com as competências criminais originárias do STF e limitar as decisões
monocráticas de seus ministros. A resistência terá de vir, em boa parte, de
fora das instituições, e vai precisar de amplitude, como na França de 2002, e
de disciplina.
Se Lula
for reeleito, o maior desafio de quem hoje ocupa as ruas será não repetir o que
costumam fazer os vencedores: sair delas. O presidente governará com uma Câmara
em que a esquerda e a centro-esquerda somam 124 dos 513 deputados, mas a
cientista política Lara Mesquita, da FGV, lembra que “um governo minoritário
não é um governo que não faz nada”. O caminho para a maioria ainda passa pelo
centrão, e há um precedente de como a rua entra nessa negociação.
Em 21
de setembro de 2025, atos contra a anistia aos condenados pela tentativa de
golpe e contra a PEC da Blindagem levaram cerca de 42 mil pessoas à avenida
Paulista e outras 42 mil a Copacabana, segundo o Monitor do Debate Político, da
USP. A PEC exigia aval da Câmara ou do Senado para processar ou prender
parlamentares.
Três
dias depois, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado a rejeitou por 26 a
0, e o senador Jorge Seif (PL-SC) disse que a Casa devia ser sensível às “vozes
das ruas”. Não há como medir quanto da rejeição se deveu aos atos, mas o
episódio indica que a rua pesa mais quando mira uma medida concreta, com
votação marcada.
A rua
organizada é recurso nessa negociação, e não substituto dela. Isso exige
movimentos autônomos, capazes de pressionar o Congresso e de cobrar o próprio
governo, sem se desmobilizar depois da vitória.
Fonte:
Por Gabriel Santos Elias, em A Terra é Redonda

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