sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O ciclo eleitoral virou um ciclo de protestos

Em 5 de outubro, centenas de estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram em passeata por Niterói contra a eleição de Flávio Bolsonaro (PL). Era o dia seguinte ao primeiro turno, em que Flávio Bolsonaro terminou 1,9 ponto percentual à frente do presidente Lula (PT) e o PL elegeu as maiores bancadas da Câmara e do Senado desde a Constituição de 1988.

Na quarta (7), o ato Juventude na Rua pela Democracia levou milhares de pessoas ao centro do Rio. Na quinta (8), houve protestos em universidades de pelo menos 13 estados e do Distrito Federal. A onda não nasceu da campanha de Lula. O vídeo em que o presidente convoca “Bora para a rua!” foi ao ar quando os atos já tinham começado, e integrantes da própria campanha disseram à CNN Brasil que o movimento era espontâneo, “sem necessariamente a participação da coordenação”.

No domingo (11), rua e campanha se encontraram: a Marcha pela Democracia, convocada por entidades estudantis e movimentos sociais, levou Lula à avenida Paulista. As campanhas leem a rua de modos opostos. A de Lula diz que os atos lhe deram fôlego; a de Flávio, que a reação da esquerda “não fura a bolha”.

Protestos e campanha têm o mesmo objetivo: derrotar Flávio Bolsonaro e reeleger Lula. Mas a autonomia da rua mostra que o ciclo eleitoral virou um ciclo de protestos. Isso levanta duas perguntas. A primeira é se a rua vai mover votos no segundo turno, em 25 de outubro. A segunda é que papel ela terá no dia seguinte, seja quem for o vencedor.

Entre os casos documentados pela ciência política, o mais parecido com o nosso é o da França em 2002. Com Jean-Marie Le Pen e o então presidente Jacques Chirac no segundo turno, cerca de 350 manifestações contra a extrema direita tomaram o país no 1º de Maio. Os economistas Nicolas Lagios, Pierre-Guillaume Méon e Ilan Tojerow usaram a chuva daquele dia, que esvaziou alguns atos e poupou outros, para medir o efeito sobre o voto. Pela versão preliminar do estudo, sem os protestos, Jean-Marie Le Pen teria obtido de 0,9 a 2,8 pontos percentuais a mais. Segundo os autores, os atos tornaram menos aceitável votar nele, e a imprensa local levou esse efeito a cidades sem manifestação. Jacques Chirac ganhou votos à direita, entre eleitores que abandonaram Jean-Marie Le Pen, e à esquerda, entre os que desistiram de anular o voto.

A pesquisa mais extensa vem dos Estados Unidos. O cientista político Omar Wasow estimou que, nos anos 1960, os protestos não violentos do movimento negro renderam cerca de 1,6 ponto percentual aos democratas nos condados próximos. Os distúrbios que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King, em 1968, tiveram o efeito oposto: em condados com população ao menos 90% branca, o voto democrata caiu de 5,6 a 7,9 pontos percentuais. Nas simulações do autor, sem aqueles distúrbios, o democrata Hubert Humphrey teria derrotado o republicano Richard Nixon em três de cada quatro cenários.

No Brasil, o ensaio geral foi o #EleNão, uma semana antes do primeiro turno de 2018. Nas pesquisas daqueles dias, Jair Bolsonaro subiu cerca de seis pontos percentuais entre as mulheres, e Fernando Haddad (PT) oscilou de 22% para 21% no eleitorado total. A imprensa falou em efeito rebote, mas não encontrei estudo que tenha testado a tese, e a semana teve outros fatos, como a reação antipetista à ascensão de Haddad e a saída de Jair Bolsonaro do hospital.

Nas urnas, protestos podem mobilizar a base, reduzir a abstenção e até tirar do adversário alguns eleitores pouco engajados. O efeito francês, no entanto, dependeu de uma norma que atravessou o espectro político. Os atos de outubro só se aproximam do caso francês se levarem para a rua, e para o noticiário, gente que não costuma votar na esquerda.

Se forem lidos como mais uma demonstração de força do campo lulista, vão mobilizar quem já vota em Lula, o que conta numa disputa separada por menos de dois pontos e em que 33,4 milhões de eleitores não votaram no primeiro turno. Violência e distúrbios podem custar caro e produzir o efeito oposto, e o risco não é hipotético: na dispersão do ato da Paulista, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo registrou “algumas ocorrências de tumulto, pichações e depredação”.

Para o dia seguinte, há uma lógica recorrente: quem perde a eleição tende a ir para a rua, e quem ganha, a sair dela. Hanspeter Kriesi observou o padrão na Europa Ocidental, onde os novos movimentos sociais recuavam quando a esquerda chegava ao governo. Nos Estados Unidos, Michael Heaney e Fabio Rojas mostraram que as vitórias democratas de 2006 e 2008 desmobilizaram o movimento contra as guerras do Iraque e do Afeganistão, embora as guerras continuassem.

Seja qual for o resultado, o Congresso eleito imporá uma agenda difícil ao campo democrático. O PL terá 121 deputados e 28 senadores. Pela classificação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a direita passou de 248 para 260 deputados e de 32 para 48 senadores. O Supremo Tribunal Federal (STF), que serviu de contrapeso ao governo Jair Bolsonaro, chegará a 2027 como alvo.

Se Flávio Bolsonaro vencer, esse Congresso dará sustentação a um presidente que prometeu anistiar os envolvidos no 8 de janeiro e cujo plano de governo propõe acabar com as competências criminais originárias do STF e limitar as decisões monocráticas de seus ministros. A resistência terá de vir, em boa parte, de fora das instituições, e vai precisar de amplitude, como na França de 2002, e de disciplina.

Se Lula for reeleito, o maior desafio de quem hoje ocupa as ruas será não repetir o que costumam fazer os vencedores: sair delas. O presidente governará com uma Câmara em que a esquerda e a centro-esquerda somam 124 dos 513 deputados, mas a cientista política Lara Mesquita, da FGV, lembra que “um governo minoritário não é um governo que não faz nada”. O caminho para a maioria ainda passa pelo centrão, e há um precedente de como a rua entra nessa negociação.

Em 21 de setembro de 2025, atos contra a anistia aos condenados pela tentativa de golpe e contra a PEC da Blindagem levaram cerca de 42 mil pessoas à avenida Paulista e outras 42 mil a Copacabana, segundo o Monitor do Debate Político, da USP. A PEC exigia aval da Câmara ou do Senado para processar ou prender parlamentares.

Três dias depois, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado a rejeitou por 26 a 0, e o senador Jorge Seif (PL-SC) disse que a Casa devia ser sensível às “vozes das ruas”. Não há como medir quanto da rejeição se deveu aos atos, mas o episódio indica que a rua pesa mais quando mira uma medida concreta, com votação marcada.

A rua organizada é recurso nessa negociação, e não substituto dela. Isso exige movimentos autônomos, capazes de pressionar o Congresso e de cobrar o próprio governo, sem se desmobilizar depois da vitória.

 

Fonte: Por Gabriel Santos Elias, em A Terra é Redonda

 

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