Saúde
e soberania digital: dois caminhos na eleição
A
interferência da empresa Meta em prol do candidato ultradireitista Flávio
Bolsonaro marcou a última semana das eleições presidenciais de 2026 no Brasil.
A big tech alegou que “problemas técnicos” restringiram o engajamento da
campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas redes sociais.
A
centralidade da luta pela soberania digital e de dados na atual conjuntura,
inclusive no setor saúde, é ressaltada pelo professor da Universidade Federal
do ABC (UFABC), Sérgio Amadeu, em entrevista ao Outra Saúde: “Em uma hipótese
da extrema-direita no Poder Executivo, nós vamos ter que atuar, sim, com
mobilizações, organizando o movimento popular para a luta. Porque o que eles
vão fazer é pra se apossar dos dados”. Amadeu foi um dos autores de um
documento de propostas elaborado pelo GT Saúde Digital da Frente pela Vida, que
elencou seis propostas emergenciais para garantir a soberania digital popular.
O tema
é de particular importância para o Sistema Único de Saúde (SUS), tendo em vista
que infraestruturas estratégicas, como a Rede Nacional de Dados em Saúde e o
Conecte SUS (atualmente Meu SUS Digital), mantinham os dados de saúde da
população em servidores da Amazon Web Services, em “parceria” firmada por Jair
Bolsonaro em 2020. Recentemente, o governo Lula iniciou a transição desses
dados para a iniciativa Nuvem Soberana do SUS, administrada pelo Estado por
meio da empresa pública Serpro.
Em
outras palavras, a prática concreta da extrema-direita no Governo Federal foi
manter pilares estruturantes da máquina de Estado dependentes de empresas
estrangeiras, deixando à mercê dessas companhias os rumos do país. As
informações privadas e sensíveis dos brasileiros tornam-se objeto de
mercantilização em suas mãos.
Por
isso, a conversa com o especialista e professor da UFABC revela que, nestas
eleições, há dois caminhos possíveis para a transformação digital da saúde. Com
Lula, ainda que com medidas titubeantes, há espaço para diálogo e composição
para trabalhar pela construção real de uma capacidade soberana. Com Flávio
Bolsonaro, predominará a submissão aos interesses comerciais e políticos do
Norte.
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Flávio Bolsonaro e os riscos de privatização dos dados do SUS
Analisando
as possibilidades de uma saúde digital pautada pela lógica neoliberal de Flávio
Bolsonaro, o professor aponta duas preocupações principais: a tendência de
desmonte dos serviços públicos por meio da terceirização e o risco de grandes
perdas econômicas para o Brasil, através da remessa de lucros às empresas
norte-americanas.
Em
artigo recente, pesquisadores do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA chamam
atenção para a proposta bolsonarista de um espaço compartilhado entre saúde
pública e privada – em outro momento, chamada de Open Health –, onde estaria
disponível um prontuário eletrônico único vinculado ao CPF de cada cidadão.
Eles alertam para a falta de proteção da privacidade e o livre acesso ao
histórico de saúde dos brasileiros por agentes com interesses mercantis,
principalmente em um plano de governo que aposta na abertura ao mercado e na
redução do Estado.
Para
Amadeu, a transferência de dados para empresas privadas pode colaborar com a
perda da capacidade estatal de gerir seus serviços, uma vez que desencadearia
em novas terceirizações. Na avaliação do professor, esse processo permite que
empresas assumam funções antes desempenhadas pelo poder público, sob a
justificativa de reduzir custos, mas com o risco de comprometer o atendimento à
população mais pobre.
“Você
vai passando funções das estruturas estatais para empresas que operam o
digital, porque o neoliberalismo manda que você faça tudo por empresas. O
neoliberalismo é o Estado a serviço das empresas”, provoca.
Além
disso, o pesquisador alerta para o aprofundamento da subordinação da economia
brasileira em relação às corporações norte-americanas. Segundo ele, um eventual
governo Flávio Bolsonaro poderia ampliar a articulação entre as Big Techs e os
grupos privados de saúde.
“A
Amazon oferece serviços médicos, o próprio grupo Alphabet (Google) sempre
tentou entrar na área de saúde. Eles vão ter um experimento a realizar aqui no
Brasil”, alerta Amadeu. Se Flávio Bolsonaro facilitar o acesso do setor privado
aos dados do SUS, essas empresas, que já dominam informações sobre o cotidiano
e comportamento da população, poderão passar a influenciar compras relacionadas
também à saúde. “Você pode criar uma série de produtos e serviços – bons ou
ruins, isso importa menos – que são colocados à disposição para gerar lucro
para essas grandes corporações, que é o que elas querem”, explica.
Para
Amadeu, essa dependência seria prejudicial tanto à economia brasileira, campo
no qual ele aponta uma possibilidade de perdas brutais, quanto à garantia do
direito à saúde, ao colocar o controle de informações estratégicas nas mãos de
empresas estrangeiras.
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Governo Lula: avanços e limites da soberania digital
No que
diz respeito às políticas de saúde digital elaboradas durante o governo lula 3,
Amadeu enxerga uma preocupação em buscar aquilo que há de positivo no digital
para ser implementado na saúde brasileira, com o objetivo de ampliar o alcance
e os atendimentos do sistema público.
Por
outro lado, o professor destaca que esse processo por um longo período se deu
sem um rompimento por parte da estrutura digital do Estado com sua dependência
das Big Techs, armazenando os dados do SUS na Amazon Web Services. Ampliar a
digitalização utilizando infraestrutura de grandes empresas norte-americanas
significa colocar os dados das operações de todas as instituições que compõem a
saúde brasileira à disposição de setores que não têm compromisso com o país nem
com a saúde pública, explica. “São empresas que seguem a doutrina neoliberal e
atualmente estão vinculadas à estratégia de Donald Trump”.
Amadeu
também questiona a ideia de que a soberania digital possa ser alcançada apenas
diversificando os fornecedores privados. Para ele, o país precisa ter
capacidade própria de desenvolver, controlar e gerir suas infraestruturas
digitais, em vez de apenas escolher entre diferentes empresas estrangeiras.
“Soberania é não depender de empresa nenhuma, é definir aqui o que nós
conseguimos fazer, como controlar nossas infraestruturas digitais, nossos
dados”, explica.
Nesse
cenário, o anúncio da implantação da Nuvem Soberana, em parceria com o Serpro,
abre uma nova frente de discussão sobre a autonomia tecnológica do Estado. A
iniciativa prevê a transferência de dados governamentais para uma
infraestrutura sob controle nacional.
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Quais as alternativas para uma saúde digital soberana?
A
partir dessas considerações, o professor indica caminhos a serem tomados em um
possível novo governo Lula para que haja avanços reais na soberania do país –
bem como o papel dos movimentos sociais na disputa de alternativas.
O
professor defende que o Estado utilize seu poder de compra para financiar e
fortalecer estruturas brasileiras de produção de tecnologia, em vez de
direcionar recursos a soluções privadas já disponíveis no mercado. “Se o Estado
quer defender a saúde pública, ele vai ter que colocar dinheiro também nessa
infraestrutura digital”, alerta. Garantir o fim da dependência de empresas
estrangeiras exige planejamento de médio e longo prazo, ele aponta.
Amadeu
também ressalta que esse planejamento não pode depender apenas de gestores e
especialistas. Universidades públicas, movimentos sociais, sociedade civil
organizada e trabalhadores da saúde precisam participar da elaboração de um
planejamento, com transparência e compromisso com a supremacia do interesse
público sobre o privado. Para ele, a mobilização desses setores é fundamental
para dar sustentação política aos investimentos necessários e disputar os rumos
da saúde digital.
“Primeiro,
nós precisamos ter um plano feito de modo mais aberto possível, envolvendo as
universidades públicas e os movimentos sociais”, defende. Ele referencia a
mobilização popular que fundou o SUS há quatro décadas como o modelo de
engajamento social capaz de conquistar reformas dessa dimensão: “Sem esse
envolvimento, vai prevalecer o discurso que nós não podemos enfrentar o
Congresso, e aí nós vamos ter muita dificuldade de fazer coisas que são
necessárias, como a alocação de recursos na saúde digital e a ampliação das
infraestruturas nacionais localizadas no Brasil”.
O professor considera que esse processo também
deve incluir parcerias internacionais com países dispostos a desenvolver
tecnologias de forma cooperativa, compartilhando conhecimentos e benefícios, em
vez de estabelecer relações de dependência e exploração.
“Precisamos
de parcerias com países que têm interesse em desenvolvimento compartilhado,
onde todos os envolvidos ganham. Isso não é a lógica norte-americana, por
exemplo. Não tem acordo assim com os Estados Unidos.”
Como
exemplos de possíveis aliados, ele cita os membros do BRICS e os vizinhos
sul-americanos, mas faz a ressalva: “Na América Latina, muitos governos hoje
estão na mão da direita trumpista”. Essa mesma extrema-direita tem como projeto
destruir os direitos sociais, inclusive o direito à saúde, explica. Contudo, é
possível procurar parcerias de outros tipos. “Será muito difícil fazer um
acordo de saúde com o Milei. Não tem como. Mas o Brasil pode fechar parceria
com uma universidade ou outra instituição daquele país”.
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Para além das eleições: como enfrentar o poder das big techs?
Nas
últimas semanas de campanha, um grande engajamento coletivo do campo
progressista nas redes vem enfrentando a aliança entre a Meta e a
extrema-direita. Sérgio Amadeu opina que a ofensiva popular tem desafiado a
lógica dessas plataformas, embora a circulação de conteúdo ainda esteja sob
controle corporativo. “A operação dessas plataformas é feita por redes neurais
artificiais que beneficiam o burburinho. A gente chama de buzz aquilo que vai
surgindo na rede o tempo todo, para trazer novidades e prender a atenção das
pessoas”, coloca.
O
professor, então, reconhece a potência do efeito imediato da replicação quase
automática de conteúdos políticos, comportamento incomum à esquerda, mas
ressalta que essa é uma estratégia insustentável a longo prazo.
Assim,
Amadeu elabora sobre a necessidade de alternativas de comunicação que não
estejam sob a guarda de empresas estrangeiras. “Na vitória do presidente Lula
vai ser preciso parar de pegar essas estruturas do governo e usar as Big
Techs”, coloca. A ousada proposta, então, consiste em colaborar com a criação
de alternativas federadas, distribuídas e democráticas.
“É uma
guerra que passa pela tecnologia. A luta também é tecnopolítica, então nós
temos que ter alternativas a esses caras”, afirma. Construir soberania,
portanto, exige ir além de regular as plataformas existentes: significa criar
condições para que a sociedade possa desenvolver e controlar suas próprias
tecnologias.
Fonte:
Por Sophia Vieira, em Outra Saúde

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