ELEIÇÕES
2026: Um povo conservador?
Acompanhar
as eleições brasileiras hoje é lidar com uma enorme quantidade de dados,
coletados das mais variadas maneiras. Nas últimas semanas, o debate público tem
sido inundado por pesquisas de opinião, resultados de grupos focais e análises
de redes sociais, entre outras formas de tentar melhor compreender as diversas
facetas da disputa eleitoral. Em meio aos dados, e frequentemente sem o mesmo
alarde, circulam também as interpretações, que costumam se apoiar em
pressupostos mais amplos sobre a sociedade e o país. Nesse esforço, não raro
levado adiante sob o calor dos acontecimentos, corre-se o risco de tomar a
competição eleitoral como índice de verdades subjacentes que emanariam das
profundezas do tecido social brasileiro – e assim, no ritmo imediatista da vida
digital contemporânea, a dinâmica eleitoral, com suas diferentes e
contraditórias relações de causa e efeito, termina reduzida a uma expressão
unidimensional da essência ou do caráter nacional dos brasileiros. Se eleições
via de regra põem em movimento partes antagônicas da sociedade, um erro
corriqueiro consiste em tomar uma parte pelo todo e generalizar seus atributos.
Outro equívoco comum, por vezes sobreposto àquele, reside em reduzir as
múltiplas dimensões do conflito político por meio de uma relativa diluição
socioeconômica, em que o antagonismo passa a ser entendido como mera expressão
linear de velhos (ou novos) interesses econômicos.
Entre
as interpretações mais comuns que frequentam a conjuntura eleitoral,
encontra-se a ideia de que o povo brasileiro seria fundamentalmente
conservador. Trata-se de um pressuposto que circula pelas pesquisas acadêmicas,
de vários matizes, e pela imprensa, construindo um senso comum. Boa parte das
interpretações sobre os resultados do primeiro turno das eleições de 2026
(replicando tendência bastante difundida em 2018) apontou, por exemplo, para
certa feição conservadora do “brasileiro”, em formulação geral que serve para
sublinhar os supostos erros da esquerda, dos excessos de “identitarismo” (um
novo fantasma de contornos imprecisos) a uma política econômica distante dos
anseios majoritários da população. Nessa narrativa, costuma-se atribuir uma
eventual derrota do campo da esquerda a seus ditos excessos esquerdistas
(quando não a sua mera existência enquanto esquerda), compreendidos como
incompatíveis com um povo conservador. Essa indisfarçada essencialização não se
sustenta, contudo, diante de breve sobrevoo sobre a história eleitoral do
país.
Sabemos
que a história de eleições democráticas e competitivas no Brasil é curta.
Votou-se diretamente para presidente por quatro vezes na República de 1946. E
agora estamos no meio da décima eleição da República de 1988. É digno de nota
que a candidatura competitiva situada ideologicamente mais à esquerda tenha
sido vitoriosa na maior parte dos pleitos. E, no que concerne ao século XXI,
vale lembrar que o Partido dos Trabalhadores venceu cinco das últimas seis
eleições, em rara sequência no contexto de democracias de massas com a dimensão
do Brasil. Um povo conservador que prefere eleger presidentes de esquerda?
Parte das análises fundamenta a suposta essência conservadora do povo
brasileiro em interpretações importadas do cenário europeu, onde a decadência
política da esquerda pode ser aferida em bases muito diversas. Mas, para além
desse essencialismo fora de lugar, há versões sociologicamente mais
sofisticadas que buscam nas classes sociais e em suas novas configurações a
explicação para o aparente desencontro entre a esquerda e os
trabalhadores.
Uma
variante da ideia de um povo intrinsecamente conservador pode ser apreendida na
leitura de que, pelas recentes mudanças no mundo do trabalho, haveria um
aprofundamento da distância entre o discurso da esquerda e as aspirações
populares. Depois de anos de afinidade, o campo progressista não encontraria
mais apoio nas massas à medida que se desconectaria dos interesses de uma nova
classe trabalhadora. A nosso ver, parece fora de dúvida que um grande número de
trabalhadores brasileiros se identifica subjetivamente mais como empresários do
que como trabalhadores, o que impacta seu olhar sobre o papel do Estado e as
propostas tradicionais da esquerda. Sabe-se ainda que o papel das redes sociais
é decisivo nesse processo complexo de autoidentificação. Importantes trabalhos
apontam nessa direção, como os da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, cujo
texto foi recentemente publicado na Folha, ou o mais recente livro de André
Singer, Impasse. Mas, se um novo cenário social sugere plausivelmente a
necessidade de uma renovação dos repertórios da esquerda, convém olhar com
prudência analítica para o vínculo entre as mudanças nas configurações das
identidades de classe e os resultados eleitorais.
Os
caminhos entre as experiências sociais, o “horizonte do desejo” (como dizia
Wanderley Guilherme dos Santos), e o voto são mais tortuosos do que algumas
interpretações sugerem. Não há evidência suficiente que corrobore, por exemplo,
a ideia de que a preferência massiva por candidaturas da extrema direita
decorra de um comportamento típico da assim chamada classe C. E isso não apenas
pelo simples motivo de que o voto da classe C se divide, ao menos no pleito
presidencial, entre esquerda e extrema direita – mas também pelo fato de que
essa identidade de classe é determinada por várias outras condicionantes
decisivas (religiosas, regionais, étnico-raciais, de gênero etc.). A sociologia
do voto deve manter-se multidimensional, e assim evitar o afã dos reducionismos
economicistas, a fim de contribuir para a compreensão da realidade brasileira
em toda a sua complexidade. Nesse sentido, parece um truísmo, mas não custa
reiterar que o comportamento eleitoral de um universo de mais de 150 milhões de
pessoas espalhadas pelo vasto território nacional dificilmente se deixaria
reduzir a apenas uma clivagem socioeconômica. A propalada polarização política
é constituída por vários feixes de divisões – como o “país dividido” do
cientista político Jairo Nicolau deixa entrever. E há tanto continuidades como
rupturas concorrendo para a emergência desse novo cenário ideológico no
país.
Um
movimento como o bolsonarismo decorre de diversas causas e exige uma
articulação política intricada. Tanto o apoio eleitoral ao candidato de
ultradireita quanto a rejeição cada vez mais acerba a Lula remetem a uma
heterogênea cadeia de fenômenos, que vão além das mudanças no cenário econômico
(ainda que estejam também determinados por elas). Há, para começar, um
esgarçamento prévio da legitimidade da ordem de 1988, que passa pela
dificuldade de cumprir promessas e oferecer futuros próximos melhores, mas também
se alimenta de um forte discurso de crise e decadência, formulado tanto por
novas lideranças da extrema direita quanto por atores da política tradicional.
Por isso, o conceito de corrupção é central por ser capaz de articular de modo
imediato a prática de crimes na gestão do dinheiro público, o sucesso econômico
injusto de alguns e a decadência moral.
Por
outro lado, ganham força linguagens políticas antes relegadas às margens da
esfera pública, tornando-se centrais para a emergência de novos protagonistas.
O papel das redes sociais é incontornável, permitindo a esses protagonistas uma
ascensão extremamente rápida. Se o empresário é um dos perfis mais comuns nas
redes, é possível indicar uma heterogeneidade ainda maior de personagens, que
vão desde os “coachs”, como bem descritos pelo já mencionado trabalho de
Pinheiro-Machado, a missionários de discursos religiosos e defensores do uso da
violência contra os criminosos e inimigos da nação. A linguagem do
ultraliberalismo convive, ali, com formulações reacionárias ou até mesmo
fascistas, muitas vezes sobrepostas e conjugadas num todo cuja incoerência, longe
de prejudicá-lo, antes catalisa sua eficácia. Esse movimento multilinear não
retira a centralidade do mundo do trabalho, mas o insere em uma totalidade
atravessada por disputas de outra monta. Nesse sentido, ainda que uma parte da
dificuldade da esquerda passe pela persistência de repertórios tradicionais
mais ou menos defasados com relação à realidade das novas classes
trabalhadoras, há outros imaginários que mal tangenciam o “chão da fábrica” e
desempenham um papel central.
As
razões para o voto em Flávio Bolsonaro são diversas. Há uma aposta nos
repertórios de ultradireita acima listados, mas também uma rejeição aberta ao
PT, que passa por sua tradicional identidade de partido de esquerda e, ao mesmo
tempo, pela vinculação paulatina desse partido com a sorte da própria República
de 1988. A frustração em relação às promessas não cumpridas da ordem
democrática de 1988 recai, assim, sobre os ombros do partido. E sem menosprezo
dos notáveis avanços sociais e conquistas civilizatórias da Nova República, boa
parte dos quais capitaneados pelo PT, o Brasil permanece uma sociedade
profundamente desigual, onde as condições de trabalho continuam duríssimas para
a grande maioria da população, a implementação das políticas sociais segue incompleta
e persistem questões trágicas, como a escalada da violência urbana e da
destruição do meio ambiente. Em meio a essa barafunda, em que se cruzam uma
longeva ideologia anti-esquerda, um genuíno mal-estar com a crise do
neoliberalismo, uma série de privações assaz concretas e a emergência de
linguagens políticas de ultradireita catalisadas pelos algoritmos das redes
sociais – tudo isso com um eleitorado praticamente dividido ao meio no pleito
presidencial –, como identificar uma e apenas uma variável explicativa para o
comportamento eleitoral? Em que medida a aposta no filho de Bolsonaro passa
pela adesão a um projeto de futuro bem articulado por sua chapa, pela
manifestação de um sentimento antipetista visceral, pela simples vontade de
destruição da atual República ou por um desejo de indefinida mudança, que
encontra como sucedâneo do velho PSDB apenas uma versão de outra qualidade,
abertamente autoritária? A variedade de discursos da coalizão política do
bolsonarismo sugere uma resposta positiva a todas essas
alternativas.
Quando
olhamos para as disputas políticas pregressas, notamos que mesmo no auge da
popularidade do lulismo, às vésperas da eleição de 2010, sempre houve amplos
setores da população que rejeitaram abertamente o candidato e seu campo
político. Há, portanto, uma linha de continuidade, evidenciada ademais nos
mapas eleitorais, entre as eleições presidenciais dos últimos vinte anos no
Brasil. Desconfiemos, pois, das análises demasiado hiperbólicas: as eleições de
2026 não representam uma revolução da extrema direita no país. O eleitorado
segue dividido. Atestar isso não nos impede, porém, de reconhecer que, sob a
relativa permanência de um padrão quantitativo de comportamento eleitoral, pode
haver mudanças qualitativas de grande relevância. Mesmo sem uma revolução em
curso, é possível (talvez seja mesmo provável) que a República de 1988 venha a
sucumbir com a eventual chegada ao poder, novamente, de seus mais ferrenhos
inimigos. É lícito pensar, portanto, que os novos futuros, sem dúvida
encontradiços no mundo das redes e do empreendedorismo, convivem intimamente
com futuros passados, que perduram, nem tão escondidos assim, em meio aos
discursos e promessas de mudanças e de rupturas.
Fonte:
Por Jorge Chaloub e Pedro Lima, no Le Monde

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