Políticos
têm rede ‘paralela’ na Meta sem declarar ao TSE
Candidatos
nas eleições deste ano estão usando uma estratégia em comum: além das contas
oficiais nas redes sociais com milhões de seguidores que foram declaradas ao
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), muitos têm uma rede paralela de perfis de
apoio que copiam parte do conteúdo das páginas dos políticos. Esse “exército
alternativo” turbina o alcance, com menções cruzadas e postagens iguais feitas
quase ao mesmo tempo.
Segundo
a Agência Pública apurou, Flávio Bolsonaro, que disputa a presidência, tem ao
menos sete perfis de apoio não declarados ao TSE com mais de 100 mil seguidores
cada. Juntos eles reúnem mais de 2,5 milhões de seguidores. Para se ter uma
comparação, o principal perfil oficial de Flávio declarado ao TSE tem 14,8
milhões.
Além de
fazerem propaganda com o número de urna do candidato, essa rede de perfis de
apoio divulga links para grupos oficiais de Bolsonaro e o @ oficial de Flávio.
Algumas
delas postam o mesmo conteúdo com minutos de diferença. Isso aconteceu no
último final de semana, quando uma conta de apoio com mais de 770 mil
seguidores publicou o mesmo corte da entrevista de Flávio para a Rede Globo com
minutos de diferença, indicando o perfil oficial.
O mesmo
corte da entrevista à Globo foi divulgado pelo perfil oficial de Flávio e uma
das páginas de apoio com minutos de diferença. A única diferença foi a inclusão
de letterings
Os
perfis de Flávio não são recentes. A maioria deles foi criada em 2022 ou fim de
2023, quando Lula tomou posse. Do outro lado da disputa, André Janones,
deputado federal (Rede-MG) e a principal cabeça por trás da estratégia digital
de Lula (PT) no segundo turno, também tem uma página de apoio no Instagram que
não foi declarada ao TSE nem por Lula, nem pelo deputado. Nesse caso, o perfil
de Janones foi criado em 6 de outubro deste ano, quando o político afirmou que
a sua conta oficial estava sendo alvo de perseguição por grupos bolsonaristas e
corria risco de ser derrubada. No vídeo, ele assume a criação da página.
O
perfil de apoio de Janones traz um link tanto para o @ oficial do político,
quanto para o de Lula. Com 1,6 milhão de seguidores, a página também divulga o
canal de WhatsApp do “Exército de Lula”, onde são compartilhadas as diretrizes
para engajar a favor do candidato.
A
Pública apurou com especialistas em direito eleitoral que explicam que ter uma
conta de apoio não configura um crime, porém, há limites para o que essas
contas podem fazer – e que ficam mais difíceis de serem fiscalizados pela falta
de transparência das plataformas.
Como a
Pública já mostrou, a Meta deixou anúncios pagos com dinheiro estrangeiro
circularem sem rótulo de conteúdo político nestas eleições, o que impede saber
quem pagou pelos anúncios e quais postagens foram impulsionadas. A Pública
também revelou que a plataforma não tem sido transparente nos critérios que usa
para ampliar ou derrubar o alcance de contas.
A
advogada Caroline Lacerda, doutora em Direito Eleitoral pela Universidade de
Brasília, explica que as campanhas exploram essas contas paralelas de forma
estratégica. Um dos motivos é contornar a regra do Tribunal Superior Eleitoral
que impede as plataformas de recomendarem os perfis oficiais dos candidatos
políticos para os usuários. As páginas de apoio não estão sujeitas a essa
limitação.
“A
regra de não recomendação cria um incentivo evidente para que as campanhas
terceirizem o alcance em perfis paralelos”, explica ela. “As páginas de apoio
funcionam, na prática, como caminho alternativo para furar o bloqueio de
recomendação dos perfis oficiais. Isso é lícito quando a página é espontânea e
sem dinheiro por trás.”
O
advogado Fernando Neisser reforça que as publicações em contas de apoio não
podem ser impulsionadas através de pagamento. “Por não serem contas oficiais da
campanha, elas não precisam ser informadas ao TSE. Por outro lado, essas contas
não podem fazer impulsionamento pago de absolutamente nenhum conteúdo
eleitoral”, diz.
É aí
que a falta de transparência da Meta dificulta a fiscalização. Só é possível
saber se houve algum pagamento não declarado através de uma investigação – como
o procedimento aberto a pedido da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão
(PFDC) contra a empresa – ou se a própria Meta identificar alguma
irregularidade, e decidir combatê-la.
Com
base na decisão do TSE de que pessoas físicas não podem pagar para promover
conteúdos eleitorais, a Meta decidiu, por exemplo, remover três publicações de
conteúdo eleitoral de uma página no Facebook em apoio ao candidato Flávio
Bolsonaro com 13,7 mil seguidores. Os posts, que circularam nos meses de agosto
e outubro deste ano, receberam pagamento para ampliar seu alcance – o que é uma
conduta proibida e está sujeita à multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil.
“Perfis
de apoio devem ter identificação de seus autores, e devem ser de pessoas
físicas. Qualquer outra forma de propaganda eleitoral pode ser caracterizada
como irregular, sujeita à remoção do conteúdo eleitoral e até da conta inteira.
Se for um caso reiterado, consistente e articulado, poderá configurar abuso de
poder midiático”, afirma Luiz Scarpino, especialista em Direito Eleitoral.
A
reportagem questionou o TSE sobre os achados da apuração, que respondeu que
“não se manifesta sobre casos concretos, que podem vir a ser objeto de análise
pela Justiça Eleitoral”.
A
Pública procurou as assessorias de Flávio e Janones e dos demais políticos
citados na matéria. O espaço segue aberto para respostas.
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Campopiano e Pavanato também mobilizam rede de apoio paralela
Além de
Flávio e Janones, dois campeões de voto do PL em São Paulo também têm perfis
que parecem operar em rede: o segundo deputado federal mais votado do país,
Lucas Pavanato, e a deputada estadual que teve mais votos no Brasil, Eduarda
Campopiano.
Campopiano
tem ao menos sete contas de apoio, além do perfil que foi informado ao TSE.
Juntos, esses perfis têm cerca de 1,8 milhão de seguidores, mais da metade dos
3,2 milhões que ela tem no perfil oficial atualmente. Essa rede de perfis que
se declaram “de apoio” à política atuam em rede, um marcando o outro, e muitos
divulgam na bio o número de urna de Campopiano, além de divulgar links que
direcionam para o instagram oficial e para a comunidade oficial da candidata.
Lacerda
explica que esse comportamento é considerado válido desde que essa seja uma
iniciativa orgânica e espontânea vinda dos próprios usuários. “Se a campanha
pede para alguém criar a página, dirige o conteúdo ou paga por ela, a
iniciativa é da campanha, não da pessoa”, ressalta.
A falta
de transparência nas plataformas também dificulta saber quem é o verdadeiro
dono de um perfil. “O que prova a existência de uma conta fantasma oficial da
campanha é, se houver suspeita suficiente, entrar com ação, obter a quebra dos
metadados de acesso daquela conta e identificar que aquele login está sendo
feito pela equipe oficial da campanha”, explica Neisser. Fora isso, o que resta
é observar o padrão de atividade dos perfis para identificar indícios de
irregularidade.
No
maior perfil de apoio a Campopiano, com 847 mil seguidores, há publicações
feitas em collab – isto é, em conjunto – com a conta oficial do chefe de
gabinete e coordenador de campanha de Campopiano, David Itiúba. Como explica
Scarpino, ao envolver o núcleo operativo da campanha, esse tipo de relação
corre o risco de ser considerada irregular.
“Pode
ser que esses perfis nasçam independentes, mas se tais páginas de apoio venham,
em algum momento, a tangenciar o núcleo da campanha, passariam a merecer o
mesmo tipo de restrição como comunicação à Justiça Eleitoral, tal como ocorreu
no canal do Janones”, explica ele.
O canal
Exército do Lula, organizado pelo deputado federal André Janones, foi suspenso
por decisão do TSE e só voltou ao ar no dia 14 de outubro, após o político
registrá-lo no TSE, conforme determinação do presidente da corte, Kassio Nunes
Marques.
Já
Lucas Pavanato tem ao menos cinco contas dedicadas à sua campanha, diferentes
da principal declarada ao TSE. Segundo o levantamento, esses perfis juntos têm
mais de 230 mil seguidores.
Ao
todo, o levantamento encontrou outros políticos que também têm contas ativas de
apoio não declaradas à Justiça Eleitoral. A maioria, 66%, foi de políticos do
PL, seguidas de 22% de partidos como o MDB, PSD, PSDB, União, Podemos e 11% de
candidatos diretamente ligados ao governo, de partidos como o próprio PT, o
PSOL, PSB, PDT, dentre outros.
Fonte:
Por Aldrey Olegario e Bruno Fonseca, da Agencia Pública

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