Ramagem
é imigrante ilegal e violou leis americanas,
diz Departamento de imigração dos EUA
A
detenção-relâmpago de Alexandre Ramagem nos EUA no começo deste ano parece ter
criado uma guerra de narrativas dentro do próprio governo americano.
Enquanto
o Departamento de Estado afirma que a Polícia Federal “manipulou” o sistema
legal americano, o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês)
diz que Ramagem é um “imigrante ilegal” e está sujeito a detenção e deportação.
Segundo o DHS, o fato de Ramagem ter feito um pedido de asilo político não lhe
dá proteção.
Ex-diretor
da Abin e ex-deputado federal pelo PL, Ramagem foi condenado a 16 anos de
prisão pela tentativa de golpe de Estado durante o governo do ex-presidente
Jair Bolsonaro. Ele está nos EUA desde que foi condenado pelo Supremo Tribunal
Federal, em setembro do ano passado, quando fugiu do Brasil através da Guiana
com auxílio de um criminoso condenado por garimpo ilegal na terra
Yanomami.
Em
abril, o ICE, a polícia imigratória dos EUA que responde ao Departamento de
Segurança Interna, prendeu Ramagem em Orlando por permanecer além do prazo do
seu visto de turista, mas ele foi libertado dois dias depois. Ele não pagou
fiança, segundo Paulo Figueiredo, que afirmou diversas vezes que sua empresa de
consultoria de imigração, a Immigrex, está auxiliando Ramagem. Procurado pelo
ICIJ, Figueiredo afirmou que não sabia como localizar Ramagem e não podia falar
em nome da Immigrex.
“Obrigado,
Presidente Trump e todos na administração”, escreveu Figueiredo no X em 15 de
abril, dia que Ramagem foi solto. Eduardo Bolsonaro agradeceu a Trump e ao
Secretário de Estado Marco Rubio. Sóstenes Cavalcante, líder do PL, disse que
Rubio ajudou a acelerar a libertação, ou ela teria levado pelo menos duas
semanas.
Imigrantes
detidos geralmente precisam comparecer diante de um juiz de imigração para
solicitar libertação sob fiança. No caso de Ramagem, a reportagem não encontrou
nenhuma petição judicial.
O
próprio Ramagem já havia sugerido antes que tinha costas quentes. Em um vídeo
publicado em novembro de 2025, após o Supremo Tribunal Federal do Brasil
ordenar sua prisão, ele disse que estava nos Estados Unidos com o conhecimento
do governo americano. “Nas palavras até do governo americano para mim: ‘que bom
que temos um amigo que está em segurança a salvo aqui nos Estados Unidos’.
Então a gente tem esse apoio dos norte-americanos”.
Em 20
de abril, cinco dias após a libertação de Ramagem da custódia de imigração, o
Departamento de Estado dos EUA suspendeu o credenciamento do policial federal
Marcelo Ivo de Carvalho, que era o oficial de ligação da PF lotado em Miami
para trabalhar com o ICE e que ajudou na localização e detenção de Ramagem.
“Nenhum
estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos
formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos
Estados Unidos”, escreveu o assessor do Bureau de Assuntos do Hemisfério
Ocidental do departamento no X. “Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro
envolvido deixe o nosso país por tentar fazer isso”. A embaixada dos EUA no
Brasil compartilhou o texto. Em resposta, Paulo Figueiredo tuitou: “tchau,
querido”.
No
entanto, o Brasil havia protocolado um pedido formal de extradição no
Departamento de Estado em 30 de dezembro de 2025, mais de três meses antes da
prisão, segundo o Ministério da Justiça.
Em
resposta, o governo Lula suspendeu a permissão de um agente de imigração
americano lotado em Brasília, que deixou o país em 22 de abril. Em um
comunicado, o Ministério das Relações Exteriores disse que os EUA falharam em
consultar o Brasil primeiro, como exige o acordo entre os dois países sobre
adidos policiais, e ignoraram a “boa prática diplomática de diálogo entre
nações amigas, como Brasil e Estados Unidos, ao longo de mais de 200 anos de
relações”.
Agora,
o porta-voz do Departamenrto de Segurança Interna confirma que Ramagem está
ilegal no país. Em resposta para a ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas
Investigativos), parceiros da Agência Pública nesta investigação, o porta-voz
afirmou: “Em 13 de abril, o ICE prendeu Alexandre Ramagem Rodrigues, um
estrangeiro ilegal do Brasil. Ele entrou legalmente no país em 11 de setembro
de 2025, em caráter temporário, com permissão para permanecer no país por seis
meses, mas optou por permanecer ilegalmente além do prazo autorizado, em
violação às leis da nossa nação. Ele foi liberado da custódia do ICE em 15 de
abril, enquanto aguarda o resultado do seu processo de deportação”.
Segundo
o DHS, “um caso de pedido pendente NÃO confere nenhum tipo de status legal nos
Estados Unidos. Se uma pessoa entra ilegalmente no nosso país, ela está sujeita
a detenção ou deportação”. O porta-voz reforçou o recado destacando o “NÃO” em
caixa alta na resposta.
O DHS
garante que Ramagem receberá o devido processo legal. E conclui: “Sob o
Presidente Trump e o Secretário Mullin, nossa mensagem é clara: estrangeiros
ilegais não são bem-vindos em nosso país”.
Procurada,
a Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário.
O caso
de Ramagem se destaca em relação aos de centenas de milhares de imigrantes que
buscam asilo nos Estados Unidos.
Desde
que Trump voltou ao poder em 2025, juízes de imigração ordenaram a remoção de
mais de 440.000 solicitantes de asilo, mais do que nos oito anos anteriores,
segundo uma análise recente do Washington Post. A libertação da detenção
tornou-se a exceção.
No
final de 2025, o ICE estava deportando mais de 14 pessoas diretamente da
detenção para cada uma que liberava para aguardar uma audiência, segundo o
American Immigration Council, um grupo de defesa que analisou dados do ICE. Em
dezembro, a administração pausou o processamento de todos os pedidos de asilo
pendentes.
Um
daqueles que ainda esperam é Luis Galeano, um jornalista nicaraguense que fugiu
da repressão do governo Ortega à mídia independente e teve sua cidadania
nicaraguense cassada em 2023. Em setembro, o ICE o deteve em Orlando enquanto
ele dirigia para o Uber.
Como
Ramagem, ele havia entrado legalmente nos Estados Unidos com uma estadia
temporária, segundo o Departamento de Segurança Interna, e permaneceu após o
prazo enquanto buscava asilo, que ele havia solicitado em 2019.
Diferentemente
do ex-diretor da Abin, ele passou quase duas semanas detido e só foi libertado
depois que um juiz de imigração fixou uma fiança de 10 mil dólares.
O
Departamento de Estado, que disse em fevereiro que o governo da Nicarágua havia
silenciado e banido a mídia independente, não se pronunciou publicamente sobre
o caso de Galeano.
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Pedido de asilo político não impede deportação
O
governo dos Estados Unidos classificou o ex-deputado federal Alexandre Ramagem
(PL-RJ) como imigrante ilegal e confirmou que ele responde a um processo de
deportação.
Foragido
da Justiça brasileira, o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência
(Abin) também pode ser preso novamente, mesmo após apresentar um pedido de
asilo político.
A
informação foi divulgada na quarta-feira (21), em investigação da Agência
Pública, realizada em parceria com o Consórcio Internacional de Jornalistas
Investigativos (ICIJ).
Segundo
o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS), Ramagem entrou
legalmente no país em 11 de setembro de 2025, com autorização para permanecer
por seis meses. O prazo terminou em março de 2026, mas ele continuou em
território americano sem regularizar sua situação migratória.
O órgão
afirmou que a solicitação de asilo político não garante automaticamente a
permanência legal no país.
"Um
caso de pedido pendente NÃO confere nenhum tipo de status legal nos Estados
Unidos", declarou o DHS, destacando que estrangeiros em situação irregular
estão sujeitos à detenção ou deportação.
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Prisão e libertação provocaram controvérsia
Ramagem
foi preso em Orlando, na Flórida, em 13 de abril, por agentes do Serviço de
Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). Dois dias depois, foi libertado
enquanto aguardava o andamento do processo migratório.
Segundo
o comentarista bolsonarista Paulo Figueiredo, o ex-deputado não precisou pagar
fiança. Figueiredo já havia afirmado que sua empresa de consultoria migratória,
a Immigrex, auxiliava Ramagem.
A
libertação foi comemorada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Eduardo
Bolsonaro agradeceu publicamente a Donald Trump e ao secretário de Estado
americano, Marco Rubio.
O líder
do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que Rubio havia contribuído
para acelerar a soltura.
O caso,
porém, expôs posições diferentes dentro do próprio governo americano.
Enquanto
o Departamento de Segurança Interna considera Ramagem um imigrante ilegal, o
Departamento de Estado acusou a Polícia Federal brasileira de manipular o
sistema migratório dos Estados Unidos para obter sua prisão.
Após a
detenção, o governo americano retirou o credenciamento do policial federal
Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava em Miami e havia colaborado na localização
de Ramagem.
Em
resposta, o governo brasileiro suspendeu a autorização de um agente de
imigração americano que trabalhava em Brasília. O funcionário deixou o país em
22 de abril.
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Condenado pelo STF, Ramagem fugiu do Brasil
Ramagem
foi condenado pelo STF a 16 anos, um mês e 15 dias de prisão por participação
na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Ele
deixou o Brasil em setembro de 2025, apesar de uma determinação judicial que o
impedia de sair do país.
Em
novembro de 2025, após a ordem de prisão expedida pelo STF, Ramagem afirmou em
vídeo que estava nos Estados Unidos com o conhecimento das autoridades
americanas.
O
ex-deputado afirmou que integrantes do governo americano teriam comemorado sua
presença no país, dizendo que ele estava em segurança nos Estados Unidos.
O
governo brasileiro formalizou o pedido de extradição em 30 de dezembro de 2025,
antes da prisão de Ramagem em Orlando.
A
solicitação de extradição tramita separadamente do processo de deportação. Até
o momento, não há decisão definitiva que determine a retirada do ex-deputado
dos Estados Unidos.
O
Departamento de Segurança Interna informou que Ramagem terá direito ao devido
processo legal antes da conclusão do procedimento migratório.
Fonte:
Por Brenda Medina, ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos)
e Natalia Viana, na Agencia Pública/Congresso em Foco

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